A fronteira
LIVRO 1: Memorial
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
LIVRO 1
Memorial
“Só os mortos veem o fim da guerra.”
— Platão
1
Monstros e fantasmas
“Monstros são reais e, fantasmas também. Eles vivem dentro de nós e, às vezes, eles vencem.”
— Stephen King
1 de novembro de 2012.
Art Keller sai da selva da Guatemala como um refugiado.
Deixou para trás uma cena de carnificina. No pequeno vilarejo de Dos
Erres, corpos se amontoam, alguns meio queimados, nos restos da fogueira onde foram jogados, outros, na clareira da vila, onde foram metralhados.
A maioria dos mortos são narcos, pistoleiros de cartéis rivais que
supostamente tinham ido até ali para uma reconciliação. Tinham negociado um pacto; porém, na festa degenerada para comemorar o feito, os zetas sacaram suas armas, canivetes e facões e começaram a massacrar os sinaloas.
Keller tinha literalmente caído na cena — o helicóptero em que estava
fora atingido por um foguete e entrara em giro até fazer um pouso forçado no meio do fogo cruzado. Ele não era exatamente inocente, tendo planejado com o chefe Sinaloan, Adán Barrera, que viria com uma equipe de mercenários e eliminaria os zetas.
Barrera armara uma arapuca para seus inimigos. O problema é que os inimigos também tinham um plano, e o
executaram primeiro.
Mas os dois alvos principais da missão de Keller, os líderes dos zetas,
estavam mortos — um decapitado e o outro transformado em tocha humana. Então, conforme o acordo de trégua apreensiva e malévola, Keller entrara na selva para encontrar e trazer Barrera.
Keller sentia como se tivesse passado toda a sua vida adulta
perseguindo Adán Barrera.
Depois de vinte anos, enfim colocara Barrera em uma cadeia americana,
só para vê-lo ser transferido de volta a uma instituição mexicana de segurança máxima, da qual o traficante prontamente “escapara”, fugindo para se tornar ainda mais poderoso, assumindo o papel de padrinho do cartel Sinaloa.
Keller, portanto, voltara ao México para perseguir Barrera mais uma vez, para, depois de oito anos, simplesmente tornar-se seu aliado, juntando-se a ele em prol de derrubar os zetas.
Tinha que escolher dos males, o menor.
E a escolha fora feita.
Só que, depois do confronto, Barrera desapareceu.
Então, agora, Keller andava pela mata.
Entrega alguns pesos para o guarda da fronteira, comprando o seu ingresso ao México, depois marcha pela trilha de dez milhas até o vilarejo de Campeche, onde a incursão fora planejada.
Ele mais cambaleia do que caminha, na verdade.
A adrenalina do tiroteio iniciado antes do amanhecer já baixara, e Keller agora sente o sol e o calor da floresta tropical. As pernas doem, os olhos ardem, o fedor das labaredas, da fumaça e da morte está impregnado no nariz.
O cheiro de carne humana queimada não passa nunca.
O almirante Orduña o aguarda na pequena pista de pouso aberta na floresta. O comandante das FES está sentado dentro da cabine de um helicóptero Black Hawk. Keller e Orduña formaram um relacionamento do tipo “o que você precisar, a qualquer hora” durante a guerra contra os zetas. Keller proporcionava informações do mais alto nível da inteligência americana e frequentemente guiava os mariners, — as tropas de elite especiais — pelo território mexicano.
Essa missão tinha sido diferente — a chance de decapitar a liderança zeta com um único golpe surgira na Guatemala, onde os mariners mexicanos não podiam ir. Mas Orduña proveu à equipe de Keller uma base de planejamento e apoio logístico, além de transporte aéreo da equipe até Campeche. então ficou aguardando para ver se seu amigo Art Keller ainda estava vivo.
Orduña dá um sorriso largo quando avista Keller saindo da mata, depois tira uma garrafa gelada de cerveja Modelo de um isopor e dá a Keller.
— E o restante da equipe? — pergunta o americano
— Já seguiram num voo. A essa altura, eles devem estar em El Paso.
— Baixas?
— Um morto em combate — diz Orduña. — Quatro feridos. Eu não
tinha muita certeza quanto a você. Se não voltasse até o anoitecer, a la mierda todo, iríamos até lá te buscar.
— Eu estava procurando Barrera — conta Keller, mandando a cerveja
para dentro.
— E?
— Não o encontrei.
— E quanto a Ochoa?
Orduña odeia o líder Zeta quase tanto quanto Keller odeia Adán Barrera.
A guerra contra as drogas tende a ficar muito pessoal. Para Orduña, passou a ser pessoal quando um de seus oficiais foi morto em um ataque contra os zetas, que ainda tiveram a audácia de assassinar a mãe, a tia, a irmã e o irmão do jovem na noite de seu enterro. Na manhã seguinte, Orduña formou os “Matazetas”, os matadores dos zetas. E matar os zetas era o que faziam, sempre que tinham a oportunidade. Se capturavam prisioneiros, era apenas para obter informação antes de executá-los.
