A fronteira

Don Winslow · Capítulo 22 de 25

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A fronteira

2: Quebrado

2

 

Quebrado

 

Aquí se rompió una taza.

“Aqui se quebrou uma taça”.

Expressão mexicana que significa “acabou a festa”

México

Março de 2017

 

Mini-Ric está se tornando Micro-Ric.

Eu estou diminuindo a cada dia, pensa ele.

O que não é de todo ruim, pois quando estão todos à sua caça, é melhor não chamar muita atenção. E quando se está constantemente em fuga, correndo de um lugar para outro, é melhor não carregar muita bagagem.

Eu estou diminuindo, pensa Ric, porque vou deixando um monte de merda pelo caminho, como excesso de peso. Pessoas — esposa, filha, guarda-costas, pistoleiros, associados, aliados, amigos. Coisas — carros, motocicletas, barcos, casas, apartamentos, até roupas. Poder — por toda a sua vida ele viveu em um mundo de “faça assim”, onde subalternos, serviçais e frequentadores habituais estavam sempre ao redor para antecipar suas necessidades, antes que ele sequer as expressasse. Ele podia pedir uma execução; agora, se tiver sorte, pode pedir pizza. Dinheiro — ele nunca sequer pensava em dinheiro. Estava sempre à mão, e se não estivesse, ele sempre podia arranjar mais. Agora, sem entrar em muitos detalhes, o dinheiro está escoando até pelo rabo dele.

É preciso dinheiro para fugir, dinheiro para se esconder. Dinheiro para comprar carros não identificados, alugar apartamentos, casas, quartos de hotéis; para silenciar locatários, balconistas, qualquer um que o reconheça. Dinheiro para pagar os halcones, policiais, soldados. Há muito dinheiro saindo, sem entrar, porque é difícil para ele e seu pai tocarem a operação enquanto estão escondidos.

Como eles poderiam verificar os cultivadores, se ficar ao ar livre é se colocar em risco? Como manter contato com seus traficantes, seu pessoal de transporte, seus soldados, informantes, quando todos os celulares, e-mails e mensagens de texto são arriscados? Como fazer reuniões, planejar estratégias, quando é preciso arranjar locais secretos, no último minuto possível, e cada um dos participantes pode ser a pessoa que vai entregá-los para Iván, Tito, os federales, a polícia estadual, a polícia local, a Divisão de Narcóticos, o exército e os mariners? Como podem ter acesso a seu dinheiro, quando os contadores estão passando para o outro lado, quando toda a comunicação com quem ficou se torna perigosa, quando gente de sua equipe de lavagem de dinheiro está descaradamente lhes roubando, porque não tem mais medo deles?

E eles estão certos.

O nome Núñez costumava assustar as pessoas. O manto de Adán Barrera costumava deixar as pessoas admiradas. Agora Adán é um santo morto — as pessoas ainda acendem velas e

rezam para ele, mas não estão necessariamente se colocando em perigo por seu afilhado. Algumas o fazem, algumas farão; são muitas as pessoas com quem Ric conta agora — para deslocá-lo, escondê-lo, fazer ligações, passar recados. Essas pessoas o enxergam como o real herdeiro da coroa de Adán, e o ajudam por pura lealdade.

Isso é perigoso para elas, e ele se sente mal, porque o que Iván, Tito, os

soldados e policiais não conseguem obter persuadindo ou subornando, eles tomam com intimidação, surra, queimando as casas de vilas inteiras.

A maioria cede, Ric não pode culpá-los. Alguns dos mais durões peitam,

e Ric quase deseja que eles não o façam. Ele se sente pior pelas pessoas que não têm informação e seus interrogadores não acreditam. Fica difícil para elas e não há nada que ele possa fazer.

Ele continua fugindo.

