A fronteira

Don Winslow · Capítulo 19 de 25

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A fronteira

4: Billy the Kid

4

 

Billy the Kid

 

“Se é a máfia que vai reinar, é melhor substituir o juiz, o xerife etc.”

— Billy the Kid

Tijuana, México

Dezembro de 2016

 

Sean Callan está caçando.

Como fazem os caçadores, ao longo de milênios, ele é um predador pela sobrevivência do que ama — sua esposa, seu lar. Ele precisa capturar e matar Iván Esparza, para salvar a vida do que ama.

Mate Iván e Nora estará segura.

Mate Iván e Elena garante que deixará seu amado vilarejo em paz.

Mas matar o cabeça da facção de um cartel não é uma questão de caçar. Callan sabe que jamais chegará à cabeça sem primeiro atingir o corpo. É preciso ir eliminando por partes, abrindo caminho até o topo, enfraquecendo a base, dissipando a força, a renda, fazendo com que as pessoas que o apoiam comecem a acreditar que apostaram no cavalo errado. E nessa corrida, os apostadores não pagam com dinheiro, mas com sangue.

Os chefões da máfia sobrevivem enquanto estiverem ganhando dinheiro para outras pessoas e o fluxo de entrada de recursos for ascendente, provendo-lhes dinheiro para pistoleiros, suborno, casas seguras e armamento.

Não se corta uma árvore pelo alto e sim pelo tronco.

Oliver Piera é uma das pessoas ganhando dinheiro com o patrocínio de Iván e o apoiando em troca.

A principal função de Olivier Piedra é administrar as prostitutas de La Coahuila, distrito do meretrício em Tijuana. Mas, ultimamente, ele tem seguido a outras ramificações de negócios, como extorsão e drogas. Isso não seria ruim, exceto por ele estar fazendo sob a bandeira Esparza.

Que ele cravou em um cadáver de Sánchez.

Elena não pode se permitir perder outro bloco para os Esparza. Olivier tem que ser apagado.

É o caos em Baja.

Guerra o tempo todo, enquanto o fragmentado cartel Sinaloa luta

consigo mesmo. Há o grupo Sánchez, lutando contra os Esparza, e agora os Esparza lutando contra o pessoal de Núñez. Ainda tem Jalisco no bolo, transformando tudo em uma orgia. Metade dos palhaços na rua nem sabe para quem eles estão matando, só sabem que têm que matar o cara que não está com eles.

Mas alguns deles sabem.

Equipe assassinas de caça rondam Tijuana e o restante de Baja, como

garotos em um acampamento de verão homicida, com um jogo letal de pique bandeira.

Agora temos até cores, pensa Callan.

Foi aquela piranha psicótica da La Fósfora que começou isso. “Baja é verde.”

Pintando cadáveres com tinta spray verde, como se fosse dia de São

Patrício, ou algo parecido. E se Sinaloa é verde, Jalisco tinha que aderir à moda e começar a pintar em vermelho, e até Elena, que não costuma se envolver com esse tipo de tolice, decidiu que eles também deveriam ter uma cor e escolheu azul.

O Jovem Lobo adotou o tema em Guerrero e, claro, passou a usar preto. Um troço ridículo do caralho.

E, claro, ninguém mais pode matar ninguém, sem deixar uma manta,

uma mensagem. Em outra época, quando se apagava um cara, esse era o recado. Recado mandado, recado recebido. Agora, é preciso escrever um bilhete e explicar, se gabar, e ameaçar os sobreviventes. Os quais, claro, davam meia-volta e faziam a mesma coisa. Olho por olho.

O índice de mortos em Baja, que durante anos foi um território

relativamente tranquilo, está no ápice de todos os tempos.

O verão de 2016 foi brutal.

Em agosto, La Fósfora e sua equipe deixaram o corpo de um apoiador

de Sánchez, em um saco plástico preto, do lado de fora da boate Zona Río, com a seguinte manta: “Nós estamos aqui e jamais iremos embora. Este é um lembrete de que ainda damos as ordens e de que vocês nem existem. Nem mesmo as strippers de Elena ou as bonecas de Jalisco. O céu é verde!”

Depois, ela deixou outro corpo desmembrado perto da Ponte Gato Bronco. “É para isso que servem as pontes. Ainda estamos no comando. Baja é verde”.

O pessoal de Elena contra-atacou no mesmo dia, matando um cara do Núñez e deixando a manta “Aqui está sua porra de céu verde. Vão se foder. Baja é azul”.

Dois dias depois, dois corpos estavam pendurados em uma ponte, em Colonia Simón Bolivár. “Assim é a aliança Sánchez-Jalisco. Vão se foder.”

No dia seguinte, foi uma boate protegida por Esparza que foi incendiada. “Isso vai acontecer com todos os negócios que se alinharem com traidores. Fiquem com os verdadeiros donos da cidade, não com esses cretinos imundos. Sejam vermelhos. Nós somos fortes e unidos — Sánchez-Jalisco”.

O outono não tem sido melhor.

Alguém jogou os corpos desmembrados de quatro membros de Jalisco de uma passarela de pedestres, com bilhetes ameaçando Elena, Luis e El Mastín. Um dos corpos aterrissou em um carro que passava. Duas semanas depois, uma menina méxico-americana foi morta perto da Vía Rápida. Seu namorado vendia drogas para os Esparza.

Callan não estava envolvido em nenhuma dessas mortes.

Estão abaixo de seu nível de habilidade.

Callan encabeça uma equipe de captura e morte que ronda Baja em busca de grupos de captura e morte, ou de membros do alto escalão da oposição. Eles vagueiam pelo território como submarinos no vasto oceano, tentando detectar o sinal de outros submarinos.

É preciso ter algum nível de importância para ser morto por Sean Callan, ou por Lev, pois eles não desperdiçam balas em malandros de baixo nível.

E com eles não tem essa de pintar corpos com tinta spray.

Olivier Piedra se qualifica, por pouco.

Oviedo Esparza seria melhor.

Iván Esparza seria gol de placa.

E Callan simplesmente acha que seria um bem ao mundo remover La Fósfora daqui. Além de comandar uma equipe de matadores de eficiência extrema, que transformaram La Paz em sua fortaleza, a mulher é uma sádica escancarada sem qualquer limite aparente para sua perversidade. Ela gosta de queimar pessoas, mergulhá-las em ácido, picá-las em pedaços e deixar as partes espalhadas, pintadas com tinta verde.

Bem, na verdade, ela agora tem uma nova cor. Rosa.

Uma afirmação feminista.

Seria um benefício à humanidade tirá-la do mapa. Então, Callan sai à caça.

Ele mata.

Entre uma tarefa e outra, ele vai para o refúgio da Costa Rica e para

Nora. Às vezes, Nora aparece em um apartamento que eles têm em San Diego, mas ela fica mais na Bahia de los Piratas, e ele vai para lá de avião.

Elena Sánchez cumpriu a palavra e manteve seu pessoal longe da Bahia,

deixando seu povo em paz. O lugar é seu pequeno abrigo, um refúgio do mundo do narcotráfico, eternamente em expansão, e a ironia é que o trabalho sangrento de Callan no México mantém a paz ali.

Os assassinatos são o preço da paz.

Contanto que Elena esteja ganhando a guerra. Se ela perder, qualquer

um dos outros pode vir para a Bahia — os Esparza, o pessoal de Núñez, até o antigo grupo Tapia, sob Damien. Outro motivo para que Callan continue lutando — como qualquer outro soldado, ele quer a vitória, ele quer ganhar essa guerra, para que possa ir para casa e viver em paz.

Ele precisa tornar o céu azul.

“Ela está ficando velha, está ficando passada. Nós já não podemos ganhar tanto com ela. Venda. Consiga o que der pra arranjar por ela.”

Flor ouve o homem que ela conhece como Olivier conversando com um

homem que ela conhece como Javier.

Agora já faz meses que eles estão com ela.

O trem levou Flor até Tijuana.

Perto da fronteira americana, mas ela não conseguiu atravessar, porque

os gigolôs estavam perfilados como corvos esperando gafanhotos.

Pegando-as, uma de cada vez.

O que atracou Flor se chamava Olivier. Disse a ela que trabalhava para

uma agência que contratava garotas como domésticas e faxineiras, e que poderia dar a ela um emprego onde ela poderia economizar dinheiro suficiente para atravessar a fronteira.

Flor não tinha certeza se acreditava nele, mas ela não tinha escolha. Ele já agarrara seu punho, colocando-a em um táxi, levando até um prédio, onde a trancou em um quarto. Depois de alguns minutos, uma mulher mais velha veio, tirou sua roupa e olhou entre suas pernas.

Murmurou “virgen valiosa” e a levou por um corredor, até um chuveiro. Lavou-a, passou xampu em seus cabelos, os penteou, depois a levou de volta ao quarto.

Olivier voltou e tirou fotografias dela.

Primeiro, nua.

Fazendo-a posar.

Ajoelhada na cama.

Deitada de barriga para cima.

De pernas abertas.

De pernas cruzadas.

Mandando-a sorrir.

Mandando fazer bico.

Se ela se negasse, ele batia nela com um fio de extensão, acertando as solas de seus pés, lugar que não ficaria visível nas fotos.

Depois, ele a vestiu.

Com um vestidinho rosa de garotinha, e a mulher lhe pôs laços no cabelo, e batom nos lábios e rouge nas bochechas.

Ele tirou mais fotos.

Fez com que ela segurasse uma placa dizendo SERÉ TU AMOR, SERÁS MI PRIMERO .

Ele mandava que ela sorrisse, fizesse biquinho.

Ele lhe deu tortilhas e um pouco de frango.

E colocou suas fotos na internet.

O primeiro homem que veio era americano, velho. Ele disse que tinha pagado mil dólares para ser seu primeiro. Ela seria seu amorzinho. Ele a deitou e a violentou.

O segundo era asiático.

Ele não disse nada.

Quando terminou, ele chorou.

A terceira era uma mulher.

Depois disso, ela perdeu a conta. Em intervalos de alguns dias, eles a levavam para um hotel diferente, uma casa diferente. Eles a banhavam, passavam xampu, perfume, lhe davam comida, comprimidos para ficar feliz, comprimidos para ficar calma, para ser um amorzinho. Quando ela não era, eles batiam nas solas de seus pés, até que ela gritasse.

Isso aconteceu durante semanas, depois meses. Agora, ela ouve Olivier conversando.

— Ela está ficando velha, está ficando passada. Nós já não podemos

ganhar tanto com ela. Venda. Consiga o que der pra arranjar por ela.

Olivier precisa de dinheiro vivo para pagar pelo território de um

homem, que ele está comprando. Esquinas, para vender garotas, vender drogas, extorquir os comerciantes. Isso lhe traria mais dinheiro que uma putinha passada, e haveria outras, fresquinhas, chegando, todos os dias.

Então, um homem que se chama Javier entra e a conduz a outro prédio.

Ela a estupra e a deixa em um colchão, depois tranca a porta.

Diz a ela que ele voltará com seu novo dono.

Ela espera.

Ela não liga.