Keller tinha motivos diferentes para odiar os zetas. Diferentes, mas suficientes.
— Ochoa morreu — informa Keller.
— Confirmado?
— Eu mesmo vi. — Tinha testemunhado Eddie Ruiz despejar uma lata
de parafina por cima do chefe Zeta ferido e depois lançar um fósforo aceso sobre ele. Ochoa morrera gritando. — O Forty também morreu.
Forty era o segundo em comando de Ochoa. Sádico como o chefe. — Você viu o corpo? — pergunta Orduña.
— Vi a cabeça. Não estava presa ao corpo. Está bom pra você? — Está de bom tamanho — diz Orduña, sorrindo. Na verdade, Keller não vira a cabeça de Forty. O que ele viu foi o rosto,
que alguém tinha arrancado e costurado a uma bola de futebol.
— Ruiz apareceu? — pergunta Keller.
— Ainda não.
— Ele ainda estava vivo, da última vez que o vi. Estava ocupado transformando Ochoa em uma tocha humana. Depois,
em pé, em um pátio antigo de rochas maia, assistindo a um menino chutar uma bola de futebol bizarra.
— Talvez ele tenha simplesmente partido — sugere Orduña. — Talvez.
— É melhor entrarmos em contato com o seu pessoal. Estão ligando a cada quinze minutos. — Orduña digita alguns números no celular descartável e diz: — Taylor, adivinhe quem está aqui.
Keller pega o telefone e ouve Tim Taylor, chefe da Divisão de Narcóticos do Distrito Southwest, dizer:
— Deus do céu, achamos que você estava morto.
— Lamento decepcioná-los.
Estão esperando por ele no hotel de beira de estrada Adobe Clint Inn, em uma área remota do Texas, a alguns quilômetros de El Paso.
O quarto é no estilo padrão “barato e prático”, com uma sala de estar espaçosa, com área de cozinha — micro-ondas, cafeteira, uma geladeira pequena —, sofá com mesinha de centro, duas poltronas e uma televisão. Uma pintura malfeita de um pôr do sol foi pendurada por trás de um cacto. Uma porta à esquerda, agora aberta, conduz a um quarto e um banheiro. É um lugar bom e comum para passar o relato da missão.
A televisão está ligada, na CNN, o volume baixo.
Tim Taylor está sentado no sofá, olhando um laptop sobre a mesa de centro. Há um telefone de satélite pousado na vertical ao lado do computador.
John Downey, comandante militar da incursão, está junto ao micro-ondas, esperando que termine de aquecer alguma coisa. Keller vê que ele já tomou banho e se barbeou, e já trocou a roupa camuflada por uma camisa polo roxa, jeans e tênis.
Outro homem, um cara da CIA que Keller conhece como Rollins, está sentado em uma das cadeiras assistindo à televisão.
Downey ergue os olhos quando Keller entra.
— Em que porra de buraco você estava metido, Art? Nós vasculhamos com satélites, fizemos buscas com helicópteros…
Barrera deveria ter sido trazido para os EUA em segurança. Esse era o acordo. Keller pergunta:
— Como está seu pessoal?
— Vum. — Downey faz um gesto com as mãos, como a revoada de um bando de codornas. Keller sabe que, em algumas horas, o pessoal de operações especiais estará espalhado por todo o país, se não pelo mundo, com matérias de capa sobre os lugares onde estiveram. — O único que não se apresentou foi Ruiz. Eu estava torcendo para que viesse com você.
— Eu o vi depois do tiroteio — diz Keller. — Estava saindo. — E então o Ruiz evaporou? — pergunta Rollins. — Não precisa se preocupar — afirma Keller. — Ele é responsabilidade sua — lembra Rollins. — Foda-se o Ruiz — intervém Taylor. — O que aconteceu com Barrera? — Você tem que dizer — retruca Keller.
— Não tivemos nenhuma notícia.
— Então, imagino que não tenha sobrevivido. — Você se recusou a embarcar no helicóptero de resgate — fala Rollins. — O helicóptero precisava decolar, mas eu ainda tinha que encontrar
Barrera.
— Mas não o encontrou — retruca Rollins.
— Operações Especiais não é um serviço de quarto — responde Keller.
— Nem sempre dá pra conseguir exatamente o que a gente pede. Imprevistos acontecem.
E logo no primeiro momento.
Tinham chegado por ar, no meio de um fogo cruzado, enquanto os zetas
massacravam os sinaloas. Então, um foguete atingira o helicóptero de Keller, deixando um morto e um ferido. Portanto, em vez de descer pela corda, fizeram um pouso forçado na zona de conflito. Depois precisaram transferir a equipe para o helicóptero remanescente.
