A fronteira
3: Victorville
3
Victorville
“Quando as portas da prisão estiverem abertas, o verdadeiro dragão sairá voando.”
— Ho Chi Minh
Eddie vê a lâmina e sabe que está morto.
Cruz está vindo pelo corredor com um pedazo — uma lâmina derretida na escova de dente — abaixo, junto ao quadril, com um sorriso no rosto, porque faz tempo que ele quer matar Eddie e agora parece que La Eme lhe deu sinal verde.
Eddie amaldiçoa a si mesmo, porque não tem nada além de seus punhos e deveria ter se preparado.
Caro fodeu com ele.
E agora, Cruz está em cima dele e não há porra nenhuma que ele possa fazer para se salvar.
Era diferente, quando ele chegou a Victorville.
Ele chegou ao pátio, há sete meses, com o endosso de Rafael Caro, e foi instantaneamente apresentado a Benny Zuniga, o llavero da Eme, o mandachuva. Zuniga é o mesa da Penitenciária Victorville há uma eternidade, vinte e cinco anos, cumprindo de trinta à prisão perpétua.
Ele que dava as ordens do lado de dentro e na rua.
Assim, Eddie ganhou status, quando Zuniga cumprimentou-o pessoalmente, na estaca de ferro.
— Ouvi boas coisas — disse Zuniga.
— Eu também — respondeu Eddie, contendo um suspiro de alívio. Keller tinha limpado a sua ficha, mas nunca se sabe. Zuniga mandaria um dos seus dar uma boa olhada no relatório.
A cela era um pouco melhor que em Florence — 3,90 m por 1,80 m — mas tinha que ser dividida por dois caras. Eddie não se importava, a prisão está com cinquenta por cento acima de sua lotação máxima, muitos dos vatos em triplos, o cara mais fraco dormindo no chão.
Havia uma cama beliche, uma pia e vaso de aço inox, uma mesinha com
uma única banqueta, presa ao chão.
E Eddie percebeu que havia ar-condicionado.
Era a porra do Four Seasons, em comparação a Florence. Logo que Ruiz chegou a sua nova cela, um jovem vato — magro, alto,
de cabeça raspada — estava nervosamente sentado na cama de baixo e ergueu os olhos para Eddie.
— Oi — disse ele. — Sou Julio.
— Que porra está fazendo, Julio?
— O que quer dizer?
— Quer dizer — explicou Eddie — que porra está fazendo na minha
cama?
— Pensei que você talvez quisesse ficar em cima — respondeu Julio. — Quem lhe disse para pensar? — perguntou Eddie. Julio apressou-se para o beliche do alto.
— Zuniga falou com você, sobre mim? — perguntou Eddie. — É pra eu fazer o que você precisar — disse Julio. — Manter a cela
limpa, lavar a sua roupa, arranjar suas provisões. O que você quiser…
Eddie viu que Julio estava olhando meio esquisito pra ele. — Fica tranquilo — disse Eddie. — Eu não jogo esse jogo. Não sou seu
paizinho e você não é minha piranha. Quando eu quiser boceta, vou arranjar uma de verdade. Mas você é meu secretário da cela, e ninguém mexe com você. Isso não pegaria bem pra mim. Se alguém perturbar você, fale comigo, com mais ninguém, entendeu?
Julio assentiu aliviado.
Eddie perguntou:
— Em que bonde você está?
— Agora eu estou com a Eme.
— Se isso funcionar, eu vou tentar tirar você do sufoco. — Obrigado.
— Faça a minha cama.
Naquela noite, no refeitório, Eddie ganhou o lugar na cabeceira da mesa,
com Zuniga e os outros figurões.
— Essa é uma prisão mexicana — disse Zuniga. — Você tem cerca de
cem güeros, a maioria da Irmandade Ariana, quinhentos mayates, mas mil irmãos da fronteira. Digamos uns trezentos norteños, mas o restante está em linha. O diretor é mexicano, a maioria dos guardas são mexicanos. Nós mandamos neste lugar.
— Bom saber.
— Né que nem na estadual, não — continuou Zuniga. — A gente trabalha com os güeros e luta com os norteños, mas todos nós detestamos os negros. Até os guardas odeiam os negros. É todo el mundo contra os mayates.
— Entendi.
La Eme, a Máfia Mexicana, foi formada lá atrás, nos anos 50, mas era uma gangue do sudeste da Califórnia, de sureños, composta predominantemente por presos de Los Angeles e San Diego — uns caras da cidade que abusaram das primas do interior, catadoras de frutos na parte rural ao norte do estado.
Então, para se proteger, os caras do norte formaram a Nuestra Família, e quase trinta anos depois, a rixa entre sureños e norteños era mais odiosa que as outras raças. Na verdade, La Eme — que mandava em várias gangues de sureños — tinha uma aliança bem próxima à Irmandade Ariana.
Morenos odiavam morenos, mais do que odiavam brancos.
La Eme, a Irmandade Ariana, e os Guerrilheiros Negros começaram quando as prisões desagregaram os detentos e lançaram as raças juntas nos mesmos pavilhões e pátios. As pessoas, sendo como são, começaram imediatamente a matar umas às outras, e logo formaram as gangues para se proteger. Quando os presos saíam, eles levavam as gangues para a rua, acionando uma porta giratória que nunca parou de girar.
O mesmo ocorreu com as gangues da América Central.
No fim da década de 1980, muitos salvadorenhos, hondurenhos e guatemaltecos começaram a fugir do buraco que seus países haviam se tornado e vieram para a Califórnia. Sem emprego, escolaridade ou contatos, muitos de seus jovens acabaram indo para o sistema prisional, onde não eram negros, brancos, norteños ou sureños.
Eles eram apenas uns fodidos.
Os mexicanos, negros e arianos os prostituíam, roubavam, viciavam em porcarias, os extorquiam. Em princípio, isso era um bom negócio, mas depois aconteceu o que era inteiramente esperado.
Alguns desses caras se mostraram bem durões — ex-soldados ou
guerrillas, nas guerras civis de seus países, eles decidiram se organizar e reagir.
Um salvadorenho chamado Flaco Stoner fundou a Wonder-13, gangue
que logo passou a ser conhecida como Mara Salvatrucha. Uma antiga gangue dos anos 1950, chamada 18th Street, renasceu como Calle 18 e, juntas, essas se tornaram as gangues mais violentas do sistema prisional. Alguns dos mareros eram uns malucos do caralho — tinham feito coisas da pesada, em seus países, durante as guerras (decapitações, estripações) — e eles simplesmente deixaram esses malucos à solta, na cadeia.
Até a La Eme ficava na retranca com eles.
E assim como as outras gangues de cadeia, os que voltavam para casa
levavam as gangues junto e estabeleceram a clica de Mara Salvatrucha e Calle 18, não apenas em Los Angeles e outras cidades americanas, mas também lá em San Salvador, Tegucigalpa e Cidade da Guatemala.
Eddie morre de rir ao ouvir políticos imbecis e ignorantes como John
Dennison dizendo que vão mandar as gangues “de volta, para o lugar de onde vieram”.
Elas foram hecho en los Estados Unidos. Feitas nos Estados Unidos.
As administrações prisionais nunca levaram a sério a contenção da
violência nos presídios. Era exatamente o oposto: eles queriam os prisioneiros brigando entre si, não com os guardas.
Porra, eles precisavam que as gangues mandassem na cadeia. Precisavam que elas mantivessem a disciplina e a ordem. E se um bando de lixo branco, chicanos e pretos se matassem, isso não
era nenhum prejuízo, era?
— Que tipo de emprego você quer? — pergunta Zuniga. Eddie não sabe. Ele nunca teve uma porra de um em-pre-go na vida.
