A fronteira

Don Winslow · Capítulo 21 de 25

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A fronteira

LIVRO 5: Verdade

LIVRO 5

 

Verdade

O inferno é a verdade vista tarde demais.

— Thomas Hobbes

Leviathan

1

 

A entidade mais poderosa da Terra

 

“A mídia é a entidade mais poderosa da Terra. Ela tem o poder de transformar o inocente em culpado e o culpado em inocente.”

— Malcolm X

Washington, DC

Janeiro de 2017

 

Keller nunca quis ser famoso.

Ou infame, dependendo de seu ponto de vista. Para algumas pessoas, ele é o heroico autor da denúncia, para outras, é

um traidor subversivo. Alguns acham que ele diz a verdade, outros acham que é um mentiroso. Alguns o julgam patriota, outros o veem como um ex-funcionário amargurado tentando derrubar um governo legitimamente eleito.

Mas todo mundo tem alguma opinião.

Se Keller achava intensa a exposição pelo cargo de diretor geral da

Divisão de Narcóticos, aquilo não era nada comparado à tempestade da mídia que agora se revolve à sua volta, depois da matéria publicada pelo Washington Post.

EX-CHEFE DA DIVISÃO DE NARCÓTICOS ALEGA QUE LERNER LAVOU

DINHEIRO DE DROGAS

Em entrevista exclusiva ao Washington Post, Art Keller, ex-diretor geral da Divisão de Narcóticos, alegou que Jason Lerner, consultor sênior da Casa Branca e genro do presidente, conscientemente aceitou um empréstimo por parte de instituições bancárias mexicanas, empréstimo este custeado por organizações de tráfico de drogas, incluindo o cartel Sinaloa. Keller afirma que Lerner, através de sua empresa Terra, aceitou o empréstimo para salvar seu projeto Park Tower, de modo a quitar uma dívida de 285 milhões de dólares, depois da saída do Deutsche Bank do consórcio financeiro. O ex-cabeça da

Divisão de Narcóticos afirmou ainda que o dinheiro foi recebido

extracontratualmente, através de locações pagas por empresas de

fachada, compras falsas de material de construção e manutenção e

superfaturamento.

Se constatadas, as alegações colocariam Lerner em risco de

acusação de inúmeras infrações federais e do estado de Nova York,

incluindo “lavagem de dinheiro” e fraude estatutária.

Keller alegou que os empréstimos foram providenciados por meio

do HBMX Bank, pelo falecido Chandler Claiborne, que morreu de

overdose de drogas em um quarto de hotel em Manhattan, em

dezembro último. Keller ainda afirmou que foi abordado por “aliados”

do governo Dennison, cujos nomes recusou revelar neste momento,

mas que lhe ofereceram a permanência em seu cargo, assim como

insinuaram a concessão de determinadas políticas, se ele cessasse sua

investigação sobre Lerner e a Terra. Keller alegou que as pessoas lhe

disseram que essa oferta veio “do mais alto escalão”, embora tivesse

sido negado se isso se referia ao próprio Lerner ou ao presidente

Dennison. Quando se recusou a aceitar, segundo Keller, os mesmos

“aliados” ameaçaram “destruí-lo”.

Keller renunciou ao cargo em 19 de janeiro, prática padrão de

indicações presidenciais, quando um novo governo assume. Ele disse

que veio ao Post com a história somente porque o atual chefe da

Divisão de Narcóticos, Denton Howard, se recusa a dar

prosseguimento à investigação.

Quando indagado sobre suas alegações, Keller afirmou possuir

provas documentais e fez alusão à existência de “gravações” que

“absolutamente provam” suas acusações. Keller recusou mostrar

algum trecho das supostas gravações, afirmando que entregaria suas

“provas” às autoridades de direito, se uma “investigação legítima for

conduzida por uma entidade independente”. Keller alegou que retirou

essas provas das dependências da Divisão de Narcóticos, temendo que

pudessem ser “destruídas, omitidas ou alteradas” e as mantém

guardadas em segurança. Ele admitiu que a remoção de provas pode,

de fato, constituir um crime, tornando-o suscetível de acusações

federais segundo o Ato de Espionagem.

“Eu acredito possuir um dever maior”, disse Keller “acho que a

potencial infiltração da Casa Branca por cartéis de drogas representa uma ameaça maior à segurança dos EUA”.

Keller disse que não tinha qualquer informação de que o presidente

Dennison tenha interesses financeiros na Terra, ou conhecimento sobre a questão do empréstimo ao Park Tower.

O sr. Lerner não foi encontrado para comentar o assunto, mas fontes

anônimas da Casa Branca classificaram as alegações de Keller como “ultrajantes”, “caluniosas” e “criminosas”.

A CNN chamou a acusação de “bombástica”.

Que foi exatamente o intuito de Keller, ao se dirigir ao Post. Para arremessar uma granada no corredor de um avião e explodir tudo. Se um promotor público não abrir o caso, pensou ele, ou um promotor

federal não abrir o caso, talvez um conselho especial o faça. E se o novo procurador-geral dos EUA não indicar um conselho especial, o Congresso pode fazê-lo. O Congresso pode elaborar seu próprio comitê investigativo, mas o partido do presidente teria o controle, portanto, Keller achou que isso resultaria em nada.

Claro que o PG é uma indicação de Dennison e seu partido controla as

duas casas, mas as alegações são tão “ultrajantes” que a opinião pública pode forçar uma investigação independente.

Essa é a última esperança de Keller.

Por natureza, pelo trabalho e por sua experiência, ele é uma pessoa

essencialmente reservada, mas agora a mídia está acampada em frente à sua casa, como um exército invasor. Ele recebeu uma avalanche de pedidos de entrevista — de todas as emissoras, TVs a cabo, da mídia impressa.

Recusou todos.

Porque sua estratégia é deixar que as pessoas toquem a bola adiante. Se

só ele aparecer em todos os programas, ele será uma banda de um homem só, uma voz solitária cantando a mesma música. Ele quer contribuir somente o necessário para manter a história no ciclo dos noticiários.

De vez em quando soprando a brasa para manter o fogo aceso. E agora sua vida é pública, todos os detalhes de seu passado e presente

— alguns verdadeiros, outros fantasiosos — estão sendo revirados e expostos na CNN, na Fox, na MSNBC, nos canais de notícias, em todas as capas de jornais e revistas.

Os especialistas nos programas de debate provêm “análises” sobre

Keller, alegando que ele é um filho ilegítimo de uma mãe mexicana e um pai americano (um blog de direita declara alegremente que KELLER É MESMO UM BASTARDO ).

Os mais raivosos especulam KELLER É AMERICANO OU MEXICANO? e geram uma pequena controvérsia insinuando que Keller teria nascido no México e, portanto, não apenas seria desqualificado para seu antigo cargo, como passível de deportação.

A essa, Keller responde.

— Eu provavelmente poderia mostrar minha certidão de nascimento — ele diz a Jake Tapper —, mas ninguém questionou minha nacionalidade quando eu estava servindo no Vietnã.

Os relatos prosseguem afirmando que ele cresceu em Logan, bairro pobre de San Diego (onde seu breve e medíocre período de Luvas de Ouro justifica seu nariz torto), frequentou a UCLA, onde conheceu a primeira esposa (cuja família era leal ao partido democrata da Califórnia) e depois foi ao Vietnã — O PELOTÃO DE KELLER, NO EXÉRCITO, ERA LIGADO À OPERAÇÃO PHOENIX, NOTÓRIO PROGRAMA DE ASSASSINATO NO VIETNÃ.

Bem, eles acertaram essa, pensa Keller, quando a matéria é publicada, mas deixaram de mencionar a verdadeira história: que ele fora recrutado pela CIA. A mídia emitiu, sim, uma matéria relacionada — Keller estava saindo de casa quando um repórter caminhou a seu lado e disse:

— Os primeiros funcionários da Divisão de Narcóticos foram trazidos pela CIA. Você foi um deles?

Keller não responde e a matéria sai como PASSADO DE KELLER NA CIA É SONDADO .

Sua carreira na Divisão de Narcóticos também é “sondada”, afirma-se que ele foi um agente de campo em Sinaloa, nos anos 1970, durante a Operação Condor, quando milhares de acres de campos de papoulas foram incendiados e envenenados.

Keller assiste ao painel de debate da CNN, em que uma “especialista” diz:

— Lá foi provavelmente onde Keller encontrou os Barrera, pela primeira vez. Uma das minhas fontes me diz que, na verdade, Keller conheceu o jovem Adán Barrera, que eles foram amigos, que Keller chegou a salvá-lo de um espancamento brutal pela polícia federal mexicana.

A mesma especialista — a quem Keller não conhece e com quem nunca se encontrou — provê “insight”:

— A tortura e morte de Ernie Hidalgo, parceiro de Keller — diz ela —

foi o verdadeiro momento transformador na vida de Keller. Se você acompanhar sua carreira depois disso, vê que ela torna-se, de fato, uma busca obsessiva para levar todas as pessoas envolvidas à justiça, especialmente Adán Barrera. Acho que Keller sentiu uma traição pessoal por Barrera, possivelmente porque eles um dia foram amigos.

— Lá em Sinaloa — diz o apresentador.

— Exato — confirma ela. — Há outra ligação: Keller e Barrera tinham

o mesmo sacerdote, o padre Juan Parada, mais tarde cardeal, que foi morto em 1994, num tiroteio, do lado de fora do aeroporto de Guadalajara. Minhas fontes afirmam que Keller também culpou Barrera por isso.

— E Keller de fato derrubou Barrera.

— Ele o fez — atesta ela. — Em 1999, Keller prendeu Barrera em San

Diego…

— O que Barrera estava fazendo lá?

