A fronteira
4: O ônibus
4
O ônibus
“Jesus chorou.”
— João, 11:35
Culiacán, México
Setembro, 2014
Em princípio, Damien Tapia fica chocado, decepcionado pela casinha onde Rafael Caro mora, as roupas simples que o homem veste. A casa, construída na década de 80, é simples e térrea, com um banheiro, uma salinha e uma cozinha ainda menor. Os móveis são antigos, do tipo que se vê em uma venda de garagem.
Esse é Rafael Caro, um dos fundadores da Federación — ele deveria
morar em uma mansão e vestir Armani, não uma velha camisa de brim e calças amarrotadas de sarja. Ele deveria estar jantando nos melhores restaurantes, não raspando as sobras de frijoles de uma panela.
Damien sente-se enganado.
Então, ele se senta com o idoso e vê que aquilo que achou ser
degradação é, na verdade, simplicidade; que o homem não havia caído, mas estava acima de tudo isso; que seus anos no confinamento da solitária o transformaram não em um louco, mas em um monge.
Um sábio.
Então, ele senta e escuta, enquanto Caro diz:
— Adán Barrera foi inimigo de seu pai. E meu também. Ele mandou seu
pai para a morte e a mim, para um inferno na terra. Ele era o demônio.
— Sim.
— Não conheci seu pai — diz Caro. — Eu já estava na cadeia. Mas ouvi
falar que ele foi um grande homem.
— Ele foi.
— E você quer vingá-lo.
— Quero recolocar minha família em seu devido lugar — afirma
Damien.
— Ouvi falar que você está de posse de uma grande quantidade de heroína — diz Caro.
É verdade. Damien e seus garotos invadiram o laboratório de Núñez, em Guerrero, e levaram cinquenta quilos. Mas como o velho sabe?
— Mas você não tem como transportar e não possui nenhum mercado americano — diz Caro.
— Tenho docas em Acapulco — afirma Damien.
Mas ele sabe aonde o velho quer chegar. As docas são úteis para a chegada de químicos, porém, menos valorosas para despachar drogas. O porto do Pacífico só lhe dá acesso à costa dos EUA; a viagem é lenta, de difícil manejo e arriscada. Pelo mar, é possível deslocar maconha, despejando fardos no oceano, próximo à Califórnia, onde os barcos irão recolher, mas baseado não dá mais lucro.
Ele precisa do comércio de heroína para tomar Sinaloa, e Caro está certo: eles o isolaram da infraestrutura de transporte e mercado.
— Alguns dos velhos amigos de seu pai estão transportando heroína em ônibus que saem de Tristeza — diz Caro.
Damien sabe. Os Guerreros Unidos se tornaram clientes de Sinaloa. Ele não pode condená-los, eles precisam sobreviver, têm que comer.
— E se eles levassem o produto para você também? — pergunta Caro.
— Não farão isso — responde Damien. — Os irmãos Rentería estão na mão do Núñez.
— Talvez eles queiram sair.
Damien sacode a cabeça.
— Eu já fiz uma abordagem.
Os Rentería são antigos amigos de seu pai, trabalharam para ele durante anos, lutaram por ele contra Adán. Depois da morte de Diego, eles ficaram com Eddie Ruiz. Damien os conhece desde que era criança. Mas quando tentou abordá-los, para que o ajudassem, eles o rechaçaram.
— Uma coisa é você abordá-los — diz Caro. — Se eu o fizer, é outra coisa.
A cidade de Tristeza fica na rota 95, perto da fronteira nordeste do estado de Guerrero, onde faz divisa com Michoacán e Morelos. Uma cidade antiga, fundada em 1347, ela tem história. Foi ali que oficialmente terminou a Guerra Mexicana pela Independência, ali que a primeira bandeira do México foi hasteada.
É uma bela cidade, conhecida por seus pés de tamarindo, suas igrejas
neoclássicas e o lago, que fica na periferia.
Damien segue um carro percorrendo a Bandera Nacional, depois vira à
esquerda na rua Alvarez.
— Pra onde estamos indo? — pergunta Fausto. — Não sei — responde Damien. — El Tilde só disse para segui-lo. — Não estou gostando.
— Apenas fique com a arma pronta.
Tilde encosta o carro de frente para a Central de Autobuses. — Uma rodoviária? — pergunta Fausto.
— Acho que sim — diz Damien, saindo do carro. Ele põe um boné preto
de beisebol na cabeça, porque o sol está quente. Ele está de camisa preta, jeans e Nikes, com uma Sig Sauer.380 fazendo um ligeiro volume por baixo da camisa. Fausto não vai ficar de bobeira com uma arma pequena, e pega uma MAC-10 no banco traseiro, embora essa supostamente seja uma reunião amistosa.
El Tilde desce de seu carro, com um grande sorriso no rosto, os braços
estendidos em acolhimento.
— ¡Bienvenidos, todos! Há quanto tempo! Cleotilde “El Tilde” Rentería era outro dos guarda-costas do pai de
Damien, que depois seguiu com Eddie. A história de Tilde é que uma vez, ele matou vinte turistas em Acapulco, achando que fossem membros de uma gangue rival. Não eram, mas a resposta de Tilde foi algo do gênero “melhor prevenir que remediar”.
Depois que Eddie partiu, Tilde e alguns outros das organizações Tapia e
Ruiz formaram seu próprio negócio — Guerreros Unidos — e agora os dois irmãos de Tilde, Moisés e Zeferino, comandam a organização com ele.
Damien nota que Tilde está vestindo uma camisa pólo listrada em azul e
amarelo, com calças de sarja, que remete às antigas regras de Eddie, quanto a seu pessoal estar sempre trajado com capricho. Agora, ele se aproxima e abraça primeiro Damien, depois Fausto.
— É uma coisa linda: esses ônibus partem daqui pra todo lado.
Guadalajara, Culiacán, Cidade do México. De quanto nós estamos falando?
— Agora, quinze quilos — diz Damien. — Depois, talvez mais. Eu
tenho o produto, só preciso tirá-lo de Guerrero. Vim até você primeiro, por respeito.
Tilde não quer saber como Damien botou as mãos nesses quinze tijolos de pasta de heroína, embora ele faça ideia. Um dos empacotadores de Ricardo Núñez, em Guerrero, tomou um sacode, uma semana antes, por dez homens encapuzados portando fuzis AK-47 — quinze quilos foram levados —, e Núñez não está contente com isso.
Se Núñez soubesse, estaria cuspindo marimbondos.
Então, ele começaria a matar.
Melhor que ele não saiba.
E melhor que eu não saiba, pensa ele, olhando Damien. Portanto, ele não pergunta. É melhor manter a negação, embora ele tenha sugerido fortemente para Núñez que Los Rojos estavam por trás do ataque.
