A fronteira

Don Winslow · Capítulo 4 de 25

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A fronteira

2: Como morrem os reis

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Como morrem os reis

 

“Venha, sentemo-nos no chão e contemos histórias tristes da morte de reis.”

— Shakespeare

— Ricardo II, primeira parte

Washington, D.C.

Maio de 2014.

 

Keller olha para baixo, para a foto do esqueleto.

O capim despontando, por entre as costelas, as vinhas enroscadas nos

ossos da perna, como se tentassem prender o corpo à terra.

— É Barrera? — pergunta.

Faz um ano e meio que Barrera está sumido. Agora, essas fotos acabam

de chegar do escritório da Divisão de Narcóticos da Guatemala. As forças especiais locais encontraram os ossos na Petén, a floresta tropical que fica a cerca de um quilômetro do vilarejo de Dos Erres, onde Barrera foi visto pela última vez.

Tom Blair, chefe da unidade de inteligência da Narcóticos, coloca uma

foto diferente na mesa de Keller. É do esqueleto em uma maca.

— As medidas batem.

Barrera é baixo, Keller sabe, um pouco menor que 1,70 m, mas isso

poderia descrever muita gente, principalmente nas regiões subnutridas dos Maias, na Guatemala.

Blair espalha mais fotos em cima da mesa, uma em close do crânio, ao

lado de uma imagem facial de Adán Barrera. Keller reconhece a imagem — foi tirada há quinze anos, quando Barrera foi admitido no Centro Correcional Metropolitano, em San Diego.

Foi Keller que o colocou lá.

O rosto o encara de volta.

Familiar, quase íntimo.

— As órbitas são do mesmo tamanho — Blair está dizendo —, as

medidas da calota craniana são idênticas. Precisaríamos de análises das arcadas e do DNA para ter cem por cento de certeza, mas…

Deve ter os registros odontológicos e de DNA de Barrera, do tempo que passou no sistema prisional americano, pensa Keller. Duvidava muito que alguma amostra de DNA pudesse ser retirada de um esqueleto que ficou apodrecendo no meio da floresta tropical por mais de um ano, mas Keller vê nas fotos que o maxilar ainda está intacto.

E sente, por dentro, que os registros do dentista vão casar.

— O jeito como a parte traseira do crânio está estourada pra fora — diz Blair. — Eu diria que foram dois tiros no rosto, a queima roupa, disparados de baixo para cima. Barrera foi executado por alguém que queria que ele soubesse que ia morrer. Isso coincide com a teoria de Dos Erres.

A “teoria de Dos Erres”, particularmente queridinha do grupo de trabalho da Narcóticos de Sinaloa, alega que, em outubro de 2012, Adán Barrera e seu parceiro e sogro, Ignacio Esparza, viajaram até a Guatemala com um bando numeroso e armado para uma conferência de paz com seus rivais, um cartel de drogas especialmente cruel conhecido como os zetas. Houve um precedente factual para isso — Barrera se encontrara com a liderança Zeta, em uma conferência semelhante em 2006, quando dividiram o México em territórios e criaram um pacto de paz que durou pouco, dando origem a uma guerra ainda mais violenta e dispendiosa. A teoria é que Barrera e o líder Zeta, Heriberto Ochoa, se encontraram no remoto vilarejo de Dos Erres, no Distrito de Petén, da Guatemala, e mais uma vez destrincharam o México como um peru de Ação de Graças. Em uma festa para celebrar a paz, os zetas atocaiaram e massacraram os sinaloas.

Desde o suposto encontro, ninguém viu ou teve notícias de Barrera, de Esparza, de Ochoa ou de seu braço direito, Miguel Morales, também conhecido como Fourty. E as investigações desencavaram provas para respaldar a teoria de que um vultoso tiroteio ocorreu em Dos Erres — D-2, a unidade militar que controla a inteligência mexicana, encontrou muitos cadáveres e alguns nos restos de uma fogueira imensa, o que era consistente com a prática Zeta de queimar corpos.

Os zetas, que já foram o cartel mais temido do México, entraram em franco declínio após a suposta conferência de Dos Erres, reforçando a hipótese de que a liderança foi morta e que o grupo sofreu baixas consideráveis.

O cartel Sinaloa não vivenciou declínio semelhante. Ao contrário,

tornou-se uma força incontestável, de longe o cartel dominante, e impôs uma espécie de paz em um México onde, em dez anos, 100 mil pessoas tinham morrido pela violência relativa às drogas.

E, mais que nunca, Sinaloa estava enviando drogas aos Estados Unidos

— e não só maconha, mas também metanfetamina e cocaína (o que deixou o cartel desmedidamente abastado), além de quantidades maciças de heroína.