Não sabe fazer nada, fora vender bagulho e matar gente, e seu emprego na Florence era basicamente bater punheta.
— Sei lá. A cozinha?
— Não vai querer a cozinha. Lá, você vai ter que trabalhar de verdade
— diz Zuniga. — Você vai querer alguma coisa de custódia.
— Uma porra de um zelador?
— Tranquilo. Seu parceiro fará o trabalho.
Então, Eddie pegou o emprego na equipe de custódia, olhando algum camponês passar o esfregão no chão e limpar as latrinas. A monotonia da vida prisional bateu. Era uma monotonia diferente de Florence, ainda assim, monótono.
Ele não “se casou” — não ingressou oficialmente para La Eme — mas seu status de homem do cartel lhe deu um status prestigiado de “camarada”, um parceiro — e isso bastava. Embora ele não tivesse feito a tatuagem da “mão negra”, ele foi aceito para a la clica — o círculo interno.
E ele vivia segundo “las reglas” — as regras severas que La Eme havia estabelecido para seus membros na prisão.
Proibido brigar com outros membros.
Proibido dedurar.
Proibido agir com covardia.
Proibido drogas fortes.
O indivíduo podia beber, podia fumar um pouquinho de yerba, mas não podia usar chiva, porque ninguém pode confiar em um viciado e um viciado é inútil em uma briga.
Proibido “beisebol”, ou seja, viadagem.
Eles tinham permissão de prostituir outros detentos — vendê-los para fazer boquetes ou oferecê-los para os arianos, por exemplo. Se você fosse um “baby”, uma piranha, se não soubesse brigar, Zuniga ou os outros o alugariam, mas os carnals ou camaradas da Eme não tinham permissão de utilizar seus serviços. Isso era para brancos caipiras ou mayates, não para os homens mexicanos machões e orgulhosos de la raza.
Não se podia fazer isso nem interferir no negócio de outro membro. E certamente não se podia desrespeitar sua ruca, ou namorada, nem sequer lançar um olhar de cobiça na sala de visitas, e quando saísse, não se devia mexer com a mulher de um membro.
Quem infringisse qualquer uma dessas reglas, ia para uma lista, na qual não era bom estar. Eram necessários três votos de membros integrais para colocar o nome de alguém na la lista, mas, uma vez ali, o cara estava morto.
Era severo, mas Eddie entendia os motivos. Eles precisavam de las reglas, precisavam da disciplina para manter sua dignidade, seu autorrespeito, em um lugar que era feito para tirar isso deles.
Las reglas mantinham o cara forte, quando ele queria desmoronar. Um dia, ele voltou do pátio de exercícios e ficou observando Julio fazendo “birita”.
O garoto tirou a capa de um pedaço de fio e mergulhou na bebida, um
bocado de vinho antigo e forte, em um balde plástico, no chão da cela. Depois ele prendeu a outra ponta em uma tomada da parede.
O vinho começou a esquentar.
Levou um tempo, mas o álcool destilou e depois escorreu por uma
mangueira, para dentro de um segundo balde, produzindo uma bebida duas vezes mais forte que o goró caseiro de cadeia.
Julio ofereceu um gole a Eddie.
— É bom — disse Eddie.
Julio deu de ombros.
— Claro que é bom. Eu sou o melhor fazedor de birita em Victimville,
ao menos entre os mexicanos.
Eddie estava lá fora, no pátio, esperando sua vez para usar o supino, quando Zuniga veio até ele.
— Eu estava pensando se você poderia fazer um trabalho, campa. — Qualquer coisa — disse Eddie, torcendo para que não fosse pesado
demais. Se ele arranjar uma bronca por assassinato, ali, seu acordo com os federais já era e ele nunca mais sai. Mas ele não tem como dizer não à mesa, então, ele só pode torcer.
— Um mané acabou de chegar — explicou Zuniga. — É mexicano. Está
falando que dançou por assalto à mão armada, mas um chapa do escritório puxou a ficha dele: ele é um chester.
Chester, a gíria para molestador de criança, pensou Eddie. Um
funcionário branco encontrou sua ficha corrida e levou para os mexicanos cuidarem dele. Era uma regra — brancos devem ser disciplinados por brancos, negros, por negros e morenos, por morenos.
É uma justiça enfatizada na cadeia. Um cara não bota a mão em um cara
de outra raça. Se um branco pegasse esse chester mexicano, os mexicanos teriam que primeiro surrar o branco, iniciando um ciclo interminável de retaliações, depois teriam que surrar o chester também. Portanto, isso faz seu próprio sentido estranho: os brancos entregam os mexicanos a eles próprios, para darem jeito.
Mas era esperada uma atitude disciplinar. Se Zuniga soubesse que havia
um pedófilo em seu pátio e não fizesse algo, ele perderia respeito. A raza toda perderia, se fosse espalhado que eles toleraram um vato desses.
— Eu estava pensando se você poderia dar uma coça nele — disse Zuniga.
— Sem problema — falou Eddie, profundamente aliviado por ser só uma surra. — Porra, se me der sinal verde, eu…
— Não, só uma surra — disse Zuniga. — Eu o quero fora do meu pátio.
E quer ver se eu sou ponta firme, pensou Eddie. Você tem centenas de caras a quem poderia dar essa tarefa, mas quer ver se eu passo pelo teste.
Certo.
Quer que eu faça na frente de todo mundo.
Para tornar isso um espetáculo.
— Acabei de cumprir pena em Florence — disse Eddie. — Era só na solitária. Além disso, eu também tenho filhos.
— Respeito, mano.
Zuniga deu o nome e saiu andando.
Por que esperar, pensou Eddie, então, no café da manhã seguinte, ele sentou e ouviu o chester em uma outra mesa, com outros vagabundos, se gabando de como ele puxou a arma, mas ela travou, e os canas o pegaram, e Eddie pensou, Quem é esse babaca idiota?
Então, quando o cara levantou da cadeira, Eddie levantou da sua e conforme o cara veio em sua direção, Eddie girou a bandeja como um machado, direto no pescoço do cara, que teria caído como uma árvore cortada, só que Eddie já tinha soltado a bandeja e o atracou pela frente da camisa e começou a esmurrar sua cara, mandando um monte de socos de direita — pou, pou, pou, pou… —, quatro golpes diretos e o levou ao chão, montou por cima dele e saiu socando até ficar com os braços cansados e depois começou a dar joelhadas nas costelas do cara, depois no saco, e deu um monte de cotoveladas na cara do sujeito.
Eddie se sentia pilhado e os guardas não pareciam ter a menor pressa em apartar — eles também tinham filhos — e o resto dos caras gritava e uivava incentivando — “Fode esse cara, acaba com ese!” — e o cara gemia, chorava e sangrava, implorando para que Eddie parasse, mas Eddie sabia das regras — você só para quando os macacos fardados te puxam — então, ele apenas continuou estourando a cara do outro, até finalmente sentir mãos atracarem sua camisa por trás e se deixar puxar, enquanto o resto dos caras vibrava por ele.
O chester estava ali deitando, encolhido, mas Eddie deu-lhe outro chute
no saco e uma pisada no joelho. Viu Zuniga assentir em aprovação e um dos figurões também assentiu com respeito, ao sair.
Em sua audiência disciplinar, o oficial em comando perguntou o que
iniciou a briga e Eddie disse:
— Com todo respeito, o senhor sabe o que iniciou a briga. Vocês todos
tentaram esconder a ficha daquele cara, deram a ele uma história idiota como cobertura, mas sabem que isso não funciona aqui.
O oficial deu trinta dias de solitária para Eddie, e Eddie dispensou seu
direito de apelar.