Foda-se o Núñez.
Foda-se Sinaloa.
Embora eles já estivessem fazendo um bom trabalho em foder uns aos outros, pensa ele. As alas Esparza e Sánchez estão detonando em Baja, pendurando corpos em pontes, ou espalhando os pedaços pelas ruas.
Núñez não terá como se manter neutro para sempre.
— Nós levaremos pra você.
— Vocês não têm medo de Sinaloa? — pergunta Damien.
— O que Sinaloa não sabe, não sabe — diz Tilde. — Aqueles babacas que se fodam. Isso fica entre nós, certo?
— Com certeza.
— Você é um bom garoto — diz Tilde.
Filho de seu pai.
— Olhe os seus meninos, Ric — diz Belinda Vatos. — Eduardo é o cabeça de seu negócio, Iván também. Até o Damien agora tem o próprio comércio.
— O que está dizendo? — pergunta Ric.
Ele voltou de Guerrero e está no apartamento dela, em La Paz.
— Nenhum deles é afilhado de Adán Barrera — afirma Belinda. — Está tudo aí pra você, e você fica sentado, batendo punheta.
— O que você quer que eu faça? — pergunta Ric.
— Seja um soldado — diz ela. — Torne-se o general de seu pai. Então, quando ele se aposentar, o trono é seu. Isso também é o que ele quer.
— Eu sei.
— Sabe, mas não faz merda nenhuma — diz ela. — Seu pai precisa de
você.
— Quem sou eu agora? Michael Corleone?
— Você tem que molhar o pau, Ric — diz ela. — Tem que comer a
magricela.
— Eu, eu nunca…
— Não se preocupe, eu ajudo você a perder o cabaço. Baja inteira está um caos total. Nem tanto pelas travessias na fronteira,
mas pelas vendas domésticas de drogas e pelas extorsões. Mas para controlar a fronteira, são precisos soldados, e para pagar soldados, é preciso lhes dar franquias nos bairros, onde eles possam traficar e extorquir os bares, restaurantes, supermercados.
Tudo costumava ser bem organizado sob o monopólio de Sinaloa, mas
agora vale tudo — de uma quadra para a outra, de um dia para o outro, em La Paz, Cabo, Tijuana, qualquer lugar — não se sabe se é Sánchez ou Esparza, Núñez ou piraterías, se é gente independente se aproveitando do caos para se dar bem, sem pagar taxas a Sinaloa. Os traficantes de esquina não sabem para quem estão trabalhando, os negociantes não sabem a quem pagar.
Belinda vai lhes dizer.
Então, Ric entra em um carro com Belinda, Gaby e dois de seus garotos,
Calderón e Pedro, e eles seguem até o Wonder Bar, na Antonino Navarro, não muito distante da marina. Ele segue Belinda até o bar, onde ela adentra o escritório e confronta o gerente, um jovem chamado Martín.
— Seu pagamento está vencido — diz Belinda. — Eu já paguei — responde Martín.
— Quem? — pergunta Belinda. — A quem você pagou? — Monte Velázquez. Ele disse que agora recolhe o dinheiro. — Monte não está com a gente — diz Belinda. — Ele falou…
— O quê, Adán Barrera morreu e agora qualquer um pode ser dono? —
questiona ela. Ela aponta para Ric. — Sabe quem é esse?
— Não. Desculpe, eu não…
— Esse é Ric Núñez.
Agora Martín parece assustado.
— Ric — diz Belinda —, Monte Velázquez trabalha com a gente? — Não.
— Mas ele falou…
— Você está dizendo ao Ric — pergunta Belinda — que ele não sabe quem trabalha com o próprio pai?
— Não, eu…
— E está nos dizendo — pergunta Belinda — que Monte lhe falou que estava com Sinaloa? Sério, Martín?
— Eu lamento, eu só…
— Não lamente — diz Belinda —, apenas pague o nosso dinheiro.
— Eu já paguei!
— É, ao cara errado — insiste Belinda. — Olhe, Martín, se você cometeu um erro, o erro é seu, não nosso. Você ainda nos deve dinheiro.
— Eu não tenho.
— Não tem? — pergunta Belinda. — O que há no cofre, ali, Martín?
— Não tenho como pagar duas vezes.
— Então, pague a nós e não pague ao Velázquez.
— Ele disse que ia tacar fogo no local — conta Martín. — Disse que me mataria, mataria meus funcionários, minha família…
Então, Ric vê que Martín tem mais culhão do que ele imaginou.
— Eu pago vocês por proteção — diz Martín —, para me proteger. Onde diabo vocês estavam, quando Velázquez e seus caras vieram aqui?
Ric acha que Belinda vai dar um tiro na cara de Martín, mas ela também o surpreende. — Você tem razão. Nós deveríamos estar aqui, mas não estávamos. Isso acaba hoje à noite. Está vendo Ric Núñez, afilhado de Adán Barrera, bem aqui, para lhe dar garantias. Não é mesmo, Ric?
— Isso mesmo.
— Isso mesmo — repete Belinda. — O que você vai fazer, Martín, é abrir esse cofre e nos dar nosso dinheiro. Em compensação, você tem a garantia pessoal de Ric Núñez de que ninguém mais irá incomodá-lo. Isso inclui o lambioso do Monte.
Martín ergue os olhos para Ric.
Ric assente.
Martín levanta, abre o cofre, conta o dinheiro e o entrega a Ric.
— Para mim, não para ele — diz Belinda. — Señor Núñez não toca em dinheiro.
— Claro, desculpe.
— Pedro, aqui, vai voltar toda semana, para o nosso pagamento — diz Belinda. — Se você der dinheiro a mais alguém, nós vamos decepar essas mãos e pregar na porta da frente. Não obrigue o Señor Núñez e eu a voltarmos aqui pra isso, está bem?
Eles vão embora da boate e passam de carro por uma esquina, em um
ponto vazio que o pessoal de Velázquez assumiu. Dois malandros estão ali em pé, claramente traficando crack e heroína. Eles são duas porrinhas, dois garotos, na verdade, pensa Ric. Ainda adolescentes, com casacos de capuz, jeans justos e tênis de basquete.
— São piraterías — diz Belinda. Ela estende a mão pra trás e entrega a
Ric uma MAC-10. — É bem fácil. Apoie o cabo no ombro, deslize isso pra trás e aperte o gatilho.
Ela entrega a pequena metralhadora e pega a dela. Ric vê que Gaby,
Pedro e Calderón estão todos fazendo o mesmo. Pedro, dirigindo, aperta o botão que abre todas as janelas.
— Hora da festa — anuncia Belinda.
