A fronteira

Don Winslow · Capítulo 18 de 25

Páginas do PDF

A fronteira

3: Hombres maus

3

 

Hombres maus

 

“Alguns hombres maus entraram aqui e nós vamos colocá-los pra fora.”

— John Dennison

 

Os Estados Unidos são o céu.

Esse foi o primeiro pensamento de Nico, há mais de um ano, quando a migra o pegou, o embrulhou em um cobertor e o colocou no carro, depois ligou o aquecedor. Então, eles lhe deram um hambúrguer e uma barra de chocolate, que Nico devorou, como se não comesse há dias, o que era verdade.

Isso aqui é el norte, pensou Nico.

Tudo o que ele tinha ouvido era verdade — ali era maravilhoso. Ele nunca comera um hambúrguer inteiro.

Os migra sorriram para ele e fizeram perguntas em espanhol — Qual é o seu nome? Quantos anos você tem? De onde você é? Nico falou a verdade sobre seu nome e idade, mas disse que era do México, porque tinha ouvido que isso era melhor.

— Não minta pra nós, hijo — disse um dos migra. — Você não é mexicano.

— Sou sim.

— Ouça, seu mierdito — falou o migra. — Nós estamos tentando ajudá-lo. Se você é do México, você vai partir direto de volta, no próximo ônibus. Você é um Guaty, dá pra notar pelo seu sotaque. Agora, diga a verdade.

Nico assentiu.

— Eu sou da Guatemala.

— Onde estão seus pais?

— Meu pai morreu — respondeu Nico. — Minha mãe está em El Basurero.

— Você veio sozinho?

Nico assentiu.

— Lá de Guat City?

Nico assentiu de novo.

— Como? No trem? La Bestia?

— Sim.

— Jesus Cristo.

Eles o levaram até um prédio e o colocaram em uma cela. Estava muito

frio — o ar-condicionado estava forte — e Nico ouviu um dos migra dizer:

— O garoto ainda está molhado, ele vai congelar ali dentro. Outro homem falou:

— Eu vou encontrar algo pra ele.

Nico ficou impressionado, porque alguns minutos depois, o homem

voltou com umas roupas. Eram velhas e grandes demais, mas estavam limpas — blusa e calça de moletom. Meias brancas limpas e um par de tênis.

— Tire esses troços molhados — disse o homem. — Você não quer ficar

gripado.

Nico vestiu a outra roupa.

Havia uma caminha na cela. Ele deitou e, sem nem perceber, já estava

dormindo. Quando ele acordou, eles lhe deram outro hambúrguer e uma Coca, e um saco plástico branco, com suas roupas velhas. Então, eles o colocaram em um ônibus, com um monte de outros migrantes, a maioria mulheres com seus filhos.

Alguns eram guatemaltecos, outros de El Salvador ou Honduras. Nico

era a única criança sozinha e ficou sentado quietinho, olhando pela janela, observando a planície texana seca e imaginando para onde eles estavam indo.

O ônibus passou por uma cidadezinha que parecia vazia, como se todo

mundo tivesse ido embora. Nico viu lojas com tapumes e um restaurante com uma placa que dizia “FECHADO”. Uma placa maior mostrava um pedaço de melancia e dizia “DILLEY”.

Alguns minutos depois, ele viu uma cerca comprida de arame, com

alguns prédios brancos baixos atrás. Os prédios pareciam novos. O ônibus parou no portão, onde um guarda conversou com o motorista, por um segundo, e depois entrou.

O portão foi fechado atrás deles.

Nico viu que os prédios, na verdade, eram grandes trailers.

Todo mundo começou a descer do ônibus, então ele desceu também, e os seguiu até um dos trailers e sentou em um banco. Um guarda atrás de uma mesa de madeira chamava as pessoas pelo nome para ir a outra sala.

Finalmente, ele ouviu seu nome.

O guarda o levou até uma salinha e o mandou sentar em uma cadeira, na frente de uma mesa. A mulher atrás da mesa tinha pele marrom, olhos castanhos grandes, e cabelo preto, e ela falava em espanhol.

— Nico Ramírez. Meu nome é Donna, Nico. Sou sua gerente de caso. Aposto que você não sabe o que é isso.

Nico sacudiu a cabeça.

— Significa que vou cuidar de você, até que nós possamos colocá-lo em seu lugar, está bem? Então, primeiro eu preciso lhe fazer algumas perguntas. Você tem algum documento, Nico?

— Não.

— Mas esse é seu verdadeiro nome? Você não está inventando?

— Não. Quer dizer, sim. Esse é o meu nome.

Ela perguntou:

— E sua mãe está na Cidade da Guatemala?

— Sim.

— Você fez essa viagem inteira sozinho?

— Não — disse Nico. — Eu estava com uma menina chamada Flor e uma menina chamada Paola.

— Onde elas estão agora?

— Não sei onde está Flor — respondeu Nico. — Paola morreu.

— Eu lamento — disse Donna. — Como foi que ela morreu?

— Ela foi atingida por um cabo de alta tensão.

Donna sacudiu a cabeça.

— Você tem algum familiar nos EUA, Nico?

Nico não respondeu.

— Nico — disse Donna —, se você tiver família aqui e não estiver contando para evitar causar problemas a eles, saiba que eu não me importo se eles estão aqui legalmente ou não. Está entendendo? Isso não faz parte do meu trabalho.

Nico pensou um pouquinho, depois falou:

— Tenho um tio e uma tia.

— Onde?

— Em Nova York.

— Na cidade?

— Acho que sim.

— Você tem como entrar em contato com eles? — perguntou Donna. —

Tem o telefone deles?

— Sim.

Ele deu o número.

— E como eles se chamam? — perguntou ela. — Meu tio é Javier e minha tia é Consuelo — respondeu Nico. —

López.

— Certo — falou Donna. — Vou tentar ligar pra eles. Talvez amanhã eu

possa colocar você ao telefone pra falar com eles. Você gostaria?

Nico assentiu.

— Agora — disse Donna —, você gostaria de falar com sua mãe, contar

a ela que você está bem? Aposto que ela está preocupada. Vamos ligar pra ela?

— Ela não tem telefone.

— Certo — disse ela. — Talvez ela ligue para seus tios e eles possam

avisá-la, e nós vamos arranjar um jeito de falar com ela. Agora, pela lei, eu preciso lhe falar algumas coisas. Você não vai entender muitas delas, mas eu tenho que dizer, mesmo assim, está bem?

— Está bem.

— Você é o que nós chamamos de “menor estrangeiro

desacompanhado” — disse ela. — Isso significa que você não está neste país legalmente, portanto, nós vamos retê-lo. Quer dizer que vamos mantê-lo aqui. Mas vamos ficar com você pelo menor tempo possível, e depois talvez possamos deixar que você fique com seus tios. Está entendendo?

— Sim.

— Agora, eu vou lhe fazer uma pergunta bem difícil — falou Donna. —

Você sabe o que é abuso sexual?

Nico sacudiu a cabeça que não.

— É quando alguém toca suas áreas íntimas — disse Donna. — Alguém

já tocou em você desse jeito?

— Não.

— E como você está se sentindo? — perguntou ela. — Tem alguma dor?

Sente-se doente?

Nico não sabia como lhe dizer que doía tudo nele, que seu corpo inteiro estava cheio de hematomas, cortado, queimado do sol, gelado, faminto e ressecado. Ele não tinha palavras para expressar sua completa exaustão.

Então, ele falou:

— Eu estou bem.

— Vou levá-lo ao médico, mesmo assim — disse Donna. — Só pra ter certeza. Ele vai lhe dar uma injeção chamada “vacina”; não tenha medo, não vai doer. E ele vai fazer exames para verificar tuberculose, que às vezes acontece, quando a pessoa tosse muito. Você tosse muito, Nico?

Nico tossia o tempo todo — ele tossia por causa da fumaça do trem, do frio, da poeira que entrava em seu nariz, na boca e nos pulmões.

— Mas, primeiro, nós vamos lhe arranjar algumas roupas — afirmou Donna. — Essas que você está vestindo estão meio ruins.

Donna o levou para fora do escritório, seguindo um corredor até uma sala cheia de prateleiras e mais prateleiras com roupas novas. Nico não acreditou, quando ela pegou uma camisa e uma calça, depois um par de meias e tênis novinhos, e disse:

— Estes parecem ser do seu tamanho. Mas você não vai querer vestir, até ter tomado um banho. Venha.

Ela o levou até uma sala grande, onde havia um chuveiro.

— Esta é a torneira de água quente, essa é a fria. Tem sabonete, xampu, e uma toalha. Eu vou esperar lá fora, a menos que você queira que eu o ajude.

— Não.

Quando ela saiu, Nico tirou a roupa e foi até o chuveiro. Era muito limpo e cheirava a cloro. Ele abriu primeiro a torneira de água quente e deu um pulo para trás, quando saiu um jato forte. Contornando a água, ele estendeu a mão e abriu a torneira de água fria, e pôs a mão no jato, até sentir que estava quente, mas não escaldante.

Então, ele entrou na água.

Ele nunca tinha tomado um banho em um chuveiro assim. Os poucos que ele conheceu eram filetes frios vindos de canos enferrujados. Essa água tinha cheiro de ovo cozido, mas Nico não se importava — era maravilhoso.

Isso era el norte.

Isso eram os EUA.

Mas o tal xampu o perturbou. A moça disse a palavra, mas ele não sabia

o que era e ficou com medo de abrir a garrafinha plástica. Ele lavou o cabelo com o sabonete, até ficar limpo, então deixou a água quente escorrer por todo seu corpo. Ele saiu do chuveiro, se enxugou com a toalha e vestiu suas roupas novas. Ainda era inacreditável, aquele lugar onde lhe davam roupas e sapatos.

Donna o aguardava no corredor e o levou até o médico. O médico mandou que ele tirasse a camisa, depois o mandou tossir e

passou um negócio metálico gelado em suas costas e no peito. Ele fez Nico abrir a boca e pôs uma varetinha dentro, dizendo-lhe que fizesse um barulho. Ele mandou Nico subir em uma balança e abaixou uma pequena barra de metal sobre sua cabeça.

— Ele tem 1,40 m — afirmou o médico. — E pesa 24 kg. Seu

crescimento está retardado e ele está extremamente desnutrido. Há resíduos de contusões no peito e na caixa torácica. Ele relatou ter sido espancado?

Donna perguntou ao menino sobre os hematomas. — Eu caí do trem — respondeu Nico.

— Ele relata abuso sexual? — perguntou o médico. — Não.

— Eu devo fazer um exame retal?

— Acho que não é necessário, neste momento — respondeu Donna. —

Talvez depois, se ele se abrir sobre alguma coisa.

— Ele pode vestir a camisa — disse o médico. — Ele apresenta

sintomas de estresse respiratório, provavelmente por ter inalado poeira e fumaça. Mesma causa para o que parece uma infecção oftalmológica crônica, mas um colírio deve curar. Também apresenta um quadro de sinusite, mas acho que um spray nasal deve dar conta, em lugar de antibiótico, e veremos como isso evolui. Esse garoto necessita mais de comida e descanso. Donna, eu posso falar com você, em particular?

Donna levou Nico para fora da sala de exame, até um banco no corredor,

e voltou para dentro.

— O garoto tem uma tatuagem de gangue, no tornozelo — disse o

médico. — “Calle 18”.

— Pode deixar isso fora do relatório?