Tivemos sorte de conseguir tirar todo mundo, pensa Keller, e ainda
concluir a missão principal de executar os líderes zetas — diz Keller Se não conseguimos trazer Barrera, bem…
— Pelo que entendi, a missão prioritária era eliminar o comando e
controle dos zetas. Se Barrera foi uma baixa colateral…
— Melhor ainda? — completa Rollins.
Todos ali sabem do seu ódio por Barrera.
Sabem que o chefão das drogas torturou e assassinou o seu parceiro. Algo que ele jamais esqueceu, muito menos perdoou. — Não vou fingir que estou triste por Adán Barrera — diz Keller. Conhece a situação no México melhor que qualquer pessoa ali.
Gostando ou não, o cartel Sinaloa é a chave da estabilidade no México. Se o cartel desmoronar porque Barrera se foi, a paz tênue que se instalou pode ir junto. Barrera também sabia disso — esse comportamento après moi, le déluge lhe permitia conduzir uma barganha acirrada tanto com o governo mexicano quanto com o americano, para que o deixassem em paz e atacassem seus inimigos.
O micro-ondas apita e Downey pega a bandeja.
— Lasanha da Stouffer’s. Um clássico.
— Nós nem sabemos se Barrera está morto — lembra Keller. — Encontraram um corpo?
— Não — responde Taylor.
— O D-2 está no local — revela Rollins, referindo-se à agência de inteligência paramilitar da Guatemala. — Não acharam Barrera. Nem qualquer um dos alvos primários, aliás.
— Posso confirmar pessoalmente que ambos os alvos foram eliminados — diz Keller. — Ochoa virou carvão, e Forty… bem, você não vai querer saber. Estou dizendo, os dois são coisas do passado.
— É melhor torcermos para que Barrera não seja — afirma Rollins. — Se o cartel Sinaloa ficar instável, o México também fica.
— Já é de lei termos alguma consequência que não poderíamos ter imaginado — comenta Keller.
Rollins diz:
— Tínhamos um acordo bem específico com o governo mexicano quanto a preservar a vida de Adán Barrera. Demos nossas garantias sobre a segurança dele. Isto não é o Vietnã, Keller. Não é Phoenix. Se descobrirmos que você violou esse acordo, vamos…
Keller se levanta.
— Vocês não vão fazer merda nenhuma, Rollins. Porque essa foi uma operação ilegal, que “nunca aconteceu”. O que vão fazer, me levar a julgamento? Vão me colocar no banco das testemunhas? Pedir que eu deponha sob juramento, me deixar dizer que tínhamos um acordo com o maior chefão do tráfico de drogas do mundo? Que eu participei de uma incursão patrocinada pelos Estados Unidos para eliminar seus rivais? Bem, eu vou dizer uma coisa que só quem faz esse trabalho de verdade sabe: nunca saque a arma a menos que esteja preparado para apertar o gatilho. Você está?
Não há resposta.
— É, foi o que eu pensei — completa Keller. — Só pra constar, eu queria, sim, matar o Barrera, eu gostaria de ter matado o infeliz, mas não matei.
Ele sai andando.
Taylor vai atrás.
— Pra onde você vai?
— Não é da sua conta, Tim.
— Para o México?
— Não trabalho mais com a Narcóticos — diz Keller. — Você não pode
me dizer pra onde ir, ou deixar de ir.
— Vão matar você, Art — afirma Taylor. — Se não forem os zetas,
serão os sinaloas.
Provavelmente, pensa Keller.
Mas, se eu não for, vão me matar de qualquer jeito. Keller segue de carro até El Paso, ao apartamento que mantém perto do
centro de inteligência da cidade. Tira roupa imunda e cheia de suor e toma uma ducha quente e demorada. Depois, vai até o quarto e deita, percebendo repentinamente que não dorme há quase dois dias e que está exausto, esgotado.
Esgotado demais até para dormir.
Então se levanta, veste uma camisa social branca e um jeans e pega a
pistola compacta Sig 380 no cofre do armário do quarto. Prende o coldre ao cinto e veste uma jaqueta-azul marinho, já saindo pela porta.
Rumo a Sinaloa.
Sua primeira visita a Culiacán tinha sido como um agente novato da Divisão de Narcóticos, nos anos 1970, quando a cidade era o epicentro do comércio de heroína do México.
E agora voltou a ser, pensa, enquanto atravessa o terminal em direção
ao balcão de táxi. Tudo completando um ciclo.
Naquela época, Adán Barrera era só um garoto sem rumo, tentando
ganhar a vida como agente de boxe.
Seu tio, no entanto, um policial de Sinaloa, era o segundo maior
cultivador de ópio da cidade, esforçando-se para se tornar o maior. Isso foi há muito tempo, quando ainda queimávamos e destruíamos os campos de papoula, pensa Keller. Os camponeses eram tirados de suas casas, e Adán foi preso em uma dessas varreduras. Os federales iam jogá-lo de um avião, mas eu interferi e salvei sua vida.
O primeiro de muitos erros.