— Visitando a filha doente em um hospital — responde ela. — Keller o

prendeu e depois deixou a Divisão de Narcóticos. Mas ele voltou em 2004, quando Barrera foi transferido de volta para o México.

— E depois aconteceu a famosa fuga.

— Isso mesmo, e Keller permaneceu baseado na Cidade do México por

vários anos, mas nunca capturou Barrera — diz ela. — Ele ficou mais conhecido por derrubar os infames zetas. Então, Barrera foi morto na Guatemala. Pouco depois disso, Keller se tornou o diretor da Divisão de Narcóticos.

— Por que você está assistindo a essa tolice? — pergunta Mari. — Estou descobrindo coisas sobre mim mesmo que eu nunca soube —

diz Keller.

A mídia não para de procurar e desenterra seu testemunho de 1992,

diante do comitê Irã-Contras.

O comitê do congresso estava procurando alegações de que a CIA ou a

NSC, ou alguma agência do governo Reagan, teria sido conivente ou ao menos tolerado o tráfico de cocaína pelos contras, para financiar a guerrilha em oposição aos sandinistas, na Nicarágua.

Outra vida, pensa Keller.

Ele mentiu ao comitê.

Cometeu perjúrio.

Eles perguntaram se ele já ouvira falar em uma empresa de carga aérea chamada SETCO.

Ele respondeu “vagamente”.

Mentira. A verdade era que foram Keller e Ernie Hidalgo que descobriram a SETCO e tentaram trazer à atenção de seus superiores, na Divisão de Narcóticos.

Eles perguntaram se ele já tinha ouvido falar em algo chamado “Trampolim Mexicano”.

Não, ele respondeu.

Outra mentira.

Ele e Ernie haviam descoberto os voos abastecidos de cocaína que partiam da Colômbia para a América Central e para Guadalajara, no México.

— E quanto a algo chamado Cerberus, sr. Keller, já ouviu falar?

— Não.

— Algo chamado Cerberus teve alguma ligação com a morte do agente Hidalgo?

— Não.

Teve tudo a ver com o assassinato de Ernie, Keller pensa agora. O pessoal de Barrera torturou Ernie para descobrir o que ele sabia sobre a operação, dirigida a partir da sala do vice-presidente, para custear os contras de forma ilegal, fazendo vista grossa ao Trampolim Mexicano.

O próprio tio de Barrera, M-1 em pessoa, tinha custeado um campo de treinamento para os contras, e quando Keller finalmente o pegou, na Costa Rica, a CIA o liberou.

E Keller mentiu ao comitê.

Em troca, lhe foi dado o comando da Força-Tarefa Antinarcóticos do Sudeste, com carta branca para derrubar Adán Barrera e o pessoal que havia assassinado Ernie.

O que ele fez, com ímpeto de vingança.

Ele prendeu o médico que havia supervisionado a tortura na prisão. Ele prendeu Rafael Caro. Keller levou anos, mas enfim pôs Adán Barrera atrás das grades.

Ele até matou M-1, com duas balas no peito, em uma ponte em San Diego.

Mas o pessoal da direita, os defensores do governo, estão em um jogo perigoso ao reviver Irã-Contras. É uma arma apontada para a própria cabeça.

Uma coisa é me atacar, outra coisa é atacar Mari, pensa Keller,

conforme os dias vão passando.

Os blogs de direita publicam histórias sobre “a radical dra. Cisneros”,

“Mari Vermelha”, mencionando seu histórico de protestos contra o governo mexicano, seu apoio aos ativistas de esquerda, no vale de Juárez; eles até invertem seu heroísmo ao dar a entender que, como prefeita de Valverde, ela fora metralhada não por se opor aos cartéis de drogas, mas por ter “traído” um deles.

Marisol não liga.

— São apenas palavras — ela diz a Art —, não são balas. Mas ela receia que a sujeira arremessada nela possa atingir seu marido e

sujá-lo também.

— É preciso entender — diz um dos debatedores — que a dra. Cisneros

é uma figura controversa no México, assim como seu marido é aqui nos EUA. Para a esquerda, ela é praticamente uma santa secular, um mártir que desafia tanto o governo como os cartéis. Mas, para os conservadores de lá, Cisneros é uma diaba, uma comunista de conchavo com forças subversivas. Se você juntar tudo isso com Keller, terá uma combinação e tanto.

Outro analista “desvenda”, na televisão, o relacionamento deles. — Keller e Cisneros se conheceram durante a última missão dele por lá.

É absolutamente uma história de amor: ele cuidou dela, até que ela ficasse boa, após ser gravemente ferida pelo cartel de drogas Zeta. Algumas pessoas dizem que ela foi para ele uma figura de influência liberal ao extremo, que muitos dos posicionamentos que ele tem sobre políticas relativas às drogas, às reformas prisionais e à imigração vêm da dra. Cisneros.

— Cisneros esteve lá no México protestando contra o rapto e

assassinato daqueles 49 estudantes universitários, não estava?

— Ela estava, sim — responde o analista —, junto com a jornalista Ana

Villanueva, recentemente assassinada, uma amiga próxima tanto dela como de Keller. Na verdade, Villanueva até passou o último Natal no lar dos Keller, em Washington.

— E seu último artigo antes de morrer — lembra o apresentador — foi

uma entrevista com Rafael Caro.

— As ligações não têm fim.

Assim como os ataques.

O noticiário da Fox e as rádios AM não param: Keller é um mentiroso com motivação política tentando desfazer os resultados da eleição. Ele é um terrorista maluco e conspirador, desestabilizado pela culpa de ter causado a morte do parceiro. Ele é um marido dominado pela esposa megera.

— Fale com qualquer um da Narcóticos — diz o apresentador — e lhe dirão que Art Keller foi um chefe terrível. A agência estava desmoronando sob sua assim chamada liderança. E eles lhe dirão que ele tinha planos liberais. E é isso que estamos vendo agora.

Qualquer coisa que o depreciasse, qualquer coisa que lançasse alguma mácula na teoria que ele contou ao Washington Post.

Então, surge uma matéria em um blog de direita alternativa.

A ponte a algum lugar

Na primavera de 1999, Art Keller, ex-diretor da Narcóticos, esteve

envolvido em um tiroteio na ponte Cabrillo, no Balboa Park, em San

Diego. Keller, à época descrito como “herói”, matou o chefão das

drogas mexicano Miguel Ángel Barrera e prendeu o infame Adán

Barrera, então chefe do cartel conhecido como Federación. Pouco

depois, Keller tirou uma “licença não remunerada” da Narcóticos, e

foi para… escutem essa… um monastério isolado, no deserto do Novo

México, somente para ressurgir, quatro anos depois, em uma renovada

caçada a Barrera, no México, caçada esta que culminou na revelação

da morte de Barrera, na Guatemala.

Mas, rebobinem a fita. Havia um segundo corpo, naquela ponte, em

1999. Salvatore Scachi, um oficial boina verde que tinha ligações com

a máfia de Nova York, assim como com a CIA. O que Scachi estava

fazendo naquela ponte? Ninguém, nem mesmo Art Keller, jamais

respondeu a essa pergunta. E Scachi foi morto, não pela arma de

Keller, mas por um disparo veloz de fuzil. Esse caso nunca foi

esclarecido e permanece como encerrado na delegacia de polícia de

San Diego.

Mas quem era o atirador? Onde estava o atirador? Qual era o

relacionamento do atirador com Keller? Outra pergunta que o

denunciante Keller jamais respondeu, nem foi intimado a responder, escondendo-se em seu retiro no Novo México, naquela época. Não é por acaso que os monges faziam voto de silêncio.

Algo aconteceu naquela ponte, algo que o povo americano merece

saber.

Essa ponte leva a algum lugar.

Leva sim, pensa Keller.

Por mais que a direita o demonize, a esquerda o idolatra. Na MSNBC,

ele é “de princípios”, “heroico”, “pronto para o combate”. A Rolling Stone o chama de “próximo Edward Snowden”, uma comparação que Keller não acha lisonjeira.

Mas a mídia liberal está fora de si, porque Keller fez acusações contra

Jason Lerner, que, portanto, se estendem a Dennison. Eles não se cansam de falar do que agora rotularam como “Towergate”, e por mais que os jornalistas cerquem Keller, eles também estão atrás de Lerner e da Casa Branca.

Em todas as reuniões de pauta da imprensa, sobre a Casa Branca,

surgem perguntas: “E quanto a Towergate?”, “O emprego de Lerner está em risco?”, “Será que Lerner será formalmente acusado?”, “É verdade que Lerner aceitou empréstimos de um cartel de drogas mexicano?”, “Será que o presidente tem algum interesse financeiro na Terra?”, “O presidente sabia sobre esse empréstimo?”, “O presidente Dennison mandou o procurador-geral fazer pressão para Keller encerrar a investigação?”, “O Lerner fez?”.

Dennison responde no Twitter: Fake news. Mentiras. Nós vamos

processá-lo.

As negações furiosas só abanam as chamas. Jornalistas sérios começam

a escrever matérias investigativas sobre a Terra, a situação financeira do Park Tower, a overdose de Claiborne.

Keller gostaria que eles o processassem — isso forçaria Lerner a depor

sob juramento.

O Times e o Post anunciam novas perspectivas a cada dia: LERNER DE

CABEÇA PRA BAIXO , NO PLAZA TOWERS, MEGA BANCO ALEMÃO SAIU DO PLAZA TOWERS, CLAIBORNE NÃO TINHA HISTÓRICO DE USO DE HEROÍNA.