— Você sabe que não posso.

— Não custava perguntar.

De volta ao corredor, Donna perguntou a Nico:

— Você sabe o que é um refeitório?

— Não.

— É um tipo de restaurante.

Nico ficou preocupado.

— Eu não tenho nenhum dinheiro.

— Tudo bem. A comida é grátis.

Nico não podia acreditar em seus ouvidos. Depois, em seus olhos. Eles entraram em um salão bem grande, onde alguns migrantes estavam sentados nas mesas, comendo, enquanto outros estavam em uma fila, com bandejas, e as pessoas atrás do balcão serviam montanhas de arroz, feijão e carne em seus pratos.

— Pegue uma bandeja e um prato — disse Donna. — Ali tem talheres e guardanapos. Depois, entre na fila.

— Eles vão simplesmente me dar comida?

— Eles vão simplesmente lhe dar comida — confirmou Donna. — Mas diga obrigado.

Nico disse gracias sem parar, enquanto as pessoas atrás do balcão colocaram arroz e feijão e carne em seu prato. No fim do balcão havia copos de suco, ponche e água. Nico olhou para Donna.

— Pegue um — disse ela.

Ele pegou um copo de ponche e sentou à mesa com ela.

Então, ele novamente não acreditou em seus ouvidos, pois as pessoas estavam reclamando da comida — o arroz não estava bem cozido, o feijão, cozido demais, a carne estava dura, a comida não era suficiente.

É comida de graça, pensou Nico.

Eles dão a comida.

Ele começou a devorar tudo, antes que eles mudassem de ideia.

— Vá com calma — disse Donna, sorrindo. — Ninguém vai tirar de você, m’ijo.

Nico não tinha tanta certeza. Ele comeu vorazmente, com a mão direita, deixando a esquerda ao redor do prato para protegê-lo.

— Eu tenho mais algumas coisas a lhe dizer — anunciou Donna, enquanto o via mandando ver na comida. — Pelo fato de você ser um menor desacompanhado, nós não podemos deixá-lo no dormitório, com adultos que não têm vínculo parentesco com você. Então, precisamos colocá-lo em um quarto, sozinho.

Nico não tinha ideia do que ela estava falando. Ele não se importava.

Um quarto só para ele? Ele literalmente não conseguia imaginar. — Mas espero que até amanhã — continuou Donna — nós possamos

transferi-lo para uma casa coletiva. É uma casa comum. Haverá alguém como uma mãe e um pai, e você terá outras crianças com quem brincar. E se você ficar lá pelo tempo suficiente, você irá para a escola. Você gostaria disso?

Nico deu de ombros. Como ele poderia saber? — Agora, vá até ali, pegue uma maçã e um biscoito — disse Donna —,

depois eu vou levá-lo até seu quarto.

O quarto era um retângulo pequeno pintado de azul radiante, com

murais de zebras e girafas. Havia uma cama de solteiro junto à parede. A janela era gradeada.

— Pronto — disse Donna. — Tem um banheiro no corredor, se você

precisar. Nico, você sabe que não pode sair do prédio, certo?

Nico assentiu.

Um quarto só para ele, um banheiro, chuveiro, comida e bebida de

graça, roupas novas e limpas, um par de tênis…

Por que ele iria querer ir embora do paraíso?

Donna voltou ao escritório e ligou para o número que Nico lhe deu.

Um homem atendeu.

— É o Señor López? —perguntou Donna em espanhol. — Sim.

A voz pareceu hesitante, desconfiada.

— Señor López — disse Donna. — Meu nome é Donna, eu sou do

Escritório do Centro de Restabelecimento de Refugiados. O senhor conhece um menino chamado Nico Ramírez?

— Sim.

Agora ele parecia amedrontado.

— Posso lhe perguntar — disse Donna — qual é seu relacionamento

com Nico?

— Ele é meu sobrinho — respondeu López. — Filho da irmã de minha

esposa.

— Nós estamos com Nico sob nossa guarda — informou Donna. —

Queremos que saibam que ele está perfeitamente seguro.

Ela o ouviu gritar “Consuelo!”, depois o ouviu dizer que “eles” encontraram Nico. Quando voltou ao telefone, o homem estava chorando.

— Nós estávamos com medo… não tivemos notícias…

— Vocês estão em contato com a mãe de Nico?

— Ela liga, quando pode — disse López. — Ela não tem telefone.

— Da próxima vez que ela ligar — pediu Donna —, poderia, por favor, contar a ela que o Nico está bem e lhe dar este número? Ela pode ligar a cobrar.

— Nós podemos falar com Nico?

— Eu vou ligar de volta amanhã e colocá-lo na linha — disse Donna. — Espero que ele já esteja dormindo agora.

— E agora, o que acontece?

Ela explicou o processo. Ela enviaria o Formulário de Reunificação Familiar, que eles deveriam preencher e mandar de volta. Então, haveria uma entrevista e, se tudo estivesse de acordo, Nico poderia ser liberado para ficar sob a guarda deles, até uma audiência de deportação, geralmente dentro de até noventa dias, quando seria definido se Nico poderia ficar, ou se teria que regressar à Guatemala.

— Ele não pode voltar — disse López. — Vão matá-lo.

— Vamos dar um passo de cada vez — falou Donna.

Ela pegou o endereço deles e repetiu que ligaria pela manhã. Então, ligou para o Serviço de Imigração e disse-lhes — como tinha que fazer, segundo a lei — que ela estava com um menor estrangeiro desacompanhado, um MED, com uma tatuagem de gangue, no tornozelo.

— Nós precisamos recolher o arquivo — afirmou o agente.

— Eu sei, Cody — disse Donna. — Mas você poderia pegar leve, com esse? Ele só tem dez anos.

— Você sabe como está a situação atual, Donna.

— Eu sei.

— Eu farei o que posso, mas…

Sim, pensou ela, ao desligar. É a história de nossas vidas — os agentes da fronteira, o pessoal do serviço de imigração, os gerentes de caso com mais arquivos do que podem digerir, advogados voluntários que talvez consigam dez minutos com seus “clientes”, antes de uma audiência — todos nós estamos fazendo o melhor que podemos, “mas…”.

Não é tão ruim como foi em 2014, quando os MEDs chegavam a trinta mil por ano, ou no ano anterior, quando chegaram a setenta mil, congestionando o sistema de cima a baixo. O número de crianças deixando a América Central caiu no começo de 2015, mas agora voltava a subir, mais uma vez ameaçando entupir o sistema.

Sua mesa estava abarrotada — assim como os arquivos de casos de cada

um dos advogados das crianças, e de todos os advogados voluntários que ofertavam seus serviços gratuitamente.

Donna deixou a instituição e seguiu dirigindo pela estrada 35, até

Pearsall, e encostou no Garcia’s Bar and Grill.

Alma Baez estava no bar, onde Donna achou que ela estaria, e bebia um

conhaque com água. Donna despencou na banqueta ao lado dela e ergueu o dedo ao bartender, sinalizando seu habitual uísque com duas pedras de gelo.

— Foi um dia daqueles? — perguntou Alma.

— A habitual enxurrada de infelicidade — disse Donna. — Que bom

que eu a encontrei. Tenho um MED que vai precisar de advogado.

Donna trabalhava para o Centro de Restabelecimento de Refugiados,

CRR, que contratava uma empresa particular, a Corporação Correcional da América, CCA, para administrar o centro de detenção migratória. A CCA mantinha outros oitenta centros de detenção, mas seu negócio principal eram as prisões. Elas abrigavam 66 mil detentos, em 34 estados e 14 prisões federais, assim como 4 cadeias municipais.

Como gerente de caso do CRR, Donna tinha o direito, na verdade o

dever de requerer um advogado para uma criança, conforme achasse necessário.

Ela achava necessário para o caso de Nico, e contou a história dele a

Alma.

— Ele foi traficado? — perguntou Alma.

— Não, mas eu vou classificá-lo como “vulnerável” — disse Donna. A

classificação habilitaria o menino a receber um advogado, pois ele precisava de um. — Tem um problema. Eu quero colocá-lo numa casa coletiva, até que ele possa ficar com um responsável…

— Ele tem um?

— Uma tia e um tio, em Nova York.

— Então, qual é o problema? — perguntou Alma. — Quer dividir uns

nachos?

— Sim. Ele tem uma tatuagem de gangue — explicou Donna. — Calle

18.

— Mas você disse que ele tem dez anos, não foi? — perguntou Alma. — De frango ou de carne?

— Certo, mas eles ainda podem tentar “ameaçá-lo” — disse Donna. — Frango.

Nos casos de menores desacompanhados, um juiz faz uma audiência tão logo seja possível e, em noventa por cento das vezes, libera a criança para uma casa coletiva. O problema com Nico era duplicado, Donna sabia. Mais por conta da eleição presidencial que estava por vir; o país estava literalmente histérico com as gangues da América Central, como a M13 e a Calle 18, e os membros de gangue que atravessavam a fronteira. Portanto, juízes como o que ia presidir a audiência de Nico estavam relutantes ao extremo com a ideia de liberar qualquer pessoa com qualquer tipo de afiliação a gangues.

A segunda questão eram os negócios.

Dólares e centavos.

A Corporação Correcional da América não ganhava dinheiro algum se Nico fosse transferido, como deveria, a um lar coletivo. Mas, se o juiz considerasse Nico uma “ameaça” por conta da tatuagem de gangue, ele seria enviado a uma “instituição de segurança”, que ganharia 63 dólares diários pelo garoto.

A CCA era uma empresa de capital aberto.

Eles precisavam apresentar lucros a seus acionistas. Para isso, era preciso preencher camas e celas. A CCA não estava no negócio de liberação de detentos, ela era do ramo de detenção.

Nico era dinheiro vivo.

Mas, ora, as pessoas tinham que viver e a CCA agora era o maior empregador por ali. Dilley foi um dia a “Capital da Melancia”, mas os frutos rolaram ao sul da fronteira. Depois, as “perfurações hidráulicas” seriam a salvação, mas isso também acabou sendo um fiasco.

Prisioneiros eram uma fonte mais segura de dinheiro.

Uma que nunca se esgotava.

Mas se Nico fosse considerado uma ameaça e enviado a uma instituição, seria bem mais difícil fazer com que ele fosse reclassificado e liberado para ficar com os tios, presumindo que eles fossem aprovados no processo.

Ele poderia ficar na instituição por meses, se não anos, até que fosse tomada uma decisão final e essa decisão provavelmente seria deportá-lo, na verdade, enviá-lo de volta para a gangue da qual ele fugiu.

— Precisamos conseguir um advogado pra ele — disse Alma. — Que tal Brenda?

— Ela está até o tampo de casos.

Brenda Solowicz tinha vindo para Dilley por algumas semanas, no auge

da crise migratória, em 2014, e estava lá até hoje, tendo se mudado para um trailer perto do Best Western. Havia inúmeros bons advogados trabalhando de graça para os migrantes, mas, na opinião de Donna, Brenda era a melhor.

— Então, que diferença fará mais um? — perguntou Donna. Alma suspirou.

— Eu vou ligar pra ela. Quando eu posso encontrar esse garoto? — Logo cedo, pela manhã?

— Estarei lá.

— Você é demais — disse Donna.

— Ficarei ainda melhor, depois que eu tomar mais um drinque —

respondeu Alma.