O mundo teria sido um lugar bem melhor se os tivesse deixado brincar
de esquilo voador com o pequeno Adán, em vez de deixá-lo viver para se tornar o maior traficante de drogas do mundo.
Mas, na verdade, os dois eram amigos naquela época.
Amigos e aliados.
Difícil de acreditar.
Mais difícil ainda de aceitar.
Ele entra em um táxi e diz ao motorista que quer ir ao centro da cidade.
— Onde, exatamente? — pergunta o homem, olhando seu rosto pelo espelho retrovisor.
— Não importa. – A corrida vai te dar tempo de ligar para os seus chefes e dizer que tem um yanqui esquisito na cidade.
Em todas as cidades mexicanas onde há forte presença do narcotráfico, os motoristas de táxi são halcones — “falcões” —, os espiões dos cartéis. A função deles é vigiar os aeroportos, as estações de trem e as ruas, e avisar a quem estiver no poder sobre quem chega e quem sai da cidade.
— Eu vou lhe poupar o esforço, ok? — diz Keller. — Ligue para quem for o seu contato e diga que está com Art Keller no táxi. Eles vão dizer pra onde você deve me levar.
O motorista pega o celular.
Ele faz várias ligações, e a cada uma sua voz vai ficando mais tensa. Keller conhece o esquema: o taxista liga para seu líder local, que liga para o dele, que vai passar o nome adiante — Art Keller — até chegar no topo.
Keller olha pela janela, enquanto o táxi segue, entrando na cidade pela Rota 280, e vê as homenagens póstumas deixadas à beira da estrada para os narcos mortos — a maioria jovem — na guerra das drogas. Muitos memoriais são simples punhados de flores e uma garrafa de cerveja deixada ao lado de uma cruz de madeira barata, alguns têm banners com fotos coloridas do falecido pendurados entre dois postes, outros são sepulcros elaborados em mármore.
Daqui a pouco vão aparecer mais homenagens, pensa. Quando chegar a notícia do “Massacre de Dos Erres”. Quase cem sicários sinaloanos tinham ido para a Guatemala com Barrera. Poucos voltarão.
E haverá memoriais no coração das terras dos zeta Chihuahua e Tamaulipas, no nordeste do país, quando seus soldados não regressarem.
Keller sabe que os zeta perderam a força. Tinham sido uma verdadeira ameaça por todo o país, mas o cartel paramilitar composto de ex-integrantes das tropas especiais ficara paralisado, sem liderança, agora que seus melhores membros tinham sido assassinados por Orduña ou mortos na Guatemala.
Não restava ninguém para desafiar Sinaloa.
— Disseram para levar você a Rotarismo — anuncia o motorista,
parecendo nervoso.
Rotarismo é um bairro na periferia nordeste da cidade, uma paisagem
hostil com colinas vazias e fazendas abandonadas.
Local fácil para desovar um cadáver.
— Para uma oficina mecânica — completa o taxista. Ah, que bom, pensa Keller.
As ferramentas já estão lá.
Para desmembrar um carro ou um corpo.
É sempre possível identificar uma reunião de narcos de alto escalão pelo número de caminhonetes estacionadas no local. E essa deve ser uma reunião bem importante, pensa Keller, à medida que vão se aproximando, ao ver uma dúzia de Suburbans e Expeditions perfiladas na frente da garagem, todas com canos de armas despontando da janela, como os espinhos de um porco-espinho.
As armas apontam para o táxi, e Keller considera a possibilidade de o
motorista mijar nas calças.
— Fique calmo.
Alguns sicarios uniformizados patrulham o perímetro a pé. Isso se
tornou uma constante em todas as ramificações dos cartéis — cada um tem sua própria equipe de segurança armada com uniformes característicos.
Esses estão com bonés Armani e coletes Hermès. O que Keller acha meio estapafúrdio.
Um homem sai da garagem e vem depressa em direção ao táxi, abre a
porta traseira do passageiro e manda Keller descer da porra do carro.
Keller o conhece. Terry Blanco é um policial estadual de alta patente em
Sinaloa. Ele está na folha de pagamentos do cartel desde que era novato e agora já tem fios grisalhos nos cabelos negros.
— Você não faz ideia que está acontecendo — anuncia Blanco. — Foi por isso que eu vim — responde Keller. — Você sabe de alguma coisa?
— Quem está lá dentro?
— Núñez.
— Então vamos.
— Keller, se você entrar, talvez não saia — avisa Blanco.
— Já me acostumei com essas situações — retruca Keller.
Terry o conduz pela garagem, passando pelas baias de trabalho e pelos elevadores, até uma área grande e vazia com piso de concreto que mais parece um depósito.
É a mesma cena do motel.
Só os personagens mudaram.