Tudo isso argumentava contra a teoria de Dos Erres e a favor da “teoria

do caixão vazio”, que alegava que Barrera, de fato, dizimara os zeta em Dos Erres depois encenara a própria morte, e agora administrava o cartel de uma localidade remota.

Mais uma vez, havia amplos precedentes — ao longo dos anos,

inúmeros chefões dos cartéis tinham, de fato, fingido suas mortes para aliviar a pressão implacável da Divisão de Narcóticos. Soldados dos cartéis invadiam consultórios de legistas e roubavam os corpos para evitar a identificação positiva e fomentar os boatos de que seus jefes ainda estavam do lado certo da grama.

Realmente, como Keller faz questão de frisar para seus subordinados,

nenhum dos corpos dos líderes considerados mortos em Dos Erres foi encontrado. E, embora seja amplamente aceito que Ochoa e Forty bateram as botas, o fato de que Sinaloa continua com o motor ligado dá credibilidade à teoria do caixão vazio.

A ausência de qualquer aparição de Barrera há mais de um ano e meio,

no entanto, indica o contrário. Apesar de sempre ter sido inclinado à reclusão, Barrera costumava aparecer com Eva, sua jovem esposa, nas comemorações festivas de sua cidade natal, La Tuna, em Sinaloa, ou para a noite de Ano Novo em alguma cidade de veraneio como Puerto Vallarta ou Mazatlán. Ninguém mais o viu em tais ocasiões. Além disso, vigilância digital revela a ausência de e-mails, tweets ou outras postagens em mídias sociais, e o monitoramento telefônico revelou que não houve comunicações.

Barrera possui inúmeras estancias em Sinaloa e Durango, além de casas

em Los Mochis, ao longo da costa. A Divisão de Narcóticos tem conhecimento dessas residências, e sem dúvida há outras. Mas as fotos de satélites têm mostrado um movimento cada vez menor de gente. Habitualmente, quando Barrera se deslocava de um local para outro, havia um aumento no tráfego de guarda-costas e pessoal de apoio, um pico nas comunicações via internet e telefone, conforme seu pessoal providenciava a logística, e um rastro terrestre mais pesado, em meio à polícia local e estadual, que recebe propina do cartel Sinaloa.

A ausência de tudo isso seria um respaldo à teoria de Dos Erres de que Barrera realmente morreu.

Mas uma pergunta permanece sem resposta: se Barrera não administra mais o cartel, quem assumiu o lugar? O moinho de boatos mexicano trabalha à toda, com gente tendo visto Barrera em Sinaloa, em Durango, na Guatemala, em Barcelona, até em San Diego, onde moram sua esposa (ou viúva?) e os dois filhos pequenos. “Barrera” até enviou mensagens de texto e de Twitter que fomentaram um culto do “Adán vive”, cujos discípulos pintaram placas à mão, nos acostamentos das estradas.

Membros da família direta de Barrera — principalmente sua irmã, Elena — fizeram o máximo para não confirmar sua morte, e qualquer ambiguidade sobre seu status dá ao cartel tempo para tentar providenciar uma sucessão organizada.

Os que creem na teoria de Dos Erres afirmam que o cartel tem interesse direto em manter Barrera “vivo” e que está soltando essas mensagens como estratégia para promover a desinformação — um Barrera vivo deve ser temido, e esse medo ajuda a evitar que inimigos potenciais desafiem Sinaloa. Alguns dos partidários mais fervorosos da teoria até pressupõem que o próprio governo mexicano, desesperado para manter a estabilidade, está por trás do movimento “Adán vive”.

Se o esqueleto for uma confirmação da morte de Barrera, as repercussões serão sentidas por todo o mundo dos narcos.

— Quem tem a custódia do corpo? — pergunta.

— O D-2 — diz Blair.

— Então, Sinaloa já sabe. — O cartel tem fontes arraigadas em todos os níveis do governo da Guatemala. E a CIA também, pensa Keller. Tem agentes de tudo que é governo no D-2. — Quem mais da Narcóticos sabe disso?

— Só o pessoal da brigada do exército, você e eu — diz Blair. — Achei que iria querer manter isso em sigilo.

Blair é inteligente e leal o bastante para garantir que Keller seja o primeiro a receber a notícia, da maneira mais particular possível. Art Keller é um bom chefe, mas também seria um inimigo perigoso.

Todos da Narcóticos sabem da rixa entre Keller e Adán Barrera, que

data desde os idos da década de 1980, quando Barrera participou da tortura e assassinato de Ernie Hidalgo.

E todo mundo sabe que Keller foi enviado ao México para recapturar

Barrera, mas acabou derrubando os zetas.

Talvez, literalmente.

