A fronteira
5: Negócios bancários
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Negócios bancários
“Minha casa será casa de oração,
Mas vocês fizeram dela um covil de ladrões.”
— Lucas, 19:46
Washington, DC
Julho de 2016
Keller encontra O’Brien no bar, no Hamilton.
O’Brien pergunta:
— Quer uma cerveja, algo mais forte?
— Só café — diz Keller. — É dia de aula.
O bartender entreouve e põe uma caneca de café na frente dele. Os
bartenders e garçons escutam tudo nesta cidade, pensa Keller. Os taxistas — embora agora sejam mais do Uber — veem tudo.
— Meu Deus, quem poderia imaginar que aquele babaca ganharia a
indicação? — pergunta O’Brien.
— Você deveria ter concorrido — diz Keller.
— Aquele carro de palhaços já estava lotado demais — responde
O’Brien. — E eu sou um daqueles “políticos profissionais” perversos. Agora é hora do amador. E vamos encarar, caras como você e eu, a geração do Vietnã, nós somos dinossauros.
— Dennison é da mesma geração.
— Mas ele não serviu — diz O’Brien. — Ele não foi. Nós fomos. — Agora você vai apoiá-lo? — pergunta Keller. — Depois de toda
aquela merda que você falou sobre ele? Toda a merda que ele falou de você?
— Merdas passadas não movem moinhos — diz O’Brien. — E o “muro”?
— Muitos dos meus eleitores gostam do muro — comenta O’Brien. — Se você quer me jogar embaixo de um ônibus, tudo bem, eu entendo
— diz Keller. — Sem ressentimentos, vaya com Dios.
— Talvez eu precise fazê-lo — afirma O’Brien. — Você não fez nenhuma amizade com aquela ala do partido.
— Eu não tentei fazer amizades — diz Keller — com nenhuma ala de nenhum partido. Quem quer que seja presidente, se eu tiver que partir, partirei em paz.
— O que você vai fazer? — pergunta O’Brien.
— Tenho uma pensão decente — diz Keller. — Nós poderíamos viver bem, em algum lugar. Talvez não em DC…
— Você não está pensando em voltar para o México, está?
— Não — diz Keller. — Talvez a Costa Rica? Eu não sei, Ben, realmente ainda não pensamos nisso.
Eles nem chegaram a conversar a respeito.
Keller volta para o escritório.
Há muito a fazer, antes que ele deixe sua mesa, incluindo uma pilha — essa é uma palavra branda para descrever, pensa ele — de literalmente milhares de casos de perdão relativos às drogas ou solicitações de atenuação que a Casa Branca enviou, para que ele faça suas recomendações. Se um presidente republicano assumir, ele vai enterrar todos esses pedidos. Eles já disseram que irão instruir os promotores federais para forçarem as penas máximas em todos os casos de drogas.
De volta aos velhos tempos difíceis, pensa Keller.
Ele está correndo para aprovar os pleitos que julgar dignos, uma corrida para proteger seu pessoal interno da agência e remanejá-los para postos que eles almejem, uma corrida para tocar adiante a Operação Agitador.
Sua recepcionista interfona.
— O Agente Hidalgo está aqui para vê-lo.
— Mande-o entrar.
— Claiborne marcou uma reunião com os mexicanos. — anuncia Hidalgo.
— Onde e quando?
— Nova York — diz Hidalgo. — Amanhã.
— Lerner estará lá?
— Não — diz Hidalgo.
Então, Claiborne é o intermediário, pensa Keller.
Certo.
Uma coisa de cada vez.
— Você quer sair hoje à noite, ou quer ficar em casa? — Keller pergunta a Marisol.
— Eu adoraria ficar — diz ela. — Você se importa? — Não — diz Keller. — Comida chinesa, indiana ou pizza? — Indiana?
— Claro.
Keller se serve de uma dose de uísque forte e senta na poltrona perto da
janela.
Será um problema conseguir um mandado para pôr um grampo em
Claiborne para a reunião.
A jurisdição federal seria a Southern Disctrict of New York, e embora
Dennison não tenha muitos amigos por lá, o promotor pode ser relutante em solicitar um mandado tendo a Terra e Jason Lerner como alvos. Em meio a uma campanha presidencial, isso pode ser visto como uma manobra excessivamente política.
Isso também deixa Mullen em uma posição difícil. Não há como saber
por quanto tempo ele consegue omitir a investigação de seus superiores, e as consequências que isso pode causar são preocupantes. O indicado tem muitos aliados na NYPD, Nova York é sua base, assim como o Berkeley Group. Bastaria apenas um policial, um advogado — porra, até uma secretária — para dar a dica a Berkeley. E Lerner poderia fazer uma pressão enorme para encerrar a investigação de vez.
O mandado também é um problema, pela própria consistência, Keller
precisa admitir. Nós não temos um argumento compelível, apenas a declaração de um informante quanto a Berkeley possivelmente ter uma reunião com uma instituição financeira que talvez tenha ligação com um cartel mexicano de drogas. Mesmo o juiz mais independente e desinteressado pode não considerar isso como atribuição para uma escuta.
Keller pensa, é o mesmo velho círculo vicioso que enfrentamos diante
da tentativa de obter um mandando de vigilância: sem provas essenciais, não temos como conseguir o grampo, e sem grampo, não temos como obter provas essenciais.
— Pra onde você foi? — pergunta Marisol.
— Perdão?
— Agorinha, pra onde você foi? — questiona ela. — Quer que eu ligue
pedindo a comida? Ou você pede?