Donna sabia o que ela queria dizer: como uma advogada infantil, Alma

atendia órfãos, garotinhas que haviam sido estupradas por gangues, prostituídas nas ruas, crianças que haviam sido surradas ou até torturadas. E ela trabalhava sabendo que, na maioria dos casos, as crianças ficariam no país por algumas semanas, ou meses, depois seriam mandadas de volta ao lugar de onde vieram.

E esse quadro só iria piorar.

O uísque de Donna sumiu, como se alguém a tivesse ajudado a beber. Ela sinalizou pedindo mais um.

Nico bebeu seu suco de laranja e terminou seu cereal, enquanto uma moça chamada Alma conversava com ele.

— Agora, escute bem — disse Alma. — Você só pode ficar neste país se

tiver o que eles chamam de “temor crível” de que será ferido ou morto caso volte para a Guatemala. Um juiz vai lhe fazer perguntas. Eu não posso lhe falar o que dizer, mas entenda que você só pode ficar aqui se tiver medo de se machucar, caso volte pra casa.

Nico assentiu.

— Você tem medo de voltar pra casa, Nico? — perguntou Donna. — Sim.

— Por quê? — perguntou Alma.

— Vão me obrigar a entrar para a Calle 18.

— Eles o ameaçaram? — questionou Alma. — Machucaram você?

— Disseram que iam machucar minha mãe.

Ele não mencionou que eles haviam queimado uma tatuagem nele. Já se esquecera daquela dor.

Mas a moça chamada Alma tocou no assunto.

— Donna falou que você tem uma tatuagem. Posso ver?

Nico ergueu a perna da calça.

Alma se encolheu.

— Como isso aconteceu? Você fez isso sozinho?

Nico sacudiu a cabeça.

— Foi o Pulga que fez.

— Quem é esse?

— Um marero.

Uma jovem de cabeleira emaranhada e vermelha entrou na sala, sentou e pôs uma maleta na mesa.

— Desculpem o atraso. Esse é… Nico?

— Sim.

— Eu sou a Brenda, Nico. Vou representar você, em sua audiência.

— Nico estava nos mostrando a tatuagem dele — disse Donna.

— Posso ver, Nico? — perguntou Brenda. Ela olhou a tatuagem, depois virou para Alma e Donna, como se fosse algo muito ruim. Então, falou: — Então, Nico, em alguns minutos, nós vamos até outro prédio, pra falar com um juiz. Ele não estará lá, estará na tela da televisão, mas ele pode vê-lo e ouvi-lo, está bem?

— Está bem.

— Eu vou falar um pouquinho e ele vai lhe fazer algumas perguntas — completou Brenda. — Diga apenas a verdade, está certo?

— Está certo.

Brenda olhou para Donna.

— Quais são as chances de se conseguir uma caneca de café?

— As chances são boas, o café é horrível.

— Vou pegar.

Brenda pegou café para ela, e eles foram até o outro prédio. Nico ficou sentado em um banco, entre Brenda e Alma, e ficou assistindo, enquanto quase que só mulheres levantavam e falavam para uma câmera, respondendo perguntas a um juiz em uma tela de televisão.

Aquilo amedrontou Nico.

As mulheres estavam falando em espanhol, tentando explicar por que

elas e seus filhos deveriam permanecer nos EUA.

O juiz não era amistoso.

Algumas das mulheres saíam chorando.

Ele ouviu o juiz chamar seu nome.

— Nico Ramírez.

Brenda o levou até uma mesa na frente e o sentou em uma cadeira

dobrável de metal.

— Brenda Solowicz, representante por gratuidade de Nico Ramírez,

menor estrangeiro desacompanhado.

O juiz disse:

— Pelo que posso verificar, o CRR solicitou essa audiência. — Correto, meritíssimo — respondeu Brenda. — O CRR gostaria de

colocar o sr. Ramírez em uma casa coletiva, até que ele possa ser liberado a um responsável.

— O responsável foi identificado?

— O sr. Ramírez possui uma tia e um tio dispostos a recebê-lo — disse

Brenda —, e eles já deram início ao processo.

Nico assistia, enquanto o juiz olhava para baixo, como se estivesse

lendo algo. Então, o juiz ergueu os olhos e disse:

— Srta. Solowicz, tenho certeza de que a senhorita tem ciência de que

temos um problema aqui. O representante da imigração está presente?

— Aqui, meritíssimo — disse Cody Kincaid.

— O Serviço de Imigração entende que o sr. Ramírez é uma ameaça à

segurança pública?

— O sr. Ramírez tem uma aparente afiliação a uma gangue — disse

Kincaid.

— Conforme…

— Conforme uma tatuagem de gangue — respondeu Kincaid. — Da

Calle 18.

— A senhorita contesta isso, srta. Solowicz?

— Não, Excelência. — disse Brenda. — Mas, meritíssimo, ele é um

menino de dez anos…

— Bem, isso é um palpite, não? — interrompe o juiz. — Não temos

nenhuma documentação que comprove a idade dele. Ele pode ter treze, quatorze…

—… pesa 24 kg e estava encharcado…

— Isso é uma piada de mau gosto, srta. Solowicz?

— Não, meritíssimo.

— O sr. Ramírez fala inglês? — perguntou o juiz. — Imagino que isso seja pedir demais.

— Ele não fala, meritíssimo.

— Temos um tradutor?

— Meritíssimo? Sou Alma Baez, sou assistente de caso do sr. Ramírez — apresentou-se Alma. — Posso traduzir.

— Que bom vê-la de novo, srta. Baez — disse o juiz. — Deixe-me falar com o sr. Ramírez. Bom dia, Nico. Não há o que temer, Nico. Eu só vou lhe fazer algumas perguntas e você apenas responde honestamente. Você é membro da Calle 18?

— Não.

— Então, por que tem uma tatuagem da Calle 18?

— Eles me obrigaram.

— Quem o obrigou?

Brenda disse:

— Se me permite, meritíssimo…

— Não, não permito — disse o juiz. — Eu estou falando com o sr. Ramírez e ele pode responder.

— Foi Pulga que me tatuou.

— Por que você deixou?

— Ele falou que ia machucar minha mãe.

— Por que você veio para os EUA?

— Para não ter que entrar para a Calle 18 — respondeu Nico.

— Mas você não tem medo de que eles machuquem sua mãe por você ter ido embora? — perguntou o juiz.

— Sim.

Nico viu o juiz pensando, por alguns minutos. Então, o juiz falou:

— Agente Kincaid, qual é o pleito do Serviço de Imigração, nessa questão?

— Nós preferimos que o sr. Ramírez seja enviado a uma instituição de guarda.

Brenda disse:

— Meritíssimo, segundo a Decisão de Flores, um MED deve ser mantido numa instituição que seja “menos restritiva possível” e isso seria uma casa coletiva, não uma instituição de guarda.

— Não preciso que me instrua sobre Flores — retrucou o juiz. — Nem

me recordo de ter lhe dirigido uma pergunta.

— Peço desculpas, meritíssimo.

O juiz disse:

— O sr. Ramírez expressou medo de que um membro próximo de sua

família esteja vulnerável a uma gangue criminosa e, portanto, ele pode ser objeto de extorsão ou chantagem, por aquela organização, aqui nos EUA. Desta forma, ele representa, sim, uma ameaça, e eu vou negar o pedido de transferência a uma casa coletiva. O sr. Ramírez será abrigado em uma instituição de guarda, na pendência do resultado de seu processo tutelar, data em que seu status será revisto.

— Mantendo o direito de entrar com uma apelação no Quadro de

Imigração, meritíssimo.

— Claro, srta. Solowicz. Próximo caso?

Lá fora, Brenda disse:

— Merda, se Jesus Cristo viesse tatuado hoje em dia, ele seria uma

ameaça.

Nico não fazia ideia do que tinha acontecido.

— Onde você vai colocá-lo? — perguntou Alma.

Donna só tinha duas opções: uma instituição no nordeste da Califórnia,

e uma no sudeste da Virgínia.

— Vou tentar colocá-lo na Costa Leste, um pouquinho mais perto da

família. Talvez eles possam vir de carro, para visitá-lo.

Ela teve que ligar para os tios de Nico e avisar que o governo o enviaria

para um centro de detenção juvenil.

— Olhe, espero que ele não precise ficar lá por muito tempo. Um ou

dois meses…

— Um mês?!

— Essas coisas levam tempo, sr. López — disse Donna. Mas era o

desperdício de tempo que a preocupava. O sistema era como areia movediça; quanto mais tempo alguém fica dentro, mais fundo entra, e mais difícil é de sair. Ela conhecia crianças que ficavam no sistema durante anos. — Gostaria de falar com ele? Ele está bem aqui fora.

— Sim, por favor.

Ela saiu ao corredor, onde Nico aguardava em um banco.

— Estou com seu tio, no telefone.

Nico seguiu a mulher para dentro do escritório e ela lhe entregou o telefone.

— Alô?

— Sobrino, como vai você? Está bem?

— Sim.

— Estamos tentando entrar em contato com sua mãe.

— Está bem.

— Seja forte, Nico.

— Está bem.

Nico devolveu o aparelho.

López já tinha desligado.

— Nico — disse Donna —, em alguns dias, nós vamos levá-lo para um lugar novo, onde vai ficar enquanto esperamos pra ver se você pode ir morar com seus tios, está bem?

— Está bem.

E é assim, pensou Donna, que se conta a um menino de dez anos que ele vai para a cadeia.

Naquela noite, ela ficou meio altinha, no Garcia’s, com Alma. Brenda também estava lá, quando Donna bateu com a mão na mesa e disse:

— Ele é uma criança, pelo amor de Deus!

Brenda olhou para ela, por cima da garrafa de cerveja.

— Ah, Donna — disse ela —, aqui não há crianças.

Agora, Nico senta encostado na parede do salão do Centro Juvenil de Detenção do Sudeste da Virgínia, olhando os outros garotos jogando damas, nas mesas presas ao chão.

É bom que estejam presas, pensa Nico, porque assim que Fermín perder, o que está prestes a acontecer, ele viraria a mesa, se pudesse.

O mesmo com as banquetas. São todas presas no chão.

Até o tabuleiro de damas é preso na mesa, para não ser usado como arma.

A mesa não vai a lugar nenhum, as banquetas não vão a lugar nenhum, o tabuleiro não vai a lugar nenhum, e eu também não vou a lugar nenhum, pensa Nico.

Já faz quase um ano que ele está ali.

No começo, era novidade.

Começou com seu primeiro passeio de avião, que foi incrível. Ele foi

com um “acompanhante” que o deixou sentar na janela, e Nico olhava para fora e via o mundo de uma altura de dez quilômetros.

Era lindo.

Mas assim que eles deixaram o aeroporto, o acompanhante o algemou. Desculpe, eram as regras.

Mas ele deu uma “folga” a Nico e o algemou na frente, não nas costas, e

o ajudou a colocar o cinto de segurança e eles pararam no drive-thru do McDonald’s, para que Nico comesse um Big Mac e tomasse uma Coca, que ele segurou entre as pernas e bebeu com o canudo.

Quando eles chegaram à “instituição”, foi bem parecido com a outra

vez. Primeiro, eles o levaram até uma enfermeira que o pesou, mediu sua temperatura, olhou em sua boca e ouvidos, e eles o levaram ao chuveiro, depois lhe deram mais roupas e lhe mostraram seu quarto. No caminho, eles passaram pelo salão de recreação diurna, onde todos os outros garotos se calaram, pararam o que estavam fazendo e ficaram olhando para ele.