Flor sabe que sua vida é e sempre será um longo estupro. Às vezes, ela

pensa em Nico e fica imaginando o que aconteceu com ele.

Ela acha que ele provavelmente morreu.

Pelo bem dele, ela torce para que sim.

Javier caminha pela Calle Coahuila.

Zona norte de Tijuana.

Também conhecida como “La Coahuila”, a “zona de tolerância” para a

prostituição.

A prostituição é legalizada no México, contanto que seja nas áreas

designadas e as mulheres tenham acima de dezoito anos. Mas muitas delas são bem mais jovens e os homens vão em hordas até Tijuana, em busca das garotas novas, adolescentes, a “carne fresca”.

Ou mais jovens ainda.

Tijuana é famosa por isso.

Os pedófilos que não podem pagar para ir até Bangkok vêm a TJ. Os

narcos nunca toleraram isso. Na época de Barrera, eles pegavam o cara que vendesse crianças e penduravam o cara pelo pau, no arame farpado; hoje em dia, é só mais um negócio. Eles agora toleram qualquer coisa, contanto que dê dinheiro e banque os soldados.

Não existem mais regras.

Vale tudo.

As perujas — piranhas — estão por toda parte, abordando os homens e dizendo “Vamos al cuarto”.

A maioria dos homens vai, pois é para isso que eles estão ali.

Javier vê um que não.

Que só segue andando, ignorando-as.

Ele não encontrou o que está procurando, pensa Javier. O homem deve ter uns quarenta e poucos anos, está vestido informalmente, mas bem vestido. Um yanqui também, e tem cheiro de dinheiro. Javier vai atrás dele, anda em sua cola. Fica olhando, enquanto ele recusa mais piranhas, belas adolescentes.

Javier faz sua jogada.

Aproxima-se a seu lado e sussurra:

— Eu tenho um carro novo. Deve ter uns dez anos, nunca foi dirigido.

— Quanto?

— Quinhentos dólares para alugar — diz o cafetão —, dois mil para comprar. Você leva para el norte, amigo, vai ganhar um bom dinheiro, no mercado negro. Pode vendê-la várias vezes.

— Onde está ela?

— Primeiro o dinheiro.

O gringo pega trezentas pratas.

— O restante só depois que eu a vir.

— Para alugar ou comprar?

— Só vou saber depois que vir. É bonita?

— Um rosto de anjo. Um corpo feito pra foder.

Javier leva o gringo a uma rua lateral, até um hotel barato. Sobe ao segundo andar e abre a porta.

A menina está sentada no colchão exposto.

— Qual é o nome dela? — pergunta o gringo.

— Teresa. — Javier dá de ombros. Ele está inventando. Tipo. Que porra de diferença faz? Ele fecha a porta. — Você a quer, ou não?

— É, eu quero — diz o gringo.

Ele enfia a mão na camisa, tira uma pistola com silenciador e atira entre os olhos de Javier. Então, ele abre a porta e entra no quarto. Pega a menina pela mão e a ergue do colchão.

— Você vem comigo.

A menina sabe.

Ela já fez tudo isso.

Ela já foi dirigida.

Repetidamente.

Como uma boneca de madeira, ela deixa que ele a conduza pelo

corredor e escada abaixo. Algumas perujas abrem frestas nas portas e olham para fora. Elas não veem, ou não ligam, ou não reconhecem os olhos de um matador.

O homem conduz a menina para fora, até a rua, e a entrega para outro

homem, que a coloca em um carro, no banco da frente.

Ninguém o impede.

Dois outros homens saem do carro.

— Fique aqui — ordena o homem.

Ela fica.

Callan dá um chute na porta e eles sobem a escada. Um guarda na frente de uma porta de metal trancada vai tirando a pistola do cinto, mas um dos israelenses lhe dá dois tiros no pescoço, depois o arremessa escada a baixo.

Lev arranca a tranca a tiros e eles entram.

Callan segue pelo corredor e entra por uma porta, no fim. Uma mulher está em pé, ao lado, com uma escova de cabelo e alguma

maquiagem. Um homem alto, corpulento, de cabelos compridos, segura uma câmera. Ele vira e vê a Glock 9 mm de Callan apontada para si.

— Você sabe quem eu sou? — pergunta ele. — Eu sou Olivier Piedra.

Estou com…

Callan estoura o tampo de sua cabeça.

A mulher grita e começa a correr, mas Lev dispara a espingarda e acerta

a parte traseira de suas pernas. Ela cai de cara, com os braços estendidos à frente. Lev se aproxima, tira uma pistola e atira atrás da cabeça dela.

— Zonna.

Um cliente encosta na parede, joga o braço na frente do rosto. Callan caminha até ele. Pressiona a pistola em cima de seu joelho e

dispara. O homem berra e desaba.

— Saia rastejando daqui — diz Callan. — Diga-lhes que há regras

novas na zona. Quem tocar em crianças vai morrer.

Eles descem novamente.

— Eu odeio molestadores de crianças — diz Callan. — Deu pra perceber — responde Lev.

— Qual é seu nome? —pergunta Callan à menininha.

— Flor.

— Agora você está segura — diz ele. — Ninguém mais vai machucá-la.

Ele percebe que a menina não acredita nele.

Ela já ouviu isso.

Agora, ele precisa decidir o que fazer com essa garotinha, para remover Piedra de sua lista de afazeres e prosseguir na captura dos irmãos Esparza.

Só há uma coisa a fazer.

São cinco minutos até a fronteira.

Nesse horário, a espera para atravessar é só de meia hora, e enquanto ele está aguardando na fila, recebe uma ligação de Lev, dizendo para ele entrar na Faixa 8.

O agente que está ali é conchavo de Sánchez.

Eles ficam ali sentados por 25 minutos e a menina fica olhando para a frente. Ela não está inquieta, não chora, não diz uma palavra.

Nem uma única.

Callan encosta, mostra seu passaporte americano.

O agente olha a menina.

— Sua filha?

— É.

— Bem-vindo ao lar, sr. Callan.

— Obrigado.

Ele torce para que Nora tenha a mesma reação.

Eles alugam um “apartamento de veraneio” no Craigslist, na cidade praiana de Encinitas, ao norte de San Diego. É pequeno, de um quarto e sala, mas tem vista para o mar, e Nora gosta de caminhar na praia. Callan entra na garagem no subsolo, pega a mão de Flor, sobe com ela e entra no apartamento.

Nora ainda está acordada, assistindo à televisão.

Ela vê a garotinha.

— Nora, esta es Flor.

Ele vê as perguntas nos olhos de Nora, mas ela é esperta demais, e sensível demais para fazê-las na frente da criança. Em vez disso, ela levanta de sua cadeira, agacha na frente da menina e diz:

— Hola, Flor. Bienvenida.

— Flor talvez fique conosco, por um tempinho.

— Isso seria maravilhoso — diz Nora. — Você está com fome, meu

bem? Com sede?

Flor assente.

Nora pega sua mão e a leva até a pequena área da cozinha. — Vamos ver o que temos.

Eles têm tortilhas, um pouco de queijo, peru fatiado e uma laranja. Ela

faz um prato para a menina e a põe sentada em uma banqueta alta, na bancada. Eles não têm leite, mas Nora serve um copo de suco de laranja.

A menina come e bebe devagar.

Depois, Nora leva Flor até o sofá, onde ela senta e fica assistindo, e

depois pega no sono.

Então, Nora diz:

— Explique.

— Ela estava sendo prostituída.

— Onde está a família dela?

— Guatemala? — Ele fica quieto, por um minuto, então diz: — Você

sempre quis uma criança.

— Então você me comprou uma?

— Eu não a comprei, exatamente.

— Ah. — Ela olha a menina adormecida. — A vida que nós levamos

agora não é bem a melhor para uma criança.

— Comparado ao que ela tem?

— Nós não sabemos o que ela tem — diz Nora. — Talvez tenha uma

família procurando por ela.

— A maioria dessas crianças chega no trem — diz Callan. — Estão

tentando chegar aos EUA.

— Se ela tiver família aqui, talvez nós possamos encontrá-los. — Talvez.

— É claro que nós vamos cuidar dela, até encontrarmos — afirma Nora.

— Só não se apaixone por ela, Sean.

— Ela não é um cachorrinho.

— Não sei. — Nora afaga os cabelos da menina. — Ela meio que é. De manhã, eles conversam com ela, descobrem que ela é da Cidade da

Guatemala, e não tem pais vivos, apenas uma irmã mais velha que não sentirá falta de mais uma boca para sustentar. Não, ela não tem família nos EUA.

— Por que você veio? — questiona Nora.

— Meu amigo Nico — diz ela. — Ele vinha. Eu sentiria falta dele.

— Onde está ele agora? — pergunta Callan.

Ela não sabe, eles se separaram na Cidade do México. Ela acha que Nico pegou o trem errado.

— O que você quer fazer? — pergunta Nora.

Flor sacode os ombros.

Ninguém nunca lhe perguntou o que ela queria fazer.

Nora manda Callan sair e comprar roupas. Ele não tem a menor ideia do que fazer, então, ela anota os tamanhos e o manda ir à Target. Ela mesma poderia ir, mas não quer deixar Flor sozinha e a menina ainda tem medo de homens.

Callan sai com sua lista de compras.

Blusas, calças, calcinhas, meias, sapatos, moletons, suéteres, um maiô. Pijamas, um robe, cobertores, lençóis, um travesseiro. Xampu, escova de dente, pasta de dente, escova de cabelo. Giz de cera, lápis, papel para desenhar. E comida de criança, comida que ela pode gostar e com que possa se acostumar. Arroz, frango, leite, cereal, tortilhas.

E bonecas.

— Que tipo de boneca?

— Não sei — diz Nora. — Quando foi a última vez que eu comprei uma boneca?

Quando foi a última vez que eu comprei?, pensa Callan, mas ele vai às compras e vai riscando a lista. Ele volta ao apartamento, olha da varanda e vê Nora e Flor caminhando na praia, de mãos dadas.

Ele deixa as coisas e volta de carro para o México, para matar gente.

Ele é chamado para uma reunião técnica, na casa de Elena.

É Luis que faz o resumo.

Como líder de guerra, pensa Callan, Luis é um engenheiro e tanto.

— A situação tática mudou — diz Luis. — A investida fracassada de Núñez contra os irmãos Esparza mudou o panorama. Por um lado, isso é positivo, porque a facção Núñez perdeu apoio na Cidade do México. Por outro, é negativo, porque fortaleceu os Esparza.

— O que nós sabemos sobre as condições deles? — pergunta Callan. Ele nunca soube de ferimentos a bala que tenham fortalecido alguém.

— Não muito — responde Luis. — Eles estão entocados em algum lugar, no meio das montanhas. Os boatos são que Iván levou dois tiros no ombro, Oviedo foi atingido no alto das costas e Alfredo escapou ileso. Mas ainda não sabemos com certeza.

Elena está sentada, com o maxilar contraído.

Callan sabe o quanto ela quer Iván morto.