— Não, eu peço. O de sempre?
Ela assente.
— Eu me tornei uma triste criatura de hábitos.
O triste, pensa Keller, é que eu tenho um número de entrega de comida na minha discagem rápida. Ele pede o habitual frango tikka masala para Marisol e um cordeiro vindaloo para si, e recebe a resposta padrão de que vai demorar cerca de quarenta minutos. Pela experiência de Keller, não importa o que você peça, seja uma pizza de pepperoni, ou um faisão na bandeja, a resposta sempre será “por volta de quarenta minutos”.
Eles comem na frente da televisão, assistindo à convenção em Cleveland, e um político gorducho e suando em profusão conduz a multidão a entoar “Cadeia nela! Cadeia nela!”.
— A que ponto chegamos — diz Marisol. — Esse pode ser seu chefe. Dizem que ele será o novo procurador-geral.
— Quem é ele?
— Governador de Nova Jersey.
— Achei que fosse o Fred Flinstone.
— Ou Hermann Goering — diz Marisol. — Me diga que eles não conseguem vencer.
— Eles não conseguem vencer.
— Você não parece muito convencido.
— Não estou — diz Keller. — Já parou pra se perguntar o que você vai querer fazer agora?
— Não sei — responde Marisol. — Você já está pronto pra se aposentar?
— Talvez.
— E fazer o quê? — pergunta ela.
— Ler livros — diz Keller. — Dar longas caminhadas. Nós podemos viajar.
— Eu não vou fazer um cruzeiro.
Keller ri.
— Quem falou em cruzeiro?
— Só estou falando.
— Está certo, nada cruzeiros — diz Keller. — Eu me sinto mal, Mari. Tirei você da sua vida, do seu trabalho, e a trouxe pra cá, com a expectativa de um determinado tipo de vida. E você tem sido… ótima. Você me ajudou a lutar cada maldita batalha, geralmente melhor que eu mesmo, e agora não sei que vida posso lhe dar.
— Você não tem que me “dar” nada — diz Mari. — Eu fiz as minhas
escolhas e estou muito feliz com elas.
— Está?
— Sim! — diz ela. — Como você pode questionar isso? Eu te amo,
Arturo, amo a nossa vida aqui. Eu amo o trabalho que tenho feito.
— Então, você gostaria de ficar em Washington — deduz Keller. — Se pudermos, sim — diz Marisol. — Ainda não estou pronta pra
jogar golfe, ou ficar passeando no shopping, nem fazer o que americanas aposentadas fazem. Nem você, se for sincero.
Há coisas que eu posso fazer em DC, pensa Keller. Ele tem se esquivado
de meia dúzia de organizações promovendo painéis de debate, que adorariam a apresentar um ex-chefe da Divisão de Narcóticos. Em sua lista de “ligações a retornar”, estão a Georgetown e a American University. E ele já foi sondado por duas emissoras de televisão sobre “participações eventuais”, como especialista em questões relativas às drogas.
Mas será que eu quero ficar envolvido com essas “questões relativas às
drogas”, em qualquer nível?, ele pergunta a si mesmo. Já me afastei daquele mundo duas vezes, e sempre sou puxado de volta. Não seria ótimo me afastar de vez?
E o que é melhor para Mari?
— Você não está cansada de ser atacada?
— Os ataques vão parar — diz ela. — Eu não serei mais relevante. E,
francamente, Arturo, Breitbart? Fox News? Amadores no quesito ataque. Eu como garotinhos gorduchos como Sean Hannity no almoço.
É bem verdade, pensa Keller. Essa mulher peitou os malditos zetas. — Nós podemos ter uma vida confortável em DC, se você quiser
mesmo ficar aqui, considerando que…
— Considerando que este pode ser o novo centro do fascismo na
América do Norte? — pergunta Marisol.
— Um tiquinho de exagero, mas tudo bem.
— Não é exagero — diz Mari. — O homem é um fascista, suas ideias
são fascistas.
— E você gostaria de ficar na capital dele.
— E que lugar melhor para integrar a Resistência? — questiona Mari.
— De qualquer forma, isso não vai acontecer.
Deus te ouça, pensa Keller.
Ele não lhe conta o seu temor — que essa equipe possa ganhar a eleição e assumir o poder devendo aos cartéis mexicanos.
O telefone toca.
É Mullen.
— A reunião está marcada. Será no The Pierre.
— Por que não no escritório da Berkeley?
— Consciência de culpa? — arrisca Mullen. — Eles não querem que o pessoal do HBMX seja visto entrando pela porta. Fico surpreso que os mexicanos tenham concordado com isso.
— Nós temos que providenciar uma escuta — diz Keller.
— Qual é a justificativa? — pergunta Mullen. — Nós temos banqueiros e pessoal do mercado imobiliário se encontrando para um empréstimo. Não é como se tivéssemos motivo para achar que eles farão um negócio de drogas.
— Eles estão fazendo um negócio de drogas — diz Keller. — Se dois garotos vendem vinte pratas em maconha em uma esquina, eu posso grampeá-los. Esses caras estão transferindo centenas de milhões e se safam, porque vai rolar no The Pierre?