Que porra ele podia apelar? Estava tudo em vídeo e, de qualquer
maneira, ele não negaria o feito, ele o anunciaria. A história se espalhou: Eddie Ruiz não era apenas um narco figurão, ele era um cara durão por si próprio e estava no bonde da La Eme.
A administração não forçou uma acusação de agressão, o chester
recusou-se a dar queixa e foi enviado para custódia de proteção (portanto, para fora do quintal de Zuniga), e Eddie cumpriu seus trinta dias como homem.
La Eme também cuidou dele na solitária, mandando sanduíches e
bolinhos recheados Little Debbie, por um guarda que estava no esquema deles. Uma vez, Eddie até recebeu uma garrafa da birita de Julio, portanto, Eddie podia simplesmente ficar lá sentado, enchendo a cara com tranquilidade.
Eddie dividiu a bebida com seu vizinho de cela, Quito Fuentes, um
antigo traficante mexicano que estava cumprindo prisão perpétua sem direito a condicional, por sua participação no negócio de Hidalgo, lá atrás, em 1985. O filho da puta do Art Keller tinha literalmente levado o cara para o outro lado da fronteira, para poder prendê-lo nos EUA.
Quito não sairia nunca mais e os macacos fardados o jogavam na
solitária, sempre que tinham chance, porque ele era um assassino de policial e eles jamais se esqueciam disso. Àquela altura, ele já estava meio doido, tagarelando maluquices, depois ficava levando um papo interminável com algo ou alguém que ele chamava de “o homem do mel”, então Eddie ficava feliz em deixá-lo bêbado, se isso fechasse o bico dele, assim como o do homem do mel, por um tempinho.
Mas essa porra desse Keller, hein?
Passou o cara pela cerca, é mole?
Nem pareceu demorar tanto, até que um guarda abrisse a porta e gritasse:
— Ruiz, você vai voltar para a rua principal.
— Ei, Quito — disse Eddie —, mande lembranças ao homem do mel, está bem?
— O homem do mel deseja boa sorte.
— Quem é o homem do mel? — perguntou o guarda, enquanto levava Eddie de volta à sua antiga unidade.
— Comé que eu vou saber, porra?
Ele retornou à sua cela, que estava impecável, e Julio o aguardava como uma porra de um mordomo.
— Bem-vindo de volta ao lar.
— Valeu pela birita.
Julio quase corou.
— A gente precisa falar sobre isso — disse Eddie. — Estamos desperdiçando dinheiro. Quanto você consegue por essa merda?
— Cinquenta pratas, por uma garrafinha de 600 mL.
— Vou pedir autorização do Zuniga — falou Eddie. — Nós vamos começar um negócio e eu vou deixar você ficar com vinte por cento.
Eddie caminhou até a cela do mesa, uma cela no cantinho no fim de um corredor, no piso térreo. Três Emes estavam ali com Zuniga, que gesticulou para que um deles levantasse e deixasse Eddie sentar na banqueta.
— Obrigado pelas coisas — disse Eddie.
Zuniga assentiu.
— Ouvi falar que colocaram você com Quito, como está ele?
— Maluco. Totalmente doido.
— É uma pena.
— Eu quero vender birita — anunciou Eddie.
Zuniga riu.
— Aquela porra daquele Julio sabe cozinhar, hein? É dinheiro de lanche. Vá com Deus.
Eddie seguiu em frente e iniciou seu negócio de venda de birita.
O extrato, em si, como um bom fermento de pão, nunca era tocado, mas escondido com cuidado atrás da parede de uma cabaninha usada como despensa, e removido somente na hora de fazer uma nova remessa.
Eddie iniciou outros negócios.
Havia dois babies em seu pavilhão, um deles era realmente um traveco,
de rímel, batom e cabelos compridos cacheados.
Eddie foi atrás do cafetão, do paizinho.
— Agora eles trabalham pra mim.
O cara ficou muito puto, mas não falou um ai, pois o que ele poderia
fazer? Eddie tinha a benção da MM.
Eddie chamou o traveco de canto.
— Qual é o seu nome?
— Martina.
— Bem, Martina, agora eu sou seu paizinho — disse ele. — Se eu achar
um bom contrato pra você, de longo-prazo, eu vou fazer. Do contrário, vou passar você conforme o que pintar. Deixo você ficar com um terço, o resto é meu. Se tiver problema com isso, eu vou entregar você aos negões, pra eles se distraírem. Isso, depois que eu lhe der uma surra e a deixar tão medonha, que eles vão ter que meter a sua cara num travesseiro, enquanto enrabam você.
Martina não teve problemas.
Nem a outra cachorra, um magricela chamado Manuel. — Agora você é Manuela — disse Eddie. — E você precisa dar uma
melhorada pro jogo. Pelo amor de Deus, vê se faz essa barba, e eu vou te arrumar uma porra de uma maquiagem.
Eddie encontrou um velho bacana, com pena de prisão perpétua, e
alugou Martina para ele, por seis meses, em troca de um terço dos mantimentos do preso. Manuela, ele passava no avulso, por cigarro e selos, ambos trocados com lucro.
Ou o Julio fazia isso — Eddie o deixou encarregado dessas merdinhas. E da destilaria.
Eddie dava um trocado para um guarda, por um pequeno espaço em uma
despensa, para esconder o insumo, depois botava o garoto para cozinhar, em toda oportunidade que tinha. Quando não estava cozinhando, Julio estava circulando, vendendo as garrafas.
Nada de dinheiro, jamais.
Tudo em selos, cartões telefônicos e mantimentos. Eddie dava um gole na nova remessa de birita e chegava à conclusão de
que a vida é boa.
Mas o que ele queria mesmo era transar.
Seu nome era Crystal, e ela era lixo branco caipira, de Barstow.
Trinta e poucos anos, talvez, não era feia. Ruiva, sardas, nariz fino, lábios idem, e um corpo violão, com peitinhos e bundão.
A vaga de oficial correcional foi o melhor emprego que ela conseguiu arranjar.
Pagava melhor que a CostCo.
E ainda tinha plano de saúde.
Crystal aturava um monte de merda em V-Ville. Os guardas mexicanos lhe causavam problemas porque achavam que uma latina deveria estar nessa função, não uma branquela. E os presidiários a olhavam como se quisessem transar com ela.
Eddie não fazia isso.
Ele a tratava com respeito, conversava com ela como se Crystal fosse um ser humano, olhava dentro de seus olhos, como se houvesse algo por trás deles. O tempo todo, claro, pensando em transar com ela, mas disfarçava, pois sabia que as mulheres não gostam disso.
Depois, sim, mas não de cara.
— Sabe qual é a parte mais sensível de uma mulher? — Eddie perguntou a Julio. — Suas orelhas.
— Já ouvi isso — disse Julio, botando a língua pra fora e lambendo os lábios.
— Não, seu babaca — corrigiu Eddie. — Eu estou dizendo que você tem que conversar com ela. Depois, você usa os seus ouvidos e escuta o que ela tem a dizer. Quer deixá-la molhada, escute-a.
Foi assim que começou com Crystal. Primeiro, pequenas coisas, como literalmente Oi, depois, Como vai você?, então, uma semana depois, Está bonita hoje, oficial Brenner. Ela precisava deslocar umas caixas, Eddie estava lá; ela precisava que um lugar fosse limpo depressa, Eddie estava lá, talvez a única vez em que ele segurou um esfregão.
Um dia, passando por ela, no corredor, viu que ela parecia aborrecida, com os olhos meio inchados.
— Está bem, oficial Brenner?
— O quê?
— Você está bem?
— Circulando, Ruiz. — Mas ela não saiu do lugar. Então, ela falou: — Às vezes, esse lugar… não sei… a coisa pega.
— Fala sério.
— Claro, você sabe que sim.