É o tufão de fogo que Keller tinha torcido para atear, quando acendeu o

fósforo. Se ele conseguir incitar bastante pressão pública para exigir um conselho especial, ele tem chance de conseguir instaurar um processo formal. Embora saiba que o incêndio que iniciou vai consumi-lo também, porque uma das pessoas com quem um conselho especial vai querer falar é Eddie Ruiz, e Eddie vai falar com qualquer um que lhe arranjar um acordo.

Keller não liga.

Ele só quer o conselho especial.

Vai aumentando a pressão para que o PG indique o conselho. Os colunistas pedem, os senadores democratas e a Câmara também, todos os programas importantes de domingo, idem.

Mas o PG se mantém firme.

E contra-ataca.

— Se o sr. Keller revelou informação confidencial de uma investigação do governo ao Washington Post ou a qualquer outra pessoa — diz ele —, isso constitui um crime. Se ele reteve conteúdo investigativo, isso também é crime e nós podemos proceder com um processo formal.

Quanto será que ele sabe? Keller se pergunta. Até onde vai sua cumplicidade? Será que O’Brien e o restante lhe contaram sobre as gravações de Claiborne? Será que essa foi sua indicação para que eu não leve isso a cabo?

— Eles podem realmente fazer isso? — pergunta Mari. — Mover uma acusação formal contra você?

— É possível.

— Então, você pode acabar na cadeia por falar a verdade — diz ela.

— Ãrrã.

— Bem — diz ela —, você não seria o primeiro.

Keller nunca reagiu bem a ameaças. Ele foi ameaçado pela antiga Federación, pelo cartel Sinaloa e pelos zetas — e todos tentaram matá-lo; agora ele vai se dobrar porque esse merdinha está dando uma coletiva de imprensa?

Não.

Mas David Fowler, procurador-geral, recusa-se a designar um conselho especial.

Dois dias depois, Fowler está no “The Hill”, diante de um comitê de apropriação que lhe indaga sobre “o muro”, quando um senador democrata, Julius Elmore, solta uma pergunta relativa ao motivo para que ele não indique um conselho especial no caso Towergate.

— Porque não há necessidade — retruca Fowler — de sair dos trâmites normais. Se o sr. Keller achou possuir provas suficientes para abrir um processo, então, por que não as levou ao último procurador-geral, antes que ambos deixassem o governo? Se agora ele acha que possui provas suficientes para abrir um processo, por que não as apresenta a mim? O único momento em que se faz necessária a indicação de um conselho especial é quando se percebe um conflito de interesse que figuraria na impossibilidade de o procurador-geral ser objetivo.

Elmore quase não consegue conter seu sorriso, ao perguntar: — O senhor possui tais conflitos, que não lhe permitiriam ser objetivo,

num caso relativo à Casa Branca ou à empresa Terra?

— Não, não tenho.

Gasolina no incêndio.

A mídia uiva de indignação. Como Fowler pode dizer que não tinha

qualquer conflito, se desde o início apoiou o novo presidente? Se fez campanha para ele, angariou fundos para ele, foi seu representante na televisão?

A resposta dada por seus apoiadores é que isso não chega ao ponto de

gerar um “conflito”. Se chegasse, poucos procuradores-gerais poderiam tomar uma decisão em um caso envolvendo a Casa Branca.

Mas alguns dias depois, o New York Times publica um artigo revelando

que Fowler possui ações em uma empresa de investimentos que emprestou dinheiro à Terra, em um projeto no exterior. Portanto, ele tem interesse pessoal direto na estabilidade financeira da companhia.

O comitê manda chamá-lo.

Elmore pergunta:

— O senhor se lembra da resposta que me deu, quando eu lhe perguntei

se o senhor tinha algum potencial conflito de interesse relativo à Terra?

— Sim, eu me lembro.

— O senhor atestou que não — lembra Elmore. — Mas isso não era

verdade, era?

— De minha parte, não houve qualquer intenção de enganar — responde

Fowler. — Eu apenas não me lembrei… quer dizer, ninguém pode estar ciente de todos os detalhes do portfólio…

— Qual dos dois? — pergunta Elmore. — O senhor não se lembra ou

não estava ciente?

— Senhor, eu lamento profundamente qualquer implicação… — Mas o senhor diria — pergunta Elmore —, hoje, agora, que possui tal

conflito?

Fowler está encurralado e sabe disso. Ele admite que talvez haja a possibilidade de uma “percepção de conflito”.

— Deixe-me lhe perguntar, senhor — diz Elmore —, alguém no governo lhe pediu que fizesse pressão para que Keller encerrasse a investigação Towergate?

— Bem, senhor — diz Fowler —, o sr. Keller não estava mais na função, quando eu assumi.

— Não foi isso que eu lhe perguntei.

— Não me recordo de qualquer conversa do gênero.

— Sabe se o sr. Howard abordou o sr. Keller com a mesma solicitação? — pergunta Elmore.

— O senhor teria que perguntar a um deles.

— Então, o senhor não sabe?

— Eu não me recordo do sr. Howard me dizer isso.

— Mas, se alguma dessas conversas das quais o senhor não se recorda de fato aconteceu — diz Elmore —, isso seria obstrução de justiça, não seria?

No dia seguinte, Fowler pede afastamento do caso Towergate.

Ben O’Brien não está contente.

— Aquele cretininho de merda — diz ele. — Ele só precisava ter culhão e ser mais persistente.

Keller armou uma arapuca e esse imbecil filho da puta caiu direitinho.

Rollins diz:

— Ele está com medo de ser acusado de perjúrio.

— Conversa fiada — responde O’Brien. — Quem vai acusar?

Péssimas notícias. Não apenas o chinelo do PG está fedendo a culpa, mas agora a decisão de designar um conselho especial ficará a cargo do procurador-geral substituto, John Ribello, que não vai impedir a bala por um chefe que ele intimamente odeia.

Isso não impede que O’Brien tente. Ele pega o telefone.

— Faça o que achar melhor, é claro que você deve fazer o que sua consciência mandar, mas você sabe que não há nada aqui. Isso é uma caça às bruxas.

A resposta não é animadora:

— Como sabe disso, senador? Se o senhor possui informação pertinente…

— Ora, claro que não — responde O’Brien. — Não há porcaria de prova

alguma. Se houvesse, você não acha que, a esta altura, nós já não teríamos visto?

— O que eu estou captando — diz Ribello — é que Keller ficou

relutante em apresentar as provas, pois receava que elas fossem comprometedoras e que seriam omitidas.

Então é o que você está “captando”, seu chupador de pau da Ivy league,

pensa O’Brien. Ele diz:

— Ninguém aqui está falando em omitir provas. — Eu certamente espero que não.

Estão todos ficando amedrontados, pensa O’Brien. Esse babaca é

esperto o suficiente para recomendar um conselho especial só para sair da linha de fogo. Jogar essa fogueira para cima de outro e lavar as mãos.

E aquele filho da puta esperto do Keller está sentado em cima das

gravações. Um conselho especial intimaria Keller e exigiria a apresentação de todos os documentos e conteúdo comprobatório.

Então, o que Keller fará?

O que ele irá dizer?

Ao acordar em mais uma manhã em meio a tudo isso, Keller pensa: a questão agora é o que Ribello fará.

Vai entrar com um processo de acusação contra mim? Designar um conselho especial?

Ambos?

Nada?

Todas essas são opções válidas.

Mesmo que ele indique um conselho especial, pensa Keller, enquanto

passa o barbeador no rosto, com quem seria? Se ele indicar um picareta do partido republicano, será só uma mão de cal — o propósito da investigação não será revelar as falcatruas, mas enterrá-las. Será uma missão de “busca e esquiva”, buscando as provas onde não há e depois anunciando que não acharam nada.

Ele termina de se barbear e vai se vestir para um dia de… De quê?

Ficar sentado esperando?

Keller não tem aonde ir — todas as possibilidades de emprego estão em

espera, até que essa história termine. Ele poderia dar (mais) uma volta pela vizinhança, percorrendo as livrarias locais, mas o que antes era um prazer se tornou um pé no saco, já que ele não consegue ir a lugar nenhum sem ser parado e questionado, ou por repórteres, ou simplesmente por pessoas na rua que o reconhecem. Algumas delas fazem sinais positivos com o polegar, outras só olham de cara feia, outras se aproximam e até pedem autógrafos.

Marisol acha que ele deve providenciar segurança.

— Um guarda-costas? — perguntou Keller. — Eu não quero isso.

— Você não sabe quem é essa gente — disse ela. — Algum doido pode querer ficar famoso.

Keller descarta. Ele não tinha guarda-costas quando Adán Barrera oferecia uma recompensa de dois milhões de dólares por sua captura, e não vai ter um agora. Eu sei me cuidar, obrigado, pensa ele. Keller ainda leva sua pistola Sig 9mm na cintura, por baixo da jaqueta, quando sai.

O que acontece cada vez menos.

Keller tem que reconhecer que ele agora é como um prisioneiro em sua própria casa. Eu poderia até estar de tornozeleira, pensa ele.

Ele está vestindo um suéter, quando Marisol grita:

— Arturo, desce aqui!

— O que foi?

— Ribello está falando na TV!

Keller desce a escada correndo.

O procurador-geral substituto, John Ribello, está dando uma coletiva de imprensa.

— Em minha função de procurador-geral substituto, eu determinei que é de interesse público que eu exerça minha autoridade designando um conselho especial para assumir a responsabilidade da questão Towergate. Isso não significa que eu tenha chegado à conclusão de que quaisquer crimes tenham sido cometidos, ou que qualquer acusação esteja garantida. Com base em circunstâncias únicas e de modo que os cidadãos americanos tenham plena confiança no desfecho, eu vejo a necessidade de instaurar essa investigação, exercendo a autoridade de uma pessoa independente das linhas habituais de comando.

Marisol diz:

— Você ganhou.