— Nós estamos do mesmo lado — lembra Mullen. — O que estou dizendo é que acho que o juiz não vai concordar. E se nós não fôssemos grampear Claiborne por causa da reunião, mas para monitorar a segurança pessoal dele? Um informante participando de uma reunião de alto risco…
— Não temos como vender isso — diz Keller. — Temer pela segurança de Claiborne, com banqueiros e empreiteiros? Do que estamos com medo, de que ele se engasgue com o foie gras? Nós podemos entrar e prestar primeiros socorros? Precisamos arranjar algo que possamos levar ao juiz sem que ele caia na gargalhada e bote a gente pra fora.
— Talvez não — diz Mullen. — E se o Claiborne ficar com o celular ligado, no bolso, e gravar a reunião para seus próprios fins? Haveria problema com a prova, se quiséssemos utilizá-la depois, no tribunal… seria descartada pela regra excludente… mas se só queremos os dados, isso não importa.
— Lembre-me de nunca sacanear você — Keller diz.
— Será que o Claiborne faria isso? — pergunta Mullen.
Ele vai ter que fazer, pensa Keller.
Claiborne está mais nervoso que uma puta na igreja.
Hidalgo está com receio de que o cara possa estragar tudo lá dentro, que
comece a vomitar ou caia em prantos.
— E se eles nos disserem pra desligar os celulares? — pergunta
Claiborne.
— Então, você finge que desliga, mas não desliga — diz Hidalgo. Jesus.
— E se confiscarem os celulares, antes da reunião? — Você já esteve em reuniões assim? — pergunta Hidalgo. — Porque
se esteve, eu quero saber dessas reuniões.
— Não, não estive.
— Então, fica frio — diz Hidalgo. — Lembre-se, nós queremos nomes.
Descrições. Se você fizer anotações, queremos essas anotações. Se houver documentos, queremos esses documentos.
— Não sei se posso lhe passar isso.
— Acho bom que você passe — responde Hidalgo. — Seu passeio de
carrossel acabou, Chandler. É bom você mostrar serviço, porra.
— Eu não sei…
— Faça tudo o que costuma fazer — diz Hidalgo. — Seja o babaca de
sempre. Não se preocupe em falar nada incriminador, porque nós vamos fazer outro acordo com você, de qualquer jeito. Mais uma coisa: se houver outras reuniões, faça questão de ser convidado.
— Como é que eu vou fazer isso?
— Porra, sei lá — diz Hidalgo. — Eu trabalho em banco de
investimentos, por acaso? Você chegou onde está se exibindo para o alto escalão, não foi? Torne-se necessário, essencial. Puxe saco, chupe pau, tanto faz.
— Por quanto tempo eu terei que continuar com isso? — pergunta
Claiborne.
— Até — diz Hidalgo.
— Até quando?
— Até que digamos pra você parar.
Depois que tivermos espremido até a última gota de você, pensa
Hidalgo, ou até que você nos dê algo maior, o que vier primeiro.
Mas você é um escrotinho esperto e já sabe disso.
Quando o telefone toca às quatro da madrugada, geralmente é má notícia.
Keller vira para o lado e atende.
— Keller.
— Eu sempre acreditei — diz Mullen — que é melhor ser sortudo do que bom. Está preparado?
— O quê?
— Nós precisamos de um elo entre a Terra e os cartéis, certo? — diz Mullen. — Acho que conseguimos.
Isso desperta Keller.
— Meu Deus. Como?
— Sabe o meu infiltrado? Cirello? — diz Mullen. — Darius Darnell acabou de falar que ele vai fazer a segurança da reunião no The Pierre.
Keller espera no escritório.
E aproveita o tempo para ler os arquivos de atenuação. Tem um preso na Flórida que está cumprindo prisão perpétua por vender 50 dólares de pó, mas foi sua terceira condenação. Outro é um babaca que dançou três vezes, vendendo pequenas quantidades de metanfetamina, e também vai cumprir perpétua. O seguinte é um detento sem antecedentes, chamado Arthur Jackson, que está cumprindo três condenações de prisão perpétua por ter dado um telefonema para marcar uma pequena venda de cocaína.
E assim vai.
Bobby Cirello está vivendo como um bacana.
O que mais pode se dizer, quando você dá um tempo no The Pierre, tomando um café de dez dólares e petiscando um pãozinho com queijo de vinte, enquanto verifica a suíte para ver se tem microfone escondido?
Ele está impecável — terno preto Zegna, camisa cinza perolada Battistoni, gravata Gucci vermelha, com lenço no peito combinando, sapatos pretos Ferragamo. Como sua ya-ya costumava dizer dos mafiosos que apareciam para tomar o café da manhã especial de um dólar: “Ele tem mais dinheiro no corpo do que no banco”.
Darnell lhe disse para se vestir com capricho.
Essa reunião é com banqueiros e pesos pesados do setor imobiliário, e “convidados especiais” vindos do México; portanto, lhe foi dito para estar bem apresentável e ficar de olhos e ouvidos atentos e boca fechada, garantir que a suíte estivesse limpa e ser uma “presença”, para que os convidados soubessem que estão sãos e salvos, pois um dos melhores de Nova York está a postos.
— Qual é o seu interesse nisso? — perguntou Cirello. — Por que quer saber?
— Gosto de saber no que estou me envolvendo. — Preciso saber que a sala de reunião não está grampeada — disse
Darnell. — E nossos visitantes precisam saber que estão se reunindo com gente séria. Apenas vá até lá, com pinta de polícia.
Farei o melhor, pensa Cirello, enquanto sai ao corredor. “Convidados
especiais” meu cu. Empreiteiros e banqueiros são apenas escrotos de um nível mais alto, até onde ele sabe. O tipo de gente que mata gente — como aquele pobre garoto, o Travis.