— Não deveríamos avisá-los, primeiro? — pergunta Ric. — Como
fizemos com o dono da boate?
— Esses merdinhas nãos nos dão dinheiro — diz Belinda. — Eles nos
custam dinheiro. Seu dinheiro, Ric. E há lições que precisam ser ensinadas. Apenas aponte pra fora da janela e solte o dedo. Você vai adorar; é que nem transar, só que faz gozar toda vez.
Gaby ri.
— Vamos nessa — diz Belinda.
Pedro vira o carro, segue de volta à esquina. As armas estão todas para
fora das janelas, como espetos de um porco-espinho.
Belinda berra:
— Agora!
Ric aponta a arma para um dos garotos, depois desvia para o alto e
aperta o gatilho. A arma dispara veloz, em série. Ric vê o corpo do garoto dar um espasmo, depois cambalear e cair, e ouve Belinda e o restante gargalhando.
As pessoas na rua saem correndo.
Pedro contorna novamente com o carro.
— O que vamos fazer? — pergunta Ric.
— Demarcar o seu território — diz Belinda.
O carro para na frente dos corpos encolhidos como lixo. Gaby pega um
pedaço grande de papelão na traseira, Belinda pega uma lata de tinta spray vermelha.
— Venha — ela diz a Ric.
Ric desce e vai atrás delas, até os corpos.
Olhando abaixo, para os meninos, ele fica surpreso ao ver que o sangue parece mais preto que vermelho; depois, ele olha para o lado e vê Gaby indo até o outro corpo, com uma machadinha, e decepando os dois braços. Depois disso, ela põe o papelão em cima do corpo mutilado. Belinda se curva e escreve a mensagem com spray: Traficou aqui, perdeu a mão. Isto é território Sinaloa — Mini-Ric, El Ahijado.
O afilhado.
— O trabalho não terminou — diz Belinda —, até que seja feita a papelada.
— Meu Deus, Belinda!
— Isso não é prova de nada — diz Belinda. — Tranquilo.
Eles entram de volta no carro e vão embora.
Mais adiante, em outra boate, perto da marina, Belinda pede uma garrafa de Dom, serve uma taça para todo mundo e faz um brinde:
— A Ric, que perdeu seu cabacinho.
Ric bebe.
Ela se aproxima e cochicha:
— Amanhã você será famoso. Você será alguém. Seu nome estará nos jornais, nos blogs, no Twitter…
— Está bem.
— Vamos, benzinho — diz ela. — Diga a verdade: foi bom, não foi? Não foi uma sensação boa? Eu até gozei, porra.
— E agora, o que acontece?
— Agora a gente pega o Monte Velázquez.
O filho da puta arrogante está morando em um iate motorizado, em um ancoradouro da marina.
— Ele gosta de pescar — diz Belinda. — E também gosta de boceta.
— Quem não gosta? — pergunta Gaby.
— O que pescar e foder têm em comum — diz Belinda, apontando para Gaby — é a isca.
Ric precisa admitir que Gaby é bem gostosa. De top de alcinhas, minissaia, salto alto, os cabelos negros tremulando, lábios grossos brilhosos — o sonho erótico de qualquer narco. Ela segue meio cambaleante pela doca, como uma garota farrista meio altinha, para e tira os saltos, depois continua andando em direção ao barco de Monte.
Quando chega ao ancoradouro, ela chama:
— Jandro?! Benzinho?! Jandro?!
Alguns segundos depois, Monte sai no deck, a pança caindo por cima da
bermuda.
— Está tarde, chica. Você vai acordar as pessoas. — Estou procurando o Alejandro — diz Gaby. — Homem de sorte, o Alejandro — responde Monte. — Mas este não é
o barco dele.
— De quem é esse barco?
— Meu. Gostou?
— Gostei.
— Esse Alejandro — pergunta Monte —, ele é seu namorado? — Só um amigo — diz Gaby. — Com benefícios. Eu estou com tesão. — Eu posso lhe dar benefícios.
— Você tem vodca? — pergunta Gaby.
— Claro.
— Vodca boa?
— A melhor — afirma Monte.
— E coca?
— O suficiente pra cobrir meu pau inteiro — diz Monte. — Você tem um pau grande?
— Bem grande pra você, mamacita — diz Monte. — Sobe aqui e venha
ver.
— Está bem.
Que facilidade, pensa Ric.
O cara nem ouve quando eles entram a antessala do barco, de tão focado
que está em transar com Gaby. Belinda se aproxima e finca uma agulha em seu pescoço.
Quando Monte volta a si, ele está amarrado a uma cadeira, os pés dentro
de uma bacia.
Belinda está sentada à sua frente.
— Você anda dizendo aos outros que está com Sinaloa. — Eu estou com Sinaloa — responde Monte.
— Com quem, especificamente? — pergunta Belinda. — Diga um
nome.
— Ric Núñez.
Belinda ri.
— Tenho más notícias para você, filho da puta. Adivinha quem é esse. Ric, esse cara está com você?
— Eu nunca o vi.
— Dizer aos outros que está com a gente e não estar é uma coisa ruim de fazer — fala Belinda. — Você anda roubando o nosso dinheiro. Tem que pagar por isso.
— Eu vou devolver seu dinheiro, juro.
— É, vai, sim — diz Belinda. — Mas isso não basta, Monte. Primeiro, você vai ter que sofrer.
Gaby vem da copa com uma garrafa.
Que porra é essa? pensa Ric.
— Ácido — explica Belinda. — Hidroclórico, alguma coisa assim? Não sei. Só sei que fode mesmo a pessoa.
— Ai, meu Deus.
Ric acha que vai vomitar.
— Vai derreter seus pés, Monte — diz Belinda. — Vai doer. Mas você vai viver. Para que toda vez que alguém vir você pulando por aí de muletas, vão saber que não é uma boa ideia dizer que estão com Sinaloa, se não estão.
— Por favor — pede Monte. — Não, por favor.
— Não se preocupe — diz Belinda. — Nós vamos deixá-lo na porta do pronto-socorro.
Ela assente para Gaby.
Gaby despeja o ácido.
Ric vira o rosto.
Mas ele ouve o grito — agudo, terrivelmente alto, um som inumano, um som que não pode estar saindo de um ser humano. Ele ouve a cadeira pulando no chão de madeira, depois o vômito sobe em sua garganta, ele se curva e vomita.
Quando ele ergue o olhar, o pescoço de Monte está arqueado como se fosse quebrar, seu rosto está vermelho, os olhos esbugalhados.
Então, ele para de gritar e a cabeça pende.
— Merda — reclama Belinda. — Ele apagou.
— Carboidratos — diz Gaby. — E todo aquele álcool.
— E agora? — pergunta Belinda.
— Comida de tubarão? — sugere Gaby.