De Eldorado para Culiacán, de Culiacán para Badiraguato, onde o

pessoal de Iván chegou dez minutos depois que ele entrou em um apartamento. Ele escapou para Los Mochis, mas muita gente de lá o conhecia, então ele pegou um avião até Mazatlán, e lá, encontrou muita gente de Tito, lutando pelo porto.

Ric pensou em ir para Baja — La Paz já tinha sido sua fortaleza — mas

agora Belinda era poderosa demais ali e ela não hesitaria em vendê-lo para quem pagasse mais, ou simplesmente picá-lo e vender seus pedaços no varejo. (Anda circulando uma história de que ela tinha um novo namorado que a traiu com uma garota da academia. Belinda sequestrou a garota e bateu nela até matá-la, ao longo de três dias. Depois, ela ficou ultrajada quando descobriu que o namorado tinha transado com uma garota em sua picape nova, então, ela decepou os antebraços dele, com uma machadinha, para que ele não pudesse mais dirigir.)

Ric fez uma longa e perigosa viagem de carro passando pela base de Tito, em Jalisco e Michoacán, subiu as montanhas de Guerrero e se escondeu por semanas perto de uma das plantações de ópio. Foi seguro, até que alguns membros do antigo pessoal dos GU ficou sabendo e estava decidindo se o entregava a Iván ou a Tito, e ele saiu de lá e conseguiu chegar até Puebla.

Seu pai fez uma abordagem diferente.

— A movimentação atrai o olho — ele disse a Ric. — É melhor ficar quieto.

Então, Núñez está entocado em um condomínio de luxo no bairro de Anzures, na Cidade do México, bem debaixo do nariz dos funcionários do governo que o entregaram e agora procuram por ele.

Ric o encontra no Pisco Grill, não muito distante do condomínio.

Agora seu pai está barbado, de cabelo cortado curto. Ric fica mais animado ao ver que ele ganhou um pouquinho de peso — seu rosto está mais robusto, apesar de ainda pálido.

— Tem certeza de que isso é seguro? — Ric pergunta a ele.

— Nós ainda temos alguns amigos na capital — diz Núñez — e o restante está comprado e pago.

Eles conversam sobre negócios — transferências de dinheiro, rotas, pessoal — então, Núñez passa a falar de estratégia.

— Foi Caro, o tempo todo — afirma ele. — Foi Caro que mandou matar Rudolfo Sánchez, Caro tentou me matar. Foi uma estratégia inteligente — ele foi bem sucedido em nos jogar uns contra os outros.

— E Tito é o novo chefe.

— Um cão é sempre um cão — diz Núñez. — Ele nunca se torna um lobo. Um cão anseia por um dono, e Tito irá encontrar um novo. Primeiro foi Esparza, agora é Caro.

Ric teme que seu pai esteja subestimando Ascensión.

Tito está ganhando em todo lado.

Agora que Elena se foi, Tijuana é toda dele.

Morta por Belinda, a mando de Iván, embora Ric não tenha tanta certeza se Tito não teve participação no assassinato da suposta aliada. No mínimo, ele não vetou o ato, e agora ele tem tudo o que antes pertencia a ela. De qualquer maneira, ele absorveu a maior parte do pessoal de Elena, e juntos eles estão expulsando Iván da cidade. O único território que Elena e seu filho ocupam agora é uma cripta no cemitério Jardines Del Valle.

Segundo as notícias, os Esparza estão mantendo seu próprio território

no nordeste de Sinaloa, mas Tito tomou a metade sudeste e a acrescentou a seus territórios de Jalisco e Michoacán. Ele também está avançando para dentro de Juárez, e aponta ao leste, replicando uma antiga ambição de Adán de possuir todas as cidades fronteiriças — Tijuana, Juárez e Nuevo Laredo.