O papo nos bebedouros — mais para sussurros — fala dos destroços de

um Black Hawk no vilarejo de Dos Erres, onde supostamente aconteceu a batalha entre os zetas e os sinaloas. Claro que o exército da Guatemala possui helicópteros americanos — assim como o cartel Sinaloa — mas a conversa prossegue sobre uma missão secreta de mercenários americanos de operações especiais que entraram e eliminaram a liderança Zeta, ao estilo Bin Laden. E alguém que acredite nesses boatos — descartados como fantasias cômicas pelo alto escalão da Divisão de Narcóticos — talvez acredite que naquela missão também tinha um tal Art Keller.

E agora, Keller, que eliminou tanto Adán Barrera como os zetas, é o

diretor geral da Divisão de Narcóticos Americana, o mais poderoso “guerreiro” contra drogas do mundo, comandando uma agência com mais de 10 mil funcionários, 5 mil agentes especiais e 800 analistas de inteligência.

— Mantenha em sigilo, por enquanto — determina Keller. Sabe que Blair entende o recado: sua verdadeira intenção é evitar que a

informação chegue a Denton Howard, diretor-assistente da Narcóticos e indicado político que daria tudo para esfolar Keller e pendurar seu couro na parede do escritório.

O maior dos disseminadores de dúvidas sobre Keller — Keller tem um

passado questionável. Tem lealdades divididas, porque a mãe e a esposa são mexicanas. Vocês sabiam que o primeiro nome dele na verdade, não é Arthur, e sim “Arturo”?, Keller é um caubói, tem sangue nas mãos. Há boatos de que ele até esteve lá, em Dos Erres —, Howard é um câncer, contornando a unidade de inteligência para trabalhar com suas próprias fontes, cultivando relacionamentos pessoais diplomáticos no México, na América Central, na Colômbia, na Europa e na Ásia, trabalhando o pessoal do Congresso, se aproximando da mídia.

Keller não pode esconder essa notícia dele, mas mesmo algumas horas

de vantagem vão ajudar. Pois uma coisa é certa: o governo mexicano tem que saber isso por ele, não por Howard — ou pior, pelos amiguinhos de Howard, no noticiário da Fox.

— Mande a ficha odontológica para o D-2 — diz Keller. — Eles têm nossa colaboração integral.

Seria questão de horas, não de dias, até que a informação se espalhasse por aí. Alguém responsável no D-2 mandara a foto paras lá, mas alguma outra pessoa sem dúvida já ligara para Sinaloa, e algum outro já devia estar vendo como usar isso para lucrar com a mídia.

Porque, morto, Adán Barrera se tornou algo que nunca foi em vida.

Uma celebridade.

Isso começou no lugar mais improvável, com uma matéria na Rolling Stone.

Um jornalista investigativo chamado Clay Bowen começou a seguir os boatos de uma batalha armada na Guatemala entre os zetas e o cartel Sinaloa, e logo tropeçou no fato de que Adán Barrera havia, na linguagem esperta da reportagem, “batido asas”. O Stanley jornalístico saiu em busca de seu Livingstone narco e não encontrou nada.

E então isso se tornou a matéria.

Adán Barrera era um fantasma, um fogo fátuo, o poder invisível por trás da maior organização de tráfico de drogas do mundo, um gênio ardiloso que a lei não conseguia capturar, nem sequer encontrar. A reportagem voltou à “fuga audaciosa” de Barrera de uma prisão mexicana, em 2004 (“audaciosa” meu rabo, pensou Keller, quando leu a matéria — o homem comprara a saída da cadeia e fugira pelo telhado, em um helicóptero), e alegava que Barrera tinha realizado a fuga máxima, encenando a própria morte.

Na falta de uma entrevista com o astro, Bowen conversou com associados e membros da família (“fontes anônimas dizem que… pessoas não identificadas próximas a Barrera afirmam que…”), que pintaram um quadro lisonjeiro de Barrera — ele dá dinheiro a igrejas e escolas; constrói clínicas e playgrounds; é bom para a mãe e os filhos.

Trouxera a paz ao México.

(Essa última citação fez Keller cair na gargalhada. Barrera iniciara a guerra que matou cem mil pessoas. Então ele “trouxera a paz”, ao ganhar a guerra?)

Adán Barrera, traficante de drogas e assassino em massa, se transformara em uma combinação de Houdini, Zorro, Amelia Earhart e Mahatma Gandhi. Uma criança mal compreendida da pobreza rural que se erguera acima do início humilde e decolara rumo à riqueza e ao poder, vendendo um produto que, no fim das contas, as pessoas já queriam mesmo. Ele agora é um benfeitor, um filantropo assediado e caçado por dois governos que brilhantemente evade e sobre os quais leva a melhor.