Belinda tem uma ideia melhor.
De manhã, o resto do pessoal ancorado na doca acorda e se depara com
um quadro e tanto.
Monte Velázquez nu, pendurado de um mastro por uma corda, com um
grande cartaz pendurado no pescoço que diz:
“IÇAR ÂNCORA, PIRATERÍAS — EL AHIJADO” O vídeo viraliza.
Ric ganha reputação e um nome.
El Ahijado.
O afilhado.
O ônibus está na garagem de manutenção, a uma quadra da rodoviária de Tristeza.
Damien olha o mecânico cuidadosamente colocar o tijolo de pasta de
heroína, o último dos quinze, bem embrulhado em tecido, no fundo falso do compartimento de bagagem. Depois ele põe a tampa e, utilizando uma ferramenta elétrica, prende bem aparafusado.
Se você não soubesse a diferença, pensa Damien, você não saberia a
diferença.
Satisfeito, ele deixa a estação e caminha ao outro lado da rua. Tilde espera no carro.
— Você está bem?
— Ãrrã.
Por conta de sua amizade com o pai de Damien, Eddie Ruiz o está
pagando nas duas pontas — ele compra a pasta de heroína por um bom preço e o inclui em dois pontos de venda em Nova York, do repasse do produto final.
É bondade de Eddie, pensa Damien, ele não precisa fazer isso. Ele é um bom amigo.
E foi para meu pai.
Eddie Ruiz foi uma das últimas pessoas a verem Diego Tapia vivo.
Deixou o condomínio onde ele estava escondido apenas alguns minutos antes da invasão dos mariners. Tentou lutar para voltar e morrer com ele, mas não conseguiu furar o cerco militar.
Mesmo depois da morte do pai de Damien, Eddie continuou na fé.
Organizou seu próprio negócio, a partir de Acapulco, e manteve a luta contra os Barrera, até que os federais o pegaram e o governo mexicano o extraditou para os EUA.
E agora ele vai continuar lutando de lá.
Mesmo da prisão, pensa Damien.
Com quinze quilos de heroína a caminho de Nova York, eles finalmente poderão entrar na briga pra valer.
Jesús “Chuy” Barajos está procurando tumulto.
Em dezenove anos, ele conheceu pouca coisa além disso na vida. Ele brigou pelos zetas, La Família e novamente pelos zetas, mas agora está em sua própria busca pela única coisa que conhece.
Em um mundo melhor, os filmes que passam por baixo de suas pálpebras seriam longas-metragens, o produto da imaginação de um roteirista e o estilo de um diretor, porém, no mundo de Chuy, eles são documentários; poderiam ser chamados de lembranças, só que não fluem como recordações e sim como nacos fragmentados, flashes de surrealismo que são reais demais.
Mostram corpos esfolados e cabeças decapitadas.
Crianças mortas.
Cadáveres mutilados, outros queimados em tonéis de cinquenta litros, e as lembranças residem em seu nariz, assim como em seus olhos. E em seus ouvidos, já que ele ainda ouve — não consegue parar de ouvir, na verdade — os gritos, as súplicas por piedade, o riso agudo e assustador que às vezes era o seu próprio.
Ele foi o causador de alguns desses horrores, mera testemunha de outros, embora já mal saiba a diferença — ele parou de tomar seus medicamentos meses atrás e agora a psicose está se despejando de novo sobre ele, como uma onda vermelha, se aprofundando, incontrolável, impenetrável.
Esse é um garoto que um dia cautelosamente escavou e arrancou o rosto de um homem que o havia torturado, costurou a uma bola e ficou chutando contra uma parede.
Cruelmente, ele tem noção de si apenas o suficiente para saber que é um monstro, mas não o bastante para escapar de sua jaula de monstro.
Seu corpo reflete a agonia de sua mente — seus movimentos são espasmódicos, estranhos, parecem desconexos do resto de seu corpo. Sempre magro, ele agora parece mais definhado, esquecendo-se de comer ou devorando porcarias em rompantes vorazes.
Ele vagueia pelo país, um Don Quixote sem sequer seus oponentes
imaginários. Sem causa, sem propósito, sem objetivo, ele se junta com outros perdidos, viaja por um tempo, com um bando, até que sente — corretamente — que os outros já não conseguem suportar sua insanidade, sua mendicância e pequenos furtos, sua violência incipiente, e ele sai vagueando outra vez.
Agora ele está em Guerrero.
Na cidade de Tixtla, no campus da Ayotzinapa Rural Teacher’s College,
cujos alunos estão ávidos por uma briga.
Chuy não sabe por que eles estão brigando, só sabe que estão se
reunindo para seguir rumo à capital e protestar por algo, e eles têm bagulho e eles têm cerveja e eles têm belas garotas e eles têm um ar de normalidade juvenil que ele desesperadamente quer e, ao mesmo tempo, sabe ser inalcançável.
Ele é atraído ao conflito — é um farol norteador, um facho de luz de
tração do qual ele não consegue mais escapar, nem voar, então fica parado, rodeando “outros alunos”, entoa slogans com empolgação, ouve o plano para aquela noite. Os alunos não têm transporte até a Cidade do México, mas têm uma tradição tolerada pela polícia de “sequestrar” um ônibus público por uma noite.
A estação rodoviária fica perto, em Tristeza.
A prefeita de Tristeza também está com um humor hostil.
Neste fim de semana, Ariela Palomas será anfitriã de uma conferência
de prefeitos e não vai tolerar ser constrangida, nem deixar que sua cidade o seja.
Se os estudantes — notoriamente esquerdistas, a ponto de serem
comunistas ou anarquistas — vieram até Tristeza para fazer depredações, ela vai ensinar-lhes uma lição que não se aprende na universidade, com os professores simpatizantes do socialismo que bajulam os queridinhos.
Alguém precisa se impor pela lei e pela ordem, ela diz ao chefe local da
polícia federal. Alguém precisa defender os direitos de propriedade, ela diz ao comandante do posto próximo do exército, e se os palermas donos da empresa de ônibus forem brochas demais para fazê-lo, ela fará por eles. Louco de cerveja e baseado, ele acompanha a aglomeração com cerca de
Ela dá ordens firmes e claras à polícia municipal: se alunos sequestrarem um ônibus, eles devem ser tratados como os criminosos que são.
Há um novo xerife na cidade.
Ariela Palomas não vai tolerar a ilegalidade.
Keller está sentado à mesa de jantar, olhando o telefone, torcendo para que ele toque.
Ele ouviu de Orduña que Chuy foi visto novamente e que seu pessoal está indo a seu encontro.
— Eles vão buscá-lo — diz Marisol.
— Eu espero que sim — responde Keller.