Carne fresca.

Ele subiu as escadas e foi até o bloco onde ficava seu quarto, colocou na

cama a toalha que lhe deram e sentou.

Agora Nico espera a explosão de Fermín.

Fer não gosta de perder e é temperamental.

Por nada, ele estoura.

Nico já o viu explodir porque acabou o suco de maçã, porque alguém

mudou de canal e tirou do Property Brothers (Fer adora Property Brothers), e porque um garoto o chamou de Sally, por ele ser de El Salvador.

Isso é quando Fer tem motivo.

Às vezes, ele explode sem motivo algum, exceto pelo que está se

passando dentro de sua cabeça, e que Nico nem quer saber o que é.

Pelo menos, os ataques vespertinos de Fer oferecem um pouco de

diversão, pois os guardas vêm, o agarram e o levam para tomar seus remédios, até que ele fique quieto. Às vezes, eles colocam uma rede em seu rosto, para que ele não morda ninguém. É um negócio incrível de se ver, melhor que Property Brothers, e mata tempo, antes de People’s Court, que todos eles gostam de ver, por causa da juíza, que é linda e latina, e não aceita desaforo de ninguém. Fer começou a bater com a cabeça na parede quando Carlos lhe disse que a juíza era cubana, não salvadorenha.

Agora, as cabeçadas vão começar de novo, porque Santiago está prestes a comer quatro das peças de Fer. Nico sabe disso, porque vê a expressão no rosto de Santi, e o sorrisinho malicioso que ele sempre dá pouco antes de vencer em alguma coisa.

Fer faz sua jogada.

Santi come três pedras e diz:

— Agora ganha.

É, isso não vai acontecer, pensa Nico.

Acontece o que Nico acha que vai acontecer — Fer espana todas as pedras do tabuleiro, começa a pular, vai até a parede de cimento e dá cabeçadas. Ninguém tenta impedi-lo, porque todos já aprenderam que se alguém tentar impedir as cabeçadas de Fer, ele simplesmente bate com a cabeça da outra pessoa na parede, e, de qualquer jeito, um dos jogos deles é ver quanto tempo demora até que os guardas venham.

Desta vez foram oito cabeçadas, então, o guarda que eles chamam “Gordo” vem correndo e grita:

— Meu Deus, Fermín, o que a parede lhe fez?

Fer está ocupado demais entoando “Eu sou tão burro” — pôu — “eu sou tão burro” — pôu — para responder, e Gordo lhe dá um abraço de urso e o ergue do chão, e o afasta da parede, quando dois dos outros guardas chegam (Chapo e Feo), atracam Fer pelos pés que chutam e carregam o garoto aos gritos para fora da sala de recreação.

Santi sorri e diz:

— Lá vai o Fermín, pra ganhar umas boas drogas.

Então, é hora de People’s Court, e todos eles sentam e assistem à televisão presa no alto da parede.

— Hoje eu vou bater uma punheta pra ela — diz Jupiter.

— Não diga isso — fala Nico.

Ele adora a juíza Marilyn.

Ele tem uma mega paixão pela juíza Marilyn.

— Mas eu vou — insiste Jupiter, fazendo um gesto de masturbação, com a mão. Ele tem dezessete anos e é grande e não dá a mínima para o que diz um anão como Nico. — Vou bater uma punheta pensando em meter na boca dela e na chocha.

De repente, Nico ouve a si mesmo gritando:

— Não diga isso! Você não vai!

— Vou chupar que nem melancia.

E todos ficam chocados, chocados mesmo, quando o tranquilo, tímido e

agradável Nico se joga sobre Jupiter, batendo os punhos loucamente, tentando acertá-lo, no alto. Jupiter não se importa com o quanto Nico é menor, ele recua e lhe dá um soco no nariz.

Isso não o detém.

Com o sangue escorrendo no rosto, Nico continua socando até que

Jupiter o agarra e bate contra o chão, então senta em cima dele, dando socos nas costelas e no rosto.

Os guardas vêm correndo e puxam Jupiter de cima dele. — Meu Deus — diz Gordo, ao pegar Nico e carregá-lo para fora —, o

que deu em vocês hoje?

Nico ouve a si mesmo gritando:

— Eu vou matar você! Vou matar você, porra! — Você não vai matar ninguém. Acalme-se.

Gordo o leva até uma das “salas de recuperação”, um retângulo estreito

com uma cama e uma porta com tranca.

A enfermeira chega. Limpando o sangue do nariz de Nico, ela diz: — O que está acontecendo? Você é sempre um menino tão bacana. Nico não responde.

— Seu nariz não está quebrado. Você está machucado em algum outro

lugar, meu bem?

— Não.

— Certo, você terá que conversar com o conselheiro, antes de voltar pro

salão — informa a enfermeira.

O conselheiro, um cara jovem chamado Chris, entra alguns minutos

depois e senta na cama, ao lado de Nico.

— Quem bateu em você?

Nico sacode os ombros.

— Você não sabe quem bateu em você?

— Não.

Nico aprendeu algumas coisas ali. Uma delas é que “delator vai sentir

dor”. A pior coisa que se pode ser é um dedo.

Chris ri.

— Nico, você sabe que há câmeras no salão de recreação. Você sabe que

nós temos tudo gravado.

— Então, olhe a gravação — diz Nico.

— Eu olhei — responde Chris. — Foi você que começou a briga. Por quê?

Nico está constrangido demais para repetir o que Jupiter falou sobre a juíza Marilyn e constrangido demais para admitir seus sentimentos por ela. Então, ele vai por outro caminho.

— Se você já sabe o que aconteceu, por que está me perguntando o que aconteceu?

Ele sabe a resposta para essa pergunta: a equipe já está farta de Jupiter e gostaria de uma chance para reclamar formalmente. Nico também não gosta de Jupiter — ele é um babaca — mas sabe de que lado está, e não vai ajudá-los.

— Eu só estou lhe dando uma chance de contar o seu lado da história — insiste Chris.

Outra sacudida de ombros.

— Certo — diz Chris. — Acho melhor você passar a noite aqui e deixar isso esfriar. E eu vou lhe dar uma semana de suspensão da sala de recreação. Em vez disso, você vai ficar na sala de estudos. Se quiser questionar sua punição, converse com a Norma.

— Porra nenhuma.

— Olha a linguagem — diz Chris. — Você quer mais um dia?

Chris fica olhando para ele, forçando uma resposta.

— Não.

— Certo — diz Chris. — Você quer ver o conselheiro para saúde mental?

— Não.

— Tem certeza?

— Sim.

Chris levanta e sai, trancando a porta. Nico se aproxima da parede e bate.

— Fer? Você está aí?

— Sim.

— Você está bem?

— Estou.

Ele está com uma voz sonhadora. Santi estava certo, Fermín recebeu, mesmo, umas drogas boas.

— O que você fez? — pergunta Fer.

— Dei um soco no Jup.

— Por quê?

Nico conta.

— Aquele escroto — diz Fer.

— Não é?

— Que punição você pegou? — pergunta Fer. — Uma semana.

— Nada mal.

Não é. Chris poderia tê-lo relatado. Cada relato vai para a ficha, e se a

pessoa tiver uma porção, isso pode atrapalhar sua liberação.

— Até que Chris é legal.

— Canela ainda pode relatar você.

— Espero que não.

— Eu também.

Um pouquinho depois, Gordo vem com uma bandeja: macarrão com

queijo, pão, suco de maçã e um biscoito de aveia. Macarrão com queijo é um dos pratos favoritos de Nico, mas ele gosta de biscoito de chocolate, mais que de aveia. De qualquer jeito, é comida boa.

Depois de comer, Nico se embrulha em seu cobertor, deita e fica

pensando em fútbol.

Eles jogam fútbol na quadra de basquete. Quando os garotos brancos malvados e os garotos negros malvados não

estão jogando basquete, os garotos morenos malvados têm espaço para jogar futebol.

Nico é bom no fútbol.

Nico Rápido faz sua aparição na quadra, sai driblando, passando pelo

meio do time adversário, dá um passe, e entra em um espaço aberto para dar um chute a gol, espaço próximo à cerca definida pelos cones laranja.

Os jogos de fútbol dão algum respeito a Nico. O magrinho é simplesmente bom demais, fazendo alguns garotos se

perguntarem se ele só tem mesmo onze anos, ou talvez treze, quatorze, até quinze. Todo mundo quer Nico em seu time, mas os times costumam ser divididos em linhas nacionais — garotos da América Central contra os mexicanos —, o que também acontece na sala de recreação. Os meninos mexicanos olham com desprezo para os salvadorenhos, hondurenhos e guatemaltecos. Jogam neles a culpa por entrarem escondidos no México e ferrarem as coisas na fronteira com el norte.

Mas ninguém olha Nico com desprezo quando eles estão jogando fútbol, e agora ele joga uma partida, em sua cabeça. Na mente, ele passa a bola para Fer, contorna Jupiter, como se ele estivesse ali parado, recebe o passe de Fer e chuta e… gooooool.

Os outros meninos o abraçam, afagam sua cabeça e gritam “Nico é o Messi!”, enquanto os mexicanos olham feio.

Então, ele pensa em Flor. Fica imaginando onde ela pode estar, se ela está bem. Ele tem uma fantasia de que ela conseguiu atravessar a fronteira e encontrou uma mulher bondosa que a acolheu e a adotou, e agora, ela mora em uma casa grande, limpa, tem belas roupas e frequenta a escola. E que a mulher a está ajudando a procurar Nico, porque ela também quer adotá-lo.

Pela manhã, eles deixam que ele saia para tomar café com o restante dos meninos. Jupiter está lá, mas o ignora, e Nico retribui o favor.

Depois, ele tem que ir ao escritório de Norma.

A supervisora é uma mulher atarracada, de meia-idade, com cabelos ruivos radiantes. Os meninos a chamam de “Canela”.

— Nico — diz ela —, você sabe que nossa política é de tolerância zero para violência.

Nico sabe disso.

Eles têm uma política de tolerância zero para uma porção de coisas: violência, linguagem chula, “desrespeito”, bater punheta, bater punheta em alguém… drogas, a menos que sejam as drogas que eles lhes dão. Exceto pelas drogas, são políticas de tolerância zero para coisas que acontecem o tempo todo.

— Nós simplesmente não iremos tolerar — diz Norma.

— Está bem.

— Você está começando a se meter em problemas — afirma Norma. — Está começando a ter um comportamento atrevido, rapazinho. Eu não quero ver isso.

— Então, não olhe — diz Nico.

— Está querendo que eu escreva um relatório? — pergunta Norma.

— Não.

— Perdão?

— Não, senhora.

— Agora vá para a aula — ordena Norma. — Volte aqui no intervalo e nós veremos se conseguimos falar com seus tios, ao telefone.

Nico quer falar com eles, mas está farto de falar somente ao telefone.

Ele já está ali há quase um ano e eles nunca vieram visitá-lo. Ele sabe que na verdade não é culpa deles — eles não têm carro e custa muito caro vir de avião. Nico acha que também é por outra coisa — eles têm medo de se aproximar das autoridades, pois são “ilegais” e temem ser presos.

Mas eles puseram o endereço no formulário, ao menos foi o que aquela

moça, Alma, disse a ele. Ela ainda é sua assistente de caso, mesmo a longa distância, lá do Texas, e ela diz que Tío Javier e Tía Consuelo preencheram o pedido para a tutela, mas que “ainda estamos todos aguardando” que seja aprovado.