— Não, eu quis dizer que você pode me falar — disse Eddie. — Se
alguém estiver causando problema…
Crystal riu.
— O que você vai fazer, acertar as contas?
— É, talvez.
Ela o encarou, por um bom tempo.
— Não, é só que, sabe, os outros guardas… primeiro, eu sou mulher,
depois, eu sou branca… Sem querer ofender, Ruiz.
— Eu sei o que quer dizer — garante Eddie. — Quando morei no Texas,
eu era um “mexicano”, quando morei no México, eu era um yanqui. Olhe, não posso acertar contas com os oficiais correcionais, mas se um preso estiver lhe causando problemas, fale comigo.
— Está certo.
— Estou falando sério.
— Eu sei que sim — disse ela. — Olhe, é melhor irmos andando. Eddie sorriu.
— Confraternização.
— Repreensível.
No dia seguinte, Eddie foi até outro detento, em seu pavilhão. — Ortega, me faça um favorzão.
— O que você quer?
Eddie lhe disse.
— O que eu ganho com isso? — perguntou Ortega. — Uma garrafa de birita?
No dia seguinte, Crystal viu Eddie no corredor que ele supostamente
estava limpando. Ela parecia preocupada.
— O que foi? — perguntou Eddie.
Crystal hesitou.
— Vamos, pode me contar.
— Tem um preso, na Ala C, Ortega — disse Crystal. — Ele está me
causando muita dificuldade. Toda vez que há contagem, ele é insolente. Na hora de trancar a cela, ele fica parado na porta, me olha de cara feia, resmunga baixinho, falando umas merdas. Não quero relatar sobre ele, mas…
— Vou falar com ele.
— É?
— É.
Dois dias depois, Crystal viu Eddie saindo do refeitório, depois do jantar.
— O que você fez?
— Apenas falei com ele — respondeu Eddie. — Ficou tudo bem?
— Sim, obrigada.
— De nada — disse Eddie, depois, forçando um pouquinho, ele acrescentou: — mamacita.
No dia seguinte, ao passar por ela, no corredor, ele não falou nada, mas pôs um pedaço de papel no bolso de seu uniforme. Nele, estava escrito Pensando em você. Era um risco e tanto, se ela o denunciasse, ele voltaria para a solitária.
Quando ela o vê, mais tarde, naquele dia, ela também não diz nada, mas põe um pedaço de papel na mão dele. Eddie esperou até estar de volta na cela para abrir e ler: Também estou pensando em você.
Eddie sabia que tinha ganhado. Agora, não era mais uma questão de se, era uma questão de onde e quando.
Ele teve a resposta na manhã seguinte, quando passou por ela, no corredor.
— Capela — sussurrou ela. — Nos fundos.
Eddie tinha religião.
Ele entrou na capela, que estava vazia, cedinho, e contornou até os fundos, atrás do altar, entrando por uma passagem estreita. Crystal estava ali em pé, esperando por ele. Ela disse exatamente o que ele sabia que ela diria:
— Não podemos fazer isso.
E ele disse exatamente o que ele sabia que diria:
— Não podemos não fazer isso.
Ele a puxou para junto de si e os dois se beijaram. Depois, ele a virou de costas, encostou-a na parede e abaixou a calça dela. Abriu o zíper dele, botou o pau para fora e mergulhou nela. Ela gozou antes dele, o que o surpreendeu. Ele terminou, fechou o zíper e a virou de frente.
— E agora?
Mais do mesmo, foi a resposta.
Eles tinham encontros velozes e suarentos na capela, nas despensas. Olhares e sorrisos furtivos nos corredores, bilhetes passados de lá para cá e vice-versa. Era divertido, perigoso, e Eddie sabia que o que realmente a excitava era o sexo perigoso, com um cara perigoso. O sexo ficou ainda melhor. Ele a ensinou algumas coisas que não se aprendia lá em Barstow.
Zuniga olhava além dos homens uniformizados andando pelo pátio, jogando basquete, levantando pesos ou só perambulando ao redor. Olhava além da cerca de ferro com arame farpado enroscado no alto, das torres, do deserto vazio.
— Para que estamos fazendo isso, Eddie? — ele perguntou, elevando a
voz acima das batidas de metal dos aparelhos de ferro. — Passei a maior parte da minha vida em lugares como este. Desse aqui, eu nunca mais vou sair, a menos que vá para um lugar pior. Tenho milhões no banco, mas o mais rico que posso ser é ter 290 dólares semanais, na minha conta de mantimentos, que uso pra comprar macarrão e biscoitos; comida de criança, não de homem. Tenho esposa, filhos, netos que só vejo algumas horas por mês. De vez em quando, transo com alguma guarda vagabunda, e me lembro do cheiro dela, porém, sinto mais o fedor dos homens no meu nariz. Posso ordenar vida ou morte, mas tenho que bater uma punheta. E ainda assim, faço negócios. Por quê?
— Não sei.
O que Eddie sabia era que ele precisava achar um cara negro. Caro lhe pediu esse favor, Eddie disse que faria, e quando se dá sua
palavra a um cara como Rafael Caro, não se volta atrás, porque isso rende ao sujeito uma lâmina no olho, em qualquer pátio dos EUA ou do México.
E, de qualquer maneira, Caro disse que eles fariam milhões. Não era de se imaginar que encontrar um cara negro na cadeia fosse um
problema, mas os morenos não sociabilizam com os negros e, se alguém o fizer, é melhor ter um bom motivo.
Eddie foi até Crystal.
— Preciso que você olhe uns papéis pra mim, benzinho. — Eddie, se eu for flagrada…
— Então, não seja flagrada — disse Eddie. — Ora, vamos, uma oficial
correcional olhando as fichas pré-sentenciais, qual é o problema?
Ele falou a ela o que precisava. Era algo bem específico — um cara
negro de Nova York, com condenação por tráfico, mas perto de sair. Ela levou uma semana, mas voltou com ele: Darius Darnell, também conhecido como DD. Tinha 34 anos, era vendedor final de tráfico de papelotes. Conclusão da pena em meados de 2014.
Eddie dedicou um pouquinho mais de afeto à trepada rápida, para expressar sua gratidão. Mas ele ainda tinha um problema: como chegar perto de um cara negro, para uma conversa séria.
Então, para sorte de Eddie, explodiu um motim.
Momento em que todas as raças, sabe como é, se misturam.
Motins em cadeias não acontecem à toa.
Mesmo os mais espontâneos requerem premeditação, planejamento e intenções específicas. O que parece uma súbita explosão de violência vindo do nada e tomando um pátio pacífico é tudo, menos isso.
Zuniga planejou essa para lembrar aos mayates onde é o lugar deles.
— Tem que acontecer, de vez em quando — disse Zuniga a Eddie. — Mas, desta vez, eles nos deram motivo.
A mesma babaquice de sempre, testosterona, pensa Eddie. Um mexicano chamado Herrera estava saindo do pátio e esbarrou em um negro. Palavras foram trocadas e, inevitavelmente, levaram a insultos raciais.
Eddie tinha jogado contra uma porção de negros no Ensino Médio — porra, alguns daqueles times de Houston e Dallas eram compostos só de negros, e alguns dos caras texanos e mexicanos, gostavam de soltar um “crioulo”, ou “mayate”, mas Eddie nunca foi muito disso, nunca viu muito sentido em deixar mais injuriados os caras que já eram maiores e mais velozes.
De qualquer maneira, o cara negro — DuPont, novato de Louisiana — e Herrera saíram no braço e os macacos fardados apartaram, mas só depois que DuPont falou que queria ficar no mano-a-mano com Herrera.
Primeiro, Zuniga pensou em manter a paz e disse a Eddie:
— Você já trabalhou com os mayates, não foi?