— Eu não ganhei nada.

Mas também não perdi, pensa Keller. Depende, claro, de quem Ribello

designar. Ele olha o homem que está em pé atrás de Ribello e não o reconhece. Tem perto da minha idade, pensa Keller. Cabelos brancos. Alto, rosto sulcado.

Ele se aproxima, quando Ribello diz:

— Nossa nação tem por base a aplicação da lei, e o povo precisa da

garantia de que os oficiais do governo aplicam a lei de forma justa e objetiva. O Conselheiro Especial Scorti terá todos os recursos apropriados para conduzir uma investigação minuciosa e completa, e eu estou confiante de que ele irá buscar os fatos, aplicar a lei e chegar a um resultado justo. Sr. Scorti?

Scorti se aproxima do microfone.

— A esta altura, não tenho muito a dizer, exceto que, para evitar

quaisquer possíveis conflitos, estou me demitindo de minha função, no escritório de advocacia Culver-Keveton. Farei o meu melhor para que esta questão chegue a uma conclusão imparcial e justa. Obrigado.

Marisol já está entrando no Google.

— Ele é de Boston… republicano… se formou em Dartmouth, serviu no

Vietnã… Tem Estrela de Bronze e o Coração Roxo…

— Exército ou mariners?

— Mariners — diz Mari. — Escola de Direito de Columbia… foi

procurador, depois assistente da procuradoria-geral da divisão criminal. Ele supervisionou a condenação de Noriega…

— É por isso que ele é familiar.

—… do caso da bomba de Lockerbie, e da família Cimino de

criminosos.

O passado continua voltando, pensa Keller. Sean Callan foi pistoleiro

para os Cimino.

O telefone toca. Senador Elmore.

— Art, esse cara é firmeza.

— É?

— Ele tem conduta independente — diz Elmore. — Dennison não vai

mandar nele. Essa é a boa notícia. A má notícia é que você também não vai.

— Tudo bem. — Ele desliga. Olha pela janela e vê que as vans de

emissoras já estão encostando, os jornalistas se aglomerando lá fora. Na televisão, os repórteres estão cercando Ribello com perguntas.

— Qual é o escopo da investigação do Sr. Scorti? — pergunta um deles. — Ele terá abertura para abranger o ex-diretor Keller e também Lerner?

— O sr. Scorti terá abertura para investigar todos os aspectos da questão — diz Ribello.

— Isso inclui Keller.

— Creio que a palavra “todos” seja explicativa.

— O escopo inclui a morte de Claiborne?

— Não sei de que outra forma lhe dizer…

— O sr. Scorti terá poderes acusatórios?

— O sr. Scorti poderá proceder com quaisquer acusações federais que ele determinar, conforme recomendado pelo júri principal.

— O sr. Scorti terá abrangência para investigar as potenciais ligações financeiras do presidente Dennison com a Terra?

— Novamente — diz Ribello —, o conselho especial seguirá as provas até onde elas conduzirem.

Vamos ver, pensa Keller.

Ele sabe que demorará semanas até que Scorti mande chamá-lo. O conselho especial terá que arranjar escritórios, contratar uma equipe, revisar documentos.

— Você precisa de um advogado — diz Marisol.

— Foi isso que Ben Tompkins falou.

— Até um relógio quebrado acerta…

— Eu não quero um advogado — insiste Keller.

— Esse não é o momento de ser ingênuo ou arrogante — diz Marisol. — Nem teimoso. Ou você quer ir pra cadeia?

— Eu quero botar Jason Lerner na cadeia.

— Ótimo — diz Marisol —, vocês vão poder jogar vôlei juntos.

Keller suspira.

— Eu não conheço nenhum advogado de defesa. Quer dizer, conheço, mas a maioria adoraria me ver em uma cela, ao lado de seus clientes.

— Você conhece a Daniella Crosby.

— Quem é?

— Uma das mais proeminentes advogadas de defesa de DC — explica Marisol. — Nós trabalhamos juntas, num comitê para alfabetização, almoçamos juntas algumas vezes. Ela e o marido estiveram em nossa festa de Natal.

— Tinha tanta gente…

— Tenho o contato dela no meu celular.

Keller olha pela janela, para a horda de jornalistas se aglomerando lá

fora.

— Ligue pra ela.

O escritório de Daniella Crosby fica no centro da cidade, na rua 17 com a K, não muito distante da Casa Branca e do Hamilton Hotel.

Uma mulher afro-americana com quarenta e poucos anos, cabelos pretos

curtos, óculos de grau imensos emoldurando um rosto forte, ela olha para Keller, do outro lado da mesa, e vai direto ao assunto.

— Não sei se posso mantê-lo fora da cadeia. Você de fato revelou ao

Washington Post detalhes de uma investigação em curso?

— Sim.

— Também removeu material investigativo do escritório da Narcóticos?

— pergunta ela.

— Removi.

— E continua de posse desse material?

— Possivelmente — diz Keller.

— Isso é um sim? — questiona ela. — Sr. Keller, o senhor sabe que eu

não tenho como ajudá-lo se não for inteiramente sincero comigo. Na verdade, eu não irei representá-lo.

— Srta. Crosby…

— Reverenda — diz ela. — Se vamos ser formais, na verdade, é

reverenda Crosby. Eu sou pastora. Ou devemos deixar em Daniella e Art?

— Daniella — continua Keller —, você está me pedindo para confiar

em você e, para ser franco, eu não confio em ninguém.

— E quanto a Marisol?

— Ela é uma exceção.

— Faça mais uma — diz Crosby. — Você escolheu encarar o presidente

dos EUA, todo o seu bando, metade do Congresso, vários cartéis grandes de drogas e agora, o conselho especial. Acha mesmo que consegue fazer isso sozinho?

— Não quero que você tenha conhecimento que possa colocá-la em

risco.

— Por que você não para de ser condescendente comigo e deixa que eu

decida quais riscos estou disposta a correr? — pergunta ela. — Se eu aceitar seu caso, o que neste momento parece bem duvidoso, será meu trabalho proteger você, não o contrário. Portanto, quanto mais rápido nós nos acostumarmos a essa dinâmica, melhor.

— Acho que você está com ênfase errada — diz Keller.

— Como?

— Sua prioridade é me defender — explica Keller. — Minha prioridade é acusar Lerner.

— E o presidente.

— Se chegar a isso — confirma Keller. — Você precisa entender que todo o meu propósito em vazar essa história foi provocar uma investigação de um conselho especial. Não estou fugindo disso, é o que eu quero.

— Se você correr para o fogo, pode se queimar.

— Estou ciente do risco.

— O risco é muito real.

Ela explica a Keller que ele pode ser acusado por três crimes. A primeira infração refere-se à lei USC 18-793, do chamado “Ato de Espionagem” que foi usada para acusar Edward Snowden e cuja pena é de até dez anos.

— Eles podem seguir essa linha — diz Crosby —, mas eu argumentaria que a 793 é pertinente apenas à defesa nacional, o que acredito que seria difícil para eles demonstrarem.

A segunda lei é a 18-641, do Estatuto de Conversão Federal, que se refere ao roubo de propriedade do governo, incluindo registros, e também tem pena máxima de pagamento de multa e dez anos.

A terceira é a 18-1030 — que foi elaborada no caso Chelsea Manning, proibindo a transferência, entre computadores, de informações referentes à defesa nacional ou relações estrangeiras.

— Se qualquer informação que você deu ao Post algum dia esteve dentro de um computador da Divisão de Narcóticos — diz Crosby —, você pode correr o risco de uma violação 1030, que representa mais dez anos.

Segundo ela, a estratégia mais provável da acusação seria jogar todas as três acusações na parede, como espaguete, para ver se alguma delas cola.

— Qual é a defesa? — pergunta Keller.

— Fora o fato de que você não fez nada disso? — pergunta ela.

Keller não responde.

Então, ela explica que a melhor estratégia de defesa é citar os vários atos de denunciantes que protegem funcionários federais de uma acusação, caso tais funcionários sensatamente acreditaram que funcionários do governo cometeram abusos, ou que seus atos ameaçaram a saúde e segurança pública.

— Eu com certeza argumentaria — diz Crosby — que uma rede de

tráfico de heroína comprando influência no mais alto escalão do governo constituiria uma ameaça à saúde e segurança pública. O problema é: você consegue provar que os funcionários do governo estavam de conluio nisso, ou procurando encobrir o fato?

— Jason Lerner é consultor sênior da Casa Branca — responde Keller. — Mas à época dos crimes que você alega, não era — diz Crosby. —

Portanto, isso pode incriminá-lo, mas ainda não isenta você. Você tem mais alguma coisa?

Ele conta sobre suas conversas com O’Brien, que pediu que ele parasse

a investigação, mas não faz nenhuma referência ao ataque na Guatemala.

— Isso pode ser útil — diz Crosby —, mas não justificativo. O’Brien é

um presidente poderoso de um comitê importante, mas não tem autoridade direta sobre você.

— Denton Howard me ofereceu meu emprego para cessar a

investigação.

— E daí? — pergunta Crosby. — Ele era seu subordinado. — Ele falou que estava agindo em nome do presidente eleito — diz

Keller.

— Essa conversa foi gravada?

— Por mim, não.

— Então, é a sua palavra contra a dele — conclui Crosby. — E nós

ainda temos o mesmo problema cronológico. Mesmo que Dennison tenha, de fato, transmitido essa oferta, isso não seria obstrução de justiça, porque ele não tinha autoridade estatutária. A procuradora-geral à época, em algum momento, lhe pediu para encerrar a investigação sobre Lerner?

— Eu não levei o assunto até ela.