As portas do elevador se abrem e um homem sai. Um verdadeiro tipo
Brooks Brothers, pensa Cirello, provavelmente veste L.L. Bean em seus fins de semana, em Connecticut.
O cara parece morto de medo.
— Chandler Claiborne? — o cara pergunta, como se não tivesse certeza
se sabe o próprio nome. — Estou aqui para a reunião.
— É o primeiro a chegar — diz Cirello.
— E você seria…
— Segurança — responde Cirello. — Pode entrar. Tem café, essas
coisas. Tenho certeza de que o restante estará aqui a qualquer minuto.
— Você varreu a sala? — pergunta Claiborne. — Perdão?
— Varrer a sala — diz Claiborne. — Você sabe, para insetos, essas
coisas.
— Ah, sim, a sala está totalmente varrida.
Jesus Cristo.
Claiborne entra.
Os mexicanos, que são três, chegam cerca de cinco minutos depois. Um
deles parece ter cerca de cinquenta anos; os dois outros, por volta de trinta e tantos. Muito bem vestidos, tranquilos — essa gente está acostumada com reuniões que tem segurança na porta.
— O sr. Claiborne está lá dentro — informa Cirello. O cinquentão diz:
— Então, estamos todos aqui. Por favor, garanta que ninguém mais
entre.
— Sim, senhor.
Eles entram e fecham a porta.
Cirello fica aguardando por uma hora e meia, até que eles saem.
Keller recebe a ligação.
— Claiborne saiu — declara Hidalgo.
— E…?
— Ele gravou tudo — diz Hidalgo. — Estou lhe enviando o arquivo do áudio agora.
— Como está Claiborne?
— Abalado — responde Hidalgo. Ele ri. — Você sabe como é o trabalho de infiltrado.
— Fique em cima dele, um tempinho — diz Keller. — Pra ter certeza de que ele não vai chorando confessar pro chefe.
— Estamos tomando martínis enquanto eu falo com você — conta Hidalgo.
— Hugo? Bom trabalho.
— Obrigado, chefe.
Há muito a fazer.
Keller começa ouvindo o arquivo do áudio.
A maior parte é grego para ele: discussões financeiras que ele não entende. Porém, o que fica claro da reunião é que Claiborne está pressionando os mexicanos por uma decisão rápida em relação ao empréstimo, oferecendo “elevar a posição deles” na pirâmide do consórcio e assegurando-lhes de que o Park Tower é um investimento viável.
— Então, por que perdeu dinheiro por nove anos? — pergunta um dos mexicanos.
— O mercado imobiliário estava em declínio — diz Claiborne. — Mas isso está mudando agora. Estamos entrando em um momento de mercado que favorece o vendedor, e o Park Tower fica numa localização nobre.
— Então, por que o Deutsche Bank deixou o consórcio?
— Algumas pessoas têm ousadia para ganhar dinheiro — responde Claiborne. — Outras, não. A questão é: vocês têm?
— Não, Chandler, a questão é: como você vai garantir o nosso dinheiro?
— Nós não fizemos isso sempre? — pergunta Claiborne. — Quando foi que a Terra, ou, na verdade, a Berkeley falhou com vocês?
— Isso é verdade. Mas a Terra está prestes a falhar agora.
— Motivo pelo qual nós estamos aqui — diz Claiborne. — Olhe,
sejamos realistas. Cada um de nós tem suas necessidades. Ambos precisamos de dinheiro, e vocês precisam investir um bocado. Podemos nos ajudar mutuamente. É um relacionamento simbiótico.
Keller aperta novamente o botão de pausa. Ambos precisamos de
dinheiro e vocês precisam investir um bocado. Isso indica consciência de culpa? Indica que eles sabem que os 285 milhões que estão buscando é dinheiro de droga? Ele dá play de novo no áudio e ouve um dos mexicanos perguntar:
— Por que o pessoal da Terra não está aqui? — Bem, eu sou o corretor do consórcio.
— Isso não é resposta. Por que deveríamos investir centenas de milhões
com gente que nem se senta conosco?
— Esta é só uma reunião preliminar — diz Claiborne. — Apenas para
verificar seu interesse. Se quiserem se reunir com a Terra…
— Não somente com a Terra. Com Jason.
— Se eu puder dizer a ele que vocês estão entrando com os 285
completos…
— O valor não é o problema. Estamos preocupados com o
relacionamento.
Claiborne diz:
— Se chegarmos a um acordo preliminar aqui, tenho certeza de que
Jason irá adorar encontrar com vocês.
— Com esse entendimento — fala o mexicano —, nós estamos dispostos
a olhar os números.
Quarenta minutos de números se passam, enquanto Keller reza, “Force a
próxima reunião, force a próxima reunião”. Deus deve estar ouvindo, porque o chefe mexicano conclui o encontro dizendo:
— Estamos dispostos a fechar. Mas apenas com Jason, pessoalmente. — Verei se consigo agendar uma reunião para amanhã — diz Claiborne.
— Enquanto isso, posso lhes providenciar algum entretenimento?
— É muita gentileza, Chandler, mas podemos providenciar nosso
próprio entretenimento.
— É claro.
A reunião termina. Todos se despedem. Movimento de passos, portas
fechando.
O passo seguinte é identificar o banqueiro mexicano, pensa Keller. Ele liga para Mullen.
— Dois dos meus melhores agentes os pegaram do lado de fora do The Pierre — diz Mullen. — Eles estão sendo vigiados. Estão hospedados no Peninsula. Estamos trabalhando para obter o registro.