Ele tem bons motivos para ter esperança. O pessoal de Orduña é o melhor que o México tem a oferecer, eles são bons pra cacete. O almirante despachou uma esquadra à paisana, rumo ao campus, em busca de Chuy. Eles vão pegá-lo e ficar com ele, depois vão avisar o chefe, que vai ligar para Keller.
E depois? pensa Keller.
O que faremos depois que estivermos com ele?
Não podemos deixá-lo no México, ele vai simplesmente partir de novo. Então, nós o trazemos pra cá? Ele é cidadão americano, portanto, isso não seria problema. O problema é que… bem, os problemas são… assustadores, talvez intransponíveis.
O que fazemos com um esquizofrênico de dezenove anos? Que já matou, torturou, mutilou? Um ser humano tão danificado que está além de conserto. Keller sabe o que seu velho amigo, Padre Juan, teria dito: Ele é um ser humano, não um automóvel. Talvez esteja além da possibilidade de conserto, mas não está além da redenção.
Mas a redenção é para esta vida, ou para a próxima? Keller se pergunta.
É com esta vida que nós temos que lidar, e o que se faz com um Chuy Barajos, nesta vida?
— Talvez ele consiga o tratamento de que precisa aqui — diz Marisol.
— Talvez — diz Keller.
Mas primeiro nós temos que encontrá-lo.
Toca, porcaria.
Chuy está se divertindo a valer.
cem alunos, no ataque à estação rodoviária de Tristeza. Um boné por cima dos cabelos longos, uma bandana vermelha cobrindo o rosto, ele entoa o cântico e avança em direção a um ônibus.
O motorista abre a porta e deixa os estudantes entrarem. Ele está irritado, mas não assustado. Isso não é incomum — os alunos
levam o veículo e o motorista a seu destino, protestam por algumas horas, depois fazem a viagem de volta. Embora seja um pé no saco, nem os ônibus, nem os motoristas jamais foram afetados, e a empresa disse aos funcionários para colaborarem. É mais fácil, mais barato e mais seguro do que resistir, e os alunos geralmente pagam o jantar do motorista, e até algumas cervejas.
Chuy embarca e senta ao lado de uma bela garota. Assim como ele, ela também está de boné e bandana, mas seus olhos
são lindos, seus cabelos compridos são brilhosos, seus dentes brancos, quando ela canta os slogans que Chuy não entende, mas cantarola junto.
Os alunos sequestram cinco ônibus; dois deles seguem pela rota sudeste
saindo da cidade. O ônibus de Chuy é o primeiro, em uma fila de três que seguem a rota nordeste.
Tudo é bom.
Uma viagem pela estrada, uma excursão.
A garotada brinca e ri, canta e entoa, passa um ou dois baseados, uma
cervejinha, um pouco de vinho.
Chuy está adorando.
Ele nunca chegou nem ao Ensino Médio.
Já era um assassino, aos onze anos.
Agora ele tem a chance de compensar por toda a diversão que perdeu.
Tilde está ao telefone com um de seus irmãos.
— Estou no centro da cidade — diz Zeferino. — Houve um problema. — Sempre há — diz Tilde. — O que é desta vez? — Alguns estudantes pegaram o ônibus.
Tilde fica imaginando por que seu irmão acha problema em alguns
estudantes terem pegado um ônibus e, diz isso.
— Não — insiste Zeferino —, eles pegaram aquele ônibus. — Merda — diz Tilde. — Por que você não os impediu?
— Eram cem deles — responde Zeferino. — O que eu deveria fazer, sair correndo abanando os braços e dizendo “Vocês não podem levar esse ônibus, ele está cheio de chiva!”?
— Você deveria ter feito alguma coisa — diz Tilde.
Porque isso é realmente um problema.
Um problema do caralho.
Um bando de estudantes está com um ônibus não apenas recheado de heroína, mas com a heroína de Sinaloa, a heroína desaparecida de Ricardo Núñez, e ele vai ficar imaginando que diabo isso está fazendo em um ônibus dos Guerreros Unidos.
E Ariela vai soltar os bichos.
— O que você quer que eu faça? — pergunta Zeferino.
Não sei, pensa Tilde. O que você faz, quando algo é roubado?
Você chama a polícia.
O telefone enfim toca.
Marisol olha assustada.
— Pois não? — diz Keller.
— Nós o perdemos — fala Orduña. Ele explica que um punhado de estudantes sequestrou alguns ônibus em Tristeza e que Barajos provavelmente está em um dos ônibus com eles.
Keller não entende.
— Sequestraram ônibus?
— É quase uma tradição — diz Orduña. — Eles sempre fazem isso, para chegar aos protestos. Esse é na Cidade do México.
— Meu Deus.
— É um trote de estudantes — diz Orduña. — Eles vão, se divertem protestando, e voltam. Meu pessoal estará na estação, e nós vamos pegá-lo.
— Está certo.
Orduña ouve o tom de preocupação.
— Olhe, não se preocupe. Isso é, como se diz, “mais um dia normal”.
Primeiro, os estudantes acham que são fogos de artifício.
Algum tipo de comemoração, ou bombinhas de festa.
Chuy não é bobo.
Ele conhece o som de armas de fogo.
O pequeno comboio de três ônibus acabou de entrar no anel viário que
sai da cidade. Chuy olha pelo vidro traseiro e vê a viatura policial vindo atrás deles.
Mais estalidos.
A menina a seu lado — ela falou que seu nome é Clara — grita. — Não tenha medo — Chuy diz a ela. — Eles estão atirando pra cima. O motorista quer encostar, mas um estudante chamado Julio, um dos
líderes, um verdadeiro agitador, o manda seguir em frente. Deixe que eles atirem no ar, isso é só pra se exibir, para fugir da humilhação.
A garotada começa a cantar mais alto, para abafar o ruído. Então, Chuy ouve o tilintar seco de metal atingindo metal — balas
acertando o ônibus. Ele olha pelo para-brisa e vê uma viatura bloqueando a estrada.
O comboio para.
Damien acha que vai vomitar.
— Como você deixou isso acontecer? — ele pergunta, ao telefone. —
Como você deixou essa merda acontecer?!
— Nós vamos pegar de volta — diz Tilde.
— Como?
— Não se preocupe — diz Tilde. — Estamos cuidando disso agora.
— Não deixem que eles nos parem! — grita Eric.
Chuy vai atrás dele, para fora do ônibus. Ele e mais dez correm até a
viatura e tentam erguê-la por trás, para tirá-la do caminho.
Um policial sai do carro.
Chuy engatinha por trás dele, estende a mão e tenta pegar sua arma. O
policial gira e dispara.
A bala atravessa o braço de Chuy.