Durante um período fraco de notícias, o restante da mídia adotou o

tema, e histórias sobre o desaparecimento de Barrera eram veiculadas na CNN, na Fox, em todas as emissoras. Ele se tornou um queridinho nas redes sociais, com milhares de participantes brincando de “Onde está o Wally?” na internet, esbaforidos com a especulação sobre o paradeiro do grande homem (a história favorita de Keller foi que Barrera recusara um convite para participar de A Dança dos Famosos, ou, alternativamente, que estava disfarçado como astro de um seriado cômico da NBC). Como sempre acontece com essas coisas, claro que o furor se dissipou, exceto para alguns blogueiros duros de matar e para Divisão de Narcóticos e a SEIDO (Subprocuraduría Especializada en Investigación de Delincuencia Organizada) mexicana, para quem a questão da existência de Barrera, ou a falta dela, era coisa séria.

E agora, pensa Keller, vai começar tudo de novo. O caixão estava cheio.

O trono é que estava vago.

Estamos em uma saia justa dupla, pensa Keller. O cartel Sinaloa é a

chave de ignição por trás do tráfico de heroína. Se ajudassem na derrubada do cartel, seria o fim do Pax Sinaloa. Se deixassem o cartel correr frouxo, tinham que aceitar o avanço da crise da heroína por aqui.

O cartel Sinaloa tem seus próprios interesses, assim como a Narcóticos,

e a “morte” de Barrera poderia gerar um conflito irreconciliável entre a promoção da estabilidade no México e o freio da epidemia de heroína nos Estados Unidos.

A primeira requer a preservação do cartel Sinaloa, a segunda exige sua

destruição.

O Departamento de Estado e a CIA são passivamente coniventes na

parceria do México com o cartel, enquanto o Departamento de Justiça e a Divisão de Narcóticos estão determinados a encerrar as operações de heroína.

Há outras facções. A Procuradoria Geral quer reformas nas políticas

antidrogas, assim como o czar da Casa Branca. Porém, embora o procurador-geral esteja mesmo de partida em breve, a Casa Branca é mais cautelosa. O presidente tem toda a coragem e a liberdade de um político com um pé para fora da porta, mas não quer dar aos conservadores nenhuma munição para alvejar seu potencial sucessor, que precisa concorrer em 2016.

E um desses conservadores é o justamente quem colocara ele no cargo, uma pessoa que gostaria de ver o presidente e as reformas varridas até 2016, preferencialmente antes. Os republicanos já são maioria na Câmara e no Senado; se ganharem a Casa Branca, o novo ocupante vai nomear um novo procurador-geral, que nos levará às alturas — ou profundezas, tanto faz — da guerra contra as drogas. E Keller será uma das primeiras pessoas demitidas.

Portanto, o relógio está correndo.

É sua função, pensa Keller, deter o fluxo de heroína que adentra este país. O cartel Sinaloa — legado de Adán, o palácio que ele construiu, que Keller o ajudou a construir — está massacrando milhares de pessoas e tem que morrer.

Mas o cartel não vai simplesmente morrer.

Keller terá que matá-lo.

Quando Blair sai, Keller começa a trabalhar ao telefone.

Primeiro, faz uma ligação para Orduña.

— Encontraram o corpo — diz sem preâmbulos.

— Onde?

— Onde você acha? Estou prestes a ligar para a SEIDO, mas queria que você soubesse primeiro.

Porque Orduña está limpo — impecavelmente limpo, sem qualquer envolvimento no recebimento de dinheiro, nem merda nenhuma de ninguém. Seus mariners, com a ajuda de Keller e da inteligência dos EUA, arrasaram os zeta, e agora Orduña está pronto para derrubar o restante, incluindo Sinaloa.

Silêncio, depois Orduña diz:

— Isso pede um champanhe.

Em seguida, Keller liga para a SEIDO, versão mexicana que engloba o FBI e a Divisão de Narcóticos, e fala com o procurador-geral. É uma ligação delicada, porque o PG mexicano ficaria ofendido se soubesse que o pessoal da Guatemala avisou a Narcóticos antes de entrarem em contato com ele. O relacionamento sempre foi frágil, ainda mais por conta da incessante intromissão de Howard, porém mais pelo fato de que a SEIDO recebeu propina de Sinaloa.

— Eu queria lhe adiantar logo — explica Keller. — Vamos divulgar

uma nota de imprensa, mas podemos segurar até que você solte a sua.

— Eu agradeço.

A ligação seguinte é para seu próprio procurador-geral. — Nós vamos fazer um pronunciamento — diz o PG. — Sim, isso é importante, mas vamos aguardar até que o México faça o

deles primeiro.

— Por que motivo?

— Para evitar constrangimento — diz Keller. — Vai ficar ruim pra eles,

se descobrirem por nós.

— Mas eles descobriram por nós.