— Eles vão usar nomes falsos, de qualquer maneira — comenta Keller. — Seu pessoal tirou fotos?
— Sim, mas não estão muito boas — diz Mullen. — Eles não quiseram se aproximar demais e assustá-los.
— Está certo — diz Keller. — Envie, mesmo assim; vamos mandar checar. E quanto a Cirello? Ele pode nos dar descrições?
— Já estou com elas.
Keller conta a Mullen sobe a reunião de amanhã com Jason Lerner.
— Olhe, esses caras não são virgens, já estiveram na cama com essa gente. Vou lhe mandar o arquivo do áudio, você vai ouvir.
— Isso pode nos conseguir um mandado?
— Não sei — responde Keller. — Depende de quem é essa gente.
— Vamos lhe enviar as fotos agora.
— Para mim, diretamente. Vou me mexer pra arranjar um mandado — diz Keller. — Nós vamos querer isso como prova. Precisamos trabalhar com Claiborne para forçar esses caras a uma admissão de ciência da culpa. Tomara que Darnell coloque Cirello na segurança mais uma vez. Ele pode trabalhar o lado de Darnell?
— Ele não pode forçar muito.
— É, eu não quero deixá-lo no sufoco. — Já acabei fazendo um infiltrado morrer, pensa Keller. O pai do Hugo. Não quero ter outro em minha consciência. — Diga-lhe que seja cauteloso. Mas se conseguirmos ligar Darnell ao pessoal do dinheiro…
— Jesus Cristo, hein, Art?
— É, converse com ele também.
As fotos chegam alguns minutos depois.
Mullen tinha razão, não são boas. Estão meio granuladas, tiradas do outro lado da rua. Três homens saindo do The Pierre. Os mesmos três homens fazendo check-in no Peninsula. Keller não reconhece nenhum deles.
Ele olha as fotos individuais.
O que ele rotula como “Banqueiro Mexicano 1” parece ter cinquenta e
poucos anos — cabelos grisalhos, cavanhaque grisalho. Tem cerca de 1,80 m.
“BM 2” é mais jovem, trinta e tantos, ou quarenta e poucos anos,
cabelos pretos, quase 1,90 m. Keller imagina que “BM 3” tenha trinta e poucos.
Ele poderia checar a base de dados da Narcóticos, mas tem gente na
agência que está passando para Denton Howard tudo o que ele faz.
E Howard não pode saber sobre isso ainda.
Talvez, nunca.
Keller liga para Orduña, no México.
— Você pode checar umas fotos pra mim?
— Você tem recursos melhores que eu.
— Mas não posso usá-los — diz Keller.
Há um longo silêncio.
— ¿Así, es?
Então, está assim?
— Así, es — responde Keller.
Não posso confiar em meu próprio pessoal.
— Mande.
— Você pode pedir pressa?
— Você é um pé no saco, Art.
— Famoso por isso — diz Keller. — Roberto, sabe como você está
sempre resmungando que os EUA não assumem responsabilidade pela sua parte no problema das drogas? Isso sou eu, assumindo responsabilidade. No mais alto nível.
— Isso é você se metendo em problemas piores? — pergunta Orduña.
— Seus dias podem estar contados.
— É por isso que eu preciso dessa ajuda agora. — Sempre haverá emprego pra você aqui — diz Orduña. Keller envia as fotos e depois espera por três horas intermináveis, até
que Orduña ligue de volta.
— Em ordem crescente, BM 3 é Fernando Obregón. Ele é banqueiro de
investimentos do HBMX. BM 2 é Davido Carrancistas, um executivo chefe no banco. BM 1 é seu vencedor: León Echeverría. Ele atua de forma independente.
— O nome é familiar.
— Na verdade, você o tem em seu banco de dados — diz Orduña. — Verifique seu arquivo fotográfico do casamento real de Adán e Eva. Ele era um convidado. Também estava no velório e enterro de Adán. Nós o mantemos sob vigilância há anos, décadas. Porém… Arturo, não sei o que você está arranjando por aí, mas Echeverría é bem relacionado, não apenas a Sinaloa, mas a certas pessoas de escalão muito alto na Cidade do México.
Do mais alto que há, explica Orduña. Echeverría é um grande colaborador do Partido Revolucionário Institucional, em todos os níveis. Ele tem interesses conjuntos com o governo atual e, na verdade, os auxilia com seus investimentos.
— Ele é intocable — diz Orduña.
Intocável.
Keller se encontra com o juiz Antonelli no bar do Hay-Adams Hotel, na rua 16, e senta-se junto a ele, em uma das banquetas vermelhas, abaixo da caricatura de Tip O’Neill.
— Por que essa cena de espião versos espião, Art? — pergunta Antonelli. — Nós dois temos escritórios perfeitamente funcionais.
— Eu preciso de um mandado.
— Você tem um batalhão de advogados pra isso.
Keller lhe conta para quem é o mandado.
— Você está me pedindo para cometer suicídio profissional, se eles ganharem — diz Antonelli.
— Se eles ganharem, vão substituí-lo, de qualquer maneira.
— Talvez não — diz Antonelli. — Talvez eu possa voar abaixo do radar. A menos que eu faça isso. Se eu lhe der esse mandado, isso pode ser rotulado como uma caça às bruxas política. Uma tentativa de jogar a eleição para os democratas.