Mas todos agem da mesma forma: alguns ao telefone outros, trabalhando em laptops, todos tentando obter informações do paradeiro de Adán Barrera. O lugar é escuro e sem janelas, com paredes grossas —, ideal para encontros naquela região com um clima sempre a ponto de torrar de tão quente ou frio pelo vento norte. Aquelas pessoas não querem se expor nem ao clima, nem aos olhos curiosos espreitando o lugar. E, se acontecer de alguém começar a gritar ou a implorar, caso haja assassinatos lá dentro, as paredes mantêm tudo encapsulado.
Keller segue Blanco até uma porta nos fundos.
Os dois entram em uma salinha.
Blanco fecha a porta ao passar.
Keller reconhece um sujeito sentado atrás de uma escrivaninha, ao telefone. É um homem de aparência distinta, cabelos meio grisalhos, cavanhaque bem aparado, paletó de estampa houndstooth e gravata de tricô, parecendo claramente desconfortável no ambiente sujo da sala dos fundos de uma mecânica.
É Ricardo Núñez.
“El Abogado”. — “O advogado”.
Ex-promotor público, Núñez já foi diretor do presídio Puente Grande e pediu demissão do cargo apenas poucas semanas antes de Barrera “fugir”, em 2004. Quando Keller o interrogou, ele alegou inocência, mas logo depois foi banido da ordem de advogados e se tornou o braço direito de Barrera, passando a ganhar, segundo relatos, centenas de milhões com o tráfico de cocaína.
Ele desliga o telefone e ergue os olhos para Blanco.
— Pode nos dar um minuto?
Blanco sai.
— O que está fazendo aqui? — pergunta Núñez.
— Poupando você do trabalho de ter que ir atrás de mim. Parece que,
você ficou sabendo sobre a Guatemala.
— Adán me contou sobre o acordo — diz Núñez. — O que aconteceu
lá?
Keller repete a história que contou no Texas.
— Você deveria ter trazido El Señor — repreende Núñez. — O acordo
era esse.
— Os zetas o encontraram primeiro. Ele foi negligente. — E você não tem nenhuma informação sobre o paradeiro de Adán —
deduz Núñez.
— Tudo o que sei é o que acabei de lhe falar.
— A família está muito aflita — explica Núñez. — Não recebemos
notícia alguma. E nenhum… corpo… foi encontrado.
Keller ouve uma comoção do lado de fora — Blanco tenta impedir
alguém de entrar —, e então a porta é escancarada com tanta força que bate na parede.
Três homens entram.
O primeiro é jovem — vinte e tantos, ou trinta e poucos anos — com
uma jaqueta Saint Laurent de couro que só pode custar mais de três mil, jeans Rokker, Jordans nos pés. O cabelos preto encaracolado tem um corte de quinhentos dólares e a barba no queixo foi aparada ao estilo da moda.
Ele está agitado.
Zangado, tenso.
— Onde está meu pai? — pergunta a Núñez, em tom exigente. — O que
aconteceu com meu pai?
— Ainda não sabemos — diz Núñez.
— Como assim, porra, vocês não sabem?!
— Calma, Iván — fala outro dos recém-chegados, mais um jovem de
roupas caras, porém com aparência mais desleixada, o cabelo escuro desgrenhado escondido por baixo de um boné, a barba por fazer. Ele parece ligeiramente bêbado, ou um pouquinho chapado, ou ambos. Keller não o reconhece, mas o primeiro garoto deve ser Iván Esparza.
O cartel Sinaloa tem três alas — a de Barrera, a de Diego Tapia e a de
Ignacio Esparza. Barrera é o chefe — o primeiro em comando, em meio a seus pares, mas “Nacho” Esparza é um parceiro respeitado, além de genro de Barrera. Para consolidar a aliança, o traficante casou Eva, sua filha mais nova, com o chefão das drogas.
Então, pensa Keller, esse garoto só pode ser filho de Esparza e cunhado de Adán. Os perfis traçados pela inteligência americana dizem que Iván Esparza agora administra a crucial Plaza Baja, uma fronteira vital com Tijuana e Tecate.
— Ele morreu? — grita Iván. — Meu pai morreu?!
— Nós sabemos que ele estava na Guatemala com Adán — responde Núñez.
— Porra! — Iván bate com a mão na mesa, na frente de Núñez. Ele olha ao redor, em busca de alguém com quem se zangar, e vê Keller. — Quem é você, porra?
Keller não responde.
— Eu fiz uma pergunta — diz Iván.
— Eu ouvi.
— Pinche gringo, porra…
Ele vai em direção a Keller, mas o terceiro recém-chegado entra no meio dos dois.
Keller o conhece das fotos da inteligência. Tito Ascensión foi chefe da segurança de Nacho Esparza, um homem que até os zetas temiam — com motivo, pois matou muitos deles. Como recompensa, lhe foi dada sua própria organização, em Jalisco. O porte imenso, a cabeça grande e a disposição de cão de guarda, com uma queda para a brutalidade, lhe renderam o apelido de Mastim.
Ele agarra o braço de Iván e o segura no lugar.
Núñez olha para o outro jovem.
— Onde você estava, Ric? Liguei pra todo mundo.
Ric dá de ombros.