Mas suas escolhas táticas são limitadas. O melhor passo seria abordar

Núñez e oferecer-lhe uma aliança contra os Esparza em troca de Baja. Núñez faria esse acordo agora, mas Elena não pode fazer essa aliança sem alienar Tito Ascensión. Se ela mandar Ascensión para os braços de Iván, ela perde.

E a briga de Ascensión foi com Núñez, não com Esparza. Com a ruptura

entre eles, Ascensión já não tem motivos para lutar contra Iván. Na verdade, Iván, com seu poder em Sinaloa, seria mais útil para ele do que Elena, em uma luta contra Núñez.

Elena está em uma posição difícil.

Ela precisa de algo que mude o jogo.

Assim como eu, pensa Callan.

Preciso sair desta vida.

Ele diz:

— Os irmãos Esparza estão no mesmo lugar, o tempo todo. Eles fizeram

isso para consolidar sua proteção, mas isso também os torna vulneráveis.

— O que você está sugerindo? — pergunta Elena. — Se você conseguir a localização — diz ele — deixe-me ir até lá. Eu,

Lev e uma equipe escolhida a dedo, nossos melhores homens. Nós entramos, exterminamos os Esparza e saímos.

— É uma missão suicida — afirma Luis. — Isso não pode dar certo. — É o meu suicídio. — Callan dá de ombros. — Olhe, é uma chance de

acabar com essa guerra, vencer, em uma tacada só. Se continuarmos lutando do jeito que temos feito, nós vamos perder. Você sabe disso.

Elena pensa no que ele está falando.

Ela sabe que ele está certo.

E há coisas que Callan nem sabe e tornam essa situação ainda pior.

Elena ouviu dizer que Rafael Caro montou um grupo que está emprestando dinheiro a um negócio nos EUA, com ligações estreitas com o novo governo.

Rafael não veio abordá-la.

É verdade, Iván ficará, de fato, incontrolável.

O relógio não é nosso amigo, pensa Elena. Se não matarmos Iván em breve, ele vai matar meu último filho. Ela olha para Callan. — Como você avalia as chances de sucesso?

Callan pensa por um segundo, então diz:

— Três contra um. Mas isso é melhor que nossas probabilidades de ganhar uma guerra prolongada.

— E você estaria disposto a ir — diz Elena.

— Eu quero uma coisa — responde Callan.

Papéis arranjados.

Um passaporte americano.

O Jovem Lobo está sendo tosado.

Damien foi cortar o cabelo, pois não quer parecer um bárbaro quando encontrar Tito.

Ele está nas montanhas há muito tempo, desde sua libertação em Baja. Cultivando ópio, transportando ópio, lutando com a polícia, o exército e os mariners.

Lutando contra Sinaloa.

E agora, seu velho amigo Ric está foragido. É engraçado, porque os irmãos Esparza vão ganhar com tudo isso. Mas foi a atitude errada a tomar, e ele está envergonhado por Ric. Existe um código e Ric o violou.

Agora Damien está sentado na cadeira do barbeiro para se livrar de seu cabelo comprido e da barba. É bom voltar à civilização, e Tito garantiu sua segurança em Guadalajara, onde ninguém se mete com o chefe de Jalisco. Mesmo assim, Damien tem quatro guarda-costas com ele, em dois veículos, todos armados para a guerra.

Damien está com uma granada embaixo da camisa.

Se parecer que eles vão pegá-lo, o Jovem Lobo vai sozinho.

A reunião com Tito pode ser difícil.

Com Ric e o pai foragidos, Tito não tem um bom motivo para continuar lutando com os Esparza. Mas Damien precisa mantê-lo na briga. Os Esparza não vão perdoar o sequestro de Oviedo e Alfredo, e ele não tem poder para enfrentar os irmãos Esparza sozinho. Não ainda, embora o dinheiro da heroína e do fentanil esteja entrando que nem água, vindo de Eddie. Teve dinheiro até para investir com Rafael Caro.

Agora sou um magnata do setor imobiliário, pensa Damien, rindo para si.

Mas é bom.

É bom reaver as riquezas da família.

E o dinheiro lhe dará poder para retomar Acapulco, e quando ele tiver o

porto sob controle, isso trará para ele todo o antigo pessoal de Tapia.

A reunião com Tito precisa transcorrer bem.

Damien tira isso da cabeça, recosta e relaxa. Ele sabe que o barbeiro é

bom, foi Tito quem recomendou. O barbeiro massageia seu pescoço e, sem notar, ele acaba pegando no sono.

A gritaria o desperta.

Gritos e palavrões e ele abre os olhos e vê o cano de um fuzil apontado

para si. Mariners vestidos de gorros pretos e máscaras ninja gritam para que ele se abaixe. Ele dá uma olhada pela janela — seus guarda-costas estão com as mãos atrás da cabeça, dois deles já algemados.

Ele enfia a mão na camisa para pegar a granada. — Não! — grita um mariner.

Damien hesita.

Viver ou morrer?

Você sempre acha que vai morrer como herói. Uma lenda em uma

canção. O Jovem Lobo não seria levado vivo. Ele partiu com uma explosão.

Na vida real é diferente.

Foda-se tudo isso.

Damien decide viver.

Ele lentamente ergue as mãos.

Duas noites depois, Damien Tapia recebe visitantes em sua cela.

Três guardas.

Todos os três enormes.

Ele está com medo.

— O que vocês querem, irmãos?

Eles não respondem. Dois deles o agarram e jogam na cama. Um segura

suas pernas, o outro estica seus braços.

— Quem os mandou? — pergunta Damien. — Foi Elena? Diga a ela que

eu peço desculpas. Foi um erro.

Eles não respondem.

— Núñez? — pergunta Damien. — Eu nunca mais farei isso. Eu vou

pagá-lo. Por favor. Digam a ele.

O terceiro guarda pega uma lâmina caseira.

— Liguem para Caro — diz Damien. — Ele vai dizer que eu sou boa gente. Ele não vai querer que vocês façam isso. Por favor. Liguem para ele. Não, liguem para Tito. Ele vai dizer. Eu estou com ele. Por favor. Por favor. Eu não quero morrer.

O guarda corta os pulsos de Damien.

— Ouvi falar que ele se matou — diz Caro.

— Você acredita nisso? — pergunta Tito, sentado na cozinha de Caro, vendo o idoso preparar um pozole.

Ele não gostou de fazer isso, de atocaiar Damien para ser preso pelos mariners. Mas Caro havia argumentado que o Jovem Lobo estava causando problemas demais, matando policiais, soldados. Eles não precisavam desse tipo de tumulto.

— Por que não? — diz Caro. — A família toda é maluca. O pai? Toda essa matança, essa violência, isso não é bom pra ninguém. Talvez tenha sido melhor assim.

— E você vai assumir as rotas de heroína dele — diz Tito.

Caro mexe o pozole.

— O que posso fazer por você, Tito? O que o traz aqui?

— Meus trinta milhões de dólares — diz Tito. — Eu quero ver retorno.

— Você já viu — responde Caro. — Núñez foi indiciado.

— O que não significa nada, a menos que o governo vá atrás dele.

— Eles irão — afirma Caro. Ele prova o pozole, depois põe um pouco de sal. — Ouvi dizer que ele deixou Eldorado e sumiu. O garoto também. Já vão tarde.

— Achei que você fosse leal a Sinaloa.

— Eles me deixaram mofar na cadeia, por vinte anos, e não fizeram nada — diz Caro. — Seus trinta milhões de dólares estão em Washington DC, trabalhando duro por você.

Caro põe a tampa na panela e se afasta do fogão.

— Sabe qual é o segredo para fazer um bom pozole? — pergunta ele. — Deixar que cozinhe devagar.

Deixe que Sinaloa se mate.

A primeira coisa que Eddie quer saber é: eu estou sendo investigado pela Divisão de Narcóticos?

Não, diz Hidalgo, a Narcóticos ainda não esbarrou nele. O que os

federais sabem é que você é um ex-presidiário que optou pelo programa de proteção à testemunha, e eles não dão a mínima ao que acontece com você.

E quanto a Darius Darnell? Ele está sendo monitorado? Não, Darnell está limpo.

Então, Eddie cautelosamente experimenta perguntar sobre sua operação

de lavagem de dinheiro — dá os nomes de alguns bancos onde ele deposita. Hidalgo fica de lhe dar retorno — espera uma semana e volta — os bancos são seguros.

Só que agora, claro que não estão mais.

Seguindo a orientação de Keller, Hidalgo, no papel de Tony Fuentes,

vem dando informações erradas a Eddie, como pequenas porções de veneno em sua comida.

Fuentes também traz presentes: responde perguntas que Ruiz não fez.

Eddie, aqui estão as informações da inteligência, sobre três organizações rivais operando em Nova York. Aqui está a informação sobre a vigilância em um “braço de vendas” de Núñez, abordando gangues em Manhattan, um traficante de Jalisco que está entrando no Brooklyn. Ouça isso, Eddie: um áudio de um cliente de Sinaloa em Staten Island, que está descontente, talvez aberto para uma abordagem.

Então, eles ficam observando os “pings”.

A equipe de vendas de Núñez para de fazer prospecções e o varejista em

Staten Island se mostra aberto a trocar de time. Interessante, o traficante de Jalisco, no Brooklyn, é liberado.

Será que isso significa que Caro está se aproximando mais de Tito

Ascensión?, pensa Keller.

Fique ligado.

Eles são cautelosos, são precavidos e passam a Ruiz somente

fragmentos de informações, para que ele não fique desconfiado, achando ser bom demais para ser verdade, porque é. Eddie testa — perguntando a Fuentes sobre a segurança de um carregamento de dois quilos que está chegando a Manhattan.

Ruiz pode se permitir perder dois quilos, se Fuentes for um informante. Keller deixa passar. Assegura-se de que tampouco a NYPD vá em cima.

Não vai, mas fica de longe rastreando Darnell, e de Darnell chega a seu pessoal de vendas, no Brooklyn, em Staten Island e no norte do estado. Orduña fornece a Keller nomes de dois dos mais violentos veteranos

Levou algumas semanas para que Ruiz fizesse a grande pergunta: o que Fuentes podia lhe dizer a respeito da investigação da Narcóticos sobre lavagem de dinheiro, na cidade de Nova York?

Você tem que ser um pouquinho mais específico, diz Hidalgo.

Bancos? Setor imobiliário? Empréstimos?

Hidalgo fornece informações do que eles já sabem: a Divisão de Narcóticos está conduzindo uma investigação de alto nível sobre a Berkeley e a Terra, referente a um empréstimo do banco HBMX, possivelmente com dinheiro de drogas por trás.

Ruiz faz a pergunta seguinte: qual é o status atual da investigação?

Estagnada, responde Hidalgo, depois de ter ido pesquisar.

A principal testemunha morreu de overdose.

A investigação do Park Tower vai morrer na praia. Em algumas semanas, Keller vai sair e o novo chefe não dará prosseguimento.

Todos vocês podem respirar tranquilos.

Nas semanas seguintes, Ruiz desvia sua ênfase ao México — o que a Narcóticos sabe sobre seus campos de cultivo em Guerrero? Suas rotas de contrabando, seu pessoal — seus traficantes, seus contadores, seus pistoleiros? E quanto a sua lista de subornos, sejam políticos ou funcionários do governo?