— Não é — insiste Keller. — Ele mostra a Antonelli algumas das fotos que Orduña enviou. — Echeverría dançando no casamento de Adán Barrera, Echeverría no velório e funeral. Echeverría com Elena Sánchez, com Iván Esparza, com Ricardo Núñez, com Tito Ascensión, há até uma foto de Echeverría mais jovem, junto com Rafael Caro.
— Imagino que toda essa gente sejam figuras de cartéis — diz Antonelli.
— Isso mesmo.
— E daí?
— Tem gente suficiente aqui para justificar a suspeita de um crime —
responde Keller.
— Um banco emprestando dinheiro?
— O HBMX já foi pego com a mão na cumbuca — diz Keller. — Em
2010, eles transferiram dinheiro de drogas através do Wachovia Bank; em 2011, foi com o HSBC; em 2012, com o Bank of America. Todos esses estão nos registros judiciários. Os bancos envolvidos fizeram acordos com a justiça e pagaram multas.
— Por que o México não prosseguiu com a ação penal? — Acho que pelo fato de que o caminho deles não está mais limpo que
nós — diz Keller.
Antonelli tamborila os dedos na mesa.
— Você não tem nenhum elo claro entre essa reunião e os traficantes. — Um traficante de heroína chamado Darius Darnell providenciou a
segurança da reunião.
— Como você sabe disso?
— Bill…
— Você está me pedindo pra botar o meu na reta. — Temos um infiltrado próximo de Darnell — diz Keller. — Arranje um depoimento juramentado.
— Se isso vazar — diz Keller —, esse cara pode ser morto. Mais tamborilado.
— Você pode colocar essa pessoa ao telefone? Leva vinte minutos. Keller liga para Mullen, que liga para Cirello, e
Cirello liga para Keller. Keller diz:
— Não se identifique. Estou prestes a entregar o celular a um juiz
federal que vai lhe fazer algumas perguntas.
— Está bem.
Keller entrega o celular a Antonelli.
— Aqui é o juiz William Antonelli — diz ele. — Preciso que você
entenda que esta conversa tem o mesmo peso e função que teria se você estivesse em meu gabinete, falando sob juramento. Compreende isso?
— Sim, meritíssimo.
— Bom — diz Antonelli. — Você tem algum relacionamento com
Darius Darnell e, caso tenha, qual é a natureza desse relacionamento?
— Trabalho para ele dentro de minha função de policial infiltrado — responde Cirello.
— Em seu conhecimento direto — diz Antonelli —, ele é envolvido com tráfico de drogas?
— Em meu conhecimento direto, Darnell trafica heroína.
— E você presta serviços de segurança para ele?
— Em minha função de policial infiltrado — confirma Cirello —, eu exerço, sim, algumas funções de segurança para Darius Darnell.
— E o sr. Darnell lhe pediu para prover segurança em uma reunião no hotel The Pierre, entre um representante da Construtora Terra Trust e determinadas instituições financeiras mexicanas?
— Ele me pediu, dois dias atrás — diz Cirello —, mas não me falou quem participaria da reunião.
— Posteriormente, você ficou sabendo a identidade desses indivíduos?
— Sim, fiquei.
— Por meio do sr. Darnell?
— Não.
— É de seu entendimento — pergunta Antonelli — que essa reunião estava ligada ao tráfico de drogas do sr. Darnell?
Keller fica na expectativa. Essa é a pergunta. Se Cirello responder que não sabe — que deve ser a resposta correta — o mandado provavelmente já era.
Então, ele ouve Cirello dizer:
— Esse é meu entendimento.
— Baseado em quê? — pergunta Antonelli.
Keller ouve Cirello mentir:
— Foi o que ele me falou.
— Obrigado. — Antonelli desliga. — Eu não sei.
— Bill — diz Keller —, eu preciso desse mandado. Preciso que você faça a coisa certa, aqui.
— Se ao menos fosse fácil saber qual é a coisa certa — diz Antonelli.
— Você sabe o que é certo — diz Keller.
— Você fez o certo — diz Mullen.
Mentir para um juiz federal?, pensa Cirello. Mas isso também faz parte de meu mundo bizarro: o errado é o certo.
— Você fez o certo — repete Mullen. — Nós conseguimos o mandado.
E é isso que importa, pensa Cirello.
Mullen diz:
— Agora, só precisamos torcer pra que o Darnell mande você
novamente à reunião.
— Não há motivo pra não mandar — diz Cirello.
Chandler Claiborne está tendo um ataque.
— Eu não vou fazer isso outra vez — diz ele. — Você não precisa fazer — diz Hidalgo. — A sala estará com escuta. — Jason é meu amigo — afirma Claiborne. — Já ganhamos milhões
juntos. Não vou colocá-lo numa armadilha.
— O que você está dizendo?
— Eu vou cancelar a reunião — responde Claiborne. — Vou arranjar o
dinheiro em outro lugar.
— Como vai explicar isso a Lerner?
— Vou dizer a ele que os mexicanos desistiram. — Se fizer isso, eu vou ligar para Jason Lerner e mostrar a gravação.
Direi a ele que você é uma testemunha colaborativa. Então, o que acha que vai acontecer com você?
Chandler fica olhando para ele.
— Vocês são pessoas diabólicas. Realmente diabólicas. — Por que não entramos no meu carro? — sugere Hidalgo. — Vamos
até o necrotério, eu vou lhe mostrar uma overdose de heroína.
— Eu não enfio as agulhas nos braços deles.