Como quem diz Que diferença faz onde eu estava?
Núñez franze a testa.
Pai e filho, pensa Keller.
— Eu perguntei quem é esse cara — diz Iván. Ele se solta, mas não vai em direção a Keller.
— Adán fez alguns… acordos — explica Núñez. — Esse homem estava na Guatemala.
— Você viu meu pai? — pergunta Iván.
Vi algo que parecia seu pai, pensa Keller. O que sobrou das pernas dele estava espalhado nas cinzas de uma fogueira em brasa.
— Acho que você devia considerar a possibilidade de seu pai não voltar.
A expressão no rosto de Ascensión foi exatamente a de um cão que
acaba de ficar sabendo que perdeu seu amado dono.
Confusão.
Tristeza.
Ira.
— Como você sabe disso? — pergunta Iván.
Ric envolve o rapaz em um abraço.
— Eu lamento, mano.
— Alguém vai pagar por isso — diz Iván.
— Estou com a Elena na linha — anuncia Núñez, e então coloca o
celular no viva-voz. — Elena, você soube de mais alguma coisa?
Só pode ser Elena Sánchez, irmã de Adán, aposentada do ofício da
família desde que entregou Baja aos Esparza.
— Nada, Ricardo. E você?
— Temos a confirmação de que Ignacio se foi. — Alguém disse a Eva? Alguém foi falar com ela? — Ainda não. Estamos esperando até saber algo definitivo. — Alguém deveria ficar com ela. — Eva perdeu o pai e talvez o marido.
Os meninos, coitados…
Eva tem filhos gêmeos de Adán.
— Eu vou — oferece Iván. — Vou com ela para a casa de minha mãe. — Ela também vai estar muito mal — diz Núñez. — Vou pegar um voo até aí.
— Você precisa de transporte do aeroporto? — pergunta Núñez. — Ainda temos gente lá, Ricardo. Eles esqueceram que estou aqui, pensa Keller. Estranhamente, é o jovem chapado (Ric?) que lembra primeiro. — É… o que fazemos com ele?
Mais comoção lá fora.
Berros.
Socos e tabefes.
Gemidos de dor, gritos.
Os interrogatórios começaram, pensa Keller. O cartel capturou pessoas
que suspeita serem zetas, possíveis traidores, e associados guatemaltecos, — qualquer um que talvez possa fornecer alguma informação.
Por qualquer meio necessário.
Keller ouve correntes sendo arrastadas pelo chão de concreto.
O chiado de um maçarico sendo aceso.
Núñez ergue o rosto para Keller, arqueando as sobrancelhas.
— Eu vim até aqui dizer que terminei — afirma Keller. — Acabou pra mim. Vou ficar no México, mas estou fora disso tudo. Vocês não vão mais ouvir falar de mim, e espero não ouvir falar de vocês.
— Você sai andando e meu pai não? — pergunta Iván, puxando uma Glock 19 do bolso da jaqueta e apontando-a para o rosto de Keller. — Acho que não.
É um erro de principiante.
Colocar uma arma perto demais do cara que você quer matar.
Keller recua ao mesmo tempo em que estende a mão e agarra o cano, gira e arranca a arma da mão de Iván. Depois, bate com a arma três vezes na cara do garoto, até a maçã do rosto quebrar, e Iván escorrega para o chão como um robe caído aos pés de Keller.
Ascensión se aproxima, mas Keller dá uma gravata em Ric Núñez e encosta o cano da arma na lateral da cabeça dele.
— Não.
O Mastim fica paralisado.
— Que porra eu fiz? — pergunta Ric.
— É o seguinte — começa Keller —, é assim que vai ser: eu vou sair daqui. Vou viver minha vida, vocês vão viver a de vocês. Se alguém vier atrás de mim, eu vou matar todo mundo. — ¿Entienden?
— Sim, entendemos — diz Núñez.
Segurando Ric como escudo, Keller recua e sai da sala.
Vê homens acorrentados às paredes, junto de poças de sangue, sente cheiro de suor e urina. Ninguém se mexe, todos ficam olhando enquanto ele sai.
Não há nada que possa fazer por eles.
Porra nenhuma.
Vinte fuzis são apontados em sua direção, mas ninguém vai arriscar acertar o filho do chefe.
Passando a mão para trás, Keller abre a porta do passageiro do táxi, depois empurra Ric para o chão.
E põe a arma atrás da cabeça do motorista.
— Ándale.
No trajeto de volta ao aeroporto, Keller vê o primeiro memorial em homenagem a Adán, na lateral da estrada.
Um banner pintado com tinta spray.
Adán vive.
Juárez é uma cidade fantasma.
É o que Art Keller pensa, ao volante, enquanto a atravessa. Mais de dez mil cidadãos foram mortos quando Adán Barrera tomou o
local, que tirou das garras do antigo cartel para controlar mais uma saída rumo aos Estados Unidos. A cidade tem quatro pontes: a da rua Stanton, a Internacional Usleta, a da rua Paseo e a Ponte das Américas, também chamada de “Ponte dos Sonhos”.