A verdade é que eles não sabem de muita coisa.

Mas é aí que começa o processo de voltar a organização contra si mesma. Keller pega o pouco que sabe sobre a operação de Ruiz, solicita mais dados de Orduña e utiliza para injetar o veneno em Eddie.

Claudio Maldonado é um dos mais eficientes pistoleiros de Ruiz em Acapulco, segundo Orduña diz a Keller. Através de Hidalgo, Keller passa a informação de que Maldonado está sob investigação da SEIDO e pode ser preso a qualquer momento.

Eddie o remove de Acapulco.

Um laboratório de processamento em Guerrero está produzindo uma grande quantidade de produto de alta qualidade. Hidalgo diz a Ruiz que os mariners localizaram e estão planejando invadir o lugar. O laboratório é abandonado, o ópio e os equipamentos são transferidos, até que um novo local seja encontrado.

O jogo vai ficando mais sombrio, mais sujo.

Eddie quer as identidades dos delatores.

Tapia lutando em Acapulco e nas montanhas de Guerrero. Somente um deles, Edgardo Valenzuela é um dedo. Mas ele é um psicótico repugnante e estuprador, que vem passando informações de merda ao pessoal de Orduña, portanto, o almirante o considera descartável. O outro, Abelino Costas, “El Grec”, é um sociopata que emboscou um destacamento de mariners e matou três deles.

Valenzuela e Costas são torturados até a morte. Valenzuela desiste.

Costas cospe na cara deles, antes de lhe entregarem suas próprias tripas. Aquilo incomoda Hidalgo.

— Eles são assassinos sádicos — diz Keller. — Receberam o que lhes

estaria destinado.

Receber nomes de informantes aumenta a confiança de Ruiz em

Fuentes, porque a Narcóticos jamais entrega seus delatores, em quaisquer circunstâncias.

Aumenta o escopo de informações desejadas por ele. A Narcóticos sabe o paradeiro de Núñez?

E de Mini-Ric?

Vocês têm alguma pista de onde estão entocados os irmãos Esparza? Não, não e talvez, mas a última pergunta representa um dilema. A

análise da criptografia e das imagens de satélite mostrou a localização de uma estância em meio às montanhas de Sinaloa, onde os irmãos podem estar.

Mas Ruiz quer essa informação para Caro, portanto, o problema é: até

onde eles podem ir, ajudando Rafael Caro? Até onde se pode ir ao ajudar uma organização de tráfico de drogas, em detrimento a outra, e por quê?

O mundo mexicano das drogas está um caos, a violência está pior que

nunca, e o governo está recorrendo à velha guarda, los retornados, como Caro, para tentar restabelecer a ordem.

Mas, será que restabelecer a ordem é do interesse de Caro? Enquanto houver múltiplos grupos rivais, os narcos precisam de Caro

como um “padrinho” neutro para mediar disputas, distribuir a justiça violenta, garantir os acordos, cessar-fogo e tréguas. Um homem que não esteja em guerra com nenhum grupo, para que então possa solicitar dinheiro de vários, para formar um consórcio?

Ele tem valor porque não colocou nenhum cachorro na briga.

Paradoxalmente poderoso por sua ausência de poder.

Mas se um grupo ganha — um Núñez, um Esparza, ou Ascensión —, tornando-se dominante, Caro passa a ser desnecessário, supérfluo, apenas outro velho gomero vivendo sua vida e contando histórias de glórias passadas.

E se Caro não estiver tentando manter o cartel Sinaloa unido, mas dividido? Ele não lhes deve nada, eles o deixaram apodrecer, em Florence, por duas décadas.

Se esse for o caso, pensa Hidalgo, ele pode estar usando Tito Ascensión como um pretexto, pois nenhum de seus pedidos ou ações foram direcionados a Jalisco, e quando nós demos o nome de um traficante ligado a Jalisco no Brooklyn, ele deixou passar.

Portanto, primeiro Caro se aliou com a antiga organização Tapia, inimiga de Sinaloa, depois, aparentemente, colabora com Tito Ascensión, outro rival de Sinaloa. Damien Tapia morreu e Caro continua enviando heroína através da rede que Tapia e Caro montaram com Ruiz.

E se Caro concluiu que, ao menos por enquanto, a posição de padrinho é uma responsabilidade, que é mais inteligente e rentável não controlar a coisa toda, mas tirar uma fatia de muitas coisas? E se ele meramente deixou de administrar Ruiz e passou a tirar uma porcentagem de todas as outras organizações?

Então, seria de seu total interesse não reprimir a confusão, mas incitá-la, para manter uma situação eternamente instável, na qual ele é a única estabilidade. E se ele manipular um equilíbrio de poder, agora apoiando Ruiz, depois Tito, aliciando Núñez, talvez perseguindo os Esparza — jogando um contra o outro, enquanto, aos olhos do governo, ele parece ser a grande esperança para a paz, o homem sensato a quem eles podem recorrer?

Como recorriam a Barrera.

Adán Barrera foi o Rei da Ordem.

Rafael Caro é o Rei do Caos.

E ele vai deixar que o caos continue até tudo desmoronar, até que os outros líderes potenciais partam e não reste escolha às pessoas, a não ser vir a ele.

Agora você tem um caminho até ele, pensa Hidalgo, via Ruiz, e a questão é: quanto você trabalha com ele? Se acredita em sua própria teoria quanto a ele perpetuar o caos, então, você tem que derrubá-lo, o mais depressa possível, com toda a força que puder.

Será?

Ou você o ajuda a empreender isso, auxiliando a danificar as outras

organizações, o máximo que puder, e quando achar que causou o máximo de prejuízo, o empurra para fora do barco?

Ou você deixa que ele toque seu jogo, vê até onde vai dentro da

estrutura de poder mexicana — bancos, mercado financeiro, governo? Porra, você vê até onde vai dentro do governo americano.

Ajuda-o a subir o mais alto que ele puder.

Depois chuta a escada debaixo dele.

Porque se Caro estiver manipulando todas as outras organizações, e se

você puder manipular Caro…

Você é el padrino.

Cirello encontra Ruiz no Palomino Club (“álcool e nudez total”), no norte de Vegas, e Cirello tem que sentar em um reservado da área VIP, olhando tetas e bundas, enquanto tenta dar um resumo a Eddie.

— Você pediu a localização dos irmãos Esparza. — Você conseguiu?

Os olhos de Eddie não desviam de uma dançarina negra que está vestida

com, bem, nada.

— Você sabe como funciona análise de tráfego? — Eu sei evitar a hora do rush — diz Eddie.

Esse filho da puta é engraçado, pensa Cirello. — Isso veio do Fuentes: logo depois que os Esparza foram feridos

naquela emboscada, a Divisão de Narcóticos passou a monitorar o tráfego incomum e intenso na telefonia e internet, na região de La Rastra, Sinaloa, lá embaixo, ao sul, próximo da fronteira de Durango, logo ao norte de Nayarit. Eles interceptaram algumas mensagens criptografadas, mas nossos decodificadores determinaram que elas se referiam a um determinado rancho. O monitoramento via satélite mostra atividade intensificada e aumento de veículos e pessoas no local.

Ele passa a Eddie uma foto de satélite, mostrando algumas edificações,

em uma clareira, no alto de um cume de mata densa, em Sierra Madre, entre La Rastra e Plomosas.

Eddie dá uma olhada.

— Veja só isso — diz Cirello, apontando um retângulo marrom em meio ao verde. — Pra mim, parece uma pista de pouso.

— Falando em pista de pouso…

— Foque — pede Cirello. — Você quer isso, ou não?

Eddie enfia a foto no bolso.

— As coordenadas estão na foto — afirma Cirello.

— Eu estou contentíssimo — comenta Eddie. — Você quer uma dança sensual?

— Não.

— Você é gay? — pergunta Eddie.

— Não.

— Quer dizer, se você for, tudo bem — diz Eddie. — Só que a gente estaria na boate errada.

— Divirta-se, você.

Cirello levanta.

A garota negra é fantástica. Melhor ainda, quando ela vai até a suíte de Eddie, para terminar o serviço. Depois que ela vai embora, Eddie pega um celular descartável e liga para Culiacán.

— O cara conseguiu.

Ele lê as coordenadas.

Depois desliga, escaneia a foto no laptop e a envia.

Há tantas maneiras de conduzir isso, pensa Caro.

Você poderia procurar o pessoal de Iván, aqui, e avisar que ele está comprometido, ganhar a gratidão dele. Ou você poderia dar a localização a Tito e deixar que as coisas sigam seu curso.

Ele decide.

Liga para Elena Sánchez e informa a ela onde pode encontrar Iván Esparza.

— Presente meu, para você — diz ele. — Vingue seu filho.

Callan está debruçado sobre a foto de satélite.

E sobre o Google Maps.

Ele olha para Lev.

— Tá foda.

Apenas uma estrada de entrada e outra de saída. Ambas estarão

fortemente vigiadas, não há rota para chegar sem ser descoberto. Eles poderiam ir a pé, mas seriam milhas por entre a floresta densa e íngreme, e não há nenhuma área para concentração, onde eles não fossem vistos pelos locais que, sem dúvida, são leais aos Esparza.

— O mais inteligente a fazer — diz Callan — seria vazar esses dados ao

pessoal das FES, deixar que os mariners entrassem com helicópteros.

— Mas será que eles iriam? — pergunta Lev.

O cartel Sinaloa é praticamente dono do governo federal, e embora os

mariners sejam agressivos com todas as outras organizações, é notável que são passivos em relação a Sinaloa.

— Elena quer Iván morto, não preso — lembra Lev. E o que La Reina quer, La Reina tem, pensa Callan. Mas o complexo no

cume do morro é literalmente uma fortaleza, uma base de artilharia toda cercada com arame farpado. Pelas fotos fica difícil saber, mas uma área, que deve ser de habitação, parece ter sido reforçada com telas metálicas e frestas para atirar. Ele sabe que haverá sensores de som e movimento para acionar as luzes de busca. Pode haver até abrigos subterrâneos com concreto reforçado.

Um B-52 poderia dar conta do serviço, mas Callan duvida que mesmo

Elena consiga convocar um B-52.

Callan conta o que parecem ser cinco veículos — quatro utilitários e

uma caminhonete com caçamba — embaixo de uma rede de camuflagem. Um prédio baixo de concreto do lado de fora da cerca de arame farpado deve ser o alojamento dos soldados e uma cozinha para uns vinte ou trinta guardas. Outra edificação pré-fabricada, de aço, provavelmente abriga mais veículos, equipamento, talvez uma aeronave, pois não há nenhuma na pista, ao menos não havia quando a foto foi tirada.

Há variáveis demais que eles não sabem. Eles precisam de um

reconhecimento minucioso, mas isso seria tão difícil e arriscado quanto a missão tática em si, e correria o risco de afugentar os Esparza. E eles precisam agir rápido. Os irmãos estão ali agora, mas, quem sabe onde estarão amanhã, ou depois?