E não me venha dizer, pensa Ric, que também não foi Tito quem

mandou matar Osiel Contreras. O velho tinha acabado de sair de uma cadeia americana e foi até Cancún pegar um pouquinho de sol, depois de passar doze anos em uma cela. Algumas pessoas diziam que ele só queria se aposentar, outras, que ele tinha planos de reaver seu antigo cartel de Nuevo Laredo, mas ninguém nunca saberá, porque ele estava descansando em uma espreguiçadeira de praia, bebericando um drinque com um guarda-chuvinha dentro, quando alguém furou seu jornal com três balas, acertando-o no rosto.

Imagino que Tito não queria correr nenhum risco de Contreras acabar

tendo a intenção de atuar ali, de voltar a ser o chefão.

O pessoal de Tito também está se deslocando em Tamaulipas e

Veracruz, contra os zetas, que também se dividiram em duas facções e estão guerreando entre si. Ele irá devorá-los, um por vez.

É somente em Guerrero, pensa Ric, que Tito não está fazendo progresso,

mas, porra, ninguém consegue progredir naquele buraco dividido e anarquista. Ninguém consegue ter qualquer tração ali, nem Tito, nem Iván, nem nós. Nem o exército ou os mariners, nem as dúzias de grupos de autodefesa dos cidadãos, que vêm surgindo como cogumelos, por toda parte.

Pobre Damien, pensa Ric. Ele ouviu falar que o garoto cortou os pulsos

em Puente Grande.

As canções já foram lançadas…

“Não se pode enjaular o Jovem Lobo.

Ele se libertou para juntar-se ao pai”.

Que monte de baboseira, pensa Ric. Nós somos um grupo embalado — Los Hijos.

Salvador Barrera morreu.

Rudolfo e Luis morreram.

Damien morreu.

Os Esparza foram alvejados.

Eu estou em fuga.

O único que está razoavelmente decente é Rubén Ascensión. O quieto, sensível e tímido, aquele que sempre seria escalado para o papel de melhor amigo, em qualquer filme.

Ric pensa, nós tivemos o mundo em nossas mãos e deixamos escapulir por entre os dedos.

— Ainda temos algo a oferecer — Núñez está dizendo. — Ainda temos homens, dinheiro, produto. Sem mencionar o legado de Barrera.

Seu pai sabe alimentar ilusões.

Esse é seu modo de se agarrar aos fiapos, ainda acreditando que ele pode, de alguma forma, retomar a situação e reaver seu poder e prestígio.

Ric tem objetivos mais modestos.

Manter o pai e a si próprio fora da cadeia e acima da terra.

Não será fácil. Ninguém confia na gente, não depois do que fizemos aos Esparza. Pior, ninguém precisa de nós. Nós chegaríamos a qualquer mesa de barganha como pedintes. E só nos resta um recurso.

Tito.

Nós poderíamos lhe oferecer pistoleiros em Baja para liquidar Iván, pensa Ric, e sicários para Juárez e Laredo. Nós o reconheceríamos como El Patrón. Em troca, ele nos daria proteção contra polícia e políticos, que agora pertencem a ele, a Caro e ao consórcio.

É um fio de esperança. Tito não precisa dos nossos homens, metade deles já está indo para seu lado, mas é nossa única esperança.

Mas como posso abordar Tito?, Ric pergunta a si mesmo.

Ele procura pela resposta em sua própria vida.

Da forma como se aborda um pai: através do filho.

Jesus, pensa Ric.

Rubén está em Baja.

Rubén Ascensión não é um cara de fácil acesso, ultimamente.

Agora o cabeça da segurança para seu pai, em Baja, ele fica isolado no

dia a dia, não fica na rua, em La Paz ou no Cabo, e Ric tampouco pode correr o risco de passar muito tempo na rua, nessas cidades. Ele precisa se manter de cabeça baixa, caso Iván, Belinda ou até o próprio Rubén decidam derrubá-lo. Ou caso apareça algum freelancer, querendo marcar pontos eliminando um Núñez.

A cabeça de Ric gira de um lado para outro, enquanto ele procura

Rubén.