— Nós temos que trabalhar com eles — insiste Keller. — E é sempre

bom ter pontos positivos. Porra, nem é o caso de termos capturado o cara, ele foi morto por outros narcos.

— Foi o que aconteceu?

— Certamente é o que parece.

Ele passa cinco minutos persuadindo o PG a esperar o pronunciamento e

depois liga para um contato na CNN.

— Você não ouviu isso de mim, mas o México está prestes a anunciar

que o corpo de Adán Barrera foi encontrado na Guatemala.

— Jesus, podemos correr pra publicar isso?

— Você que sabe — diz Keller. — Só estou contando o que está prestes

a acontecer. Isso irá confirmar a história de que Barrera foi morto após um encontro de paz com os zeta.

— Então quem vem administrando o cartel?

— Porra, eu que vou saber?

— Ora, Art, qual é.

— Você quer sair na frente da Fox ou quer ficar ao telefone me fazendo

perguntas que não posso responder? — pergunta Keller.

O contato prefere a primeira opção.

A Martin’s Tavern funciona desde que caiu a proibição da lei seca, em 1933, e desde então sempre foi refúgio de políticos democratas. Keller entra e senta no reservado ao lado de onde, segundo reza a lenda, John Kennedy pediu Jackie em casamento.

Camelot, pensa Keller.

Outro mito, mas algo em que ele acreditava profundamente, desde que era criança. Ele acreditava em JFK, em Bobby, em Martin Luther King Jr., em Jesus e em Deus. Tendo os quatro primeiros sido assassinados, restava Deus — mas não aquele que habitara a sua infância no lugar de seu pai ausente, não a divindade onipresente, onisciente, onipotente que regia com sua justiça severa, porém correta.

Aquele Deus tinha morrido no México.

Junto de muitos outros deuses. O calor parado da taverna aconchegante o envolve. O México é um país onde os templos de novos deuses são construídos nos cemitérios dos antigos.

Ele sobe a escada estreita de madeira até o andar de cima, que era frequentado por Sam Rayburn, e onde Harry Truman e Lyndon Johnson o persuadiam para obter a aprovação de seus projetos de lei.

O’Brien está sentado sozinho à mesa de um reservado. Seu rosto rechonchudo é rosado, e o cabelo farto, branco como a neve, condiz com um homem de setenta e poucos anos. As mãos grossas seguram o copo baixo. Há outro copo na mesa.

O’Brien é republicano. Mas gosta do Martin’s.

— Já fiz seu pedido — diz ele, enquanto Keller senta.

— Obrigado. É o corpo de Barrera. Acabaram de confirmar.

— O que você disse ao procurador-geral? — pergunta O’Brien.

— O que nós sabemos. Que nossa inteligência referente à batalha entre os zetas e Sinaloa mostrou-se precisamente correta e que Barrera parece ter sido morto no tiroteio.

O’Brien considera:

— Se Dos Erres se tornar uma história real, podemos ser ligados à Tidewater.

— Podemos. Mas não há nada que possa ligar a Tidewater à incursão.

A empresa foi desfeita e depois reformulada no Arizona, sob outra marca. Vinte pessoas foram à missão na Guatemala. Houve um morto em combate. Seu corpo foi retirado, a família foi informada de que ele morrera em um acidente de treinamento e aceitou um acordo extrajudicial. Os quatro feridos, também retirados com êxito e tratados em instalações na Costa Rica; os prontuários médicos foram destruídos, e os homens, compensados conforme os termos contratuais. Dos quinze restantes, um faleceu em um acidente de carro imediatamente após assinar com outro contratante. Os outros treze não têm qualquer intenção de romper as cláusulas de confidencialidade de seus contratos.

O Black Hawk que caiu não tinha identificação, e os caras o explodiram

antes que fosse registrado. O D-2 veio no dia seguinte e limpou a cena.

— Estou mais preocupado que a Casa Branca se irrite — diz Keller. — Vou manter o pessoal de lá estável — garante O’Brien. — Temos

armas apontadas para as cabeças uns dos outros, “destruição mútua garantida”, como costumávamos dizer. E, porra, se você parar pra pensar, o que aconteceria se o público descobrisse que o presidente dos Estados Unidos virou caubói e eliminou três dos maiores traficantes de drogas do mundo? No cenário atual, com a epidemia de heroína, seus índices de aprovação arrebentariam a boca do balão.

— Seus colegas republicanos tentariam o impeachment — diz Keller. —

E você votaria com eles.

Havia rumores de que O’Brien concorreria à presidência em 2016 — o

próprio senador dera início a esses boatos.

O’Brien ri.

— Em termos de deslealdade, facada nas costas, pescoço cortado e

combate mano a mano, em termos de poder letal de matança… os cartéis mexicanos não são nada perto do que se vê nesta cidade. Lembre-se disso.