Não temos dados suficientes, nem tempo hábil para planejamento, pensa

Callan. Vamos adentrar uma fortaleza que não conhecemos e estamos em número menor.

Fora isso, está tudo bem.

— Um problema de cada vez — diz ele. — Primeiro: acesso. Que diabo nós vamos fazer para entrar lá?

— Vamos pela pista de pouso? — sugere Lev.

— Eu estou pensando a mesma coisa — diz Callan.

A ideia não é boa, nem perto de boa, mas talvez seja a única opção. Dois aviões pequenos se aproximam à noite, na torcida de conseguir fazer o pouso. Uma equipe abre fogo e derruba os guardas, outra entra na casa e elimina os Esparza, a terceira mantém a pista de pouso.

Se der tudo der certo — o que nunca acontece —, seus caras seguram a pista e os aviões estarão intactos, quando você sair da casa para a “aeronave de resgate”, como Lev a chama. Se não, você sai da casa — se você sair da casa — e dá de cara com corpos espalhados e os aviões em chamas, e você mete as caras pela mata, atravessa as montanhas até Durango.

Cartéis de drogas possuem frotas.

Eles as utilizam para transportar drogas e deslocar pessoas de um lugar para outro.

Callan e Lev escolhem dois — um Pilatus PC-12 e um Beechcraft C-12 Huron, a versão militar do King Air 350. Cada um deles comporta até dez pessoas com autonomia de combustível para voar até o alvo e voltar, partindo de Mazatlán. O importante é que as duas aeronaves têm boa reputação em pistas acidentadas e são usadas por inúmeras forças armadas.

Aviõezinhos bons e fortes.

A decisão seguinte é o pessoal.

Eles têm que ser os melhores — não simplesmente bandidos de rua que largam o dedo em um pente, de um carro em alta velocidade, mas paramilitares treinados que farão o serviço, e apenas o serviço, e que confiem em seus companheiros para fazerem o mesmo.

Os Barrera estão no negócio há muito tempo e usam ex-membros das forças especiais desde os anos 1990, trazendo-os de Israel, África do Sul, Grã-Bretanha, EUA, México e outros lugares.

Callan e Lev têm dezoito vagas a ser preenchidas. Lev escolhe três homens de sua equipe habitual, mas quer deixar o restante para fazer a segurança de Elena e Luis.

São quatro israelenses, incluindo Lev.

Eles são muito bons.

Callan escala a missão com dois sul-africanos, um ex-membro do

Selous Scout, exército da Rodésia, três ex-membros da SAS, um ex-marine americano, e oito caras mexicanos da força aérea, exército e mariners. Dois deles também são médicos em combate — se ambos forem abatidos, bem, os feridos estão simplesmente fodidos.

Ele precisa ser franco com todos eles. Não poderá lhes dizer aonde eles

vão, até estarem a bordo das aeronaves, mas esses caras não são imbecis, e a experiência lhes dirá que o risco de não voltar é imenso. Portanto, Callan lhes dá a chance de desistir.

Nenhum deles desiste.

Talvez, porque essa guerra já se estende há tanto tempo, e eles tenham

perdido camaradas pelos quais querem uma forra, ou possuam uma lealdade genuína a Elena, ou sejam apenas um bando de machões filhos da puta. Mas o motivo mais provável é que Callan está oferecendo um bônus de 50 mil dólares a cada um, em grana ou coca, assim como um “pagamento de morte” de 100 mil dólares, em depósito a ser feito diretamente em contas offshore, em nome da família de cada homem que não voltar.

Depois, Callan precisa encontrar pilotos malucos o suficiente para fazer

um pouso noturno em meio às montanhas, em uma pista desconhecida e rústica, ficar na cabine durante um tiroteio, e depois (tomara) decolar debaixo de bala. E ele não precisa só de dois desses caras, ele precisa de quatro, precisa de copilotos, porque uma das coisas mais idiotas que podem acontecer é conseguir fazer tudo isso e depois morrer ao lado de um avião perfeitamente bom, porque seu piloto levou um tiro na cabeça e você está sem ninguém para pilotar.

Pilotos narcos são notoriamente doidos. São espíritos livres viciados em

adrenalina que jogaram fora uma carreira lucrativa, em companhias aéreas, por uma chance de ganhar muito dinheiro e pelas emoções ainda maiores. Muitos deles abandonam esses bicos, mas costumam voltar. Ficam viciados no pó, nas festas, na mulherada inerente ao estilo de vida narco, de modo que o “mundo real” se torna muito sem graça.

Callan precisa de pilotos ex-militares, uns caras com experiência no

tumulto, que não vão amarelar quando a bala começar comer em volta. Ele não pode se permitir excesso de pessoal para fazer o que os narcos às vezes fazem — deixar um cara no avião, apontando uma arma para a cabeça do piloto, para garantir que ele não vai fazer uma decolagem prematura.

Lev está com um de seus caras, um veterano da força aérea israelense acostumado a entrar e sair da Síria e do Líbano. E eles também chamam “Buffalo Bill”, um americano que já está no mundo do narcotráfico mexicano desde os tempos de Barrera, e cujos cabelos brancos compridos, a barba e o chapéu imundo de caubói (junto com o baseado, sempre presente no canto da boca) poderiam matar de susto qualquer um que não soubesse que ele poderia pilotar até mesmo um piano e pousar no deck de um submarino. Há também um mexicano da Quinta Infantaria Aérea, Esquadrão 107, com centenas de horas de voo no Pilatus; outro mexicano veterano da força aérea, que voou o C-12, ambos já tendo participado de missões contra os zetas e a organização Tapia.

Eles não vão amarelar.

Agora, a questão são as armas.

Os cartéis têm frotas e também têm arsenais.

Tirando uma bomba atômica, você pode escolher o que quiser.

Callan quer cada cara com um fuzil, mas deixa que eles escolham as armas que preferem para trabalhar, então, as equipes saem com uma variedade de Galils compactas, C-8, FNs belgas, uma M-27, HK-33 e até alguns fuzis clássicos AK-47.

Dois dos israelenses vão carregar lançadores de foguetes MATADOR (portáteis, antitanque, antiporta) para abrir um rasgo na cerca, ou um rombo em qualquer parede, ou até para explodir uma caminhonete blindada. O mariner também vai levar um Mossberg 12, de curta distância, para estourar trancas e derrubar portas.

Callan escolhe um HK MP7 com supressor e um Elcan com mira de reflexo. Ele também vai levar uma Walther P22, caso chegue perto o suficiente para estourar os miolos de Iván Esparza.

Eles vão até a casa de Elena, em Ensenada, e dão um resumo a ela e a Luis.

— Eu quero fotos — diz ela — do cadáver de Iván.

— Se houver — diz Callan — e se nós tivermos tempo.

— Haverá — afirma Elena — e você vai arranjar tempo.

Callan a lembra do acordo que eles fizeram. Ele faz o serviço — com sucesso ou fracasso, voltando ou não — e Elena e seu pessoal deixam a Bahia de los Piratas em paz. Nora (e agora, Flor, ele imagina) poderão voltar para lá e viver em paz.

Elena reafirma o combinado, mas acrescenta: — Você sabe que isso só vai valer enquanto eu estiver no controle. Se

Iván ganhar, ele fará o que quiser. Portanto, isso é só mais um incentivo.

Sim, valeu, pensa Callan. Eu preciso, mesmo, de incentivo. Ele está

saindo, quando Luis o segue.

— Eu quero ir — anuncia Luis. — Quero vingar meu irmão. — Foi sua mãe que o mandou aqui fora?

— Ela não sabe — responde Luis. — Ela não deixaria. — Nem eu — diz Callan. — Respeito muito isso que você está pedindo,

mas você não tem as habilidades e eu não terei tempo para ficar de babá. Sem querer ofender, você seria uma responsabilidade.

— Eu não vou atrapalhar. Sei me cuidar.

— Luis, você vai atrapalhar — insiste Callan. — Todos os caras da

missão saberiam quem você é e se sentiriam obrigados a protegê-lo.

Sem querer, Luis parece aliviado, e fica com vergonha por isso. — Nós simplesmente diremos que você foi — diz Callan. — Vamos

contar que você estava lá. Vão cantar canções sobre você.

No carro, Lev pergunta:

— O que foi?

Callan conta.

— Era só o que a gente precisava — diz Lev.

Callan dirige até Encinitas.

Flor está dormindo.

— Como está ela? — pergunta Callan.

— Ela é incrível — diz Nora. — Mas vai precisar de muito cuidado. — Leve-a de volta pra Bahia — pede Callan.

Nora o olha com um ar interrogativo.

— Agora está tranquilo por lá — afirma Callan. — Isso já foi

providenciado.

— Onde você estará?

— Cuidando das coisas.

— Sean…

— Nós tivemos muitos momentos bons — diz Callan. — Por muito

tempo. Eu espero que ainda tenhamos muito mais pela frente. Mas, se não, tem mais cem mil no seu nome, nas Ilhas Cook.

— Você acha que eu ligo pra isso?

— Não.

— Eu não…

— Você pode dar uma vida a essa garota — interrompe Callan. — Leve-a pra casa, você e María podem amá-la profundamente.

— Quanto tempo, até eu saber?

— Um ou dois dias.

— Vou esperar aqui — diz Nora.

— Está bem — responde Callan. — Mas depois volte pra Bahia.

Eles fazem amor ao som das ondas batendo na praia.

Callan está sentado dentro do C-12 estudando a foto do complexo dos Esparza.

Quando o avião decolou de Mazatlán, ele distribuiu a foto a cada um dos caras no avião e repassou o planejamento tático e as designações — quem vai entrar na casa, quem vai detonar o alojamento dos guardas, quem vai ficar na pista de pouso. As atribuições são repetidas para cada avião, pois, caso um deles caia, a outra equipe ainda pode prosseguir com a missão.

Ele sente o cheiro de bagulho na cabine.

— Como é que você pode voar fumando baseado? — ele pergunta a Buffalo Bill.

— Não dá pra voar sem um baseado — responde Bill.

Bill está bem relaxado, mas a atmosfera na traseira da aeronave está tensa. Os caras estão sentados olhando direto para a frente, alguns deles murmurando suas preces, outros remexendo e checando o equipamento, pela centésima vez — cartuchos de munição, tiras de Velcro nos coletes Kevlar, ampolas de morfina presas às mangas e bonés.

Alguns dos homens usam medalhas religiosas, alguns têm suas identificações presas no lado de dentro da camisa. Os mexicanos não usam identificação nenhuma — caso morram, não querem retaliações a suas famílias.

Callan escuta Bill gritar:

— Mais cinco minutos, garotos!

Dois dos mexicanos concluem suas orações e se benzem, beijando as pontas dos dedos.

O C-12 é o avião na dianteira; o Pilatus, com Lev e o a outra equipe,

vem cerca de dez segundos atrás. É crucial que não haja um intervalo maior, ou cada equipe pode virar picadinho.

É um pouso por instrumentos, em uma montanha, no escuro, mas

Buffalo Bill desce como se fosse um voo da United pousando em O’Hare. Mesmo assim, as rodas quicam loucamente na pista desnivelada, dando um tranco em Callan, que sente no pescoço uma dor que ele sabe que vai durar dias.