Ele sente a dor, mas é desconectada, apenas mais um filme, conforme
ele rola para debaixo do carro para se proteger, porque os policiais na lateral da estrada agora abrem fogo para cima deles, com fuzis.
Julio cai no chão e rasteja para o meio do mato. Chuy se ergue e corre de volta em direção ao ônibus. Um garoto
correndo na frente dele é atingido na cabeça e cai no chão. Outro garoto sai do ônibus para tentar ajudá-lo, mas leva um tiro na mão e cai de joelhos, perplexo, olhando os cotocos que sobraram de três dedos.
Chuy passa reto por eles e entra no ônibus.
Agora os garotos estão berrando.
Eles nunca haviam sido alvejados.
Chuy, já.
— Abaixem! — grita ele. — No chão!
Ele rasteja até Clara, a empurra ao chão e deita em cima dela. Um garoto agacha no chão e fala ao celular, chamando uma ambulância.
— Nós temos que sair daqui — diz Chuy.
Clara não escuta — ela está gritando sem parar. Bolhas de espuma saem de sua linda boca. Chuy sai de cima dela, pega sua mão e a puxa, arrastando pelo chão, agora escorregadio de sangue, indo até a porta traseira. Ele abre a porta e consegue puxá-la para fora; eles caem para o chão e, usando o ônibus como cobertura, Chuy puxa Clara ao outro lado da estrada e deita colado no chão.
Para conter os gritos dela, ele cobre sua boca com a mão.
Ouve seu choramingo.
Então, ele ouve o barulho da sirene de uma ambulância.
O celular de Ariela está vibrando em sua bolsa, mas ela ignora.
Seu jantar está sendo um triunfo, seus convidados saciados com comida gourmet e bom vinho, e agora eles estão começando a comer a sobremesa, antes do café e do conhaque.
A noite irá transformá-la em uma estrela política.
O aparelho para de tocar e depois recomeça.
São vários ciclos assim, até que ela pede licença da mesa e caminha até o corredor.
É Tilde, e ela fica irritada.
— O quê?
A polícia para os dois ônibus na rota sudeste.
Estoura o para-brisa e lança gás lacrimogêneo para forçar os estudantes a sair. Alguns fogem, os guardas cercam o restante e os arrasta até as viaturas.
Chuy ouve passos, mas não ergue o olhar, torcendo para que seu boné preto possa escondê-lo.
Então, a lanterna brilha em seus olhos.
— Levanta — diz o guarda, atracando-o pelo cotovelo, arrastando-o
para colocá-lo de pé.
Outro guarda atraca Clara.
Chuy olha em volta. Os policiais estão fazendo uma varredura na lateral
da estrada, atracando os meninos — batendo neles, chutando, puxando para dentro dos carros. Mas ao menos os tiros pararam, e uma ambulância está estacionada ao lado do primeiro ônibus, com suas luzes vermelhas piscando no rosto de Chuy, enquanto os paramédicos tiram os alunos feridos.
Um policial lhe dá uma bofetada.
— Eu não fiz nada — diz Chuy.
— Você me sujou de sangue, pinche pendejo. Ele empurra Chuy até o banco traseiro de seu carro. Clara é empurrada ao seu lado.
Seis viaturas levam os estudantes até a delegacia de Tristeza. — Vai ficar tudo bem — Chuy diz a Clara.
A polícia não mata ninguém na delegacia.
Ariela vai para seu escritório para controlar a crise.
Agora, o que se sabe é que houve um “incidente” envolvendo estudantes
sequestrando ônibus e que foram feitos disparos. Várias pessoas foram levadas a uma clínica de emergência.
Ela fala com seu chefe de polícia, que confirma que seus policiais
dispararam contra os estudantes, “após provocações”. A maioria dos estudantes escapou, mas cerca de quarenta — ele ainda não tem certeza — estão detidos.
Ariela liga para Tilde.
— Nós não podemos nos aproximar do ônibus — diz ele. — Ele ainda
está na estrada. Alguns dos estudantes voltaram. Professores da faculdade. Jornalistas.
— Você precisa chegar àquele ônibus.
— Eu sei.
— E jornalistas? — pergunta ela. — Isso não pode acontecer. Ela não vai aceitar — não pode aceitar — reportagens se solidarizando
com os universitários idealistas e brutalizados em sua cidade. Mas se jornalistas enxeridos encontrarem a heroína no ônibus, aí já é uma história inteiramente diferente. E isso, apenas em termos públicos — se Sinaloa fizer a ligação entre eles e a carga de heroína, haverá uma guerra antes que ela esteja pronta.
Portanto, duas histórias, pensa ela: uma para o público, outra para o mundo narco. Em uma, estudantes radicais sequestram alguns ônibus e depois atacam policiais que estão tentando fazer seu trabalho. A polícia se defende — infelizmente, alguns estudantes saem feridos. Mas a culpa é dos estudantes, não da polícia.
A segunda história vai para Núñez — alguns dos alunos eram aliados de — ou, ao menos, usados por — Los Rojos e levaram os ônibus com a ideia equivocada de que havia um carregamento de Sinaloa neles, naquela noite.
Essa é a história que ela conta a Núñez.
A história que ela conta a seu próprio pessoal.
Keller pôs o celular para vibrar, para que não acorde Mari, embora ele duvide que ela esteja dormindo. Ele fica com o aparelho à mão, para ouvi-lo vibrar, enquanto fica sentado na poltrona e tenta ler as solicitações de comutação.
Ele reflete que ele e Althea estavam divorciados quando os filhos eram adolescentes, ela e as crianças morando mais nos EUA, ele no México, portanto, ele nunca ficou acordado dessa forma, esperando um carro encostar na entrada da garagem, a porta abrir, os passos adentrarem a casa.
Nem sentou esperando o telefone tocar, torcendo para que fosse seu filho lhe dizendo que ele ou ela estava bem, sem perceber que seu sentimento é bem mais de alívio do que de raiva. Apenas rezando para que a ligação não seja da polícia.
Tudo isso recaiu sobre Althea.
Eu deveria ligar para ela e me desculpar, pensa ele. Eu deveria ligar para ela e me desculpar por muitas coisas.
Não, ele diz a si mesmo, é para os seus filhos, ambos já adultos, que você deveria pedir desculpas. A dura verdade é que você dispensou mais cuidados a Chuy Barajos do que a eles, e não se admira que eles sejam literalmente estranhos. E não adianta dizer a si mesmo que eles estão bem — eles estão bem apesar de você, não por sua causa.
O celular vibra na mesinha de canto.
Keller o atende e ouve Orduña dizer:
— Aconteceu uma coisa.
Uma viatura entra no estacionamento da delegacia de Tristeza.
Um policial sai e Chuy o ouve dizer:
— Você não pode trazê-los pra cá.