— Vendi um bocado de yerba, tempos atrás.
— Vá falar com o Harrison, diga-lhe para mandar esse cara ficar na dele.
Eddie foi até a beirada do pátio, perto da quadra de basquete, e ficou ali, de braços cruzados. Isso chamou a atenção do mandachuva negro, um condenado à prisão perpétua chamado Harrison, que mandou dois de seus caras até ele.
— O que você quer?
— Quero dar uma palavra — disse Eddie.
Eles o levaram até a prateleira de pesos, onde Harrison estava sentado
com um bando de seus garotos e DuPont, que continuava agitado. Esse filho da puta é grande pra caralho, pensou Eddie, um daqueles negões imensos do sul, como os que vinham do leste do Texas.
— Eddie Ruiz — apresentou-se Eddie.
— O que você quer? — perguntou Harrison.
Ele tinha olhos experientes, pensou Eddie. Olhos que sabiam que jamais
voltariam a ver o lado de fora desse deserto de merda.
— Esse combinado para as seis da tarde — disse Eddie. — Benny Z
acha má ideia. Falou pra deixarmos pra lá, deixa quieto.
— Eu não quero deixar quieto — retrucou DuPont. Harrison olhou pra ele, como quem diz Porra, quem te perguntou o que
você acha?, mas virou de volta para Eddie e disse:
— Seu garoto o chamou de preto.
— E ele chamou nosso cara de chicano — lembrou Eddie. — Não vale a
pena derramar sangue por isso.
Uma expressão que Eddie nunca entendera direito. Ele nunca viu sangue
derramar, como se fosse leite achocolatado, ou algo assim. Ele já tinha visto sangue jorrar, sangue escorrer, sangue espirrar da cabeça de alguém, mas derramar?
Não.
— Ele acha que vale o sangue — disse Harrison, projetando o queixo
para DuPont.
— E você se importa com o que ele acha?
DuPont é novato, pensou Eddie, um catador de algodão que
provavelmente come a bunda da própria irmã como forma de controle de natalidade.
— O homem tem seus direitos — respondeu Harrison. Isso é verdade, pensou Eddie. Um homem tem direito de ser um idiota
do caralho, que esse DuPont é, se acha que será só um mano-a-mano. Ele deu de ombros e voltou até Zuniga, para relatar a conversa.
— Essas porras desses mayates não sabem o lugar deles — disse
Zuniga.
Eddie sabia que ele estava puto por ter sido desprestigiado. Um mesa da
La Eme não pode se dar ao luxo de ser desprestigiado. Se começassem a espalhar que Benny Z se deixou humilhar por um mayate, todos começariam a achar que La Eme estava fraquejando, que eles poderiam ser dominados.
Isso não podia acontecer.
Zuniga estava mais puto com Harrison do que com DuPont, pois DuPont era um trouxa, mas Harrison recusar a oferta de paz de Zuniga foi um desrespeito estudado, de jefe para jefe. Se o mesa deixasse passar, ele estaria liquidado.
Então, ele começou a planejar o motim.
Foi dada a ordem para que todos os membros da La Eme pegassem seus pedazos e escondessem em locais seguros do pátio. Então, Zuniga fez uma reunião estratégica com seus caras mais importantes, dentre os quais estava Eddie.
Eddie ficou observando DuPont se aproximar para sua briga com Herrera. E ele veio todo metido, sabendo que o mexicano magrinho não era páreo para ele.
Além disso, ele estava com dez irmãos da cor escondidos atrás, prontos para cair dentro.
O que teria sido bom, só que Herrera estava com sessenta mexicanos.
Com lâminas.
E eles não esperaram. Atacaram.
Estiletes e facas surgiram das camisas, das jaquetas, das calças; porra, eles tiram lâminas até da bunda. Eddie estava com seu pedazo, uma lâmina antiga, feita com a tampa de uma lata que ele conseguiu na cozinha e colou na perna com fita adesiva.
Sessenta chicanos doidos partiram para cima, a toda, o sol refletindo nas armas erguidas acima da cabeça. Porra, podia ser o Álamo, só que com os negros, em lugar dos texanos branquelos caipiras, e os negros nem tinham um muro para protegê-los.
Eles se arrancaram.
Eram tantos negros correndo que parecia uma linha de ataque da NFL, pensou Eddie, mas não havia para onde correr e a cerca, em lugar de protegê-los, deixava-os encurralados. Mais negros vieram correndo pelo pátio e levaram apenas alguns segundos para acabar de costas para o muro. Bem, de costas para a cerca, e estava claro que o guarda prisional ia fazer exatamente porra nenhuma, já que o fator de união em Victimville era um ódio compartilhado por negros.
Eddie ouvira dizer que o amor une as pessoas, mas ele sabia que o ódio
era o laço mais forte.
O ódio é o Super Bonder das emoções sociais. Os guardas ficaram de olhos e ouvidos tampados, enquanto uma onda de
mexicanos partia para cima dos negros, contra a cerca, e os muchachos começavam a socar, cortar e furar.
Como dizem, o sangue estava sendo derramado. DuPont, sendo um filho da puta alto pra cacete, o que atrai atenção, foi
o primeiro a cair, porque um motim de cadeia não é o melhor lugar para ser um cara alto e chamar atenção.
Um dos mexicanos girou uma meia com um cadeado dentro e acertou a
lateral da cabeça de DuPont, que caiu de joelhos, que é outra má ideia em um motim, porque os mexicanos começaram a pisoteá-lo, como se quisessem plantá-lo na terra dura. Outros negros tentaram lutar e abrir caminho até ele, mas Eddie logo viu que não iria rolar.
Os negros da frente também socavam, cortavam e furavam, mas os de
trás começaram a subir na cerca. Os filhos da puta estavam tão desesperados que estavam se atirando no arame farpado enroscado cheio de giletes, no topo da cerca, depois tentavam se soltar do arame para cair no pátio ao lado.
A maioria ficou presa e estava esticada, pendurada, berrando, mas Eddie
viu que um dos poucos que conseguiram passar para o outro lado era Darius Darnell, que estendeu a mão e ajudou seu companheiro de cela, um cara mais velho chamado Jackson, e o colocou do outro lado.
Eddie não pensou duas vezes.
Meteu o pé na cerca entrelaçada e subiu.
Ao chegar no fio enroscado com as pontas cortantes, Eddie respirou
fundo e se lançou, cortando os braços e as pernas. Ele se arrancou da cerca, berrou e caiu no chão, e saiu correndo atrás dos negros que fugiam, como se estivesse simplesmente enlouquecido de indignação.
Darius parecia ter alguma arma, mas não usou. Ele continuou junto do cara mais velho e lento, Jackson, em uma atitude leal de absoluta firmeza, pois uma dúzia de mexicanos seguiram o exemplo de Eddie e escalaram a cerca para perseguir os negros.
Mas Eddie aprendeu a lição — Darnell era um cara totalmente firmeza.
Darnell estava correndo rumo a um pátio de exercícios, que era um retângulo cercado, de uns 6 x 6 m. Um guarda estava junto ao portão aberto, acenando para que ele fosse para lá, e Eddie viu que ele tinha a intenção de trancar Darnell e Jackson ali dentro, em segurança.
Mas os outros não conseguiram chegar.
Um deliberadamente ficou para trás para brigar e segurá-los, mas foi enxameado por cinco vatos. Jackson tentou voltar para ajudá-lo, mas Darnell o atracou pela camisa e o empurrou em direção ao pátio fechado, gritando:
— Anda, cara. Você não tem como fazer nada!
O guarda estendeu a mão e puxou Jackson pelo portão. Darnell entrou junto.
Eddie estava logo atrás e os alcançou, quando o oficial, um jovem mexicano, estava fechando o portão.