Em Tijuana, ele deixa um recado, em uma boate que eles costumavam

frequentar. Recado e o número de um celular descartável. Então, ele se acomoda em um hotel modesto e espera.

Dois dias depois, Rubén liga para ele.

— Onde está você?

— Até parece.

— Você é que está me procurando.

— Preciso de sua ajuda, mano — diz Ric. — Fale com seu pai. — João 4:16?

— O quê?

— Nada — diz Rubén. — Você não precisa falar com meu pai, pode

falar comigo. Qual é o assunto?

— Vocês querem os Esparza fora do negócio, tanto quanto nós — diz

Ric. — Talvez possamos ajudá-los com isso.

Rubén lhe dá um endereço.

— Rubén, sem querer ofender — diz Ric —, mas eu preciso da sua

palavra de que se eu entrar lá, eu vou sair.

— São vocês que armam emboscadas em reuniões — diz Rubén. — Não

nós.

Bem, nessa ele me pegou, pensa Ric.

O endereço é em Cabo San Lucas, uma casa enorme no alto das colinas

de Cerro Colorado. O lugar parece novo, ainda nem tem paisagismo. Do lado de fora, há três caminhonetes estacionadas e duas Mercedes na ampla entrada de veículos, e inúmeros carros caros de último modelo, parados na rua.

Rubén está dando uma festa, pensa Ric.

Pistoleiros descem das caminhonetes, quando Ric se aproxima. Ele

ergue os braços e eles o revistam. Um deles o conduz até a porta da frente e toca a campainha.

Rubén atende. Ele estende os braços e puxa Ric para um abraço.

— É ótimo vê-lo, irmão.

Eles entram.

É uma festa mesmo. Música pulsante, a casa cheia de gente — narcos, músicos, o pessoal bonito habitual de Cabo, garotas deslumbrantes.

Iván está com uma garota no colo.

Ele ergue os olhos para Ric e diz:

— Hora da festa, filho da puta.

— Você está tomando a decisão errada — Ric diz a Rubén. — Meu pai…

— Imagino que você não tenha visto os noticiários — interrompe Rubén.

Ele coloca um laptop na frente de Ric, que vê uma foto de seu pai parecendo exausto, de barba por fazer, desgrenhado, com uma camisa toda amassada. Os federales estão segurando-o pelos cotovelos.

— Seu pai foi preso hoje de manhã — diz Rubén. — Eles o tiraram de seu condomínio. Ele está em Puente Grande.

É um toque sagaz, pensa Ric, trancar meu pai na mesma prisão da qual ele foi diretor. E nós estamos liquidados. O governo virou as costas para nós. Não importa, eu estou morto, mesmo, porque sou o convidado de honra desta festa. Mas ele faz uma tentativa.

— Eu posso lhe dar…

— Você não pode nos dar o que você não tem — diz Rubén.

— Só me deixe sair daqui — diz Ric. — Eu vou pra longe, você nunca mais ouvirá falar de mim.

— Não dá — responde Rubén. — Você fez parte do acordo.

No fim das contas, os Esparza não querem mais atuar com heroína. Eles estão satisfeitos em voltar ao antigo negócio da família — coca e metanfetamina. E eles reconhecem Tito como o jefe. Iván fez a oferta através de Rubén, que repassou ao pai.

Tito aceitou.

Mas havia um fator de desvantagem.

Ric.

— Você sabia que eu viria a você — deduz Ric.

— Você não tinha escolha — diz Rubén. — Mas Iván chegou primeiro.

Erro meu, pensa Ric. Eu estava apostando que o ego de Iván fosse grande demais para que ele se curvasse ao antigo cão de guarda do pai.

Bem, eu perdi a aposta.

— Lamento que tenha acontecido dessa forma, não é pessoal — diz

Rubén.

Então, ele sai da sala.

Iván pergunta:

— Sabe o que realmente me deixa puto?