O avião segue mais um pouco e para.

Callan destrava o cinto de segurança, atraca o HK e sai pela porta. Ele vê o Pilatus descendo atrás. Ele chega à pista, dá duas quicadas e

desliza. A porta abre e Lev vem correndo em sua direção, para seguir rumo à casa.

Eles são banhados por uma luz branca.

Cegante.

Holofotes gigantescos.

Claros como o dia.

Eles estão a céu aberto, na pista de pouso, quando a artilharia começa,

vindo de todos os lados. Callan ouve as rajadas irrompendo pelo ar, o som grave do tump, atingindo corpos, enquanto seu pessoal começa a cair.

Callan deita no chão e tem tempo de pensar “Eles sabiam que a gente

vinha”, quando ouve um zunido de foguete e o C-12 explode em chamas. Bill sai cambaleando, a barba incendiada. Ele bate no rosto freneticamente. Então, as labaredas pegam no chapéu e ele gira como um palhaço bêbado.

O Pilatus explode. Um naco de metal gira pela pista e parte o mariner ao

meio.

Callan ouve gritos de dor.

Pedidos a Deus e às mães.

Ele sempre achou que a morte seria silenciosa, mas é mais barulhenta

que o inferno.

Outra explosão e a escuridão.

É noite outra vez.

E silêncio.

Callan acorda, se é que se pode chamar de acordar, sentado de costas para uma parede de metal. Suas mãos estão amarradas atrás, com fitas plásticas, as pernas estão estendidas à frente, os tornozelos algemados.

Tem sangue seco grudado em suas orelhas e nariz, da batida. Ele está tão enjoado e tonto, que quase não consegue ouvir.

Sua cabeça está latejando.

A edificação é grande, um galpão… talvez um hangar, porque tem um aviãozinho no centro. Há sicários armados com pistolas automáticas circulando em volta. Alguns estão sentados em cadeiras metálicas dobráveis.

Do outro lado do salão, ele vê o que devem ser corpos — montes, embaixo de lonas manchadas de sangue.

Callan vira a cabeça.

A dor de fazer isso é tão horrenda que ele reluta contra o ímpeto de vomitar.

Lev, ainda inconsciente, está com a cabeça caída, o queixo encostado ao peito, ao lado de Callan. Além dele, Callan reconhece uma fileira de homens, ele acha que são sete, mas sua visão está embaçada e é difícil contar — é tudo o que sobrou do ataque.

Ele tenta ver quem são, quem sobreviveu. Ali está Lev, e outro dos israelenses. O rodesiano, pensa ele, dois dos mexicanos, talvez um dos britânicos. Além deles, ele não consegue enxergar.

O esforço é exaustivo. Ele só quer voltar a dormir.

Mas Callan se força a ficar acordado.

Foca nos sons — a respiração forçada de Lev, um homem chorando, outro gemendo. Ele olha a fileira para ver o motivo — a perna do britânico está fraturada, com um osso espetado para fora.

Luz entra no hangar, quando uma porta é aberta.

Dói como se ele estivesse sendo apunhalado nos olhos. Callan os fecha com força para tentar conter a dor.

Ele sente um homem em pé, à sua frente, a observá-lo, então ouve:

— Olhe pra mim.

Callan abre os olhos e os ergue.

Pelas fotos antigas, ele sabe que é Iván Esparza.

— Você veio até aqui pra me matar? — pergunta Esparza. — Está dando certo?

A voz soa como se ele estivesse a cinquenta metros.

Callan não responde.

Esparza recua e lhe dá uma bofetada na lateral do rosto. A cabeça de

Callan explode de dor. Ele dá um tranco à frente e vomita.

— Vai ser assim — diz Esparza —, quando eu fizer uma pergunta, você

responde. Agora entendeu?

Callan assente.

— Quem é você? Qual é o seu nome?

— Sean Callan.

— Quem o mandou?

— O quê?

— Jesus, mas você está, mesmo, um bagaço — diz Esparza. — Quem…

o… mandou? Núñez? Tito? Elena? Não minta pra mim, pendejo, porque eu já sei. Só quero uma confirmação.

Callan tenta pensar.

— Qual foi a pergunta?

Iván lhe dá outra bofetada.

Callan vomita de novo.

Ele mal escuta Esparza dizer:

— Ouça aqui, seu babaca, eu tenho uma equipe voando pra cá. Tudo que

eles fazem é machucar as pessoas, de maneiras que você nem imagina. Eu vou mandar eles machucarem meus conterrâneos, aqui, até que eles me deem seus nomes e onde eu posso encontrar suas famílias, garanto que eles darão as esposas, os pais, os filhos… e eu vou mandar matar todo mundo. Ou…

O britânico grita.

— Ajude-o — diz Callan.

— Claro.

Esparza caminha pela fileira, puxa a pistola e atira na cabeça do

britânico. Ele volta até Callan.

— Mais alguém que você queira que eu ajude? — Não.

— Onde estávamos?

— Elena Sánchez.

— Mandou você.

— Sim.

— Aquela piranha imbecil — diz Esparza. — Núñez ataca e erra. Elena

ataca e erra. Você pode me culpar, por eu me achar imortal? Eu lhe fiz uma pergunta.

— Não.

— Boa resposta — diz Esparza. Ele inspeciona Callan, por alguns segundos. — Sean Callan. Eu ouvi falar de você. “Billy the Kid” Callan. Você é uma porra de uma lenda. É verdade que uma vez você salvou a vida de Adán?

— Sim.

— Eu ouvi essa história — comenta Esparza. — Também ouvi a música. Só não vi o filme. Mas estou impressionado. Bem, podem dizer o que quiserem de Elena, mas ela não é sovina. Só o melhor para La Reina.

— Isso mesmo… — Callan perde a linha de raciocínio, depois diz: — Esses caras… são talentosos… eles têm habilidades que você pode usar… eles podem trabalhar pra você…

— E quanto a você? — pergunta Iván. — Você vai trabalhar pra mim?

— Sim.

— É tentador — diz Esparza. — É, sim. Mas o negócio é o seguinte: eu quero ser a lenda. E para ser a lenda, eu tenho que derrubar a lenda.

Iván caminha até o final da fileira.

Um de seus caras anda atrás dele, segurando um celular para fazer um vídeo.

Iván vai atirando na cabeça dos prisioneiros, um a um. Quando chega a Lev, ele diz:

— Acorde-o.

Um dos caras de Iván dá uma bofetada em Lev, que fica consciente.

Lev ergue os olhos, pisca.

— Shalom, filho da puta. — Iván atira nele.

O sangue espirra na lateral do rosto de Callan.

Agora Iván está parado à sua frente.

— Sabe, eu estou simplesmente farto de gente tentando me matar. Isso me deixa puto de verdade. E o YouTube adora essa merda. Vai viralizar.

Ele aponta a pistola para a testa de Callan.

— Últimas palavras?

— Ãrrã — diz Callan. — Vai se foder.

Callan quer fechar os olhos, mas se obriga a deixá-los abertos e olha fixamente para Esparza.

Viveu durão, vai morrer durão.

Iván abaixa a arma.

— Não se desperdiça uma boa lenda.

Ele manda um de seus caras pegar uma mangueira e lavar o vômito de

Callan.

Callan fica ali sentado, encharcado, tremendo.

Nora espera três dias.

Como não recebe notícias de Callan, ela pega Flor e sai. Mas não vai para a Costa Rica.

Nora vai para o México.

A mulher é deslumbrante.

Não se admira, pensa Elena, que meu irmão a tenha amado. E a

menininha é adorável, embora claramente não seja sua filha. Ela olha para a linda garotinha.

— Meu benzinho, você não quer ir com a Lupe, para que sua mãe e eu

possamos conversar? Ela vai lhe dar uma coisa legal.

Flor olha para Nora, que assente.

A menina sai com a empregada.

— Nós nos conhecemos, anos atrás — diz Nora. — Eu me lembro, é claro — responde Elena. — Meu irmão foi o Chefão

dos Céus e você era “La Güera”, sua famosa dama. Eu tinha um pouquinho de inveja de você, para dizer a verdade. E você está ainda mais bonita agora. Como isso é possível?

— Onde está meu marido?

— Direto ao ponto — diz Elena. — Ela olha pela janela. É um daqueles

dias raros de inverno, em que o Pacífico está cinzento e remexido. — Para responder sua pergunta, eu não sei. Mas se tivesse que arriscar um palpite, diria que ele morreu.

— Ele foi fazer algum trabalho pra você.

— E não voltou — diz Elena. — Imagino que você não tenha visto o

vídeo.

Nora balança a cabeça.

— Iván Esparza foi atencioso o bastante para enviá-lo a mim — diz

Elena. Ela conduz Nora até uma escrivaninha e abre um arquivo no computador. — Imagino que eu deva dar algum alerta, quanto ao conteúdo.

— Eu estou bem.

Nora assiste ao vídeo.

Ela vê Sean — ferido, com dor, desnorteado — erguendo os olhos a Iván e dizendo:

— Ãrrã. Vai se foder.

Nora diz:

— Esparza não o matou.

— Diante da câmera, não — diz Elena —, mas é difícil imaginar que ele toleraria esse tipo de desaforo. Além disso…

— Mas nós não sabemos se Sean morreu — diz Nora.

— Não.

— O que você vai fazer para tê-lo de volta?

— Nada — responde Elena. — O que eu posso fazer?

— Tudo o que estiver ao seu alcance.

— Eu não tenho alcance nenhum — retruca Elena. — Estou derrotada. Os novos poderosos se voltaram contra mim, me emboscaram. Enquanto nós conversamos, tem gente fazendo minhas malas, para que eu vá embora. O problema é que eu não tenho para onde ir.

Iván e Caro (e talvez até Tito) estão à sua caça, no México, enquanto indiciamentos são expedidos para ela e Luis, do outro lado da fronteira.

Talvez ela vá para a Europa.

Pelo tempo que for preciso.

— Você não pode simplesmente deixá-lo lá — insiste Nora.

— Você não entende — diz Elena. — Mulheres como você e eu, nossos dias terminaram. Estamos derrotadas. Nós acreditávamos em algum tipo de decência, decoro, beleza até. O encanto que vem com a ordem. Agora, tudo isso se foi. Nós saímos de cena e só resta o caos.

Elena agora vê isso.

Eu deveria ter enxergado antes, mas agora é tarde demais, pensa ela.

Tito Ascensión vai levar tudo.

Mas ele é apenas um fantoche de Caro.

O velho nos manipulou para destruirmos uns aos outros, para que ele pudesse recolher os cacos e conduzir Tito como o cão que ele sempre foi. Não vai demorar para Tito matar os Esparza, sem sequer saber que está sob o comando de Caro.

O governo vai apoiar Caro, achando que ele vai restabelecer a ordem.

Mas eles estão errados.