Em vez disso, ele sorriu e disse:
— Adelante, mano.
Seja meu convidado, irmão.
Eddie entrou.
O portão foi trancado atrás dele e o guarda saiu andando.
Então, Eddie viu cinco vatos entrando no pátio pelo lado interno, todos de sorriso no rosto e estiletes na mão.
Darnell e Jackson eram mayates mortos.
Um dos vatos lhes disse:
— O que foi? Vocês acharam que estavam a salvo? Nós vamos fazer picadinho de vocês.
Só que Eddie entrou no meio.
— Já chega.
— Quem é você pra dizer que já chega? — o vato líder perguntou a Eddie.
Eddie o reconheceu como Fernando Cruz, um filho da puta parrudo e malvado, chegado de Zuniga. Mas não tão chegado, e Eddie viu que ele estava meio hesitante quando falou:
— Você agora virou mayate, Ruiz?
— Nós terminamos. Já mostramos a que viemos.
— Eu não mostrei a que vim — disse Cruz. — Minha faca ainda não está molhada. Saia da minha frente, se não quiser que eu molhe com você.
— Você não vai querer derramar sangue moreno — diz Ruiz.
— Você não é da La Eme, é só um camarada. — Mas sou do mesmo bonde — declara Eddie. — E ando no banco da
frente.
Estava lembrando a Cruz que ele e o mandachuva faziam negócios
juntos.
— Você acha que por ser algum grande vendedor de chiva pode me dar
ordens? — perguntou Cruz. — Eu mandei sair da minha frente. Ou, se quiser ser um mayate, nós podemos tratá-lo como um.
Eddie arrancou a faca grudada na perna. Teria doído muito, se ele não
estivesse com tanto medo, para sentir alguma coisa.
Ele ergueu a faca na altura da cintura.
— Nós somos seis — disse Cruz. — Você é só um. — Mas é o seu pescoço que eu vou cortar — respondeu Eddie. — Para proteger mayates? — Cruz sacudiu a cabeça. — Benny Z não
vai gostar disso.
— Eu vou falar com ele.
— Eu também. — Mas Cruz recuou. Olhou em volta, para Eddie,
Darnell e Jackson, e disse: — Vocês têm sorte que o Ruiz, aqui, goste de pau preto. É bom que vocês deem uma bela comida nele hoje à noite.
Eddie pensou em arregaçar a cara de Cruz, mas achou melhor não. Cruz
o olhou feio, mas levou seus garotos de volta pra dentro.
— Por que fez isso? — perguntou Darnell.
Eddie olhou-o direito, pela primeira vez.
Darius Darnell tinha mais de 1,80 m, não era magro, mas era mais para
esguio e robusto, graças aos ferros da cadeia. Cabelos cortados curtos, bigode e cavanhaque. Pele escura, um homem negro.
Agora, ele repetia:
— Perguntei por que você fez isso.
— Porque você e eu — disse Eddie — vamos ganhar milhões juntos.
Cruz estava certo: Zuniga não ficou contente com o que Eddie fez.
Mas Eddie precisou receber essa mensagem por uma pipa, porque os
guardas os puseram todos em confinamento, depois do “motim racial”. Um pedaço de papel chegou, em uma linha de pesca, com um recado de que o figurão queria vê-lo, assim que o confinamento terminasse.
Espalhou-se o boato de que Eddie estava na berlinda. — Não vão fazer nada — Eddie diz a Julio.
— Como você sabe? — perguntou Julio.
Ele temia que Eddie fosse agredido, que ele próprio fosse incluído, temia que Eddie não estivesse mais nas graças de La Eme, que isso ferrasse sua própria condição.
— Porque eu sei — disse Eddie.
Seu relacionamento com Caro o protegeria.
Ele esperava.
Eddie estava mais preocupado com o confinamento porque era um pé no saco. Fechado em uma cela, 24/7, com um banho por semana. E a comida era terrível: sanduíches de manteiga de amendoim e geleia, um Ki-Suco e um saquinho de batatas fritas.
No almoço e no jantar, por um mês, enquanto eles ficaram trancados.
Uma merda.
Pior ainda era que ele não tinha acesso a Crystal.
O que significava nada de boceta, nada de informação externa, e ele sabia que ela ficara sabendo do que acontecera com ele e Darnell, e ia começar a juntar dois e dois, chegando a quatro. Algo que ele não queria que ela fizesse — era importante que, quando ela começasse a juntar dois e dois, ele pudesse convencê-la de que eram três ou cinco, qualquer coisa, menos quatro.
E agora, ele não tinha como fazer isso.
Frustrante.
Também frustrante que ele não pudesse ter continuado sua conversa com Darnell. Depois que Eddie soltou sua frase sobre “ganhar milhões”, Darnell lhe dera um olhar que poderia ser descrito como “sinistro”.
— Que porra de idiotice você está dizendo? — perguntou Darnell.
— Tenho uma proposta de trabalho pra você — explicou Eddie. — Pra quando você sair.
— Não estou interessado.
— Você nem ouviu.
— Não preciso — disse Darnell.
— Acabei de salvar a porra da sua vida — disse Eddie. — Botei o meu na reta e você não pode nem me escutar?
— Não pedi pra você fazer nada — falou Darnell. — Não lhe devo merda nenhuma.
Ah, deve, sim, pensou Eddie. E você sabe que deve. Por trás de toda essa
fachada, você sabe que, sem mim, você estaria deitado no chão, sangrando, ou inconsciente, no mínimo; você está em débito comigo. Mas ele disse:
— Tranquilo. Vou deixar algum outro preto rico. Darnell olhou para ele longamente, decidindo se deveria ralar ou ouvir.
Então, ele perguntou:
— Qual é?
— Heroína — disse Eddie. — Uma fonte no México, quente. Uma área
metropolitana de Nova York exclusiva pra venda: Mets e Yankees, Giants e Jets, Knicks e Nets. Neste momento, os mexicanos estão vendendo aos dominicanos, excluindo os negros. Você poderia ser o único grande distribuidor negro em Nova York. Você tem a rede de contatos, tem as tropas, só precisa do produto.
— Não vou vender veneno à minha gente — falou Darnell. — Não venda — disse Eddie. — Venda aos brancos. Eles devoram essa
merda. Lembra da metanfetamina? Nós fizemos uma fortuna vendendo aos caipiras albinos. Agora temos um mercado urbano, um mercado suburbano… o céu é o limite.
— Então, pra que você precisa de mim?
— Os mexicanos também estão me excluindo — disse Eddie. — Velhos
ressentimentos, essas merdas. Mas agora eu tenho uma cobertura séria do produto e do transporte, só preciso de um parceiro do varejo. Não posso ir aos morenos, então estou vindo a um negro. Chame de “diversidade”. Uma revolução narco multicultural.
— E você vai tocar isso da Ville?
— Estou a dois anos de sair na minha condicional — afirmou Eddie. —
Mas, sim, enquanto isso, eu posso cuidar do negócio daqui.
Darnell ficou quieto, por um segundo, depois disse: — Talvez, lá fora, eu queira ficar limpo.
— Como será isso? — perguntou Eddie. — Qual emprego do tipo
“acompanha fritas?”, vão lhe dar, com a sua ficha? Um ano, dois, no máximo, trabalhando comigo, e você pode sair fora, comprar sua casa em, como se chama, Westchester, ou um lugar desses, entrar para o clube, jogar golfe, sua velha pode ser da Liga Junior. Olhe, eu não vou ficar vendendo isso pra você. Se quiser, ótimo; se não, tudo bem, esqueça o que aconteceu hoje, é por conta da casa.
— Seu pessoal vai dar problema pra você?
— Isso é problema meu, não se preocupe.