Não, pensa Nico, enquanto segue para a sala de aula, eu é que ainda

estou aguardando.

Como se ele estivesse esperando a tramitação de uma apelação. Alma disse a ele que a outra moça, a advogada Brenda, já apresentou

três apelações indeferidas para mudar seu “status” de ameaça, o que Nico realmente não compreendia, até que Santi lhe explicou:

— Todos nós somos ameaças, güerito — Santi lhe disse —, por isso

estamos aqui.

Trinta garotos, todos hispânicos, moram na unidade, que fica separada

do resto da instituição, onde ficam mantidos os meninos que fizeram coisas ruins na Virginia.

— Se eles acharem que você é membro de gangue — explicou Santi —,

ou um predador sexual, ou se você cometeu crimes…

— Eu não cometi crimes — disse Nico.

— Essa tatuagem no seu tornozelo é um crime — respondeu Santi. Isso é um verdadeiro problema, Nico tem que admitir. Não somente

porque foi a tatuagem que o fez ir parar ali, onde ele está empacado, mas também porque há garotos neste lugar que de fato são membros de gangues, dois deles da Mara 13, e já disseram a Nico que vão matá-lo, se puderem.

— Numa noite dessas, quando os guardas não estiverem olhando —

disse um salvadorenho chamado Rodrigo —, nós vamos entrar no seu quarto, seu 18 pisado, fazer você chupar o pau da gente, depois vamos comer seu cu e cortar o seu pescoço.

E eu é que sou a “ameaça”, pensa Nico. Pelo menos, não há ninguém da

Calle 18 por aqui, porque eles, sim, o matariam por ter fugido, como os 13 que tentaram matá-lo no trem La Bestia.

— Eles falam da boca pra fora — disse Santi — Não têm nada de durões; um deles chora toda noite e o outro molha a cama.

Nico sabe que Rodrigo não é o único que chora à noite, ou molha a cama. Alguns deles acordam gritando, alguns não param de se arranhar, ou de dar cabeçadas na parede. Tem um garoto que nunca fala.

Nunca.

Mudo Juan, como passou a ser chamado, praticamente só fica ali sentado. Ele come, depois vai para a aula, às vezes joga basquete, mas não diz nada.

Ni una palabra.

Mudo Juan é enorme, tem mais de 1,80 m, e deve ter uns cem quilos. Há todo tipo de história a seu respeito, mas ninguém sabe o que é verdade, porque ele, claro, não diz. Algumas dizem que ele simplesmente nasceu assim, outras relatam que viu a irmã caçula ser queimada em um incêndio, outras, que ele teve que assistir à mãe sendo violentada por uma gangue de mareros.

Mudo Juan não conta.

Nico já tentou fazê-lo falar, praticamente transformou isso em missão da vida: fazer Mudo Juan falar alguma coisa. Ele puxa uma cadeira para sua frente e faz perguntas, ou conta piadas, ou xinga de tudo que é nome, diz coisas muito ruins sobre sua mãe, qualquer coisa para arrancar uma reação; porém, nada.

— Desista — Santi disse a Nico.

— Jamais.

Uma vez por semana, toda terça-feira, Mudo Juan vê o “profissional de saúde mental” que passa lá, mas o cara não conseguiu nada melhor que Nico.

Um dia, Nico simplesmente explodiu.

Começou a gritar com Mudo Juan:

— Diga alguma coisa, Mudo! Qualquer coisa! Uma porra de uma palavra! Eu lhe dou qualquer coisa! Vou lhe dar meus doces por uma semana, eu chupo seu pau, se você quiser, mas, pelo amor de Deus, diga alguma coisa!

Santi estava rolando pelo chão, de tanto rir.

Mudo não disse nada.

Nico não desiste.

Então, às vezes, é engraçado ali dentro. Em outras é uma maluquice,

outra vezes é apenas triste, e na maior parte do tempo, é tudo isso junto.

Cada vez mais, vai se tornando só triste.

Nico sente-se triste.

Triste por estar ali.

Triste porque sua tia e seu tio não vêm visitá-lo. Triste por ter falado com a mãe.

Dois dias atrás eles finalmente acertaram a ligação, quando a mãe

conseguiu um telefone, por alguns minutos, e eles conseguiram achar Nico e o trouxeram até o escritório. Ele a ouviu perguntar:

— Nico?

Como se ela não conseguisse acreditar.

— Sim, Mami, sou eu.

— Nico…

Então, ela começou a chorar.

A chorar, chorar, chorar.

Isso foi a maior parte do telefonema: ela chorando, em meio ao soluçar,

ela perguntava se ele estava bem, dizia que o amava, amava muito, ela o amava muito, muito…

— Posso voltar pra casa, Mami?

— Não, m’ijo.

— Por favor, Mami.

— Você não pode, m’ijo, eles vão machucá-lo. — Você pode vir pra cá?

— Eu vou tentar.

— Por favor, Mami.

— Seja um bom menino. Eu te amo.

Foi só. O telefone ficou mudo.

Ele o devolveu a Norma.

— Pronto?

— Sim.

— Já?

— Sim.

Nico sabia que ela não poderia vir para cá, agora ele sabe, sabe que ela

não tem dinheiro e não sobreviveria ao La Bestia. Ele achou que conversar com a mãe o faria se sentir melhor, mas ele só ficou mais triste.

Agora ele segue para a aula.

Inglês como segunda língua.

Nico acha uma loucura que eles estejam ensinando Mudo Juan a dizer nada, em duas línguas.

Esperando, esperando, esperando.

Todos os meninos estão esperando.

Esperando que mude o status de ameaça, esperando que as tutelas sejam aprovadas, ou apenas esperando fazer dezoito anos, quando, como adultos, eles serão colocados em um avião e mandados para o lugar de onde vieram.

Então, eles esperam.

Vão às aulas, jogam damas, jogam cartas, jogam fútbol, assistem à TV, tomam café, almoçam, jantam, falam bobagem, tomam banho, vão dormir, levantam, vão à aula, jogam damas, jogam cartas, jogam fútbol, assistem à TV, tomam café, almoçam, jantam, falam bobagem, tomam banho, vão dormir.

Dia após dia após dia.

A única mudança é quem está esperando, porque a população muda. Um garoto recebe a aprovação de uma tutela e vai embora, outro tem sua condição de ameaça removida e vai para um lar adotivo, outro vai para uma casa coletiva, outro sopra a vela em um cupcake e é levado embora. Alguns que cometeram crimes sérios nos EUA, quando ainda eram menores, fazem dezoito anos e são transferidos para a liga principal: vão para a cadeia nos EUA.

Esses caras ficam mal, ao sair, pensa Nico. Eles tentam bancar os machos, como se estivessem felizes em ir, como se não fosse grande coisa, mas Nico vê que eles estão amedrontados.

— Ele tem que estar — diz Santi, observando um deles sair. Vai haver uma fila para foder com ele. Como mexicano, ele terá que fazer alianças para sobreviver, o que significa que ele será sureño ou norteño e, independente do que escolher, a outra gangue virá atrás dele. — Ele está totalmente fodido.

Santi sabe que só está matando tempo até fazer dezoito anos, porque ele não tem nenhuma chance de ser reclassificado ou de receber uma tutela. Ele é uma ameaça porque foi traficado sexualmente e, quando o médico americano perguntou se isso o deixara zangado, e se ele queria vingança, ele disse que sim, para as duas coisas.

— Eles acharam que isso significava que eu queria foder algum

garotinho — diz Santi —, e eu expliquei que não, que eu quero matar as pessoas que me foderam.

Ele deu uma olhada em seu arquivo e viu que dizia “Desvio sexual com

tendências homicidas”.

— Por isso, eu não vou a lugar nenhum — diz Santi —, até que me

mandem de volta. Até que façam isso, eu vou aproveitar, Nico. A maioria dos idiotas daqui não percebe o que nós temos: uma cama, comida, roupas, chuveiro… uma privada limpa, porra? Televisão de tela plana? Doces? Ora, vamos, mano.

Santi ganha um monte de doces.

Ele é o campeão dos jogos de tabuleiro do Centro Juvenil de Detenção

do Sudeste da Virgínia e derrota todo mundo no xadrez e nas damas, ganhando seus Skittles, biscoitos, M&Ms, suas barras de Snickers. Santi está literalmente engordando, em um centro de detenção, e usa esses ganhos para apostar em qualquer coisa — fútbol na quadra, jogos de fútbol na televisão, para qual lado o juiz vai decidir.

O que Nico não entende é como Santi sempre convence os outros caras a

jogar, ou apostar. Eles quase sempre perdem, mas jogam mesmo assim. Santi consegue fazer até Mudo Juan jogar xadrez, e aposta que o juiz vai apontar o dedo para o reclamante ou para o réu.

— Sabe do que eu gosto no Mudo Juan? —perguntou a Nico. — Quando

perde, ele nunca reclama.

E Santi finalmente explicou a Nico como ele envolve os caras. — Tem a ver com a esperança, Nico. A maioria desses garotos espera

por coisas que, no fundo do coração, eles sabem que jamais terão. Eles esperam que seu status seja mudado, esperam ficar sob a tutela de alguém, esperam viver felizes para sempre nos EUA. Eles sabem que nada disso vai acontecer. Mas sempre têm a esperança de derrotar Santi. Isso também não vai acontecer, mas eles esperam. Eu dou esperança a eles, Nico.

Fermín é a vítima mais fiel de Santi.

Ele sempre joga e sempre perde.

Fer tem uma habilidade sinistra de escolher perdedores, e Nico tentou

discutir a lógica disso com ele.

— Talvez se você fizesse sua escolha — disse Nico — depois apostasse

ao contrário.

— Por que eu faria isso?

— Porque você sempre escolhe errado e perde — respondeu Nico. — Então, se você for ao contrário, vai escolher certo e ganhar.

Santi assistiu a essa conversa com uma condescendência divertida.

— Pode se esbaldar, Nico. Isso não faz diferença.

— Por que, não?

— Será que você não entende? — disse Santi, calmamente. — Ele quer perder. Isso lhe dá motivo para bater com a cabeça na parede.

— Isso é verdade, Fer?

— Não! Eu quero ganhar!

— Ele nunca ganha — diz Santi — e nunca vai ganhar.

— Sim, vou sim.

— Vamos fazer uma coisa — propõe Santi —: por um Snickers, sem que eu sequer ouça o caso, você escolhe o réu ou o reclamante, e eu escolho o outro.

— Apenas jogue uma moeda — disse Nico.

— Ele vai perder isso também — responde Santi. — Então, que tal, Fer? Um Snickers?

— Tá valendo.

— Fer!

— Cale a boca, Nico — disse Fer.

Ele escolheu o réu.

Caso encerrado. A juíza escolheu o reclamante.

Fer entregou a Santi seu Snickers e foi bater a cabeça na parede, até que Gordo veio e o levou embora.

— Fiz um favor pra ele — afirmou Santi. — Ele recebeu tudo o que queria: umas boas bordoadas na cabeça e boas drogas.

E assim vai.

Dia após dia.

O próprio Nico se torna um veterano.

Ele vê garotos chegando, vê garotos partindo.