O gênio da anarquia saiu da garrafa e eles jamais o colocarão de volta. Agora, há demônios demais para apenas um diabo controlar, e eles vão se matar estupidamente, vorazmente, pelas ruas de Tijuana, pelas praias do Cabo, nas colinas de Guerrero. Vão matar em Acapulco, em Juárez, na própria Cidade do México.

A matança nunca vai ter fim.

— Volte para a Costa Rica — diz Elena. — Eu não posso proteger você

aqui, mas tenho certeza de que você pode fazer algum tipo de acordo com quem assumir. Você conhece esses homens, eles são uns tolos por beleza.

Nora deixa a casa de Elena e dirige até o aeroporto.

Cinco horas depois, ela e Flor estão em Washington.

Keller assiste ao vídeo.

Ele já viu outros, semelhantes, muitas vezes. Foi Eddie Ruiz que

começou esse troço todo de vídeo, anos antes, quando capturou quatro zetas enviados até Acapulco para matá-lo. Eddie os entrevistou diante das câmeras, como um apresentador de programa de TV, depois matou cada um deles e postou o clipe em todo lugar.

Isso deu início a uma tendência.

Agora, Keller assiste às execuções e vai juntando as peças. Através de Cirello, eles passaram a Caro a localização do esconderijo

dos Esparza em Sinaloa. Apenas alguns dias depois, um ataque aéreo no local sofreu uma cilada. E foi isso — os Esparza sabiam que o ataque estava a caminho. Fotos de satélite mostram as carcaças carbonizadas de duas aeronaves na pista de pouso. Eles foram atingidos na aterrissagem. A maioria dos invasores foi morta na hora, alguns foram capturados, o homem que ele olha agora parece ser executado dentro de um hangar.

Ele congela a imagem em um deles.

O rosto coincide com fotos de arquivo da inteligência sobre Elena

Sánchez; aquele é seu suposto chefe da segurança, Lev Ben-Aharon, ex-membro do exército israelense. Por isso o “Shalom, filho da puta”. Dois outros rostos reconhecidos são de um mexicano, Benny Rodriguez, e um rodesiano, Simon van der Kork, ambos nos arquivos como pessoal operacional de Sánchez.

O último homem da fileira é um problema. Nós não vemos Iván matá-

lo. E o diálogo:

— Últimas palavras?

— Ãrrã. Vai se foder.

Sean Callan.

“Billy the Kid”.

Aos vinte e poucos anos, ele comandava a máfia irlandesa, no West Side, em Nova York. Fez uma aliança com a família Cimino de criminosos e tornou-se seu melhor pistoleiro. Teve que deixar Nova York, depois que ajudou a assassinar o padrinho, e acabou se tornando mercenário, na América Central, depois um pistoleiro de Adán Barrera. Salvou a vida de Barrera em um tiroteio, mas o deixou quando os Barrera mataram o padre Juan.

Keller o conheceu.

Porra, eles foram juntos a uma invasão secreta, em Baja, para buscar Nora Hayden. Isso foi há muito tempo. Callan e Nora foram embora juntos, Keller nunca mais soube deles, nem procurou saber onde estavam.

Que vivam em paz.

Mas que diabo Callan está fazendo em uma missão de Sánchez, para matar Iván Esparza? Será que ele voltou a sua antiga profissão?

Por quê?

Cristo, está tudo voltando.

Keller foca na questão em pauta.

Você dá a localização dos Esparza a Caro, pensa ele.

Caro dá a Elena.

Então, diz a Iván que o pessoal de Elena está a caminho?

Por que ele não deu a Tito, pensa Keller, que teria uma chance melhor de eliminar os Esparza? Você respondeu sua própria pergunta: ele queria eliminar Elena primeiro. Armar uma cilada para que seus melhores soldados morressem.

Então, agora, duas das três facções do cartel Sinaloa estão incapacitadas.

Núñez père e fils estão em fuga, tentando controlar suas operações de algum esconderijo.

A facção Sánchez está avariada, não deve mais ter conserto.

Os Esparza foram os que sobraram, mas eles estão literalmente feridos, em guerra com o cartel Jalisco de Tito, cada vez mais poderoso.

A única constância nesse desenrolar é Rafael Caro. Keller tem que lhe dar esse crédito. Eu tentei destruir o cartel Sinaloa por décadas, pensa ele; Caro fez isso em meses.

Essa é a boa notícia.

A má notícia é que o cartel Jalisco é o novo poder. Rafael Caro não fez tudo isso apenas para colocar a coroa na cabeça de

Tito. Se Tito é o rei, Caro é Richelieu, ele é Wolsey, ele é Warwick. Ele vai usar Ascensión para aniquilar Sinaloa — deixar Tito usar a coroa e a pressão que vem com ela — enquanto cavalga no dragão do caos, pensando que ele pode controlar tudo, ser o verdadeiro rei.

Mas não há mais reis, pensa Keller.

O último morreu na Guatemala.

Elena senta na traseira do Escalade.

Luis está a seu lado.

Em sua bolsa há duas passagens de primeira classe para Barcelona. De

lá, quem sabe? Ela tenta não pensar no futuro duvidoso. Um passo de cada vez. Primeiro, o trajeto até o Aeroporto Internacional de Tijuana. Seu pequeno comboio de três veículos — ela concluiu que mais que isso atrairia mais atenção do que segurança.

A segurança é um problema.

Nove ligações para Tito, nenhum retorno.

Sete ligações para Rafael, mesma coisa.

Ligações para os sicários, administradores das celas, polícia, políticos.

Parece que ninguém a conhece, velhos amigos nem se lembram de seu nome.

Ela recebeu uma ligação.

De Iván.

— Você viu meu vídeo? — perguntou ele.

— Sim, encantador, obrigada.

— Você não deveria ter feito aquilo — disse Iván. Ele parecia doidão.

— Eu não matei seu filho. Não matei Rudolfo. Nunca gostei muito dele, ele era meio cuzão, mas eu não o matei.

— Então, quem foi?

— Núñez? — disse Iván. — Caro?

— Caro estava na cadeia.

— Os chefes nunca deram ordens da cadeia? — perguntou Iván. — Eu

não sei, só sei que não fui eu.

— Por que está me dizendo isso?

— Pra você parar de me odiar — respondeu Iván. — Isso importa pra você?

— Acredite se quiser.

— Você ganhou, Iván — disse Elena. — Eu vou pegar Luis e vou embora. Você pode ficar com o que conseguir tirar de Tito, ou com o que conseguir impedir que ele pegue. E Deus o ajude.

Ela desligou.

Agora, ela está no banco traseiro do carro e sabe que Iván falou a verdade.

Foi Caro.

Foi Caro o tempo todo.

Esperando em uma cela, por vinte anos, pensando em como se vingar das pessoas que ele achou que o traíram.

Se eu soubesse…

Mas agora é tarde demais.

Agora tudo o que ela pode fazer é salvar a vida de Luis.

O carro segue pela Rota 3, passa Punta Morro, La Playita e El Sauzal. Elena nunca vê El Sauzal sem uma ponta de dor; foi ali que Adán ordenou a morte de dezenove pessoas inocentes, para ter certeza de que mataria um informante.

O comboio passa por El Sauzal, depois Victoria, e o motorista pega a saída e um contorno que segue pela Rota 3, que vai para o continente. Ele deveria seguir rumo à Rota 1, que sobe para Tijuana e o aeroporto.

Ela se inclina à frente.

— O que você está fazendo? Você tem que pegar a 1.

O carro da frente pegou a direção correta e desceu pela Rota 1, portanto, agora não há nenhum veículo na frente do carro de Elena.

— Pegue o próximo retorno — diz ela. — Você pode voltar à 1.

Mas o motorista não pega. Ele segue reto, continua a leste na rota 3 e então, Elena ouve um ronco ruidoso atrás deles. Ela vira e vê, pelo vidro traseiro. Devem ser umas dez motocicletas, que vêm atrás de seu carro, depois passam às laterais.

Estouros saem dos canos das armas.

O carro serpenteia e crepita.

As motocicletas — bizarramente, todas são cor de rosa — vêm atrás de seu carro. Ela ouve o ronco de mais motores e vira para olhar à frente. Mais motos vindo direto na direção deles.

O motorista vai encostando.

— Não faça isso! — grita Elena.

O motorista deita no banco da frente.

Agora, os motociclistas estão girando em volta dela como índios

daqueles filmes ruins americanos de bang-bang.

Elena vê aquela garota — aquela garota tão vulgar do velório de Adán, a

mesma que matou o assassino de Rudolfo — em uma das motos, conforme elas vão girando em um círculo mais fechado. A garota ergue uma pistola automática e dispara. Elena abaixa, mas Luis entra em pânico. Ele abre a porta e tenta correr, abandonando-a. Ela o agarra, tentando impedi-lo, mas ele sai correndo.

Rumo a uma parede de balas.

Os tiros o atingem nas pernas, no peito, no rosto. Com os braços flexionados, ele cai para trás.

Elena rasteja para fora do carro e ajoelha ao lado do corpo

ensanguentado e mutilado do filho. Ela o ergue, segura nos braços, olha para o céu e grita. Grita com toda a sua voz, todo o seu coração.

Um uivo profundo e sinistro.

Belinda desce da moto.

Ela se aproxima, põe a pistola na testa de Elena e diz: — Você sempre se achou melhor que eu.

Ela aperta o gatilho.

Elena cai por cima do filho morto.

A dinastia Barrera das drogas morreu.

Na verdade, está mais morta do que muita gente pensa.

A campainha toca na casa de Eva, em La Jolla. Ela espia pelo olho mágico e vê um homem ali sozinho, vestindo uma

camisa pólo ameixa e calças de sarja. Ele parece inofensivo, então, ela abre a porta.

— Sim?

— Você não deve se lembrar de mim, mas eu fui ao seu casamento —

diz ele. Ele olha atrás dela, onde estão seus filhos gêmeos, timidamente o espiando. — Quem são esses dois bonitinhos? Vocês devem ser Miguel e Raúl.

— Quem é você? — pergunta Eva.

— Eddie — diz ele. — Eddie Ruiz.

Eva, Eva, Evaaaah, pensa Eddie.

Eva Esparza Barrera.

Ainda bem gostosa, e agora está com quanto, uns 28 anos. Gata. Inteirinha. Dois filhos e ainda com a bunda em pezinha, peitinhos duros como eram quando Adán Barrera a tirou do berço.

A noiva criança de El Señor.

Arranjaram-lhe um casamento com um velho, para consolidar uma aliança e produzir herdeiros que uniriam as duas facções do cartel. A meiga, recatada e virginal Eva, cujo velho protegia sua chocha como se valesse ouro, e meio que valia.

E os dois principezinhos ali — Príncipe Miguel e Príncipe Raúl. Eddie fica imaginando qual dos dois saiu primeiro, pois, tecnicamente, esse seria o primeiro na linha de sucessão da coroa.

Agora o papi deles está morto.

O tio Raúl está morto.

O tio-avô M-1, morto.

O primo Sal, muerto. Ah, sim, fui eu que matei Sal, pensa Eddie, mas tanto faz. Quando nasce um Barrera, suas chances de morrer de velhice não são tão boas. E a pequena Eva, aqui — com quem Eddie pensou em transar, quando ela estava entrando na igreja — é uma viúva muito gostosa.