— Vou manter isso em mente.

— E, você está seguro de que isso não vai voltar pra nos assombrar? — Estou.

O’Brien ergue o copo.

— Então, um brinde ao morto recém-descoberto. Keller termina seu drinque.

Duas horas depois, Keller olha a imagem de Iván Esparza no telão da sala de instruções. Esparza usa uma camisa norteño listrada, jeans e óculos escuros, e está em pé, na frente de um jato particular.

— Iván Archivaldo Esparza — diz Blair. — Trinta anos. Nascido em

Culiacán, Sinaloa. Filho mais velho do falecido Ignacio “Nacho” Esparza, um dos três principais parceiros do cartel Sinaloa. Iván tem dois irmãos mais jovens, Oviedo e Alfredo, em ordem de senioridade. Todos no negócio da família.

A imagem muda para uma foto de Iván sem camisa, em pé, em um barco, com outros iates ao fundo.

— Iván é o exemplo clássico do grupo que passou a ser conhecido como Los Hijos — diz Blair. — Os filhos. Armário abarrotado de roupas de caubói, joias exageradas, correntes de ouro, bonés virados ao contrário, botas exóticas e inúmeros carros: Maseratis, Ferraris, Lamborghinis. Ele tem até armas incrustadas com diamantes. E posta fotos disso tudo nas redes sociais.

Blair mostra algumas imagens do blog de Iván.

Um fuzil AK-47 folheado a ouro no console de uma Maserati conversível.

Pilhas de notas de vinte dólares.

Iván posando com duas jovens de biquíni.

Outra chica sentada no banco da frente de um carro, com o nome “Esparza” tatuado na perna esquerda.

Carros esportivos, barcos, jet skis, mais armas.

As prediletas de Keller são uma que mostra ele com um casaco de capuz debruçado por cima de um filhote já grande de leão estendido diante de uma Ferrari, e outra com dois filhotes de leão no banco da frente. A cicatriz no rosto de Iván é quase imperceptível, mas a maçã do rosto continua ligeiramente plana.

— Agora que a morte de Barrera está confirmada, Iván é o próximo na linha sucessória — afirma Blair. — Ele não é apenas filho de Nacho, é cunhado de Adán. A ala Esparza do cartel possui bilhões de dólares, centenas de soldados e influência política de peso. Mas há outros candidatos.

Surge na tela a foto de uma mulher elegante. Blair prossegue:

— Elena Sánchez Barrera, irmã de Adán. Houve um tempo em que ela administrava a Plaza Baja, mas se aposentou anos atrás, cedendo o território a Iván. Tem dois filhos, Rudolfo, que cumpriu pena aqui nos EUA por tráfico de cocaína, e Luis. Elena está supostamente fora dos negócios, assim como seus dois filhos. A maior parte do dinheiro da família está investida em negócios legítimos, mas tanto Rudolfo como Luis às vezes andam com Los Hijos, e, como sobrinhos de sangue de Adán, devem ser considerados herdeiros potenciais ao trono.

Surge uma foto de Ricardo Núñez.

— Núñez tem a riqueza e o poder para assumir o cartel — continua

Blair —, mas é um número dois natural, nascido para ficar atrás do trono, não para ocupá-lo. Ele é advogado, um legalista cauteloso e exigente, sem o gosto ou a tolerância por sangue que seriam exigidos pela transferência ao topo.

Outra foto de um jovem surge na tela.

Keller reconhece Ric Núñez.

— Núñez tem um filho — diz Blair. — Também Ricardo, 25 anos, com

a alcunha ridícula de “Mini-Ric”. Ele só está na lista porque é afilhado de Barrera.

Aparecem mais fotos de Mini-Ric.

Tomando cerveja.

Dirigindo um Porsche.

Empunhando uma pistola com monograma.

Levando um guepardo pela coleira.

— Ric não tem a seriedade do pai — explica Blair. — É mais um Hijo,

um playboy queimando dinheiro que nunca ganhou com o suor e o sangue. Quando não está chapado, está bêbado. Não tem sequer controle da própria vida, quanto mais do cartel.

Keller vê uma foto de Ric e Iván bebendo juntos, erguendo os copos

para a câmera em um brinde. As mãos livres estão enlaçadas sobre os ombros um do outro.

— Iván Esparza e Ric Núñez são melhores amigos — anuncia Blair. —

Iván é provavelmente mais próximo de Ric do que de seus próprios irmãos. Mas Ric é um lobo beta do bando que Iván lidera. Iván é ambicioso, Ric é quase avesso à ambição.