Torna-se muito útil à fresca, carne nova. E os acompanha dando instruções e dicas sobre os funcionários — com quem você pode se dar bem, quem você deve evitar —, dá o mesmo tipo de dicas sobre os outros garotos.

Alguns lhe dão ouvidos, outros não.

Nico não se importa.

Santi adora carne fresca.

— Eu não os vejo como nojentinhos novatos que fodem tudo. Vejo

como doces, como Snickers.

Na verdade, é Nico quem surge com o que a equipe chama de

“Fermíngate”.

Nico está sentado junto à cerca, dando uma descansada, antes de voltar

ao jogo de fútbol, quando ele diz a Santi:

— E se Fermín o derrotasse, no jogo de damas? — E se Becky G chupasse você? — pergunta Santi. — Pensa só — diz Nico. — Todo mundo apostaria em você, mas então

eu aposto meus doces no Fermín. Pense nas apostas que poderíamos ganhar. Você perde e nós limpamos tudo.

— Todo mundo ia logo notar.

— A fresca, não.

— Você tem consciência de que é fraude, o que você está sugerindo —

diz Santi. — Moral e eticamente repreensível.

— Sim.

— Tô dentro.

É preciso algum preparo, pois todos sabem que Nico e Santi são cerotes.

Então, eles encenam um pequeno desentendimento, na sala de recreação. Nico está tentando fazer Mudo Juan falar, dizendo coisas horríveis sobre sua mãe e um bode.

— Por que você não o deixa em paz? — pergunta Santi. — Por que você não cuida do que é da sua conta? — retruca Nico. — Isso é da minha conta — diz Santi. — Você está me irritando. O salão todo começa a prestar atenção. Os meninos erguem os olhos do

que estão fazendo, ou se afastam da televisão. É algo diferente — Nico e Santi são amigos, e nenhum dos dois é agressivo, apesar do ataque de Nico por causa da juíza Marilyn.

— E daí? — pergunta Nico.

— Pare com isso.

— Então, me faça parar.

Santi levanta e vai até ele, mas não tão rápido, para que Gordo possa

entrar entre os dois.

— Podem parar.

— Ele está perturbando o Juan.

— Desde quando ele não perturba o Juan? — pergunta o Gordo. —

Volte para o seu lugar. Assista à TV.

Santi lança um olhar maldoso a Nico, depois volta para seu lugar.

Nico volta à história da mãe de Juan e do bode.

Em minutos, se espalha a notícia de que Santi e Nico estão se desentendendo. Eles dão corda — se olham feio no corredor, dão trombadas mais agressivas no jogo de fútbol.

Dois dias depois, Fermín desafia Santi para um jogo de damas.

— Dois Snickers — diz Fermín.

Quando Santi aceita, Nico diz:

— Eu quero um pedaço.

— Um pedaço do Snickers? — pergunta Santi.

— Um pedaço da aposta — explica Nico. — Vou apostar no Fermín.

— Você está maluco? — diz um garoto chamado Manuel. — Fermín sempre perde.

— Você quer apostar? — pergunta Nico.

— Sim!

— Certo, mas você me dá a vantagem pelo improvável — diz Nico. — Fermín tem que ser, o que, uma em um milhão? Quero três por um.

— Se Fermín ganhar, você ganha três Snickers — diz Manuel. — Se Santi ganhar, eu ganho um.

— É isso que significa três por um, gênio.

— Está bem.

Isso logo se espalha. Até a hora em que o jogo começa, Nico já arrebanhou onze apostas de três por um, em Fermín. Surge só um tropeço…

Rodrigo diz:

— Espere um segundo…

Nico teme que Rodrigo tenha farejado a farsa.

Então…

—… Nico tem todos esses Snickers pra cobrir essas apostas? — pergunta Rodrigo.

— Se eu perder — diz Nico.

— Ah, você vai perder — afirma Santi.

— A gente faz o seguinte — propõe Nico —, eu levo um soco na barriga, por cada Snickers que eu não tiver.

— Ah, eu aceito o soco — diz Rodrigo.

Nico rapidamente faz a matemática — se ele perder, vai levar dez socos na barriga. Mas, se eu ganhar, pensa ele, Santi e eu teremos 33 Snickers. Que podem ser trocados por outros bens e serviços, ou emprestados a juros.

Nós podemos ficar ricos.

Vale o risco.

Começa o jogo.

Todos no salão de recreação estão assistindo, até os que não apostam. Primeiro, Santi joga um jogo arriscado, fazendo seus movimentos

habitualmente ousados, e Fermín… bem, Fermín comete erros que só podem ser descritos como “Fermínescos”. Parece uma partida habitual entre Santi e Fermín, e os garotos começam a provocar Nico, gemendo e já saboreando seus supostos Snickers, Rodrigo dando socos no ar, fingindo golpes cruéis na barriga.

Nico mantém a encenação, com uma expressão de ansiedade e

arrependimento.

— Eu vou bater em você com tanta força — diz Rodrigo a Nico — que

até sua mãe vai sentir.

Nico deixa passar.

Então, o jogo começa a virar.

Santi move uma pedra e Fermín come duas das suas. Uma onda de

dúvida percorre a sala.

Dando de ombros, Santi faz outra jogada.

Fermín come outra peça dele.

— Mas que porra? — pergunta Rodrigo.

Santi recosta na cadeira, parecendo perplexo. Então, ele se inclina à

frente e se empenha no que seria um implacável contra-ataque, para terminar o jogo.

Por pouco.

Por pouco demais, pensa Nico. Por duas vezes, Santi quase ganha o jogo, enquanto se esforça para dar

aberturas que até Fermín consegue ver, fazendo armadilhas que até Fermín consegue evitar.

Não é fácil.

O habitualmente inabalável Santi começa a suar. Nico também.

Então, ele ouve Fermín dizer:

— Pode me ganhar.

Acabou. Fermín ganhou.

Em um gesto dramático, Santi espana todas as peças de cima da mesa.

— Merda!

— Fermín, você ganhou! — grita Nico.

Fermín quase não consegue acreditar. Ele fica sentado olhando o tabuleiro e ouve os xingamentos atrás.

Por ter ganhado.

— Todos me odeiam — ele diz baixinho. — Todos me odeiam porque eu sou tão imbecil. Um imbecil do caralho.

Ele vai até a parede.

Pôu, pôu.

Nico nem percebe, ele está ocupado demais recolhendo Snickers e insultos. Alguns garotos não podem pagar, então, ele os faz escrever promissórias.

— Mas você sabe que terá juros, certo?

— O quê?

— O que foi, güerito, você acha que os Snickers são de graça? — pergunta Nico. — Tempo é dinheiro, cara. Você paga amanhã, deve quatro, paga no outro dia, deve cinco…

— Como você vai recolher? — pergunta Santi , mais tarde.

— Hã?

— Se algum garoto mandar você se foder, disser que não vai pagar — diz Santi. — Como vai obrigá-lo a pagar? Ninguém tem medo de você, Nico.

Santi tem razão.

Nico é o menor garoto dali, e sua briga com Rodrigo não teve nada de impressionante. Ele pensa nesse problema por um minuto, depois vai até Mudo Juan.

— Mudo — diz ele —, se alguém me causar problema, você cuida disso e eu lhe dou um Snickers. Está entendendo? Só balança a cabeça.

Mudo assente.

— Então, negócio fechado?

Mudo assente outra vez.

— Certo — diz Nico. — Aqui estão duas barras, de sinal. Pode considerar um gesto de boa-fé.

Santi fica observando essa transação. Quando Nico volta, ele diz:

— Se você ficar aqui tempo suficiente, você e eu seremos donos deste lugar.

Rodrigo vê os dois conversando.

E fica indignado.

Com sangue nos olhos, ele diz para Santi:

— Você trapaceou naquele jogo. — A expressão magoada de Santi

poderia enganar até uma freira. Mas não engana Rodrigo. — Vocês dois, seus putinhos. Quero meu Snickers de volta.

Nico sorri para ele.

— Diz isso pro Mudo.

Tá. Rodrigo não diz merda nenhuma ao Mudo. Assim como o restante, ele viu Mudo, em uma rara ocasião em que ele

ficou zangado, partindo um rodo ao meio, só com as mãos.

Não foi partindo na perna, foi só com as mãos. Rodrigo estreita os olhos para Nico.

— Eu vou matar você, seu putinho. Dessa vez, não vou ficar de

sacanagem, eu vou mesmo matar você.

Mas ele vai embora.

— Foda-se ele — diz Nico.

Agora que seu amigo Davido se mudou para a cadeia de verdade,

Rodrigo não está tão mau.

Isso é o começo do “Fermíngate”.

O assunto surge no dia seguinte, na reunião em grupo, quando Chris diz: — Eu estou sentindo uma tensão no ar. O que está acontecendo? Ninguém diz nada.

Porque delatores…

Mas Chris está sacando.

— Isso teria algo a ver com o lote impressionante de doces que Ramírez

tem em seu quarto? Vocês andaram apostando? Porque vocês sabem que isso é proibido.

Nada.

Mas alguém deve ter dito algo — provavelmente um dos frescas —,

porque Canela chama Nico e Santi em seu escritório.

— Vocês têm algo que queiram me dizer?

— Como a senhora é bonita? — ironiza Santi. — Porque se me contarem — diz ela —, antes que eu descubra, será

melhor pra vocês.

Eles não falam nada.

— Que seja — diz Canela. — Vou entrevistá-los separadamente e garanto que um dos dois vai falar.

Ela começa com Nico.

— Onde foi que você arranjou os doces?

— Os garotos me deram.

— Por quê?

— Porque eles são legais.

— Isso não teria nada a ver com o jogo de damas — pergunta Canela — entre Santi e Fermín?

— Eu não sei.

— Tem gente dizendo que vocês trapacearam.

Nico dá de ombros.

— O negócio é o seguinte, Nico — diz ela. — O primeiro de vocês que falar não vai ter relatório. O outro vai. Você acha que Santi vai lhe dar cobertura?

Nico não acha, ele sabe. Santi não tem nada a perder, por mais relatórios que ele receba. Santi não vai a lugar nenhum e, mesmo que ele quisesse ir, jamais entregaria Nico. Assim como Fermín jamais o entregaria, ou mesmo Mudo, se pudesse.

Eles são irmãos.

Companheiros veteranos de detenção.

Eles são unidos, ela não vai separá-los.

Não foi por falta de tentar — Canela manda chamar praticamente todos os garotos da unidade, mas até chegar à fresca, ela já descobriu que eles não falam. Ela manda chamar Rodrigo, Fermín, chama até o Mudo, e nenhum deles fala nada.

Canela não consegue nada, então, acaba desistindo.

Nico e Santi transformam a farsa em uma pequena fortuna em doces, sacos de salgadinhos, refrigerantes e todo tipo de porcaria. Eles nem arrumam mais suas camas — quem faz isso é um garoto que está com o pagamento atrasado —, não lavam mais suas roupas sujas. Na hora da merenda, eles furam a fila, e escolhem ao que vão assistir na TV.

E é um negócio que se perpetua, porque os outros garotos fazem qualquer tipo de aposta imbecil, para tentar ficar quites.

— É outra desilusão humana —explica Santi a Nico. — Assim como a esperança. As pessoas querem ficar quites, acham que conseguiriam, e vão se afundando cada vez mais.

Santi é muito inteligente.