— Por que não?
— O chefe disse. Leve-os para Loma Chica.
— Por que Loma Chica?
— Não sei. Apenas leve-os para lá.
Os carros saem novamente e seguem até a subestação de Loma Chica,
na periferia nordeste da cidade.
O carro de Tilde, um Land Rover branco, segue devagar e passa pelo ônibus. Agora, deve haver cerca de cem pessoas no local — estudantes, professores, jornalistas —, perambulando, tirando fotos, examinando os buracos de bala no ônibus.
— Não podemos nos aproximar — diz Tilde.
— Se acha que eu vou perder um milhão de dólares em heroína, você
está maluco — afirma Fausto. — Dê meia-volta.
— O que você vai fazer?
— Tirar aquelas porras de perto daquele ônibus — diz Fausto. — Pare o
carro.
Tilde encosta e Fausto desce.
— Venha.
Dois outros caras saem do banco traseiro.
Eles ficam do lado de fora do carro, miram os AKs e abrem fogo. Dois
estudantes caem mortos, outros ficam feridos.
A multidão ao redor do ônibus corre.
— Vamos — diz Fausto.
Ele trota até o ônibus. Enquanto os outros dois disparam para o ar, ele
desparafusa a tampa que cobre o compartimento de bagagem e tira os tijolos de pasta de heroína.
Alguns minutos depois, Tilde liga para Damien. — Está com a gente. Seguirá em outro ônibus que partirá pela manhã. Então, ele liga para Ariela e lhe conta.
— E os estudantes? — pergunta ela.
— O que têm eles?
— Quem sabe o que eles viram naquele ônibus? — pergunta ela. —
Quem sabe que histórias vão contar?
— São apenas garotos — diz Tilde. — Estudantes.
— Não são apenas garotos — retruca Ariela. — Eles são Los Rojos.
— Conversa fiada.
— É verdade — insiste Ariela. — Los Rojos estão usando os alunos para nos atacar. Não podemos deixar que isso aconteça.
— O que você está dizendo?
— Eu estou dizendo que essa lambança é sua, Tilde. Trate de limpar.
Ela desliga.
Keller pousa o celular.
— Orduña diz que a polícia pegou alguns garotos e os levou para a delegacia — ele conta a Mari. — O pessoal dele foi até a delegacia de Tristeza, mas eles não estavam lá. Eles ouviram falar que levaram alguns deles para Loma Chica…
— O que é isso?
— Uma cidade próxima — diz Keller. — O pessoal de Orduña vai até lá.
— Eles acham que Chuy está…
— Eles não sabem — responde Keller. — Eles não sabem muita coisa. Parece que a polícia de Tristeza parou os ônibus, houve disparos, os garotos foram retirados dos ônibus…
— Quantos garotos?
— Eles não sabem — diz Keller. — Quarenta? Cinquenta?
— Meu Deus. E alguém foi ferido?
— Mari, eles não sabem — repete Keller. — Olhe, o pessoal de Orduña é muito bom. Quando chegarem a Loca Chica, eles vão assumir, e a polícia local não vai poder impedir. Eles vão juntar os alunos, vão mantê-los em segurança.
O veículo para.
Um policial sai abanando as mãos.
— Aqui, não! Vá para Pueblo Viejo.
— Mas isso é no meio do nada, porra! — o motorista grita em resposta.
— Ordens.
O comboio sai novamente, segue pela rota 51, que margeia a periferia nordeste da cidade, depois sobe rumo a Del Jardín, em direção à isolada vila de Pueblo Viejo, no pé da serra.
Chuy encosta o rosto no vidro.
Começa a chover.
Uma gota bate no vidro e escorre.
Chuy tenta limpar, como se fosse em seu rosto.
Alguns professores recolhem os alunos feridos no segundo ataque ao ônibus e os levam a uma clínica de emergência, mas não há médicos de plantão.
Ligam para pedir ajuda, mas ninguém vem.
Um professor vai lá fora e grita para os soldados que estão em pé, do
outro lado da rua, mas nenhum deles se mexe.
Os corpos de dois alunos mortos estão na chuva.
A porta do carro é aberta e o policial puxa Chuy para fora.
Depois Clara.
Ele fica ali e olha em volta, enquanto os guardas tiram alunos das outras
viaturas e deixam todos em pé na chuva.
Caminhões se aproximam.
Não são caminhões da polícia, mas veículos de entregas, uma estranha
variedade de veículos.
Um homem sai de uma Land Rover branca e caminha até dois outros
homens. Eles conversam, por um minuto, depois o homem grita algumas ordens e os guardas começam a empurrar os garotos para a traseira dos caminhões.
Chuy é empurrado para dentro de um caminhão de entrega e mal tem
espaço para ficar de pé, muito menos sentar. Ele segura Clara, enquanto mais e mais estudantes são espremidos na traseira do caminhão, mais apertados que gado. Alguns estão gritando, outros chorando, outros perplexos e chocados, em silêncio.
As portas são fechadas.
Absoluta escuridão.
O ar é úmido e quente.
Ele escuta um garoto gritar:
— Não consigo respirar!
Outros esmurram a porta.
Chuy se sente tonto. Ele poderia desmoronar, mas não há espaço e os
outros corpos o escoram.
Um garoto vomita.
Chuy está com tanta vontade de mijar que chega a doer.
Ele dá um tranco, quando ligam o caminhão.
— Para onde os levamos? — questiona Zeferino.
— Para onde se leva o lixo? — pergunta Tilde.
Os paramédicos levam uma hora para chegar à clínica.
A essa altura, mais dois estudantes morreram de hemorragia.
— Eles não estavam lá — diz Keller.
— Como?
— Não estavam em Loma Chica — diz Keller.
— Onde estão eles?
— Ninguém sabe — diz Keller. — Orduña falou que seu pessoal está procurando, mas…
Todos os estudantes desapareceram.
Chuy solta a bexiga. Fica envergonhado de fazer isso na frente da Clara, mas ela nem está notando, pois ele sente o corpo dela desfalecido junto ao seu, inconsciente.
E isso não importa.
O cheiro de urina, merda, suor e medo invade o caminhão.
Isso e a escuridão, e agora ele não precisa fechar os olhos para ver seus filmes, eles preenchem seu cérebro, enquanto ele se esforça para respirar, seu peito estreito apertando, seus pulmões exigindo ar que não há ali.
Eles estão nesse escuro, nesse inferno, pelo que parece uma eternidade, até que, finalmente, as portas são abertas e o ar entra. Dos 22 garotos que estão naquele caminhão, onze já morreram por asfixia.
Clara é um deles.
Eles atiram seu corpo sem vida para fora, como um saco de farinha.