— Isso é um problema — afirma Crosby. — Por que não? Keller diz:

— Eu estava no meio da condução não apenas de uma investigação, mas

de uma operação para derrubar uma grande organização de tráfico de heroína ligada ao Towergate. Estava apreensivo quanto a qualquer revelação prematura ao gabinete da PG, que poderia não apenas pôr em risco a operação, mas expor ao perigo os agentes infiltrados. Meu próprio pessoal já estava vazando informação para Howard e ele estava repassando a O’Brien.

— Então, o que você está me propondo a fazer — pergunta Crosby —, defendê-lo ou incriminar Lerner?

— Ambos, eu acho.

— E se em determinado momento houver um conflito entre esses dois interesses?

— Você permitiria que um cartel de drogas influenciasse o governo dos EUA? — pergunta Keller.

— Se isso significasse defender meu cliente, sim.

— Então, quando chegar esse momento — diz Keller —, eu vou dispensar você.

— Só para nós nos entendermos — diz Crosby. — Você não vai mais falar com a mídia. Isso sou eu que faço. Sou muito boa nisso e você é muito ruim. Agora, conte-me tudo.

— Onde você quer que eu comece?

Ela o encara, como se ele fosse um idiota.

— No começo.

Ele conta tudo a ela.

Menos sobre a Guatemala.

E a ponte.

Sean Callan foi deslocado, deslocado outra vez, e depois outra.

Toda vez é a mesma sequência. Eles botam um capuz em sua cabeça, algemam suas mãos e pés e o atiram na traseira de um veículo, às vezes, de um avião. Aonde os irmãos Esparza vão, Callan vai. Então, eles o empurram para dentro de um galpão, um celeiro, um porão, e o acorrentam a uma parede.

Ele recebe o mínimo de comida — algumas tortilhas, arroz e feijão, uma tigela de pozole. Com intervalos de alguns dias, eles o desacorrentam e abrem uma mangueira de jardim em direção a ele, lhe dão algumas roupas usadas, porque Iván reclama que ele está fedendo.

Callan sabe que fede. Ele não escova os dentes há semanas, seu cabelo e barba estão compridos e emaranhados, ele parece um sem-teto psicótico. Psicótico é uma definição bem certa, pois ele sabe que está perdendo o juízo. Hora após hora, sentado junto a uma parede — nada para olhar, nada para ler, ninguém com quem falar.

A única exceção foi quando Iván se aproximou e lhe contou uma piada. — Qual é a diferença entre Jesus Cristo, herpes e Elena Sánchez? Não

sabe? Elena nunca mais vai voltar.

Callan perde a noção das horas, dias e noites. Se alguém lhe perguntasse

há quanto tempo ele está aprisionado, ele não saberia dizer. Semanas, meses? Ele não acha que faz um ano.

Ele sente falta de Nora, fica imaginando como ela está, espera que ela e

a garotinha estejam bem, que ela não esteja sofrendo por ele.

Sem nenhum lugar para onde ir, sua mente volta ao passado. Ele tinha dezessete anos quando matou alguém pela primeira vez. Eddie “Açougueiro” Friel, no Liffey Pub, lá em Nova York, na cozinha

do Hell. Deu-lhe um tiro de 22 na cara, jogou a pistola no Hudson.

Depois foi Larry Moretti.

Depois daquilo, ele foi trabalhar para a família Cimino, e Johnny Boy

Cozzo lhe deu o trabalho de apagar o chefe, Paulie Calabrese, no Natal de 1985. Então, ele teve que deixar a cidade, ir para Guatemala, El Salvador, México, todos os terrenos férteis onde havia gente precisando de gente para matar gente.

Ele perdeu as contas.

Sua alma era um monte de lixo, até que o padre Juan o resgatou. Então ele também foi morto.

Adán o matou.

Mandou matar, tanto faz. Adán Barrera não cometia seus próprios

assassinatos, era para isso que ele tinha gente como eu, pensa Callan.

Por isso, se agora eu estou no inferno, é porque é o inferno eu mereço. Ele não tem ideia de onde está, na noite em que eles vêm, o

desacorrentam e o levam até um chuveiro, no canto de uma parede. A água é um filete, mas está quente. Então, eles o colocam sentado em uma cadeira, o barbeiam e cortam seu cabelo, depois lhe jogam um jeans novo, uma camisa de brim e um par de tênis.

— Vista-se — diz um deles. — Iván não quer você com cara de

vagabundo.

Por quê?, pensa Callan. Para o vídeo, quando eles me matarem? Ele se veste, eles botam um capuz em sua cabeça e o jogam na traseira

de um carro. Dirigem por cerca de duas horas, depois o carro para e eles tiram seu capuz.

Ele sabe onde está, reconhece dos velhos tempos.

Na travessia da fronteira, em Tecate.

Dois federales estão do lado de fora de uma van.

— Saia.

— Eu vou levar uma bala nas costas? — pergunta Callan.

— De nós, não.

Callan sai. Os federales o pegam pelos braços e conduzem até a cabine de Patrulha da Fronteira. Dois homens à paisana estão esperando por ele e os federales o entregam.

— Sean Callan? — diz um deles. — FBI. Você está preso pela suspeita de assassinato de Paul Calabrese.

Eles o viram de costas e o algemam.

Levam-no de volta para os EUA.

Crosby prepara Keller para sua entrevista com o conselho especial. Eles não trabalham todos os dias, mas quase todos, e por várias horas. Ele chega no escritório dela às nove da manhã e vai embora logo depois do almoço.

Durante os primeiros dias, jornalistas ficavam acampados na frente do prédio, mas como Keller prosseguia recusando responder às perguntas e Crosby lhes dava respostas insípidas, eles ficaram entediados e foram embora.

Habitualmente, Keller pega o metrô pela manhã, no Dupont Circle, até a Farragut North. Quando o clima permite, ele prefere voltar para casa a pé, subindo a avenida Connecticut, para espairecer após uma sessão preparatória. De vez em quando, ele para na Kramer Books ou na Second Story; porém, com uma frequência cada vez maior, surge alguém que o reconhece e quer conversar, então ele acaba não indo.

— Até recebermos uma oferta de imunidade, você segue pela Quinta Emenda — diz Crosby. — Depois disso, você pode dar tudo o que eles quiserem.

— Incluindo as gravações?

— Se eles pedirem — diz Crosby. — Numa exigência coletiva, eles pedirão por algo como “todo e qualquer material em seu poder relativo a essa questão”. Então, você entrega as gravações.

— E se eles as eliminarem? — pergunta Keller.

— Scorti não parece alguém que faria isso — diz Crosby. — Mas eu vou jogar umas sementes.

— O que isso significa?

— É o motivo pelo qual você me contratou — explica ela. — Eu vou até

a mídia e lembro-lhes da possibilidade de você ter materiais como gravações. Então, se Scorti tentar eliminar as gravações, ele estará sob imensa pressão pública para divulgá-las.

Sim, foi para isso que eu a contratei, pensa Keller. É inteligente e sutil, e

eu não teria pensado nisso. E mostra que ela está interessada em derrubar Lerner. Mas ele não está convencido. Motivo pelo qual ele fez cópias e guardou-as fora do alcance da intimação. Ele percebe que Crosby não lhe perguntou se ele fez isso.

Eles almoçam trabalhando no escritório e repassam mais detalhes.

Ainda não há data para a entrevista.

Eddie está ficando maluco na cadeia de San Diego.

Não metaforicamente, literalmente insano.

Ele achou que seria fácil ficar outra vez na solitária, baseado em sua

época em Florence, mas agora percebe que a prisão de segurança máxima não o fortaleceu e sim desgastou. A cela tem 3,60 por 1,80 metros e as paredes começam a tremular, quando ele olha por muito tempo, como se fossem feitas de água, uma leve camada de água por cima da areia, quando a onda volta.

Isso não é bom.

Ele sabe que não deveria ficar encarando as paredes, mas não há mais

nada para olhar — não há janela, nem TV, nem uma fresta da porta, por onde ele poderia olhar o pavilhão, e ele sabe que, por mais que ele encare as paredes, a onda não vai levá-las.

Eles o estão enlouquecendo ali dentro e Eddie acha que isso é

intencional, eles o estão amolecendo para as negociações. Enfiam pela porta uma badeja de café da manhã — se é que se pode chamar assim — às seis e quinze da manhã, depois voltam, às sete e meia para inspecionar a cela.

Para quê? São 3,60 por 1,80 metro, um jogador decente da NBA não

poderia nem ficar deitado direito ali dentro. O que acham que Eddie vai esconder, um tanque? Os Red Hot Chilli Peppers? Uma banheira quente cheia de strippers?

Os guardas fazem contagem às oito, às dez e meia e às quatro, o que

Eddie imagina ser o meio que eles têm para foder mais um pouco com ele. O problema de Eddie é que ele está tendo dificuldade com as contagens, para distinguir uma da outra. Outro dia, ele achou que fosse a contagem das quatro horas e era só a das oito.

Nas primeiras semanas, ele foi religioso no treino — flexões, abdominais — porque os caras da Eme, em V-Ville, lhe disseram que essa era a chave para manter o espírito forte.

Mas agora parece simplesmente trabalhoso demais, e o que ele mais faz entre as refeições (se é que se pode chamar assim) é ficar deitado na cama, olhando as paredes. Ou o teto.

Seu corpo está ficando uma merda.

É todo aquele fermento que lhe dão.

Minimum Ben chega e tenta atualizá-lo sobre as coisas.

— O que é um “conselho especial”? — pergunta Eddie. — É como Olimpíadas Especiais, algo assim? Eles ganham troféus, essas coisas?

— Você precisa levar isso a sério, Eddie — diz Tompkins.

— Me tira dessa porra aqui, Ben.