Ele bota os garotos para apostar, não contra ele e Nico, mas uns contra

os outros, com Santi e Nico no papel de banco. Os dois meninos pagam os ganhadores e recolhem uma taxa dos perdedores. Com grande frequência, o perdedor não tem como pagar, então, eles acabam emprestando as coisas, a juros.

— Assim — diz Santi —, nós ganhamos em todas as apostas. Isso é um

fato que minha avó me ensinou: a banca sempre ganha.

Santi está certo, como sempre.

Eles são os donos do lugar.

Isso tem que acontecer.

Tem que acontecer.

Se trinta garotos adolescentes são trancados em um lugar, cedo ou tarde

vai acontecer um concurso de mijada.

Poderia ser pior.

A ideia original era um concurso de punheta.

— Isso não vai dar certo — explicou Santi. — Quem ganha? O garoto

que gozar primeiro? Quem gozar por último? Quem gozar mais? Como julgar isso? Com o mijo, nós temos uma medida métrica padrão: a distância. É mensurável.

— Quem será o juiz? — pergunta Rodrigo.

— Já que eu e Nico não vamos competir — diz Santi —, nós seremos. — Então, vocês não podem apostar — diz Rodrigo. — Isso — confirma Nico.

Rodrigo é muito lerdo.

Fermín pergunta:

— Onde vamos fazer?

— Nos chuveiros — diz Santi —, pra gente poder lavar as provas

depois.

Eles combinam as regras: cada concorrente tem que entrar com cinco

doces, que serão guardados por Santi e Nico. O vencedor leva tudo. Nenhuma aposta paralela é permitida — alguém pode queimar a largada, “deixando escapar”. Você só pode apostar em si mesmo, embora os garotos com pau maior tenham permissão para especular.

— Tamanho do pau não está necessariamente ligado à potência do jato

— diz Santi.

— Como você sabe? — pergunta Nico.

— Você acha que esse é meu primeiro concurso de mijada?

No dia seguinte, os funcionários ficam intrigados com a quantidade de suco e refrigerante que os garotos estão tomando, além de irem ao bebedouro que nem camelos.

Chris percebe.

— Concurso de mijada.

— Eu vou cortar — diz Gordo.

— Não, não faça — diz Chris. — Tem mil coisas ruins que eles poderiam fazer. Isso é relativamente benigno.

— Você sabe que eles estão apostando.

— Isso tira a cabeça deles de outras coisas — diz Chris.

— Que coisas?

— Você está brincando? — pergunta Chris. Coisas pequenas, como não saber onde vão morar, ou onde estão suas famílias, se serão mandados de volta àquela merda que os fez arriscar tudo para fugir. — Apenas encontre algum lugar pra ir, enquanto eles estiverem fazendo o concurso.

— Nós vamos simplesmente deixá-los mijar na sala de banho?

— Você nunca mijou no chuveiro, Gordo? — pergunta Chris. — Diga a verdade.

Naquela noite, treze concorrentes se enfileiraram em uma sala de banho bem lotada. Alguns estavam pulando, de tão apertados, segurando o xixi a noite toda. Outros trocavam de uma perna para outra.

— Prontos?! — grita Nico.

Eles estão mais que prontos.

— Pau pra fora!

Eles botam.

— Vai!

Treze jatos de urina fazem arcos na sala de banho. Santi, de óculos escuros (preocupado com respingos), está agachado a alguns palmos de distância.

A urinação em massa para.

Santi agora está de quatro. Ele cuidadosamente engatinha pelos ladrilhos olhando abaixo, com intensa concentração.

Então, ele levanta.

O ambiente está em silêncio.

Então, Santi diz:

— Temos um empate.

É uma decisão impressionante.

— Na faixa cinco — diz Santi —, nós temos Manuel, e na faixa onze,

Mudo Juan! Os dois empataram!

Começa a controvérsia. Os garotos correm para verificar as manchas.

Eles discutem, os mexicanos defendendo seu garoto, Manuel, os meninos da América Central defendendo Mudo Juan. Santi espera todo mundo esfriar um pouco a cabeça, depois fala acima da confusão:

— A decisão do juiz é final! A questão é: o que faremos agora? Alguns garotos dizem que eles devem dividir os ganhos igualmente,

entre Manuel e Mudo. Santi tem uma ideia melhor.

— Esse foi um torneio em que o vencedor leva tudo, portanto, tem que

ser um único ganhador. Só há uma coisa a fazer: um desempate, Manuel versus Mudo.

— Isso mesmo! — grita Nico.

— Por que vocês que têm que decidir? — pergunta Rodrigo. — Porque nós somos a Comissão de Apostas do Centro Juvenil de

Detenção do Sudeste da Virgínia — responde Santi.

— Por que vocês? — questiona outro garoto.

— Você sabe o que é uma comissão de apostas? — pergunta Santi. — Não.

— Esse é o motivo.

Santi explica as novas regras. Em dois dias (para dar às bexigas uma

chance de descansar), Manuel e Mudo ficarão cabeça a cabeça (como foi da primeira vez), e o ganhador leva o bolão que já foi juntado. Todos podem apostar no resultado — uma aposta direta, sem especulação —, todas as apostas serão feitas através da Comissão de Apostas do CJDSV.

— E se der empate outra vez? — pergunta um dos garotos. Santi não tinha pensado nisso. Ele analisa por alguns segundos e dá sua

decisão:

— Então, nós partimos para um concurso de punheta. Ganha quem

gozar primeiro.

— Eu me sinto o Dana White — diz Santi, quando o grupo se dispersa. — Deu empate, mesmo? — pergunta Nico.

— Ora, vê se cresce. — Mudo ganhou por meio centímetro, explica

Santi. Mas agora eles ganham uma porcentagem da nova rodada de apostas, que serão pesadas, e… — Precisamos apostar tudo o que temos no Mudo.

— Não podemos apostar. Nós somos juízes.

— A gente aposta através do Fermín.

— Tudo? — pergunta Nico. — Temos tanta certeza de que o Mudo vai ganhar?

— Ele tem um pau de cavalo.

— Mas você disse que não tinha…

— Eu sei o que eu disse. Aquilo foi um subterfúgio.

A empolgação nos dois próximos dias é intensa, conforme os garotos mexicanos ficam atrás de Manuel e os da América Central apoiam Mudo, os professores percebem um súbito interesse em hidrofísica entre os alunos, e os funcionários que monitoram a utilização da internet veem muitas buscas no Google do tipo “que líquidos provocam mais xixi?”.

— Tem tudo a ver com a trajetória —diz Santi baixinho, orientando Mudo. — Você tem que encontrar a trajetória precisamente correta. Se mirar alto demais, ou baixo demais, você perde distância.

Mudo assente.

— Qual é a melhor trajetória? — pergunta Nico. — Você sabe?

— O Yahoo diz que é de 45 graus.

— Entendeu, Mudo? — pergunta Nico. — Quarenta e cinco graus.

Nico está preocupado, sua fortuna arduamente conquistada depende de Mudo conseguir a trajetória certa. E na escolha do líquido certo.

— Água — diz Santi. — Nada de refrigerante, o gás deixa o pau lento e faz você mijar pra baixo.

— É mesmo? — pergunta Nico.

— Experimente. Eu experimentei. — Santi olha de volta pro Mudo. — E nada de punheta. Guarde para o caso de chegar ao desempate. Você tem em quem pensar?

— Ele não vai responder, Santi.

— Tudo bem. É melhor que ele guarde tudo lá dentro — diz Santi. — Contanto que você tenha alguém, Mudo. Pense nela, mas não goze. Assim, quando chegar a hora, bum! vai com tudo.

— Eu ouvi falar que Manuel vai com a Katie Barbieri — comenta Nico.

— Aquela asquerosa? — falou Santi. — Já ganhamos. Mas não vai chegar a isso, você vai ganhar no mijo.

— E, lembre-se — diz Nico —, você tem a honra de toda a América

Central atrás de si. Um continente inteiro.

— Acho que não é — retruca Santi.

— Claro que é — diz Nico. — América do Norte, América do Sul,

América Central.

Canela está prestes a acabar com a farra. De jeito nenhum os trinta

adolescentes empolgados manterão esse negócio em silêncio, e isso a incomoda. Ela manda Chris pôr um fim nisso, já.

— Eles estão abusando de Juan.

— Isso é uma maneira de ver a coisa.

— Há outra maneira?

— Claro — diz Chris. — Que nós temos um garoto que é basicamente

catatônico, nunca conseguimos penetrar na mente dele, e agora Nico e Santi…

— Meyer Lansky e Lucky Luciano.

— Esses são gângsteres?

— Sim.

— Eles o puseram para participar de algo — diz Chris. — De algo nojento.

— Eles são meninos adolescentes — lembra Chris. — Já são

naturalmente nojentos. E isso está tornando Juan o centro das atenções.

— Eles o estão usando como objeto de diversão. — Essa é a nossa projeção — pondera Chris. — E nós sabemos que

Juan não faz nada que não queira. Deixe-os, Norma. Deixe que eles se safem com alguma coisa, que pensem que estão nos enganando. Esses garotos não têm muitas vitórias.

— Não é pra isso que eles estão aqui.

— Não — concorda Chris. — Eles estão aqui para que o município

possa faturar pela estadia deles. Eles é que bancam o restante desta instituição.

— Isso não é justo.

— Eu não poderia concordar mais — diz Chris. — Ora, vamos, Norma. Depois de alguns segundos, ela pergunta:

— Em quem você vai apostar?

— Juan — diz Chris. — Uma cerveja com Gordo. — Que muquirana.

Chris dá de ombros.

— Aumente nosso salário.

— Não posso.

Chega o grande dia. Os nervos são palpáveis. Os garotos prestam ainda menos atenção na aula, jogam fútbol à tarde, mecanicamente, como uma preliminar ao evento principal. O dia inteiro, todos os olhos estão voltados a Manuel e Mudo Juan, analisando sua condição, sua prontidão, e o estado de tesão, se chegar a isso.

Nico está aflito.

Os garotos mexicanos estão confiantes demais, como se soubessem de algo que ele não sabe. Mas tudo o que Jupiter diz é:

— Os mexicanos sabem mijar! E se vier o desempate? Manuel é o ejaculador precoce campeão do mundo. Ele pratica o tempo todo. Vocês estão fodidos.

Nico espera que não.

Ele passou a gostar da riqueza.

Até o jantar, os garotos estão tão alvoroçados que mal conseguem comer.

Exceto Mudo.

Ele come feito um hipopótamo grávido.

Nico fica imaginando se isso é bom.

— É sim — diz Santi, tranquilizando-o. — A barriga cheia bota uma pressão extra na bexiga.

Nico não está muito confiante quanto ao conhecimento de Santi sobre anatomia.

À noite, até chegar a hora do “apagar das luzes”, demora uma eternidade. Os meninos tentam assistir TV ou jogar cartas, mas ninguém está prestando atenção em nada.

Mudo está sentado, tomando uma garrafa de água atrás da outra.

— Você tem certeza desse negócio de refrigerante? —pergunta Nico a Santi.

— Absoluta.

— Porque o Manuel está tomando Coca.

— Bom, isso vai ferrá-lo.

Finalmente, finalmente, as luzes são apagadas e os meninos seguem de forma obediente para seus quartos. Gordo some e os garotos saem e se reúnem na sala de banho.

Nico acha que Mudo parece nervoso.

Isso faz ele se sentir nervoso.