Mas ele queria que Darnell se preocupasse. Ele queria que Darnell se sentisse bem culpado.
— Se você tiver problema, pode falar comigo — disse Darnell.
— Irmão, foi o que eu acabei de fazer.
— Vou pensar a respeito — falou Darnell.
Então, os guardas vieram e os arrastaram para fora, e Eddie percebeu que estava sangrando nos cortes da cerca, então, eles o levaram para a enfermaria, para fazer curativos, antes de o mandarem de volta para a cela e o confinamento.
Finalmente, o diretor do presídio mandou chamar todos os figurões em sua sala, para um papo “venham a Jesus”, e todos eles prometeram ficar na linha, e todo o papo furado, pois estavam todos cansados de manteiga de amendoim com geleia, e o confinamento acabou.
E Eddie foi chamado ao canto de reunião.
— Você vai? — perguntou Julio.
— Eu tenho escolha?
— Acho que não.
— Então, que porra de pergunta imbecil é essa? — perguntou Eddie. — O que você tem que fazer é cozinhar um pouco de birita e nos botar de volta pra ganhar dinheiro; deixe que eu lido com La Mariposa, está bem?
Ele foi até a cela de Zuniga.
O mesa estava com quatro de seus caras mais malvados, incluindo Cruz, então Eddie soube que teria problemas.
Zuniga foi direto ao ponto.
— Você se esqueceu de quem você é, Eddie? Talvez ache que agora é negro, em vez de moreno?
Não era hora de recuar.
— Não, estou bem certo de que sou moreno.
— Está “bem certo”? — perguntou Zuniga.
— Foi jeito de falar.
— Você infringiu las reglas — disse Zuniga. — Foi contra sua própria gente. Está em maus lençóis. Cruz, aqui, quer que eu o coloque em julgamento.
— Não pode me pôr em julgamento — disse Eddie. — Não sou da La Eme. E se Cruz me quer morto, por que ele mesmo simplesmente não faz isso?
Ele olhou para Cruz e sorriu.
Zuniga disse:
— Não é assim que funciona.
Eddie sabia que não tinha escolha, a não ser mergulhar no lado fundo,
com os dois pés. Se ele se safasse, estaria livre e limpo. Se não, Zuniga daria sinal verde para que um de seus vatos — provavelmente Cruz — fizesse o serviço, no chuveiro, no pátio, em algum lugar, mas ele mandaria fazer, ou ele mesmo faria.
Então, Eddie disse:
— O negócio é o seguinte: entre em contato com Rafael Caro, que lhe
dirá que eu estava agindo segundo suas instruções, e isso é tudo que ele dirá, os porquês estão acima do seu escalão. Ele lhe dirá para me deixar fazer a porra do meu negócio e para me dar toda e qualquer assistência. É assim que funciona.
— Vai levar tempo para fazer contato com Caro. — O que mais nós temos — disse Eddie —, além de tempo? Eddie saiu da cela todo durão, mas sentia que estava quase mijando na
calça. Ele estava bem certo de que Caro daria a resposta correta, porém, por outro lado, o velho já estava em Florence há tanto tempo que talvez tivesse se esquecido do que dissera, do que ordenara.
Mas isso lhe deu um passe de pelo menos uma semana. Ninguém tocaria
nele enquanto eles esperassem a resposta de Caro.
O assunto seguinte na agenda de Eddie era Crystal. Ela estava no turno da noite e eles se encontraram na despensa. Um mês é um longo tempo para ficar sem transar, e a primeira coisa na
mente de Eddie foi tirar a calça dela, mas não foi primeira coisa na mente de Crystal.
— Você me usou — disse ela.
Não brinca, pensou Eddie pensou.
— Benzinho, eu senti sua falta.
Ela espanou as mãos dele.
— Eu ouvi falar de você e Darnell. Em que você me meteu? — Ora, vamos, benzinho, sei que você também sentiu a minha falta. Ele pôs a mão dela no pau dele.
Ela a tirou.
— Pra mim chega, Eddie. Não posso mais fazer isso.
— Ah, pode, sim — disse ele. Eddie não queria chegar aí ainda, mas ela não lhe deixou alternativa. — Você vai fazer o que eu quiser que você faça.
— Não pode me obrigar.
— Ouça bem, sua piranha imbecil — disse Eddie. — Se eu for ao diretor do presídio… não, fique quieta e ouça… e contar a ele que você trepa comigo, eu vou pra solitária, mas você vai presa. Se eu falar a ele que você me trouxe aquele papel, você vai pegar de oito a quinze anos. Em prisão de segurança máxima.
Ela começou a chorar.
— Achei que você me amasse.
— Eu amo a minha esposa — disse Eddie. — Amo meus filhos. Tem um labrador marrom, lá em Acapulco, que eu talvez ame, mas você? Não. Mas eu amo foder com você, se isso serve de consolo. Então, nós vamos fazer o seguinte, Crystal. Você vai continuar me dando informações. E neste momento, você vai se ajoelhar e vai chupar meu pau, e se fizer direitinho, eu posso até comer você. E se não fizer essas coisas, mamacita, você vai ver o que as tortilleras fazem com uma ex-carcereira, na cadeia.
Enquanto ele pressiona levemente os ombros dela, Crystal pergunta:
— Nós ainda vamos para Paris?
— Meu Deus, Crystal — disse Eddie. — Só me chupa.
— Você não está pensando em fazer isso, está? — perguntou Arthur Jackson.
Ele estava no beliche, em sua cela, olhando para Darius Darnell.
— Não sei — disse Darnell, olhando ao outro lado da cela, para o homem mais velho. — Talvez.
— O que as drogas nos trouxeram — pergunta Jackson —, além de infelicidade?
Cumprindo uma pena perpétua tripla, Jackson sabia um bocado sobre infelicidade. Ele era um universitário de vinte anos, no Arkansas, quando apresentou um amigo a um traficante de crack e assumiu um pagamento de 1500 dólares pela encrenca do outro.
Eles foram pegos.
Jackson recusou-se a delatar.
Seu amigo não teve os mesmos escrúpulos.
O amigo recebeu condicional, o traficante de crack pegou sete anos.
Arthur Jackson tomou a porrada. Ele nunca prestou caução, nunca encontrou o promotor, não sabia como funcionava o sistema, pois nunca tinha se envolvido em problemas.
Seu amigo e o traficante mentiram no púlpito. Jogaram tudo nas costas
de Arthur.
O júri o condenou pelos crimes de formação de quadrilha e tráfico de
cocaína. Os jurados nem ouviram a sentença que ele recebeu.
Três penas perpétuas por um telefonema.
Arthur Jackson viu grandes traficantes saindo daquele lugar. Ele viu
estupradores, membros de gangues, molestadores de crianças e assassinos saindo daquele lugar, enquanto ele apodrecia ali dentro.
Sua apelação por atenuação foi negada pelo presidente Bush. Obama era a última chance de Jackson, mas ele já havia rejeitado
milhares de solicitações e, de qualquer forma, seu mandato já estava chegando ao fim, e com ele, as esperanças de Arthur.
Ainda assim, Arthur mantinha sua esperança de que um “irmão” fizesse
justiça em seu caso e o libertasse.
Darius adorava Arthur.
Ele achava que Arthur Jackson talvez fosse a melhor pessoa, a mais
bondosa que ele já conhecera. Arthur já cumprira vinte anos naquele buraco infernal, sem jamais ferir um único ser humano, mas Darius achava que o amigo estava errado a respeito de Obama.
O presidente era irmão, mas era um irmão de Harvard, um irmão que
frequentou escolas particulares, um irmão que precisava se preocupar em ser um presidente negro e, portanto, não estava com pressa para soltar traficantes negros da cadeia. A maluquice era que Arthur teria uma chance melhor com um presidente branco, que não precisava se preocupar se seria brando com a criminalidade negra.