— Estou trabalhando nisso.

— Trabalhe com mais afinco.

Porque eu estou ficando doido.

Eles o estão quebrando e ele sabe. Antes ele conseguia agir em relação a isso, ele conseguia lutar, mas Eddie está perdendo a luta e é isso que os filhos da puta querem; a prisão é para isso, para destruir a mente, o corpo e a alma, até a pessoa fazer o que esses putos querem.

Ou simplesmente morrer.

Ou pior, virar um daqueles babacas patéticos que ficam pintando as paredes com a própria merda.

Ele percebe que acabou de falar isso em voz alta.

— Que ótimo — diz ele —, agora você está falando com você mesmo. Bem, ao menos está falando com alguém que realmente está aqui, que é melhor do que falar com alguém que não está. Quer dizer, você não está perdendo a cabeça de verdade, até começar a falar com gente que não está presente, certo?

Certo?

O escritório do conselho especial é um prédio comum no sudeste de Washington, logo ao norte de Fort McNair.

Crosby entra com sua BMW X5 no estacionamento, e ela e Keller

pegam um elevador até o escritório, longe dos olhos da imprensa. No elevador, Crosby diz:

— Scorti não é racista, mas ele é produto de sua geração. Ele e todos os

outros advogados da Ivy League, lá em cima, vão olhar uma mulher afro-americana que frequentou a Howard e achar que eu cheguei onde estou por meio de ação afirmativa. Isso não vai durar muito, mas nos dará uma vantagem temporária.

As portas automáticas se abrem.

Talvez, por motivo de segurança, a sala de reunião não tem janelas,

embora Keller ache que é mais para deixar as testemunhas se sentindo claustrofóbicas. Ele próprio costumava usar essa técnica.

Scorti tem quinze advogados em sua equipe, cada um de uma

especialidade — direito criminal, tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, direito constitucional. Ele tem contadores forenses, especialistas em vigilância e um monte de secretárias, todos literalmente sob juramento de confidencialidade. Foi uma equipe bem redonda, pensa Keller. Nenhum vazamento surgiu da operação de Scorti.

São nove horas.

Scorti gosta de começar cedo e sair tarde, ele é preparado como um ex-

marine, mas não está na sala quando Keller e Crosby entram. Lá estão três outros advogados, homens brancos de terno e gravata. Uma secretária está sentada, de bloco estenográfico na mão, e há pequenos microfones instalados na mesa.

Depois das apresentações, Keller rapidamente se esquece dos nomes de

todos, e todos se sentam de novo. Um dos advogados assume o comando.

— Estamos gravando esta sessão. É para sua proteção, assim como a

nossa. Nós lhe daremos uma cópia transcrita.

— É claro — diz Crosby. — Assim com a cópia da gravação. — Isso nós não costumamos dar.

— Não estou interessada no que vocês costumam fazer — diz ela. —

Quero ter certeza de que a transcrição está precisa.

— Não temos obrigação de lhe dar uma cópia. — Então, este será um dia muito longo — diz Crosby. — E monótono,

comigo instruindo meu cliente a não responder.

— Se significa tanto assim para você. — O advogado vira para Keller.

— Vou pegar seu juramento. Seu testemunho tem o mesmo efeito e força que teria em tribunal e, portanto, está sujeito ao estatuto federal de perjúrio.

— O sr. Keller está aqui como uma testemunha colaborativa — diz Crosby. — Nós não exigimos uma intimação. Acho que não precisamos começar este procedimento com ameaças.

— Eu só estou mencionando a lei.

— Eu instruo meu cliente sobre a lei — diz Crosby. — Você faz as perguntas. E eu quero alguns jarros de água gelada e copos aqui. E também uma garrafa de café e copos de verdade, não de papelão. Isto aqui não é uma delegacia qualquer de Ansonia.

O advogado sorri.

— Deseja mais alguma coisa? Uns pãezinhos com queijo? Croissants?

— Você tem?

— Não.

— Então, acho que não — diz Crosby. — Mas faremos intervalos regulares e uma hora e meia de almoço fora. E a qualquer momento que o sr. Keller desejar me consultar, nós o faremos em particular.

— Isso não precisa ser um procedimento competitivo, dra. Crosby.

— Concordo — diz Crosby. — Só estou me assegurando de que todos nós sabemos a diferença entre uma entrevista e um interrogatório.

Uma assistente traz água e café.

O advogado principal começa com as perguntas básicas — nome, data de nascimento, ocupação — e Keller arranca uma risadinha de todos na sala quando diz “atualmente, desempregado”. Aquilo era estranho para Keller, que estava acostumado a fazer as perguntas.

Eles ainda estão no aquecimento, quando a porta é aberta, Scorti entra na sala, puxa uma cadeira metálica dobrável junto à parede e senta, gesticulando para que eles continuem.

— Agora, quero voltar sua atenção ao momento em que se tornou o chefe geral da Divisão de Narcóticos — diz o advogado principal. — Lembra-se desse período?

— Sim.

— Sua aparição surgiu meio que do nada — afirma o advogado.

— Isso é uma pergunta? — pergunta Crosby.

— Aquilo foi, de fato, esquisito — diz o advogado. — Acho que estou tentando entender a forma de sua indicação àquele cargo.

— Tenho certeza de que o senhor tem familiaridade com o processo —

diz Crosby. — Ele foi indicado pelo presidente e confirmado pelo Congresso. Por favor, não me diga que não leu as transcrições da audiência de confirmação. Qual é sua verdadeira pergunta?

— Qual foi o papel do senador O’Brien em sua indicação a esse cargo,

se é que ele teve algum?

— O senador O’Brien veio até El Paso e me perguntou se eu

consideraria aceitar o cargo.

— O senhor estava morando em Juárez, no entanto, não estava? —

pergunta o advogado.

— Logo do outro lado da ponte.

— O senador informou o motivo para querê-lo no cargo? A entrevista tinha tomado um rumo diferente do que Keller havia

imaginado. Por que ele estava perguntando sobre O’Brien?

— Ele tinha olhado meu histórico profissional e achou que eu poderia

fazer um bom trabalho.

— O senhor é democrata, não é? — pergunta o advogado. — Quer dizer,

não é ligeiramente estranho que um senador republicano queira um democrata num cargo de alto escalão?

— Na verdade, sou independente.

— Mas sabe o que eu quero dizer.

— Na verdade, não.

Mas agora ele sabe o que o advogado está farejando — um

relacionamento especial com O’Brien. Será que Ruiz contou sobre a Guatemala? Se contou, quanto revelou? Ou será que o advogado só está jogando verde para ver se eu vou morder sua isca?

— Acho que este é um bom momento para um intervalo — diz Crosby.

No corredor, ela pergunta a Keller: — Tem algo que você queira me contar? Sobre Ben O’Brien?

— Não.

— Então, por que esse cara está querendo saber? — Não sei.

Ela o encara. Zangada. Quando eles voltam lá para dentro, Scorti

levanta e estende a mão para Keller.

— Eu sou John Scorti.

— Art Keller.

— Parabéns pela prisão de Cozzo — diz Scorti.

— Foi a NYPD — diz Keller. — Brian Mullen.

— Acho que você teve participação — afirma Scorti. Ele aperta a mão de Crosby. — John Scorti. Estou surpreso que nós já não tenhamos nos encontrado. Tenho familiaridade com seu trabalho.

Todos eles sentam novamente. O advogado principal começa a fazer uma pergunta, mas Scorti ergue a mão e diz:

— Keller, você e eu somos antigos soldados. Podemos continuar nesse ritmo, ou podemos ir direto ao que interessa. De veterano para veterano, o que você tem a respeito de Jason Lerner?

Keller olha para Crosby.

Ela dá de ombros e diz:

— Fale.

Keller conta tudo. Como eles colocaram Chandler Claiborne como informante criminal, alavancado por uma acusação de drogas e agressão sexual, como ele forneceu Lerner e a reunião da Terra com Echeverría. Como ele obteve um mandado para a escuta na segunda reunião.

— Você pôs escuta na primeira? — questiona Scorti. — Sem mandado?

— Não — diz Keller. — Claiborne tinha acidentalmente deixado o celular ligado.

— Espera que eu acredite nisso?

— Acredite no que quiser — diz Keller.

— Você tem a gravação? — pergunta Scorti.

— Sim.

Crosby coloca a gravação para que todos ouçam. Quando termina, Scorti diz:

— Lerner não está nessa reunião.

— Correto.

— Com base nisso, você conseguiu um 2518?

Crosby pega o documento e empurra ao outro lado da mesa.

— Juiz Antonelli — diz Scorti. — Ele é firme.

— O mandado não foi obtido exclusivamente pela gravação de Claiborne — explica Keller. — Antonelli foi persuadido pela declaração verbal de um policial infiltrado a quem foi solicitado, por um traficante de drogas, que provesse a segurança da reunião.

— Você pode dar a identidade desse oficial?

— Robert Cirello, detetive de segundo grau, NYPD, Divisão de Narcóticos.

— Onde está ele agora?

Keller diz:

— De licença por inaptidão.

— Isso é uma coincidência?

— Você já foi infiltrado? — pergunta Keller.

— Não posso dizer que fui.

— Cirello trabalhou com infiltrado durante dois anos — informa Keller.

— Não foi uma coincidência.

Scorti olha para um dos membros de sua equipe. — Localize-o. Nós precisamos falar com ele. — O comportamento do detetive Cirello foi impecável — afirma Keller.

— Ele é um herói, com grande responsabilidade por ter desmantelado uma mega rede de heroína. Não quero vê-lo sendo assediado ou importunado.