— Tudo?

— Meu saque no tênis — diz Iván. — Eu estava indo muito bem, então,

alguém botou uma bala na minha articulação. Agora não consigo levantar o braço acima da cabeça. Você notou a cicatriz no rosto de Oviedo? Sem grilo, eu vou lhe mostrar. Três cirurgias plásticas, com mais duas a caminho, e ele ficou cego de um olho. Vocês erraram Alfredo, mas o garoto tem pesadelos, você acredita nisso? Ele mija na cama.

Ric não diz que ele não sabia da emboscada, que foi tudo feito por seu

pai.

Isso agora não importa.

Então, ele não diz nada.

— Vocês nos tiraram de circulação por seis meses — continua Iván —,

e Tito usou esses seis meses para se tornar o rei. Tive que ir chupar o pau dele, sabe qual foi a sensação, Ric?

Um ferimento pior que o de bala, pensa Ric.

Iván diz:

— Você estava lá, quando Tito veio me pedir permissão para entrar na

heroína. Agora, eu tive que ir até ele e falar que eu estava saindo da heroína, mas que estava contente com o que nós, no passado, tínhamos deixado para ele. Então, imagine o quanto estou feliz em ver você, Ric.

Ele acende um baseado, traga, depois ergue até a boca de Ric. — Você vai precisar disso.

Ric dá uma longa baforada e prende nos pulmões. É bagulho de primeira.

— Última festa hoje à noite, Rickyzinho — diz Iván. — Último

encontro de Los Hijos. A gente fica bêbado, fica louco, transa, e depois de se embebedar, se chapar e transar, você que vai apagar.

A casa é de Rubén, mas a festa é de Iván.

É preciso admitir, pensa Ric, ele tem um estilo meio doente; o filho da

puta contratou um bufê para uma execução. Há mesas de comida e garçonetes uniformizadas andando para todo lado, com bandejas de canapés, fileiras de pó e baseados bem gordos.

Uma banda chega, se instala no pátio ao lado da piscina, e começa a tocar um norteño.

Ric olha tudo aquilo — a comida, a birita, o bagulho, a música. Por que não? Não faz sentido tentar fugir, o lugar todo está cercado pelo pessoal de Rubén, que iria metralhá-lo. Para que ele não visse isso como um meio rápido de suicídio, Iván já lhe informou que os sicários têm ordens rigorosas de só atirar nas pernas dele.

Ele se embebeda, se endoida, se entope de ceviche e camarones, filetes de carne marinada em suco de limão. Dança com lindas mulheres, ele até tira a roupa e se joga na piscina. Mergulha embaixo da água e a deixa pairar sobre ele, fresca e tranquila.

Quando ele chega à superfície, está cara a cara com Oviedo.

A cicatriz é ruim, um talho vermelho percorrendo desde a parte de baixo de seu olho até a têmpora.

Seus olhos encaram Ric cegamente, acusadores.

— Está gostando da festa? — pergunta Oviedo.

— Eu lamento, O.

— Você vai lamentar.

Ric sai da piscina e embrulha uma toalha em volta da cintura.

Iván pede a atenção dos convidados; ele está com uma taça de cristal e pede um brinde.

Ric nota que ele já está pilhado de coca.

— ¡Todos! — grita ele. — Nós estamos aqui, esta noite, para celebrar velhos amigos! Um brinde a Los Hijos!

Ric manda seu drinque para dentro.

Os copos são reabastecidos.

— Um brinde aos amigos ausentes! — grita Iván. — Um brinde a Salvador Barrera! Descanse em paz, companheiro!

Eles bebem.

Mais champanhe.

— A Damien Tapia! — grita Iván. — Ele tirou a própria vida, mas nós ainda amamos aquele garoto doido! Um brinde a Rudolfo Sánchez, que, aliás, eu não matei! Um brinde a Luis Sánchez sobre quem… não posso dizer a mesma coisa!