A dura verdade — embora Darius adorasse Arthur demais para lhe dizer
a dura verdade — era que Jackson estava com quarenta anos, havia passado as melhores épocas de sua vida na prisão e provavelmente morreria ali.
No entanto, todos os dias, todo santo dia, Arthur esperava por aquela
carta da avenida Pennsylvania.
Ele tinha um “Calendário da Clemência” do governo Obama pendurado
na parede e riscava cada dia; havia muito mais quadrados riscados do que vazios.
Darnell não sabia como Arthur ainda fazia isso, como ele não tinha ficado maluco e gritado, como simplesmente não rasgava as veias com os próprios dentes, ou matava alguém, sabendo que sua vida inteira fora jogada no lixo por uma porra de um telefonema.
Mas Arthur permanecia calmo, Arthur continuava bondoso.
Arthur lia a Bíblia e jogava seu xadrez, e ajudava outros presos a escrever cartas com suas apelações.
Arthur pacificava, quando outros queriam brigar.
E agora, ele tentava dissuadir Darius de algo que ele já sabia que iria fazer.
— O que as drogas nos trouxeram, além de infelicidade?
Dinheiro, pensou Darnell.
Puro e simples.
Dinheiro.
O próprio Darius não era nenhuma criança. Ele agora estava com 36 anos, seu filho estava no Ensino Médio e quais eram, de fato, as suas perspectivas? Ruiz estava certo quanto a isso — talvez ele conseguisse um emprego de salário mínimo. Talvez, ao contrário de…
Milhões?
Ruiz também está certo em relação a isso, pensou Darius — você tem os contatos, você tem as pessoas, e quando voltar para a rua, essas pessoas terão certas expectativas, e essas expectativas não incluem pôr um chapéu de papel em você.
As pessoas esperam que você volte pro jogo.
E você também espera isso.
Mas ele disse a Arthur:
— Nada além de infelicidade, irmão.
— Isso mesmo — disse Arthur. — E se você for preso outra vez, vai voltar pra ficar pelo resto da vida. Quer ficar como eu?
— Eu poderia me dar muito pior.
— Você pode se dar muito melhor — replicou Arthur.
Ah, é? Como? pensou Darius. Como é que vou fazer isso?
Arthur perguntou:
— Então, o que você vai dizer ao Ruiz?
— Você dizer que não — respondeu Darius.
Ele não gostava de mentir para Arthur, mas também não gostava de
magoá-lo. Jackson já tivera muitas decepções na vida, teria mais decepção a caminho, e Darius não queria ser mais uma.
Às vezes, ele ouvia Arthur chorando, à noite.
Agora, Eddie vê Cruz erguendo o estilete.
Eddie fecha o punho — sua única chance é bater primeiro e acertar a
cara de Cruz, talvez fazer com que ele erre a primeira punhalada. Nada bom, mas é a única opção.
Então, Cruz para.
Entrega a lâmina a Eddie e diz:
— Pode me cortar.
— O quê?
— Zuniga disse que você pode me cortar. — Cruz literalmente dá a
outra face, ofertando a Eddie. — Pelo insulto.
Então, Caro deu retorno a eles.
Dizendo que Eddie é intocável.
— Não, esqueça — diz Eddie.
— Você tem que fazer.
— Vocês não receberam a resposta? — Eddie devolve a lâmina. — Eu
não tenho que fazer nada.
Ele contorna Cruz e sai andando.
Surpreso de ainda estar vivo.
Darius Darnell é solto.
Ocasião feliz, exceto por ter que se despedir de Arthur. — Seja bom, está me ouvindo? — Arthur lhe diz. — Você também.
Arthur ri.
— Eu não tenho escolha.
— Vai dar certo pra você — diz Darius, embora não acredite nisso. —
Você vai ver.
— Não vá escrever cartas no meu nome — diz Arthur. — Eles me
deixariam aqui pra sempre.
— Vou mandar pacotes.
— Vou aguardar.
Os dois homens se abraçam. Eles passaram sete anos juntos em uma cela e nunca trocaram uma palavra áspera.
Então, o oficial correcional acompanha Darnell para fora do pavilhão.
Os irmãos detentos vibram e gritam.
Depois de uma hora e pouco de papelada, ele está solto.
A cerca de 1500 quilômetros de distância, outro preso sai pelo portão.
Rafael Caro fica ali parado, por um momento, deixando o sol banhar seu rosto.
Um homem livre.
Ele cumpriu oitenta por cento de sua pena e, com a dedução pelo bom comportamento, esse prisioneiro modelo foi libertado.
E deportado, claro, imediatamente.
Condição de sua libertação.
Por Caro, está tudo bem, ele mal pode esperar para deixar el norte para trás e nunca mais voltar.
Uma limusine o aguarda. Um homem desce, caminha até ele e o abraça, depois beija suas duas bochechas.
— El Señor.
Ele abre a porta traseira e Caro entra.
Uma garrafa aberta de cerveja Modelo está suada, no balde de gelo.
Caro deixa a cerveja gelada descer pela garganta e sente-se maravilhoso.
Como a vida.
O carro o conduz até uma pista na periferia de Pueblo, onde um jato o aguarda. Uma linda jovem comissária de bordo lhe entrega um novo terno e mostra onde ele pode se trocar.
Quando ele sai, ela embrulha uma toalha em volta de seu pescoço, corta seu cabelo e faz sua barba, e segura um espelho diante de seu rosto.
— Está bom?
Caro assente e agradece.
— Há mais alguma coisa que eu possa fazer pelo senhor? — pergunta ela.
— Não, obrigado.
— Tem certeza?
Ele assente mais uma vez.
O avião decola.
Alguns minutos depois, ela volta com uma bandeja coberta de linho
branco, com um prato de filé finamente fatiado, arroz e pontas de aspargos.
E outra Modelo.
Ele come e adormece.
A comissária o acorda pouco antes do pouso em Culiacán.
Keller olha a tela da televisão, enquanto Caro caminha em meio à turba de jornalistas.
O velho narco está frágil, com aquela palidez de cadeia e aquele andar
arrastado de condenado, como se ainda estivesse com as correntes nos tornozelos.
Hugo explode.
— Ele ajudou a torturar e assassinar o meu pai e agora está solto?! Ele
recebeu uma pena de vinte cinco a perpétua, e sai com vinte anos?!
— Eu sei.
Keller havia feito petição, ligara para a justiça, escrevera cartas oficiais
em objeção à antecipação da soltura de Rafael Caro, lembrando a eles do que ele fizera, mas foi em vão. Agora ele tem que ficar ali sentado, vendo um dos torturadores de Ernie ser libertado.
Isso traz tudo de volta.
Ele vê Caro parar e falar com um dos microfones junto ao rosto. — Eu sou um idoso. Cometi erros no passado e paguei por eles. Agora,
só quero viver minha vida aqui fora em paz.
— Ele que se foda — diz Hugo.
— Não vá fazer nenhuma idiotice — diz Keller. — Não quero ficar
sabendo que você fez alguma viagem pro México.
— Não.
Keller olha pra ele.
— Eu não vou saber ou você não vai?
— Os dois.
Virando de volta à televisão, Keller vê o pessoal de Caro conduzindo-o
ao banco traseiro de um carro.
Então, Caro está fora da cadeia, pensa ele. Meu Deus, quando eu vou
sair? Estou cumprindo uma pena perpétua, sem liberação por bom comportamento? E lhe ocorre algo de sua outra guerra, no Vietnã. Algo que Ho Chi Minh escreveu:
“Quando as portas da prisão estiverem abertas, o verdadeiro dragão sairá voando.”