— Você acha que Lerner é um cara firmeza? — pergunta Hidalgo. —
Que ele se ferraria por você? Vamos fazer o seguinte: eu trago Lerner, e a gente vê quem fala primeiro. E deixe-me lhe dizer como isso funciona: o primeiro cara que delatar é liberado, todos os outros entram no ônibus que vai para a cadeia federal. Ouça, eu cansei de ficar debatendo. Qual vai ser? Você quer prestar colaboração integral, ou nós vamos jogar Guerra de Famílias?
Claiborne escolhe a porta número um.
— Nessa reunião — diz Darnell —, talvez você veja gente que reconheça. Estou contando com sua discrição.
— Pra quem eu iria contar? — pergunta Cirello. — Isso é verdade.
Cirello decide cutucar.
— O que está havendo? O que são essas reuniões? Quer dizer, sem querer ofender, mas esse não é exatamente o seu pessoal.
— Não são. — Ele faz uma pausa por um segundo, depois ri. — Embora meu filho estude com os filhos deles.
— Então…
— Neste país, um negro só chega sozinho até certo ponto — diz Darnell. — Depois, ele precisa dos brancos.
— Pra quê?
— Eu não voltar pra cadeia — diz Darnell. — Não interessa o que aconteça, nunca mais vou voltar pra lá.
Cirello não força mais.
Porque ele tem sua resposta. Darius Darnell acha que se for preso outra vez, seus parceiros da Terra e da Berkeley vão tirá-lo.
Ou ele os levará junto.
E Cirello pensa, que bom para você, Darnell.
Bom para você, porra.
Porque, sabe qual é a diferença entre um consórcio e um cartel?
O pão com queijo de vinte pratas.
Cirello faz a “varredura” da sala com cuidado, instalando vários microfones — em um vaso, atrás de um quadro, embaixo do sofá — então, ele começa a cantarolar baixinho.
Keller, em seu escritório, ouve perfeitamente.
Agora é uma questão de torcer para que nada dê errado no último segundo, que todos os participantes da reunião apareçam.
Os mexicanos providenciaram, mesmo, o entretenimento da noite de ontem. Segundo o pessoal de Mullen, eles jantaram no Le Bernardin e depois foram a um bordel exclusivo, no Upper East Side, e só voltaram para o Peninsula depois das duas da manhã.
Que bom, pensa Keller, qualquer coisa que os deixe menos atentos.
Cirello sai para o corredor e fica esperando.
Claiborne é novamente o primeiro a chegar.
— Bom dia.
— Bom dia, senhor. — E vá se foder.
Alguns minutos depois, chega Jason Lerner. Darnell estava certo,
Cirello reconhece, mesmo, o homem, porque ele está sempre na página seis do Daily News, geralmente com a esposa deslumbrante no braço, em um ou outro evento beneficente. E pelos poucos minutos que Cirello observou a conversa, Lerner estava no pódio.
Cirello guarda o sorriso por dentro, mas está ali. Quando Darnell arranja
um garoto branco, ele arranja um dos bons. Ele assente para Lerner e diz:
— Um de seus colegas já está aqui.
Lerner assente em resposta.
— Obrigado.
Ah, não me agradeça, pensa Cirello.
Escroto.
Os mexicanos chegam depois de cinco minutos. Então, pensa Cirello, agora a festa pode começar.
Keller ouve Claiborne conduzir os procedimentos.
— Espero que todos tenham tido uma boa noite. Que palhaço, pensa Keller.
— Preparamos um uma oferta detalhada — diz Claiborne —, e se
julgarem as condições aceitáveis, nós temos os contratos prontos para ser assinados. Portanto, analisem tranquilamente e, se houver dúvidas, nós ficaremos felizes em responder.
O som está bom, pensa Keller. Surge o habitual tilintar de xícaras e
copos de água gelada, mas as vozes são claras. E Cirello poderá testemunhar quanto à identidade das pessoas na sala.
Barulho de papel remexido.
Alguns comentários baixinhos, sobre detalhes. Claiborne pergunta se pode reabastecer as xícaras de café. Então, alguém — pelo som da voz, Keller acha que é o mais velho,
Echeverría — diz:
— Jason, que bom revê-lo.
— Bom ver você.
— Quanto tempo faz?
Essa gente é tão arrogante, pensa Keller. Eles estão caminhando direto
pro buraco.
— Cabo — responde Lerner. — Foi no Ano-Novo há dois anos, eu acho. — Acho que sim.
A tensão é palpável, pensa Keller. Echeverría continua irritado porque Lerner não veio à primeira reunião. Isso é para fazer com que Lerner saiba que foi um insulto.
Claiborne pega a bola.
— Então, vocês tiveram a oportunidade de olhar nos termos do acordo. Se precisarem de mais tempo…
— Os termos são aceitáveis — diz Echeverría. — Nós só queremos olhar Jason nos olhos e perguntar se nosso dinheiro está seguro com ele.
— Esteve seguro em Bladen Square, não esteve, León? — pergunta Lerner. — Esteve seguro no projeto Halterplatz. Estará seguro no Park Tower.
Lerner não está muito a fim de engolir sapo, pensa Keller. Talvez seja seu novo status. Mas, Jesus, o cara nos deu simplesmente o histórico inteiro de seu relacionamento profissional com Echeverría.
Echeverría tampouco está disposto a ser cordial.
— Mas, ao contrário daqueles outros projetos, o Park Tower está perdendo dinheiro. Você quer nos vender uma parte de uma obra falida, e estou me perguntando se é assim que velhos amigos se tratam.