Dez mil vidas para que Barrera pudesse controlar aquelas vias. Durante os cinco anos de guerra entre os cartéis de Sinaloa e de Juárez,
mais de trezentos mil cidadãos abandonaram aquela cidade, deixando uma população de cerca de um milhão e meio.
De acordo com o que Keller leu, um terço dessas pessoas sofre de
estresse pós-traumático.
O que surpreende é não ser mais. No auge do conflito, os cidadãos de
Juárez se acostumaram a pular por cima de cadáveres nas calçadas. Os cartéis passavam rádios para as ambulâncias dizendo quais feridos deveriam ser recolhidos e quais deveriam ser relegados à morte. Hospitais foram atacados, assim como abrigos de sem-teto e casas de tratamento de dependentes químicos.
O centro da cidade, antes vibrante com sua famosa vida noturna, ficou
literalmente abandonado. Metade dos restaurantes e um terço dos bares da cidade fecharam as portas. O prefeito, a câmara municipal e grande parte da polícia da cidade se mudaram para o outro lado daquelas pontes, para El Paso.
Mas, nos dois últimos anos, a cidade tinha começado a se recuperar. Os
negócios reabriram, os refugiados voltavam aos poucos, e os índices de assassinato estavam diminuindo.
Keller sabe que a violência diminuira por um único motivo. Sinaloa ganhou a guerra.
E instituira em um pacto de paz, o Pax Sinaloa. Bem, foda-se você, Adán, pensa Keller, dirigindo ao redor da Plaza del
Periodista, com sua estátua de um garoto vendendo jornais.
Para o inferno com suas pontes.
E para o inferno com sua paz.
Keller nunca consegue passar de carro pela praça sem ver os restos de seu amigo Pablo.
Pablo Mora era um jornalista que desafiara os zetas, insistindo em escrever um blog que expunha os crimes relativos às drogas. Foi sequestrado, torturado até a morte, e esquartejado e os pedaços de seu corpo foram dispostos em volta da estátua do menino jornaleiro.
Tantos jornalistas assassinados depois que os cartéis perceberam que não bastava controlar a ação, era preciso também ter o controle da narrativa.
A maior parte da mídia simplesmente deixou de cobrir notícias sobre o narcotráfico.
E foi o que levou Pablo a começar o blog suicida.
Depois foi Jimena Abarca, a confeiteira de uma cidadezinha do vale Juárez, que peitou os narcos, os federales, o exército e todo o governo. Entrou em greve de fome e forçou-os a libertar prisioneiros inocentes. Um dos capangas de Barrera lhe deu nove tiros, no peito e rosto, bem no estacionamento de seu restaurante predileto, em Juárez.
E Giorgio, o fotojornalista decapitado pelo pecado de registrar imagens dos narcos mortos.
Erika Valles, assassinada e esquartejada como um frango. Uma garota de dezenove anos corajosa a ponto de ser a única policial de uma cidadezinha onde os narcos haviam matado quatro de seus predecessores.
E depois, claro, houve o ataque a Marisol.
A dra. Marisol Cisneros é prefeita de Valverde, cidade de Jimena Abarca, no Vale de Juárez.
Ela assumiu o cargo depois que os três prefeitos anteriores foram assassinados. Permaneceu em exercício quando os zetas ameaçaram matá-la, e persistiu depois de ser metralhada, no próprio carro, alvejada no abdômen, no peito e nas pernas, o que resultou fraturas no fêmur e em duas costelas, além de uma fissura em uma vértebra.
Depois de semanas no hospital e meses em recuperação, Marisol voltou e deu uma coletiva de imprensa. Lindamente vestida, impecavelmente penteada e composta, ela mostrou as cicatrizes e o saco de colostomia, olhou direto para a câmera e disse aos narcos: “Eu vou voltar ao trabalho e vocês não vão me impedir.”
Keller não consegue explicar esse tipo de coragem.
Ele fica furioso, portanto, quando os políticos americanos pintam todos
os mexicanos com o largo pincel da corrupção. Pensa em pessoas como Pablo Mora, Jimena Abarca, Erika Valles e Marisol Cisneros.
Nem todos os fantasmas estão mortos — alguns são sombras do que
poderiam ter sido.
Você mesmo é um fantasma, diz a si mesmo. Um fantasma de si mesmo, vivendo uma meia-vida. Voltou ao México porque se sente mais à vontade com os mortos do que
com os vivos.
A estrada, Carretera Federal 2, é paralela à fronteira leste de Juárez. Pela janela do passageiro, Keller vê o Texas, a poucos quilômetros.
Poderia estar a um mundo de distância.