Keller já sabe disso tudo, mas pediu a Blair que fizesse um resumo ao

pessoal da Narcóticos e do Departamento de Justiça, em sequência à descoberta do corpo de Adán. Denton Howard está na fileira da frente — enfim se educando, pensa Keller.

— Há alguns outros hijos — diz Blair. — O pai de Rubén Ascención,

Tito, era guarda-costas de Nacho Esparza, mas agora é dono de sua própria organização, o cartel Jalisco, que faz dinheiro primordialmente com metanfetamina.

— Esse garoto…

Ele mostra outra foto de um jovem — cabelo preto curto, camisa preta,

com um olhar zangado para a câmera.

—… Damien Tapia — diz Blair — também conhecido como “Jovem Lobo”. Vinte e dois anos, filho do falecido Diego Tapia, outro dos ex-parceiros de Adán. Era membro do Los Hijos até que seu pai teve contratempos com Barrera, em 2007, o que originou uma grande guerra civil no cartel., Barrera ganhou. Damien era muito próximo de Ric e Iván, mas não anda mais com os meninos, já que culpa os pais deles pela morte do seu.

Los Hijos, um bando de mimados do comércio de drogas mexicano, a terceira geração de traficantes. A primeira foi de Miguel Ángel, “M-1” e seus associados; a segunda foi de Adán Barrera, Nacho Esparza, Diego Tapia e seus inúmeros rivais e inimigos — Heriberto Ochoa, Hugo Garza, Rafael Caro.

Agora, são Los Hijos.

Porém, ao contrário da geração anterior, esses moleques nunca trabalharam nos campos de papoula, jamais sujaram as mãos de terra ou de sangue nas guerras que seus pais e tios lutaram. São cheios de papo furado, acenam pistolas e AKs folheadas a ouro, mas nunca andaram no riscado. Mimados, arrogantes e vazios, acham que o mundo simplesmente lhes deve dinheiro e poder. Não fazem ideia do que vem junto com isso.

A tomada do poder por Iván vai acontecer pelo menos dez anos antes da hora. Ele não tem a maturidade ou a experiência exigidas para tocar a coisa toda. Se for esperto, vai usar Ricardo Núñez como consigliere, mas dizem que Iván não é muito esperto — é arrogante, pavio curto e exibido, traços que seu pai, à moda antiga, apenas desprezava.

Mas o pai não é o filho.

— É um novo dia — diz Keller. — A morte de Barrera não desacelerou o fluxo nem por uma semana. Estão chegando mais carregamentos do que nunca, o que indica que há continuidade e estabilidade por lá. O cartel é uma corporação que perdeu seu CEO. Ainda tem um quadro diretor que, cedo ou tarde, indicará um novo chefe executivo. Vamos nos assegurar de estar por dentro dessa conversa.

Ele é a cara do pai.

Quando Hugo Hidalgo entra pela porta, faz Keller voltar quase trinta anos ao passado.

Até ele e Ernie Hidalgo em Guadalajara.

O mesmo cabelo negro.

O mesmo rosto bonito.

O mesmo sorriso.

— Hugo, há quanto tempo! — Keller sai de trás da escrivaninha e lhe dá

um abraço. — Venha, sente-se, sente-se.

Ele conduz o rapaz até uma poltrona em um pequeno nicho junto à

janela e se senta de frente para ele. Sua recepcionista e inúmeras secretárias ficaram imaginando como um agente novato de campo conseguira agendar uma reunião com o chefe geral, principalmente em um dia em que Keller cancelou tudo e ficou trancado no escritório.

Keller passara o dia todo ali dentro, assistindo aos programas

mexicanos e aos noticiários por satélite que cobrem o anúncio da morte de Adán Barrera. A transmissão da Univision do cortejo fúnebre — muitos veículos — seguindo pelo caminho sinuoso das montanhas em direção a Culiacán. Nos vilarejos e cidades ao longo do caminho, as pessoas perfilando a estrada e lançando flores, correndo aos prantos, pressionando as mãos nos vidros. Altares provisórios foram erguidos com fotos de Barrera, velas e placas dizendo “¡ADÁN VIVE!”

Tudo pelo merdinha que assassinou o pai daquele jovem ali, diante de

Keller, que o chamava de “Tío Arturo”. Hugo deve estar com, o que, 30 anos? Um pouquinho mais?

— Como vai? — pergunta Keller. — Como está a família? — Minha mãe está bem. Está morando em Houston. Ernesto está no

Departamento de Polícia de Austin. Um daqueles policiais hippies de bicicleta. Casado, três filhos.

Keller sente-se culpado por ter perdido contato. Sente-se culpado por muitas coisas que envolvem Ernie Hidalgo. Foi

culpa sua que Ernie tenha sido morto quando Hugo era só um menininho. Keller passou a carreira inteira tentando consertar isso, rastreou todos os envolvidos e os colocou atrás das grades.