Um pouco de riso nervoso.

Goela abaixo.

— E um brinde a meu velho cuate Ric — diz Iván, erguendo o copo

para ele, abrandando a voz. — Meu amigo, mi hermano… sangre de mi sangre… a quem eu amava, e que tentou me matar. Esta é sua última festa, então, vamos fazer com que seja boa. Esta é a última festa de Los Hijos… Depois disso…

Ele não termina, só ergue o copo e depois bebe. Ric bebe.

Um pouquinho depois, Iván vem até ele, senta a seu lado, perto da

piscina. Os dois estão bêbados e muito doidos.

— Nós éramos Los Hijos — diz Iván. — Tínhamos o mundo na mão. O

que aconteceu, cara?

— A gente fodeu tudo — diz Ric.

Iván assente solenemente.

— A gente fodeu tudo.

Eles ficam quietos, por alguns minutos, então, Iván diz: — Se eu não fizer isso, as pessoas vão me achar fraco. — Eu entendo.

É surreal, pensa Ric, esperar pela própria morte. Ele não acha que

ninguém acredite mesmo que vai morrer, nem os homens condenados. É simplesmente esquisito pra cacete. Mas ele pergunta a Iván:

— Posso ligar pra minha esposa, minha filha? Pra me despedir? Iván remexe no bolso, entrega um celular e se afasta, para lhe dar um

pouquinho de privacidade.

Karin atende.

— São quatro horas da manhã.

— Eu sei. Desculpe.

— Onde você está? — pergunta Karin.

— Cabo — diz Ric. — Você poderia acordar Valeria pra mim? Eu quero

falar com ela.

— Você está bêbado?

— Um pouquinho — responde Ric. — Por favor? — Ric…

Mas ela volta, alguns minutos depois, com a filha deles. — Papi? — diz Valeria, sonolenta.

— Eu te amo, niña — diz Ric. — Você sabe disso? Papi te ama muito. — Eu sei — responde ela. — Quando você vem pra casa?

Ric quer chorar.

— Logo, meu bem. Ponha a Mami de volta, está bem?

— Está bem.

Karin volta ao telefone.

— O que está acontecendo, Ric?

— Estou ligando pra falar que eu te amo.

— Você está bêbado.

— E peço desculpas por tudo — diz ele.

— Isso é por causa do seu pai? — pergunta Karin. — Está em todos os noticiários.

— Se algo me acontecer — diz Ric —, os advogados vão entrar em contato. Vão cuidar de você.

— Está bem.

— De qualquer maneira, desculpe.

— Tome um pouco de café — diz Karin. — Não dirija.

— Está bem. Boa noite.

Ele desliga.

Agora ele sabe o que seu pai estava tentando lhe dizer, tentando forçá-lo a fazer — passar mais tempo com a esposa e a filha. Agora eu daria tudo, pensa ele, para ter mais tempo com elas. As pessoas sempre pensam que terão para sempre, que podem deixar para amanhã. E agora, não dá.

Agora é tarde demais.

Iván lhe dá um minuto.

— Eu lhe arranjei uma mulher — diz ele. — Não mandaria um homem para a morte sem uma última transa.

Uma trepada terminal, pensa Ric.

Vem fácil, vai mais fácil ainda.

Por que não?

Ele levanta e segue Iván para dentro da casa e por um corredor, até uma porta fechada.

— Ela está esperando aqui — diz Iván. — Só pra você saber, não tem nenhuma janela.

Ric entra.

Belinda está deitada na cama.

Vestida de preto, da cabeça aos pés.

— Você vai transar comigo, ou me matar? — pergunta Ric.

— Primeiro um — diz ela —, depois o outro.

— Vamos pular o sexo — pede Ric. — Você provavelmente tem uma

gilete na vagina.