O governo federal mexicano enviou o exército até ali para restaurar a
paz, mas se fez algo, o exército foi tão brutal quando os cartéis. Na verdade, as mortes aumentaram durante a ocupação militar. Nessa estrada, em intervalos de algumas milhas, ficavam postos de revista temidos pelos locais, lugares de extorsão e prisões arbitrárias que com frequência resultavam em espancamentos, tortura e detenções nos campos de prisioneiros erguidos às pressas mais adiante, na estrada.
Se não morresse no fogo cruzado de um cartel, a pessoa ainda poderia
ser assassinada pelos soldados.
Ou simplesmente desaparecer.
Foi nessa mesma estrada que os zetas metralharam Marisol e a
abandonaram para sangrar até a morte. Um dos motivos para a aliança temporária de Keller com Barrera foi o “Chefão do Céu” ter prometido protegê-la.
Keller olha pelo espelho retrovisor só para ter certeza, mas seus
inimigos sabem que não há necessidade de segui-lo. Já sabem para onde ele vai e saberão quando ele chegar lá. O cartel tem halcones por toda parte. Policiais, motoristas de táxi, garotos nas esquinas, idosas em suas janelas, atendentes atrás de balcões. Hoje em dia, todos têm um celular, e todos usariam o aparelho para cair nas graças dos sinaloas.
Se quiserem me matar, vão me matar.
Ou, ao menos, vão tentar.
Ele adentra a cidadezinha de Valverde, vinte e poucas quadras dispostas
em um retângulo no deserto. As casas — bem, as que sobreviveram — são quase todas de blocos de concreto com tijolos crus. Keller percebe que algumas foram pintadas em tons vibrantes de azul, vermelho e amarelo.
Mas, enquanto dirige pela ampla rua central, percebe que os sinais da guerra ainda estão presentes. A padaria Abarca, antes o centro social da cidade, ainda é um monte de carvão vazio, com os buracos de bala pontilhando as paredes, e algumas edificações ainda cobertas por tapumes e abandonadas. Milhares de pessoas fugiram do vale de Juárez durante a guerra, algumas temerosas, outras forçadas pelas ameaças de Barrera. As pessoas acordavam pela manhã e encontravam avisos presos de um lado a outro da rua, em postes da companhia telefônica, com listas de nomes, — residentes avisados de que teriam de ir embora naquele mesmo dia, ou seriam mortos.
Barrera esvaziou algumas para substituir o povo por seus leais de Sinaloa.
Ele literalmente colonizou o vale.
Mas agora os pontos de checagem do exército já não existem mais.
A trincheira com sacos de areia da rua principal fora retirada, e alguns poucos idosos estavam sentados na praça da cidade, desfrutando da tarde quente, — algo que, poucos anos atrás, jamais ousariam fazer.
Keller também nota que a pequena tienda reabriu, devolvendo às pessoas um lugar onde comprar seus artigos de primeira necessidade.
Algumas pessoas voltaram a Valverde, muitas não, mas a cidade parece estar passando por uma modesta recuperação. Keller segue dirigindo e passa pela pequena clínica, e entra no estacionamento diante da prefeitura, um retângulo de blocos de concreto que abriga o que restou do governo da cidade.
Estaciona o carro e caminha até a escada externa que conduz ao gabinete da prefeita.
Marisol está sentada diante da escrivaninha, a bengala pendurada no braço da cadeira. Entretida com a papelada, ela não percebe Keller.
É tão linda que faz o coração dele parar.
Está usando um vestido azul simples com o cabelo negro preso em um coque sério, realçando as maçãs do rosto proeminentes e os olhos escuros.
Keller sabe que jamais vai deixar de amar essa mulher.
Marisol ergue os olhos e, ao vê-lo, sorri.
— Arturo.
Ela pega a bengala e começa levantar. Sentar e levantar ainda são
movimentos difíceis, e Keller percebe um leve contração em seu rosto ao se erguer. O modelo do vestido esconde o saco de colostomia, um presente encantador da rajada de tiros que cindiu o intestino delgado.
Foram os zetas que fizeram isso com ela.
Keller foi até a Guatemala para matar os homens que tinham
orquestrado o ataque, Ochoa e Forty. Mesmo que Marisol tivesse implorado que ele não buscasse vingança. Ela o enlaça nos braços e o aperta.
— Tive medo de que você não voltasse.
— Você disse que não tinha certeza se queria que eu voltasse. — Foi algo horrível de dizer. — Marisol pousa a cabeça no peito dele.
— Lamento muito.
— Não precisa.
Ela fica quieta por alguns segundos, depois pergunta: — Acabou?
— Para mim, sim.
Keller sente o suspiro aliviado da mulher em seus braços. — O que vai fazer agora?
— Não sei.
É verdade. Não esperava voltar vivo de Dos Erres, agora, não sabe o que
fazer da vida. Sabe que não vai voltar para a Tidewater, a empresa de segurança que conduziu a incursão na Guatemala, e tem certeza de que nem pelo cacete vai voltar a trabalhar para a Narcóticos. Mas quanto ao que vai de fato fazer... ele não tem a menor ideia.