Com dezenas de milhões de dólares aos quais Eddie não se importaria em, bem, ter acesso.

— Como me encontrou? — pergunta Eva.

— Persistência — diz Eddie.

E uma fonte na Divisão de Narcóticos.

Eva é cidadã americana. Seu papi trouxe sua mami ao outro lado da fronteira para que ela nascesse em San Diego, portanto, ela está aqui perfeitamente legal, e embora seu adorado falecido marido fosse o maior traficante de drogas do mundo, não há uma única acusação contra a viúva lamentosa.

A ficha de Eva é limpa.

— O que posso fazer por você? — pergunta Eva.

— Talvez os meninos queiram ir assistir Vila Sésamo, ou algo assim? — sugere Eddie.

— Isso não passa há anos — diz Eva. — Por onde você andou?

— Fora.

— No exterior?

— Isso.

Eva diz:

— Eu posso pôr um filme pra eles.

— Seria ótimo.

Ela abre a porta e o deixa entrar. Então, leva os meninos por um

corredor. Alguns minutos depois, ela volta, leva Eddie até a sala de estar e gesticula para que ele sente no sofá.

É uma bela casa, pensa Eddie.

Móveis novos, vista para o mar.

Sete dígitos, facilmente.

Dinheiro trocado para Adán.

Eva está vestindo preto — blusa preta com jeans preto e sandálias. Seus

cabelos estão presos em um daqueles rabos-de-cavalo de mamãe gostosa que acabou de chegar da ioga.

— Eddie Ruiz — diz ela. — Você não trabalhava para o meu marido? Se “trabalhei para ele”?, pensa Eddie. Piranha, eu tomei Novo Laredo

para o seu marido. Armei uma arapuca para Diego Tapia ser morto, para o seu marido. Fui parar na Guatemala para salvar seu marido. E, falando nisso, eu transformei o homem que matou seu pai em uma tocha humana. Então, não fale comigo como se eu tivesse acabado de trazer sua roupa da lavanderia.

— Isso mesmo. Antigamente.

Quando seu marido estava do lado de cá da grama. — Sobre o que quer falar? — pergunta ela.

— Dinheiro.

— O que tem?

— Quem administra seu dinheiro agora? — pergunta Eddie. — Seus

irmãos?

— Isso não é da sua conta.

— Mas poderia ser — diz Eddie. — E eu não roubaria de você. — Você acha que meus irmãos estão me roubando? — Como você saberia? — pergunta ele. — Você simplesmente aceita o

que eles lhe dão, correto? E diz “obrigada”?

— Eles cuidam de mim.

— Como se você fosse uma menininha.

— Eu não sou uma menininha — diz ela, se zangando. — Então, por que age como se fosse?

Ele expõe tudo a ela: ela tem direito a todo o dinheiro proveniente da facção de Adán do cartel. São dezenas de milhões por ano — dinheiro que precisa ser lavado e investido. Certo, então seus irmãos dizem que fazem isso, mas, será? Será que ela recebe cada centavo que lhe é devido, ou eles simplesmente lhe dão o que acham que ela merece? Eles lhe enviam todo o dinheiro, ou mandam uma mesada?

Pela expressão que ele vê em seu rosto, é a última opção.

— Está brincando comigo? — pergunta Eddie. — Você é uma mulher feita, com dois filhos.

Ele pressiona. Será que eles estão ao menos investindo bem o dinheiro dela, ela está obtendo o retorno que deveria? Ela não sabe, porque nem acompanha a contabilidade, ela nem pergunta nada.

— O dinheiro é seu, não deles — diz Eddie. — Se você o aplicar com a gente, nós estaremos bem cientes de que o dinheiro é seu, não nosso.

— Quem é “a gente”?

Metade do caminho, pensa Eddie. Se ela não estivesse interessada, já teria mandado ele dar o fora, ou estaria ao telefone falando com os irmãos.

— Eu faço parte de um consórcio com gente muito importante, cujos nomes você pode ou não conhecer.

— Fale.

— Rafael Caro.

Esse é o ponto em que o negócio pode desabar, pensa Eddie. Se ela souber que Caro e Barrera travaram uma guerra, quando ela era um ratinho. Tipo, quando ainda passava Vila Sésamo.

Ela não sabe.

Ele percebe pela expressão vaga em seus olhos.

Jesus, será que ela é tão imbecil quanto dizem?

— Nunca ouvi falar dele — diz ela, como se Caro fosse algum músico que ela não tem na playlist.

— Ele está fora — afirma Eddie.

— No mesmo lugar onde você esteve “fora”?

Por acaso, sim, pensa Eddie.

— Caro tem contatos nos mais altos escalões, tanto do governo mexicano como do americano, e em círculos de negócios. Ele… nós… podemos fazer com que esses contatos trabalhem pra você. Rendam muito dinheiro, colocando você no comando de sua própria vida.

— Se eu trair meus irmãos.

— A lealdade é uma via de mão dupla — diz Eddie. — Eva, você acha

que eu não entendo você, mas eu entendo. Você tinha dezessete anos, quando seu pai lhe deu em casamento a um velho, por negócios. Agora, seus irmãos estão encrencados, e eles precisam fazer as pazes com Tito Ascensión. Lembra-se dele? Um grandalhão horrível, que parece um cachorro?

— O que você está dizendo?

— Sabe o que o Iván tem a oferecer ao Tito? — diz Eddie. — Você. — Ele não faria isso.

— Se você tiver sorte, eles podem casá-la com o filho de Tito — afirma

Eddie. — Tem mais ou menos a sua idade, não é feio. Mas se Tito for a fim de você, bem, é bom você fazer um estoque de osso e ração, Eva, isso pode fazer com que ele saia de cima de você, por alguns segundos, de vez em quando.

— Você é nojento.

— Achei que você fosse uma mulher, mas você ainda quer ser uma

menina. — Ele levanta. — Foi um prazer revê-la. Desculpe por ter desperdiçado seu tempo.

— Sente-se.

Eddie hesita, por um segundo, para deixar que ela pense que ele está

relutante. Depois senta e olha pra ela.

— Como seria isso? — pergunta ela.

Ele explica tudo. Ela não teria que confrontar Iván. Eles já sabem quem

são as pessoas que cuidam do dinheiro dela, e irão a essas pessoas, explicar que os trâmites mudaram, que Eva Esparza Barrera está assumindo o controle da própria vida. Se eles concordarem, ótimo, se não…

— Eu não quero nenhuma violência — diz Eva. Claro que não, pensa Eddie. Você se casou com um cara que jogava

criancinhas da ponte, mas você não quer sujar as mãos de sangue. Como a maioria das esposas, você gosta do dinheiro, das roupas, joias, carros e casas, mas não quer saber de onde vêm.

— Sem violência — diz ele.

A menos que seja necessário.

Então, ele vê que vai perdê-la.

E ele não quer perdê-la. Se eles tiverem a mami dos gêmeos reais em

seu time, a vagina de onde brotaram os rebentos de Barrera, isso lhes daria legitimidade instantânea. Porra, tem gente no México que ainda acende velas, faz preces pelo Santo Adán.

E o dinheiro dela também não vai fazer mal nenhum.

Mas ela está dizendo:

— Eu não sei…

Eddie sabe o que “eu não sei” significa para uma mulher. Significa não. Significa “eu gosto de você como amigo”. Significa que ela vai beber vinho e assistir Netflix com você, mas não vai transar contigo.

Mas você vai, sim, pensa Eddie. Você ainda não sabe, Eva, mas vai ficar de quatro e levantar essa bunda para mim. Eu não queria fazer isso, eu queria que fosse uma sedução, não uma transa dura, mas…

— Você quer saber o que eu sei? — pergunta Eddie. — Seu antigo guarda-costas, Miguel? Você transou com ele, em seu condomínio, no Bosques de las Lomas, em 2010. Exatamente nove meses antes de os gêmeos nascerem.

— Isso é absurdo.

— Miguel não queria entregar você — diz Eddie. — Ele guardou segredo por muito tempo. Mas, no fim das contas, ele deu mais valor às bolas do que a você. Não dá pra culpá-lo, dá?

— Ele está mentindo.

— Não está, não — diz Eddie. — Olhe, eu não a culpo. Você tinha que engravidar ou Adán a substituiria por outra miss de concurso de beleza, que ele também não pudesse engravidar. Eu entendo. Você fez o que precisava fazer. E, contanto que você esteja conosco, é de nosso interesse fingir que os dois bastardinhos que estão lá dentro assistindo alguma merda qualquer são produto do esperma sagrado de Adán Barrera, e não de um garoto brinquedo bombado que você não mandou usar preservativo. Mas, se você não trabalhar com a gente… o que seus irmãos fariam, se soubessem disso? Iriam bater em você? Matar você? Cortar seu dinheiro, com certeza. E o que faria o resto do mundo, quando descobrisse que você não é a viúva recatada e pesarosa, mas… não sei… uma vagabunda? Uma piranha? Quer dizer, meu Deus, Eva, sério? O guarda-costas? Isso é tão… pornô.

Agora ele vai realmente descobrir se ela é uma menina ou uma mulher.

Uma menina começa a chorar.

Uma mulher faz um acordo.

Eddie dá uma cutucada na direção que ele quer que ela vá.

— Nós podemos construir um império, Eva. Aqueles meninos podem

ser reis. Pela primeira vez, desde que você nasceu, você pode assumir o controle da porra da sua vida.

Eva não chora.

Ela assente.

— Certooooo — diz Eddie. Ele levanta outra vez. — Eu vou

providenciar tudo.

Ela o acompanha até a porta.

Eddie pergunta:

— Você está saindo com alguém? Tem algum cara? Ela sorri.

— Isso não é da sua conta.

Não, pensa Eddie.

Mas poderia ser.

Rafael Caro acaba de assumir o cartel Sinaloa, pensa Keller ao receber a informação de que Eddie Ruiz foi visitar Eva Barrerra.

Então, Eddie passa a despejar toneladas de dinheiro em seus bancos de

lavagem. Muito mais dinheiro do que ele tem. Só pode ser dinheiro de Eva, que está sendo depositado nos bancos de San Diego, aplicado em imóveis nos EUA e México, em projetos de construção nos dois países, na Europa e no Oriente Médio e, sim, no HBMX.

Entrando no consórcio.

Corre o boato de que alguns contadores que cuidam do dinheiro Esparza

passaram a trabalhar para Ruiz. Outros foram encontrados mortos, ao volante de seus carros.

Keller sabe que muitos dos que foram leais a Barrera vão desertar para a

dupla Caro-Ruiz, quando se espalhar que Eva está com eles. O único fato surpreendente é que Caro não tenha pegado Eva para si — ao menos, ainda não.

Mas agora Eddie vai erguer a bandeira de Barrera. Adán vive.

Barrera tem o cartel novamente.

Ele tem o consórcio.

O consórcio se tornou o cartel e o cartel se tornou o consórcio. Em breve, o consórcio terá a Casa Branca.

Uma coisa só.

Por cima do meu cadáver, pensa Keller.