— Você não está encarregado desta investigação — diz Scorti. — Mas você quer minha colaboração — diz Keller. Crosby diz:

— Art…

— Só um instante — diz Keller. — Nenhum desses caras sabe o que é

estar em campo. Eles só ficam sentados em suas salas de reunião fazendo julgamentos. As armas na cabeça são metafóricas. As armas apontadas para Cirello foram reais.

— Entendido — responde Scorti. — Nós temos que falar com Cirello

mesmo assim. Também precisamos falar com o agente Hidalgo. Onde está ele?

— Não sei.

— Nós fizemos inúmeras tentativas de contatá-lo — diz Scorti. — Ele

não atende.

— Eu não sei onde ele está — diz Keller.

É verdade. Keller não teve mais notícia de Hidalgo, desde que o garoto

deixou seu escritório.

— Isso é meio conveniente, não? — pergunta Scorti. Keller dá de ombros.

Scorti diz:

— Então, Antonelli lhe concedeu um mandado… Keller retoma a narrativa — Lerner vai à reunião, senta com Echeverría,

que possui laços conhecidos com os narcos mexicanos…

— Nós temos fotografias — diz Crosby. Ela coloca as fotos na mesa.

— Eu presumo que vocês tenham trazido as gravações desta reunião — diz Scorti.

Eles ouvem a fita. Keller sente o ar mudar na sala, conforme eles ouvem Lerner convidar Echeverría para cometer uma fraude bancária e transferir centenas de milhões de dólares por baixo dos panos.

O ar pesa ainda mais, quando eles ouvem…

— E, como mencionou, você está sob análise minuciosa, por conta de seus contatos próximos. Eu esperaria que, se lhe fizermos esse favor, como um velho amigo, você nos disponibilizaria alguns desses contatos, caso precisemos de um ouvido para expor nossos pontos de vista.

— Esse é Echeverría? — pergunta Scorti.

— Correto — diz Keller. — E este é Lerner…

— Não posso prometer que nossos contatos tomariam ou não determinadas atitudes…

— É claro que não.

— Mas você sempre encontrará um ouvido.

A sala cai em silêncio.

Então, Scorti diz:

— O que estou ouvindo é um homem oferecendo considerações a um parceiro de negócios. Não ouço nada sobre drogas.

— Você poderia ouvir — diz Keller.

— Se…

— Se eu soubesse que você usaria.

— O que você tem?

— E se eu tivesse uma gravação de Lerner reconhecendo que o empréstimo veio de dinheiro de drogas?

— Você tem? — pergunta Scorti.

Keller não responde.

— Eu especificamente solicitei todos os materiais — lembra Scorti.

— Você sempre consegue o que quer? — pergunta Keller.

— Costumo conseguir.

— Meu cliente forneceu informações valiosas para sua investigação — diz Crosby — e provou seu valor como testemunha. Eu não vou permitir que ele forneça mais nada sem a concessão de absoluta imunidade.

— Dane-se isso — diz Keller. — Eu quero saber o que esse cara vai fazer em relação a Lerner.

— Ainda não decidi — responde Scorti. — Não chegarei a essa

determinação até que a investigação esteja completa.

Keller diz:

— Eu acabei de lhe dar mais que o suficiente para indiciar Lerner. — Você também está sonegando informação.

— Indicie Lerner — diz Keller — e eu lhe dou as fitas. Assim, eu sei de

que lado você está. Sei que você não vai pegar as fitas e enterrar.

— Que diabo você acha que é? — pergunta Scorti. — Que diabo você

acha que eu sou? Sou eu que estou no exercício das concessões aqui, não você. Srta. Crosby, por favor, diga a seu cliente que eu posso colocá-lo na cadeia até que ele forneça essas fitas.

— Sem uma intimação, não pode — diz Crosby. — Eu posso consegui-la até essa tarde — afirma Scorti. — Não tem necessidade de nada disso, se você simplesmente conceder

imunidade a ele — insiste Crosby.

— Tem, tem sim — diz Keller. — Sem indiciamento, nada de fitas. — Talvez eu deva indiciar você — diz Scorti. Keller levanta.

— Nós temos mais perguntas — diz Scorti.

— Já terminamos — afirma Keller.

— Só mais uma pergunta — diz Scorti. — Tem havido boatos. Agora eu

vou lhe perguntar: você matou Adán Barrera?

Keller olha diretamente para ele.

— Não.

— Eu vou preparar o indiciamento — diz Scorti. — Qual deles? — pergunta Keller. Ele caminha até a porta e vira. — Eu

vou ficar aguardando pra ver quem você é.

No elevador, Crosby explode. — O que você acha que eu sou? Um enfeite de jardim? Uma parede em que você quica uma bola? Se não quiser que eu o represente…

— Eu lhe disse…

— Eu estou dizendo a você, esse homem vai colocá-lo na cadeia. — O que você quer de mim?

— O que eu quero é proteger você. — A porta do elevador se abre. — O

que você quer, Art?

— Eu quero derrubar esse negócio todo.

— Mesmo que caia em cima de você? — pergunta Crosby.

O que Mari chamaria de meu masoquismo, aquela baboseira de culpa católica, pensa Keller. Mas, sim, mesmo que desabe tudo em cima de mim, isso vai cair.

Eddie olha ao outro lado da mesa, para o advogado todo elegante de Nova York.

— Eddie — diz Tompkins — nós trouxemos o sr. Cohn, aqui, para auxiliar em sua defesa. Dessa forma, qualquer coisa que você lhe diga é confidencial. Compreende?

— Claro. — Eddie compreende que o tal do Cohn, ali, é um cara do Lerner, e veio pra fazer um acordo.

— Como posso ajudá-lo?

— A questão é como eu posso ajudar você — diz Eddie. — Eu posso arrancar Art Keller das suas costas, como se fosse pele morta de queimadura de sol. Em retribuição, você vai me arranjar um acordo que me tire daqui enquanto eu ainda conseguir ficar de pau duro. Fechado?

— Isso depende — diz Cohn — do que você tem.

Eles ficam em um impasse.

Tompkins diz:

— Bem, alguém aqui vai ter que tirar a roupa primeiro.

Certo, pensa Eddie. Por que não? Que porra eu tenho a perder? Ele se debruça na mesa, olha para Cohn, abre um sorriso e diz:

— Eu vi Art Keller matar Adán Barrera.

Pôu.

A pressão aumenta.

Scorti não anuncia nenhum indiciamento, não leva ninguém ao júri principal, mas intima a movimentação financeira pessoal de Dennison.

O presidente fica doido.

Surgem tweets sobre “caça às bruxas”, resmungos sobre demitir Ribello, demitir o procurador-geral, até demitir Scorti, que “extrapolou o escopo de sua investigação, cruzou uma linha vermelha”.

A mídia fica igualmente maluca.

Comentaristas em telas divididas debatem se a demissão de Scorti acabaria com a presidência de Dennison, se o Congresso se manifestaria por um impeachment.

Dennison não faz isso.

Apenas ameaça, resmunga, desabafa no Twitter. Keller aguarda pelos indiciamentos.

De Lerner.

O seu.

Ele aguarda uma intimação, uma ordem judicial para entregar as

gravações ou ir para a cadeia.

Nada acontece.

A operação de Scorti só resulta em silêncio.

Keller lê os jornais, assiste aos programas, vê que Scorti está

entrevistando testemunhas, revisando documentos, debruçado sobre os extratos financeiros de Dennison.

Mas Scorti não divulga nada.

Keller está cansado.

Ele não diz, mas Marisol nota que isso tudo o está esgotando — o olhar

da mídia, a pressão de lutar contra o presidente dos EUA, as preocupações quanto a seu futuro, a possibilidade de ir para a cadeia.

Seu marido não reclama — ela gostaria que ele reclamasse, que

gritasse, berrasse, atirasse as coisas, mas Arturo é do tipo que guarda tudo, e ela receia que isso o esteja corroendo. Ela sabe que ele não está dormindo bem. Ouve quando ele levanta e desce as escadas, ouve a televisão ligada, ou ele simplesmente andando pela casa.

Agora ele finge interesse em um jogo de beisebol na televisão, mas dá

para notar que a cabeça dele está a mil.

— Então — diz Marisol —, o que você quer fazer, quando tudo isso

tiver terminado?

— Imaginando que eu não estarei preso? — pergunta Keller. — Se estiver — diz ela —, eles concedem visitas conjugais? — Depende da cadeia — responde Keller.

— Arranje uma que conceda — diz ela.

— Quando tudo isso acabar, e imaginando que eu não esteja de macacão

cor de laranja, você quer ficar em Washington DC, certo? A Universidade George Washington fez contato comigo, para um cargo de adjunto no corpo docente.

Que bom, pensa Marisol. Ela estava meio apreensiva, temendo que

depois disso tudo ele talvez quisesse ir para um monastério, no Novo México, para criar abelhas, ou algo assim. Ela iria com ele, para fazer, sei lá, o que se faz com abelhas (agrupar? enxamear?), mas uma função acadêmica soa melhor.

A campainha toca.

— Eu atendo — diz ela.

É Ben O’Brien.

— Eu preciso falar com Art.

— Não tenho certeza se ele precisa falar com você — diz Marisol.

— Por favor — insiste O’Brien. — É importante.

Ela abre a porta e o deixa entrar.

Keller levanta e vai até o saguão.

— Marisol — pede O’Brien —, você poderia nos dar alguns minutos?

Ela olha para Keller, que assente. Marisol tira um momento para olhar O’Brien de cara feia, depois sobe a escada. Keller conduz O’Brien até a sala e eles sentam.

— Nós estamos com Sean Callan — anuncia O’Brien. — O nome diz algo, certo? Acho que ele salvou sua vida, uma vez. Numa ponte, em San Diego?

Keller não fala nada.