Os tijolos de pasta de heroína são cuidadosamente reembalados em três mochilas. Fausto e seus dois caras entram no ônibus e mantêm as mochilas junto aos pés.
Desta vez, não haverá erros.
O corpo de Eric é encontrado no mato, perto do ataque — o rosto desfigurado, os olhos arrancados, o crânio fraturado, órgãos internos dilacerados.
Ele foi torturado e surrado até a morte.
De quatro, como um animal, Chuy resfolega, tentando respirar.
Tilde chuta sua barriga mais uma vez.
— Los Rojos!
Chuy não sabe do que ele está falando.
— Diga a verdade! — grita Tilde. — Você está com Los Rojos! Chuy não responde. Por que deveria? Por toda a sua vida, ele foi uma
coisa ou outra, e sempre foi a coisa errada.
Isso não é diferente.
Ele ergue os olhos e vê que está em um lixão, ao lado de uma montanha
de lixo, um punhado queimando, mesmo com a chuva.
Os estudantes mortos, asfixiados no caminhão, foram jogados como
lixo.
Os vivos estão ajoelhados ou deitados em posição fetal. Alguns choram, poucos rezam.
A maioria está quieta.
Alguns tentam correr e são metralhados, a maioria fica impassível,
incrédula, quando homens caminham atrás deles e atiram em suas nucas.
Eles caem à frente, de cara na terra.
Chuy espera paciente sua vez. Quando o homem para atrás dele, Chuy
vira, ergue os olhos e sorri.
Torcendo para que isso seja, finalmente, o fim de seus filmes. Mas quando ele vê o cano da arma e o dedo apertando o gatilho, ele
grita:
— Mami!
Ele nem ouve o tiro que o mata.
Keller sabe que o silêncio é agourento.
Ou Orduña não sabe de nada, ou não quer dizer o que sabe. O celular permanece mudo, inanimado.
Mari está lá em cima, acionando seus contatos no México, e até agora, o
que ela descobriu é que seis pessoas estão mortas e 25 estão feridas. Quarenta e três jovens estudantes, provavelmente, incluindo Chuy, estão simplesmente desaparecidos.
Como podem 43 pessoas sumirem assim? pergunta Mari.
Keller sabe bem. Ele viu covas coletivas no México, deixadas pelos zetas, os Barrera e outros. Mais de vinte mil pessoas desapareceram no México, nos dez últimos anos; essas são apenas 43.
Será que isso algum dia irá acabar?
Ele já ligou para Blair e os outros chefes de departamento e disse-lhes que quer todas as fontes empenhadas na localização dos garotos desaparecidos, mesmo sabendo que é provável que eles estejam à procura de cadáveres.
— A polícia simplesmente atirou neles! — disse Mari, com indignação renovada. — Eles pararam os ônibus e abriram fogo! Como puderam fazer uma coisa dessas?! Por quê?!
Ele não tinha resposta.
— E onde estão os garotos desaparecidos? — perguntou Mari.
Mais uma vez, ele não tinha resposta.
Apenas a certeza de que a psique torturada de Chuy Barajos agora está verdadeiramente aquém de conserto, e que sua única esperança é a redenção.
Os irmãos Rentería — Tilde, Zeferino e Moisés — jogam os 43 corpos no monte de lixo. Eles espalham gasolina e diesel por cima, cobrem com madeira, plástico e pneus de borracha, e ateiam fogo em tudo.
Corpos são difíceis de queimar.
Leva o resto da noite e a maior parte do dia seguinte.
Mesmo enquanto os corpos ardem, uma multidão se reúne no gabinete da promotoria pública. Alguns são sobreviventes do ataque, alguns são do corpo docente, outros são jornalistas e cidadãos preocupados.
Alguns são pais. Alguns choram e abraçam seus filhos, aliviados.
Outros não têm a mesma sorte — seus filhos estão mortos ou desaparecidos, e os pais destes últimos fazem apelos ou exigem, desesperadamente, por respostas.
Quarenta e três jovens desaparecidos.
Onde eles podem estar?
Ariela Palomas faz uma coletiva de imprensa.
— Esses alunos são radicais violentos — diz ela — e alguns, eu lamento
relatar, não passam de gângsteres, em associação com o crime organizado que vem aterrorizando este estado. Claro que é uma tragédia quando qualquer jovem é morto, mas eles infringiram a lei, resistiram à prisão e atacaram a polícia.
— Eles pediram por isso? — pergunta um jornalista. — Estas são suas palavras, não minhas — diz Ariela. Quando questionada, ela alega não ter ideia de onde os 43 desaparecidos
podem estar.
— Eles são fugitivos. Provavelmente estão se escondendo.
Os Rentería recolhem os restos e colocam em oito sacos de lixo, que atiram no rio.
Algumas horas depois, os quinze tijolos de pasta de heroína chegam em segurança a Guadalajara. Lá, são processados para virar a “cinnamon” e recondicionados e despachados para Juárez, onde a heroína é abastecida em um trailer com rebocador que é levado ao outro lado da fronteira.
Algumas semanas depois, agentes da SEIDO encontram restos carbonizados no aterro sanitário e sacos plásticos no rio, mas não há como identificá-los como sendo dos estudantes. Mais tarde, naquela semana, manifestantes mascarados ateiam fogo em prédios do governo na capital de Guerrero, Chilpancingo. Dois dias depois, cinquenta mil pessoas marcham na Cidade do México. Acontecem manifestações em Paris, Londres, Buenos Aires e Viena. Alunos da Universidade do Texas, em El Paso, fazem uma vigília e leem os nomes dos estudantes desaparecidos em voz alta.
Em Tristeza, manifestantes incendeiam a prefeitura. A especulação é que Ariela Palomas tenha ordenado o ataque aos
estudantes porque não queria tumultos durante sua conferência de turismo e que, quando a coisa fugiu ao controle, ela acionou seus comparsas dos Guerreros Unidos para fazer uma limpa.
Nenhuma menção da heroína nos ônibus.
Sob uma pressão pública imensa, o governador de Guerrero pede e
recebe uma licença. Na semana seguinte, Palomas é presa, na Cidade do México, e mantida na prisão de segurança máxima em Altiplano. Ela diz que não sabe qualquer informação sobre os estudantes desaparecidos. Como poderia saber? pergunta Ariela. Ela estava em um jantar festivo.
O presidente do México envia 900 federales e 3500 soldados para Guerrero, para manter a ordem.
Os protestos continuam.
A heroína do ônibus chega a um moinho em Nova York, onde Darius Darnell a fraciona em papelotes. Parte dela vai parar no braço de Jacqui Davis.
Dos dois lados da fronteira, pais pesarosos imaginam o que aconteceu a seus filhos.