A fronteira
Epígrafe
E quando se edifica um muro e os profetas o caiam, dize aos que o caiam que ele ruirá.
— Ezequiel 13:10
Prólogo
Washington, D.C.
Abril, de 2017
Keller vê a criança e o cintilar do escopo da arma no mesmo instante.
O garotinho, segurando a mão da mãe, olha os nomes gravados na rocha preta, e Keller fica imaginando se ele está procurando alguém — um avô, talvez, ou um tio — ou se a mãe apenas levou o filho até o Memorial dos Veteranos do Vietnã no fim da caminhada pelo Passeio Nacional.
O Muro fica em uma parte mais reservada do parque, escondido como um segredo constrangedor, uma vergonha particular. Aqui e ali, os pesarosos deixam flores, cigarros, e até pequenas garrafas de birita. O Vietnã aconteceu há muito tempo, em outra vida, e desde então, Keller lutou sua guerra particular.
Não há batalhas gravadas no Muro do Vietnã. Nada de Khe Sanhs ou, Quang Tris ou Hamburger Hills. E Keller pensa que essa ausência de registros seja , por termos ganhado todas as batalhas, mas perdido a guerra. Todas essas mortes por uma guerra fútil. Em visitas anteriores, vira homens debruçados no muro, chorando como crianças.
A sensação de perda é angustiante e esmagadora.
Há cerca de quarenta pessoas ali. Alguns parecem veteranos, outros, parentes dos mortos; a maioria provavelmente é de turistas. Dois homens idosos de quepe usando o uniforme dos Veteranos de Guerras Estrangeiras estão presentes para auxiliar as pessoas a encontrar o nome de seus entes queridos.
Keller está de volta na guerra — contra seu próprio Departamento de Narcóticos, o Senado Americano, os cartéis mexicanos, contra até o presidente dos Estados Unidos.
E são todos a mesma coisa, a mesma entidade. Todas as fronteiras que Keller um dia imaginou que existissem tinham
sido atravessadas.
Alguns querem silenciá-lo, colocá-lo na cadeia, destruí-lo... desconfia
de que querem até matá-lo.
Keller sabe que se transformou em uma figura polarizada,
personificando a fenda que ameaça aumentar e rasgar o país em dois. Foi o estopim de um escândalo, conduziu uma investigação que se espalhou dos campos de papoulas mexicanos até Wall Street, chegando à própria Casa Branca.
É um dia quente de primavera, com uma brisa leve, e as flores de
cerejeira flutuam pelo ar. Sentindo a emoção dele, Marisol pega sua mão.
Keller vê o menino, então — à direita, na direção do Monumento de
Washington — o lampejo estranho de luz. Saltando em direção à mãe e ao garotinho, Keller os leva ao chão.
Ele se vira para proteger Mari.
A bala o faz girar como um pião.
Raspa em seu crânio e faz seu pescoço virar.
O sangue jorra por cima do seu olho, e ele literalmente vê tudo
vermelho, enquanto estende a mão e puxa Marisol para baixo.
A bengala dela cai ruidosamente na calçada.
Keller usa o próprio corpo como escudo para a mulher. Mais balas atingem o Muro logo acima da sua cabeça. Ele ouve berros. Alguém grita:
— É um atirador!
Olhando para cima, Keller procura a origem dos disparos e vê que estão
vindo da direção sudeste, na posição de dez horas — de trás de um prédio pequeno que ele lembra ser um banheiro. Ele apalpa o quadril em busca da pistola Sig Sauer, então lembra que está desarmado.
O atirador aciona a automática.
As balas salpicam a pedra acima de Keller, arrancando lascas dos
nomes. As pessoas estão deitadas no chão ou agachadas junto ao Muro. Algumas, perto das bordas mais baixas, correm em direção à avenida Constitution. Outras apenas ficam paradas, desnorteadas.
Keller berra:
— Todo mundo no chão! É um atirador! Todo mundo no chão! Ao menos mais um, porque os tiros recomeçam. As pessoas cambaleiam e caem.
Mas vê que isso não vai adiantar e que o monumento agora é uma armadilha fatal. O Muro forma um V largo, com apenas duas saídas nas pontas de um caminho estreito. Um casal de meia-idade corre em direção à saída leste, ao encontro do atirador, e é atingido na hora, caindo como personagens de algum videogame horrendo.
— Mari — diz Keller —, temos que sair daqui. Está entendendo?
— Sim.
— Prepare-se.
Ele espera uma pausa nos disparos — enquanto o atirador troca o pente — e levanta, agarra Mari e a pendura no ombro. Ele a carrega ao longo da parede até a saída oeste, onde a mureta desce até a altura da cintura, então se lança com ela para o outro lado, e a coloca embaixo de uma árvore.
— Fique abaixada! — grita. — Fique aí!
— Para onde você vai?!
Os tiros recomeçam.
Saltando o muro de novo, Keller começa a conduzir as pessoas à saída sudeste. Pousa a mão na nuca de uma mulher, abaixa sua cabeça e a leva adiante, gritando:
— Por aqui! Por aqui!
Então, ouve o chiado de uma bala e o baque seco quando a mulher é atingida. Ela cambaleia e cai de joelhos, segurando o braço, enquanto o sangue jorra por entre seus dedos.
Keller tenta erguê-la.
Uma rajada passa raspando pelo rosto dele.
Um jovem vem correndo até ele e estende as mãos para pegar a mulher.
— Eu sou paramédico!
Keller a entrega, vira de volta e continua empurrando as pessoas à sua frente, afastando-as da linha de tiro. Ele vê novamente o garotinho, com os olhos arregalados de pavor ainda segurando a mão da mãe, o empurra adiante, tentando protegê-lo com o corpo.
Keller passa um braço em volta dos ombros da mulher e a faz se curvar, mas a mantém em movimento.
— Estou com você. Estou com você. Continue andando.
Ele a deixa em segurança na ponta distante do Muro, e volta mais uma vez.
Outra pausa nos disparos, enquanto o atirador troca o pente de novo.
Meu Deus, pensa Keller, quantos ele tem?
Sirenes ecoam e uivam; o motor de um helicóptero reverbera pelo ar. Keller parte para cima de um homem, querendo empurrá-lo à frente,
mas uma bala o atinge no alto das costas e ele cai aos pés de Keller.
A maioria conseguiu chegar à saída oeste, mas há pessoas deitadas,
espalhadas pela calçada, e outras, caídas no gramado, depois de tentarem correr para o lado errado.
Uma garrafa de água caída vaza pelo caminho. Um celular com a tela rachada começa a tocar no chão, ao lado de um
souvenir barato — um pequeno busto de Lincoln — com o rosto salpicado de sangue.
Keller olha ao leste e vê um policial do Parque Nacional empunhando uma pistola, disparando em direção ao prédio dos banheiros, depois caindo ao ser atingido por uma rajada de balas que riscam seu peito.
Abaixado no chão, Keller rasteja até o policial e sente a pulsação em seu
pescoço. Está morto. Ele se encolhe atrás do cadáver enquanto outra rajada o atinge. Olha para cima e tem a impressão de ver o atirador agachado atrás do prédio dos banheiros, carregando outro pente na arma.
Art Keller passou a maior parte da vida lutando uma guerra do outro
lado da fronteira, até que pôde voltar para casa.
A guerra veio junto.
Keller pega a arma do policial — uma pistola Glock 19 — e segue por
entre as árvores, em direção ao atirador.