— Seria ótimo, não é? — diz Belinda. — Fatiar o pau de um cara? Você

vai querer a transa, Ricky. Vai querer atrasar ao máximo o que vem depois. Eles me disseram para machucar você, mas machucar muito.

— Adoro quando você fala sacanagens comigo. — Você pode usar minha boca, minha buceta, meu cu, tudo o que quiser

— diz Belinda. — Me deixa excitada que depois de acabar com você eu vou, sabe, acabar com você.

— Você é tão doente.

— Eu sei — diz ela.

Ela ajoelha na frente dele, tira a toalha. Desce para lhe dar o que ela

sempre chamou de “Especial da Belinda”, usando os lábios, a língua, os dedos, as tetas. Isso sempre o fez explodir como um hidrante, mas agora ele não fica nem de pau duro.

— O que foi, benzinho? — pergunta ela.

— Você só pode estar brincando.

— É sua última chance — diz Belinda. — Quer meu culo? — Não.

Ela dá de ombros e levanta.

— Por que você? — pergunta Ric. — Por que é você que tem que fazer

isso?

— Porque — responde ela, sorrindo — eu pedi.

Eles encontram uma blusa velha de moletom e fazem Ric vestir, amarram suas mãos atrás das costas e o levam lá para fora.

A festa acabou.

A maioria das pessoas já foi embora, algumas estão apagadas nos sofás,

nas poltronas e pelo chão. Lá fora, o sol está começando a nascer, o céu tem um tom vivo de vermelho, roxo e laranja.

Tão bonito, pensa Ric.

Eles o colocam na traseira de uma caminhonete de vidro fumê. Iván sai da casa e abre a porta do carro.

— Achei que eu quisesse assistir, mas mudei de ideia. — Iván…

— Não implore, Ric — diz Iván. — Eu quero que escrevam canções

sobre você. Que digam que morreu como homem.

— Apenas me dê um tiro na cabeça. Por favor.

— Você vai morrer gritando como uma putinha — diz Iván, subitamente endurecido. — Vai morrer se mijando e se cagando, com as coisas que ela planejou pra você. Mas eu vou fazer com que eles parem de gravar, antes disso.

— Por favor — Ric começa a chorar.

— Meu Deus, Ric.

Iván bate a porta.

Belinda entra no banco do passageiro da frente, vira a põe um capuz na cabeça de Ric, depois diz ao motorista para dar partida no carro. Ric tenta controlar seu pavor, mas sua perna direita começa a dar espasmos que ficam tão fortes que a perna começa a bater no banco da frente.

Eles seguem pelo que parecem três horas.

Três horas intermináveis.

Então, o carro para.

O capuz é tirado de seu rosto.

Eles estão parados perto de um templo budista e Ric vê que ele está em Mexicali, perto da travessia da fronteira.

Ele despachou muita droga por ali.

Belinda desce e abre a porta dele. Pega uma faca e corta as amarras de suas mãos.

— Vá até a fronteira. A Divisão de Narcóticos está esperando você.

Ric olha para ela, intrigado.

— Você ligou pra eles mais cedo — explica Belinda. — Disse que queria se entregar. Nem tudo é boa notícia, benzinho. Eles têm um processo com onze acusações contra você.

Ele sai do veículo.

— Você vem?

— Vou correr meus riscos por aqui — diz ela.

— Eles vão matá-la por isso.

— Aquelas bichinhas? — pergunta Belinda. — Vou fazê-los comer as próprias bolas. Agora, vá logo, mojado.

Ela volta para dentro do carro, que arranca e vai embora.

Ric caminha por Cristóbal Colón, até a travessia da fronteira.

Agentes da Divisão de Narcóticos estão esperando por ele. Eles o prendem por formação de quadrilha para tráfico de metanfetamina, cocaína e heroína, e formação de quadrilha para lavagem de dinheiro. Quatro horas depois, ele está na prisão federal em San Diego. É a mesma cela que um dia foi ocupada por seu padrinho Adán.