— León, se acha que eu estou usando você só para reduzir minha dívida…
— Se eu achasse isso, não estaria sentado aqui.
— Então…
— Cavalheiros — diz Claiborne, performático —, esta é uma situação ímpar…
— De que forma? — pergunta Echeverría.
— Conforme discutimos ontem — diz Claiborne —, vocês precisam investir o dinheiro e suas opções são, digamos, não ilimitadas.
— Nosso dinheiro não é limpo o suficiente para vocês? — pergunta Echeverría.
Você está perto, Claiborne, pensa Keller. Continue em frente.
Mas Lerner interrompe.
— Seu dinheiro é bom como o de qualquer outro, é claro. Se não achássemos isso, não estaríamos sentados aqui. León, você está certo, nós somos velhos amigos e, se eu fiz algo que prejudicasse essa amizade, peço desculpas. Lamento. Entre velhos amigos: eu preciso de você. Se você não participar, vou pedir a execução da hipoteca e perderei a propriedade.
Keller fica ouvindo o longo silêncio. Então, ouve Echeverría dizer:
— Nós estamos prontos para assinar. — Que ótimo — responde Claiborne. Keller escuta o barulho da papelada. Então, ele ouve Lerner dizer: — Na verdade, León, nós podemos fazer dessa forma, ou podemos
simplesmente dispensar os contratos.
— Jason, eu… — diz Claiborne. Ele está claramente surpreso.
Mas Lerner fala:
— Tenho certeza de que você compreende que nós estamos passando
por exames minuciosos, nos últimos tempos. É como morar num aquário, com um holofote em cima. Sem qualquer ofensa desse mundo, cavalheiros, mas o nome do HBMX no consórcio talvez atraia atenção que nós não queremos, neste momento específico. Se houver um meio que possamos…
— Está sugerindo que façamos um negócio de 285 milhões de dólares
com um aperto de mãos? — pergunta Echeverría.
— Como você disse, nós somos velhos amigos. Claiborne diz:
— Jason, isso é altamente…
— Pode deixar, Chandler. Eu cuido disso. Sim, cale a boca, Chandler, pensa Keller.
— Como vai fazer a contabilidade do dinheiro? — pergunta Echeverría. — Como você observou — diz Lerner —, nós temos espaço vago do Park
Tower. Talvez você tenha empresas de fachada com as quais possa alugar parte daquele espaço, e o dinheiro vai figurar como renda. Outros fundos podem ser discriminados como cobranças de obras… quer dizer, tem uma centena de maneiras de fazer isso.
Echeverría ri.
— Jason, estou aqui tentando lavar dinheiro, não sujá-lo ainda mais. Bingo, pensa Keller.
— Eu compreendo isso — diz Lerner —, mas se pudermos chegar a um
acordo… menos formal, nós estamos dispostos a lhe dar dois pontos extras, o que o elevaria à terceira posição, no consórcio. Eu prometo, León, o Park Tower será um empreendimento vencedor. Seus garantidores vão ganhar muito dinheiro. Dinheiro limpo.
Jesus Cristo, pensa Keller. Lerner acabou de confessar uma montanha de
crimes. Ele não se incriminou quanto a lavagem de dinheiro, mas quanto a uma fraude gigantesca e violações de dúzias de leis federais.
Mas ele tem culhão, Keller tem que admitir.
Duzentos e oitenta e cinco milhões sem papel.
E, portanto, sem caução.
Mas isso é comum para os cartéis de drogas. Eles raramente obtêm caução, porque não precisam. As vidas do devedor e de suas famílias são a caução. Lerner deve saber disso, mas ele talvez se sinta tão poderoso agora, tão bem conectado, que pensa estar acima disso.
Ele é intocable.
Mas será que Echeverría vai aceitar? Cartéis costumam antecipar um milhão ou dois, talvez até cinco, em drogas, mas 285 milhões de dólares?
— Eu preciso fazer uma ligação — anuncia Echeverría.
— Nós lhe daremos privacidade — diz Lerner.
— Não, eu só vou até ali fora, no corredor.
Não, pensa Keller. Não, droga, não.
Mas Echeverría sai e tudo o que Keller fica ouvindo durante os dez minutos seguintes são os pés das pessoas para lá e para cá, líquidos sendo servidos, conversa em tom baixo, sobre a porra do tempo, esportes, o melhor trajeto para chegar à porra do aeroporto JFK…
Finalmente, Echeverría volta.
— Três pontos, Jason.
Só isso?, pensa Keller. Ele negocia um ponto a mais e é só?
Não.
— E — diz Echeverría —, como mencionou, você está sob análise minuciosa, por conta de seus contatos próximos. Eu esperaria que, se lhe fizermos esse favor, como um velho amigo, você nos disponibilizaria alguns desses contatos, caso precisemos de um ouvido para expor nossos pontos de vista.
Por mais que Keller o despreze, por mais que queira botar toda essa cambada na cadeia, ele está quase torcendo para que Lerner recuse o homem na bucha.
— Não posso prometer — diz Lerner — que nossos contatos tomariam ou não determinadas atitudes…
— É claro que não — diz Echeverría.
Certo, pensa Keller.
— Mas você sempre encontrará um ouvido — diz Lerner.
Meu Deus, pensa Keller.
Meu Deus.
Se John Dennison ganhar a eleição…
O cartel comprou a Casa Branca.
Agora nós ultrapassamos todos os limites, cruzamos a fronteira.