— Ele está em mal estado, segundo me disseram — conta O’Brien. — E ele é nosso de todas as maneiras possíveis. Temos gente que vai testemunhar por tê-lo visto assassinar Paul Calabrese, lá atrás, naquela época. Mas ele também acabou de matar dois cafetões em Tijuana, numa discussão sobre uma criança que ele estava tentando comprar.

— Eu não acredito nisso.

— Não importa — diz O’Brien. — Provavelmente, o mais fácil seria extraditá-lo de volta pro México, deixar que fiquem com ele pelos assassinatos. Ele vai pegar uns trinta e poucos anos, num buraco mexicano, embora eu duvide que ele possa durar tudo isso. O que você acha? É claro que há outras opções para liberá-lo. Cabe a você.

Keller sabe o que vem pela frente.

— Entregue as gravações, retrate as suas alegações, vá embora — diz O’Brien. — Você é bom nisso, não é? Em ir embora?

O’Brien levanta.

— Digamos, umas dez e meia, no lobby do Hamilton? Ah… caso sua gratidão a Callan não seja suficiente para retribuir-lhe por sua vida… Ruiz disse que o viu matar Barrera.

— Ele está mentindo.

— Ele tem detalhes — diz O’Brien. — Foi na selva. Barrera lhe pediu

água. Você lhe deu um pouco. Depois você lhe deu dois tiros na cara, largou a arma e foi embora.

Foi exatamente o que aconteceu, pensa Keller. Ruiz guardou isso no bolso por um bom tempo. — Ele está com a arma — informa O’Brien — num cofre de banco. E a

arma terá suas digitais e vai casar com os ferimentos no crânio de Barrera.

Sim, vai, pensa Keller.

— Pra quem ele falou isso? Scorti?

— Um dos advogados de Lerner — responde O’Brien. — Ele está

pronto para testemunhar que você matou Barrera, que você lhe arranjou um acordo bacana de apelação, e que você o ajudou com vários problemas, para mantê-lo em silêncio.

Keller sabe o que tem diante de si — ele pode ser julgado nos EUA por

inúmeras acusações de corrupção, incluindo perjúrio. Ele pode ser extraditado para a Guatemala e julgado por assassinato.

Ele também sabe por que Ruiz dedurou — a Casa Branca lhe ofereceu

um acordo, um passe livre para sair da prisão. Ele vai cumprir alguns anos e depois sua pena será silenciosamente atenuada.

— Salve Callan, salve a si mesmo — diz O’Brien. — A outra opção é

Ruiz testemunhar e você e Callan irem para a cadeia. E não acho que você vai levar Lerner, ou a mim, com você. Você estará desacreditado, ninguém vai confiar em nada do que você disser, depois que Ruiz acabar com você.

Keller abre a porta para ele sair.

Então, ouve Marisol descendo a escada.

— Preciso falar com você — diz Keller.

Eles sentam à mesa da cozinha.

Keller conta tudo para ela.

Sobre aquela noite na ponte.

E conta que matou Barrera.

Marisol fica sentada em silêncio, enquanto ele fala, e quando ele

termina, ela diz:

— Você mentiu pra mim.

— Menti.

— Eu lhe perguntei se você o havia matado — lembra Marisol — e você olhou nos meus olhos e mentiu para mim.

— Isso mesmo.

— Nós prometemos — continua ela — que jamais mentiríamos um ao outro. Então, o que você vai fazer?

— Não sei — diz Keller. — O que eu devo fazer?

Ela levanta da cadeira. Ela leva um momento, sempre leva, mas pega a bengala, se apoia e olha de volta para Keller.

— Ligue pra Daniella. Eu não sou sua advogada, não sou sua psicóloga, não sou seu padre. Eu era sua esposa.

Keller ouve os passos e a bengala na cadeira. Ele ouve o som de malas sendo abertas e fechadas. Um pouquinho depois, ela lhe pede para carregar suas malas até a porta.

— Adeus, Arturo — diz Marisol. — Seja qual for sua decisão, espero que seja o correto pra você.

Ele carrega as malas dela até o Uber que está lá fora, abre a porta para ela e a ajuda a entrar.

E ela vai embora.

Keller não tenta dormir.

Qual o sentido?

Seria engraçado, se não fosse tão triste — Adán Barrera estendeu novamente a mão para fora da cova.

Adán vive.

Keller não aparece no lobby do Hamilton.

Não faz sentido, pois o jornal das nove horas noticia que os extratos de Dennison mostraram que ele tinha investimentos expressivos na Terra.

Às dez horas, Dennison instrui Ribello a demitir Scorti.

No Twitter, o presidente chama Keller de “mentiroso patético”, de “fracassado”, de “traidor”.

Ribello demite Scorti.

Às dez e meia, o governo dos EUA está um caos.

— Isso nos faz ganhar tempo — diz Rollins — para fazer o que precisamos fazer.

— Não — diz O’Brien.

— Qual é a alternativa? — pergunta Rollins. — Nós deixamos esse

homem derrubar o governo e voltamos a mais oito anos de esquerda? Imigração aberta, impostos altos, legalização das drogas? Agora nós temos uma oportunidade única de dar uma virada neste país.

— Torná-lo grandioso outra vez?

— Pode debochar, mas é, sim, isso mesmo — diz Rollins. — Nós temos

que limpar isso tudo. Algumas pessoas simplesmente têm que partir. Você não precisa dizer sim, O’Brien. Apenas não diga nada.

O’Brien não responde.

Ele ouve a porta abrir e depois fechar.

Caro está relutante.

Há poucos anos, os zetas cometeram o equívoco de matar um agente

americano no México. A reação americana, liderada por Art Keller, foi violenta e eficiente. Os americanos se juntaram com os mariners mexicanos em ataques que foram basicamente extermínios. Eles massacraram os zetas e os retiraram de seus papéis de grandes protagonistas.

Mas Caro não precisa disso como exemplo.

Ninguém sabe mais sobre os perigos de matar um agente americano da

Divisão de Narcóticos. Depois da morte de Ernesto Hidalgo, a Divisão de Narcóticos desmantelou a Federación. O próprio Keller matou Miguel Ángel Barrera, o fundador, M-1. Se os boatos forem verdadeiros, Keller matou também Adán Barrera. Caro havia participado do assassinato do agente americano e, por seu pequeno papel, Keller o prendeu com uma pena de vinte anos à perpétua.

Agora ele está enfim livre, e esses homens querem sua ajuda para

assassinar não apenas um agente americano da Divisão de Narcóticos, mas o próprio Art Keller?

Ele expressa sua apreensão para Echeverría e para o americano — qual

é o nome dele? — sim, “Rollins”.

— Nós não temos escolha — diz Rollins. — Keller ainda não entrou em

acordo. Se ele decidir apresentar essas gravações, o vinho estará fora da garrafa e nós jamais conseguiremos colocá-lo de volta.

— Uma oportunidade única, que só se tem uma vez na vida, e será

perdida, se não agirmos — diz Echeverría.

— E se a perdermos, nós podemos ser destruídos — conclui Caro.

— Esse governo não terá reação excessiva — diz Rollins. — Você manda um atirador, ele faz o serviço e é morto imediatamente. Haverá barulho por algumas semanas, algum tumulto, e depois é vida que segue.

Caro pergunta:

Por que você não utiliza alguém de seu próprio pessoal?

— Um pistoleiro de cartel faz mais sentido — diz Rollins. —“O cartel mexicano de drogas assassina seu pior inimigo.” Porra, Barrera ofereceu uma recompensa de dois milhões de dólares por Keller. Melhor ainda: nós espalhamos que Keller estava de conchavo com o cartel e traiu você.

Assim se mata o homem e seu nome, pensa Caro.

— E vocês me asseguram que não haverá nenhuma repercussão?

— Essa gente — diz Echeverría — estará tão motivada quanto você para encobrir isso. Na verdade, até mais. Claro que haverá repercussões, os americanos reagirão. Mas pode ser providenciado que eles reajam contra pessoas que sejam, digamos, problemáticas.

Caro repensa — Tito não fará objeção; parte dele culpa Keller pela morte de Nacho Esparza. E Iván com certeza será totalmente a favor de matar o homem que amassou sua cara e o humilhou.

Ele dá sinal verde.

E finge relutar.

Será que essas pessoas imaginam, ele se pergunta. Será que sabem que, todas as noites ao longo de vinte anos naquele inferno congelante, eu sonhei em matar Art Keller?

Nada é mais vazio que uma casa vazia.

A cadeira vazia na cozinha, a marca no estofado do sofá, o travesseiro sem os cabelos esparramados por cima, a ausência do perfume. Um pensamento não dito, uma risada não compartilhada, o silêncio na falta dos passos, nenhum suspiro, nenhum ofego.

Marisol ligou duas vezes, ambas rápidas; uma, para lhe dizer que ela tinha chegado bem em Nova York e estava no Beekman. Outra, para contar que tinha sublocado uma quitinete em Murray Hill.

Um confinamento solitário espaçoso, pensa Keller, enquanto vai de um cômodo vazio para outro, faz refeições só para um, mal come, beberica uma cerveja sem vontade, quase nem presta atenção à televisão, que segue falando monotonamente sobre “a crise constitucional” e uma “crise de fé”.

Ele ouve um analista dizer:

— Isso se resume a um mano a mano entre John Dennison e Art Keller. Keller sobe para verificar seu arsenal.

Uma Sig 9 para o quadril, uma Sig .380 para o tornozelo. Uma bomba Mossberg embaixo da cama.

Uma faca Ka-Bar.

Há quarenta anos ele está em guerra contra os cartéis mexicanos. Agora, ele está em guerra contra seu próprio governo. E eles são a mesma coisa.

O consórcio.