Santi ergue a mão à boca, como um microfone. — Senhoraaaaas e senhooooores…

— Que diabo ele está fazendo? — pergunta Jupiter. — Não tenho ideia — diz Nico.

— Para os milhares de expectadores presentes e os milhões ao redor do

mundo — grita Santi —, este será um concurso de um único round. Pelo campeonato peso-pesado mundiaaaal! No canto vermelho, mijando de Ciudad Juárez, México…

Os garotos mexicanos vibram.

— Manuel “El Micción” Coronado!

Mais vivas.

Vaias dos garotos da América Central.

— E no canto azul — diz Santi — mijando lá de… bem, nós não temos

a menor ideia de onde ele é, porra… Juan “El Mudo” Fulano ou Beltrano!

Vivas e assovios.

— Cavalheiros toquem as mãos, se quiserem… Eles não querem.

— Eu quero uma urinação limpa — diz Santi. — Nada de respingos,

nem mijadas na nuca…

— O quê? — pergunta Jupiter.

— Apenas ande logo com isso — pede Nico.

— Encarregado pelo ringue, esta noite, Nico “Firme Mas Justo”

Ramírez!

— Certo, certo — diz Nico, depois repete o que Santi o mandou dizer:

— Vamos ao que interessa!

Manuel e Mudo vão até a faixa.

— Prontos? — grita Nico. — Pau pra fora!

Eles botam.

A tensão é insuportável.

— Mijem!

Nico vê o jato de urina de Mudo arquear acima, em uma trajetória

perfeita de 45 graus. É uma beleza, como água saindo de uma mangueira de incêndio, que leva junto os sonhos e esperanças de Nico.

Ele quase chora.

Então, ela aterrissa.

Bem ao lado do xixi de Manuel.

O silêncio é pesado, conforme Santi se aproxima e examina as manchas. Então, ele olha a aglomeração e diz, baixo, mas solenemente:

— Vamos para os acréscimos.

A multidão ruge.

Os meninos mexicanos estão em júbilo — eles sabem que agora está no papo.

— Teremos um intervalo de dez minutos — declara Santi —, depois, a disputa de punheta.

Nico e Santi se juntam a Mudo no intervalo.

— Como está se sentindo? — pergunta Santi. — Com tesão?

Mudo não responde.

Ele parece melancólico.

— Você já ganhou, güerito — diz Santi, agachado na frente dele. — Olhe, você literalmente nasceu pra fazer isso… porque, sejamos realistas, você nunca vai transar.

Nada de resposta.

Mudo só parece amedrontado.

Isso não é bom, pensa Nico. Ele vê a pobreza encarando-o de frente, na forma dos olhos vagos de Mudo.

Ele agarra os ombros de Mudo.

— Chega uma hora, na vida de todo homem, em que ele tem que marcar presença e ser homem. Chegou a hora. Essa é sua hora, Juan. Desliga todo o ruído de fundo, foca e bate uma punheta do campeão que nós sabemos que você é. Está certo, vamos nessa.

Eles se reúnem novamente.

— Sem preliminares! — anuncia Santi. — Ao sinal de Nico, cada homem deve começar a bater una puñeta. O primeiro que gozar é o campeão. Nico?

— Pau pra fora — diz Nico. — Vai!

Mudo vem com tudo, é preciso admitir.

Ele está de olhos fechados, segurando com força, com o pescoço arqueado para trás, e a mão direita voando tanto quanto pode voar a mão de um homem.

Manuel parece ter uma abordagem mais desinteressada e sonhadora, mais fantasiosa.

— Eu não sabia que Manuel era canhoto — comenta Nico.

— Ele é ambidestro — diz Jup.

— Isso vai fazer diferença?

— Acho que não — diz Jup. — Já o vi mandar uma com os pés. Não,

sério, eu vi.

Estamos fodidos, pensa Nico. Ser rico foi bom, enquanto durou. — A juíza! — grita Nico. — Mudo, pense na juíza! Mudo aumenta o ritmo, batendo furiosamente. Manuel dá uma olhada para o lado, como um corredor de elite que ouve

passos se aproximando por trás. Sua indiferença some e ele acelera um pouco.

Ele não vai se deixar alcançar.

Ele já está quase chegando lá.

Nico tem uma inspiração.

— A juíza, Mudo! — grita ele. — E a Canela! Mudo abre os olhos.

Mudo abre a boca.

Mudo abre as bolas.

Um momento de silêncio perplexo e então…

— Temos um vencedor! — grita Santi. — E um novo campeão do

mundo,— El Mudooooooo!

Os garotos da América Central cercam Mudo, dão tapas em suas costas,

o abraçam, beijam sua bochecha. Porra, eles o levantariam e o carregariam nas costas pela sala de banho, mas não vai acontecer. Ele aceita os elogios e as felicitações, sem dar uma palavra, guarda o pau de volta nas calças.

Os garotos mexicanos estão xingando.

Nico está mais que extasiado.

Abastado de doces, muito além do imaginável. — Canela? —pergunta Santi. — De onde você tirou isso? — Sei lá — diz Nico. — Simplesmente me ocorreu. — Brilhante — elogia Santi. — Nojento, mas brilhante. Naquela noite, Nico vai para a cama sendo um homem rico e feliz. Na manhã seguinte, Norma ouve o relato de Chris e diz: — Eu devo compreender que um jovem traumatizado a ponto de

assumir a mudez eletiva chegou ao clímax por uma imagem minha, num relacionamento lésbico com a estrela de um programa de televisão?

Chris sorri.

— Bem isso.

— Diante das opções, eu vou escolher ficar lisonjeada. — diz Canela, erguendo um documento. — A gangue será desfeita, de qualquer maneira. O pleito de tutela de Ramírez foi aprovado. Seu tio virá buscá-lo amanhã.

— Nico sabe?

Chris encontra Nico a caminho da aula, após o café da manhã.

— Ei, güerito, pode arrumar suas tralhas, você vai embora daqui.

Nico fica perplexo. E assustado. Eles vão mandá-lo de volta para a Guatemala?

— É uma boa notícia — diz Chris. — A aprovação de sua tutela saiu. Seus tios virão buscar você.

Ele fica meio tonto.

A primeira pessoa para quem ele conta, claro, é Santi.

— Eu vou morar em Nova York. Serei um americano.

Santi sacode a cabeça.

— Você não sabe, sabe?

— Saber o quê?

— Isso não significa que você vai ficar no país permanentemente — explica Santi. — Só significa que você fica até que façam uma “audiência de deportação”. Na maioria das vezes, eles o deportam. Por isso que não se chama “Audiência de Boas-Vindas aos Estados Unidos”.

— Ah.

— Mas, olha, parabéns, cerote. Pelo menos, você vai sair daqui.

Então, Nico se sente mal. Ele está saindo e Santi não. Ele vai sentir falta de Santi e de Fermín e até de Mudo.

Nico nunca teve irmãos.

Mas, ainda assim, ele está empolgado.

Por natureza e necessidade, Nico é um otimista. Nova York será ótimo, seus tios serão ótimos, e talvez — não, nada de talvez, provavelmente — o juiz da audiência de deportação será bacana como a juíza da TV e vai decidir que ele pode ficar.

Ele diz isso a Fermín.

— Claro que vão deixar você ficar — diz Fermín. — Você é um bom garoto, por que eles não o deixariam ficar?

Até a hora do almoço, Nico está convencido disso. E também de que irá arranjar um emprego e ganhar dinheiro suficiente para enviar para a mãe e eles também a deixarão entrar. Até aquela tarde, ele acredita firmemente que Flor também virá, e eles vão frequentar a escola juntos.

— É isso que vai acontecer — diz Santi.

— Mas você falou…

— Eu falo um monte de merda — diz Santi. — Falo mais que a boca.

Você terá uma vida ótima, Nico.

É, só que Rodrigo discorda.

Quando ele fica sabendo da notícia de Nico, ele vem e fala, na frente de

Santi, Fermín e Mudo, e de mais uma porção deles:

— Você nunca vai sair daqui, culero. — Ah, é? Por quê?

— Porque primeiro eu vou matar você.

— Por que esse cara me odeia tanto? — diz Nico, depois que Rodrigo se afasta. — Que loucura.

— Não é — diz Santi.

Ele explica seu raciocínio. Rodrigo caminha para seus dezoito anos e

para a deportação de volta a El Salvador. Ele não quer ir. Furar Nico o mandaria para a prisão nos EUA, e ele já chegaria com cartaz com a Mara Salvatrucha, por ter matado um membro da Calle 18.

Faz total sentido.

— Detestar você é só um bônus pra ele — diz Santi. — Mas, por quê?

— Ele está com inveja — afirma Fermín. — Porque você está saindo. — Foda-se ele — diz Nico. — Eu posso brigar com ele. — Não pode, não — diz Santi. — Ele é muito maior e tem 25 kg a mais

que você. Pode lhe dar uma surra daquelas e, de qualquer jeito, ele tem um pedazo que está fazendo há meses. Ele já vem planejando furar você.

— Conta pro Chris — sugere Fermín.

Nico sacode a cabeça.

— Não, eu não sou dedo-duro.

— Foda-se isso — diz Fermín. — O cara é psicótico. Ele pode matar

você, Nico.

— Eu não vou dedurar — insiste Nico.

— Eu vou — diz Santi. — Eu vou falar com Chris. — Não faça isso — pede Nico. — Estou falando sério, não faça. — Mas, Nico…

— Eu posso me cuidar.

— Não, não pode — diz Santi. — Olhe, não é vergonha nenhuma, güerito. Você tem a chance de ter uma vida. Não jogue fora tentando ser um macho babaca.

— Se você contar — diz Nico —, eu nunca vou perdoar você.

Ele está morrendo de medo, apavorado, mas se dedurar Rodrigo e isso chegar à Guatemala, eles podem descontar em sua mãe.

Naquela noite, seu jantar tem gosto de terra na boca, de tanto medo que ele sente.

O fato de Rodrigo ficar sorrindo para ele, de outra mesa, não ajuda muito, e quando ele levanta para sair, Rodrigo mexe a boca formando as palavras:

— Esta noche.

As pernas de Nico parecem de madeira, conforme ele sobe a escada até seu quarto. Ele tenta focar em arrumar suas poucas coisas, em sacos plásticos que lhe foram dados. Não funciona; sua mente está em Rodrigo, na lâmina, no que ele poderia fazer.

Ele já viu gente ser morta, sabe como é.

Ele quer gritar por socorro, quer vomitar, mas não faz nenhum dos dois.

Quando Nico termina de enfiar as coisas nos sacos, ele deita na cama, mas não fecha os olhos.

Ele espera.

E pensa no longo trajeto no La Bestia, em Paola, em Flor, no ataque das árvores, na fome, no frio, no calor, na sede, no cansaço, na travessia do rio.

Eu deveria saber, pensa Nico. Eu deveria saber que nunca conseguiria sair.

Garotos como eu não saem.

Então, ele ouve um berro.

Então, gritos, e passos batendo no chão de concreto.

Ele ouve Gordo gritar:

— Meu Deus!

Nico pula da cama e vai até o lado de fora do dormitório.

Outros meninos já estão lá — Santi e Fermín, Mudo e outros olham por cima da mureta do andar.

Rodrigo está esparramado, no andar abaixo, com o pedazo na mão, o sangue empoçando atrás de sua cabeça.

Seu pescoço está quebrado, como o de uma galinha.

Mudo vira para Nico.

E diz:

— Você me deve um Snickers.