Dedicou sua vida a eliminar Adán Barrera.

E finalmente o fez.

— E você? — pergunta Keller. — Casou? Tem filhos? — Nenhum dos dois. Ainda. Olhe, senhor, sei que é muito ocupado e

agradeço por me conceder esse tempo…

— Sem problemas.

— Uma vez, o senhor me falou que, se houvesse algo que pudesse fazer

por mim, que eu não hesitasse em pedir.

— Fui sincero.

— Obrigado. Eu nunca quis me aproveitar disso, de nosso relacionamento. Não que eu ache que o senhor me deva nada…

Keller vem acompanhando a carreira de Hugo de longe.

O garoto fez tudo direito.

Entrou para o serviço militar. Serviu com os Mariners no Iraque.

Depois voltou e concluiu a faculdade, formou-se em justiça criminal, pela Universidade do Texas, depois foi trabalhar na Delegacia do Condado de Maricopa. Tem uma boa ficha e continuou tentando entrar para a Divisão de Narcóticos até ser aceito.

Ele poderia ter feito de outra forma, Keller sabe. Poderia ter simplesmente entrado e dito que era filho de um agente morto da Narcóticos, e teria conseguido um emprego, na hora.

Mas não foi o que fez.

Ele conquistou seu lugar, e Keller respeita isso.

Seu pai também teria respeitado.

— O que posso fazer por você, Hugo?

— Já faz três anos que estou trabalhando e ainda estou investigando a compra de maconha nos subúrbios de Seattle.

— Você não gosta de Seattle?

— É o mais distante que se pode estar do México — responde Hugo. — Mas talvez essa seja a ideia.

— Como assim?

Hugo parece constrangido, mas então ergue o rosto e lança um olhar direto para Keller.

Exatamente como Ernie teria feito.

— Está me mantendo fora de perigo, senhor? — pergunta Hugo. — Se estiver…

— Não estou.

— Bem, alguém está. Já me candidatei cinco vezes para vagas nas missões do FAST e não fui aceito em nenhuma. Só que isso não faz sentido. Falo espanhol fluentemente, pareço mexicano, tenho todas as qualificações para o uso de armamento.

— Por que você quer o FAST?

FAST é o acrônimo para Foreign-Deployed Advisory and Support Team, ou Equipe de Apoio e Consultoria em Destacamentos Estrangeiros, mas Keller sabe que eles fazem muito mais que aconselhar e dar apoio. São basicamente as forças especiais da Narcóticos.

— Porque é lá que a coisa acontece — diz Hugo. — Todos esses garotos

morrendo de overdose por aí. Eu quero entrar nessa luta. Na linha de frente.

— Esse é o único motivo?

— Não basta?

— Posso ser honesto com você, Hugo?

— Eu gostaria que alguém fosse.

— Você não pode passar a vida buscando vingança por seu pai. — Com todo respeito, mas não foi o que o senhor fez? — Por isso que eu sei o que estou falando. — Keller se inclina para a

frente em sua poltrona. — Os caras que mataram seu pai estão todos mortos. Dois morreram na cadeia, um foi morto em um tiroteio numa ponte, em San Diego. Eu estava lá. O último… estão prestes a fazer seu velório. Esse trabalho terminou, filho. Você não precisa assumi-lo.

— Eu queria que meu pai se orgulhasse de mim. — Tenho certeza de que ele se orgulha.

— Não quero ser promovido por quem meu pai foi — reforça Hugo —,

mas também não quero ser impedido de avançar na carreira.

— É justo — diz Keller. — Vamos fazer o seguinte: se alguém estiver

impedindo sua transferência para o FAST, vou desimpedir. Se você passar no teste e no treinamento, coisa que só metade consegue, eu dou uma força para você ter uma missão no Afeganistão. Na linha de frente.

— Eu falo espanhol, não urdu.

— Seja realista, Hugo. De jeito nenhum vão deixar que você vá para o

México. Ou para a Guatemala, El Salvador, Costa Rica, Colômbia... A Narcóticos simplesmente não vai se arriscar com as possíveis manchetes caso algo aconteça com você. E com certeza aconteceria… você seria um homem marcado.

— Quero correr o risco.

— Eu não quero. — Tive que contar a Teresa Hidalgo que seu marido

estava morto, pensa Keller. Não vou dizer a ela que o mesmo aconteceu com o filho. Ele faz um lembrete mental para descobrir quem tem mantido Hugo fora de perigo, para agradecer. Foi um pensamento coerente. — Se você não quer Cabul, diga algum lugar que queira. Europa… Espanha, França, Itália?

— Não fique abanando atrativos para mim, senhor. Ou eu vou para a linha de frente, ou deixo a Narcóticos. E o senhor sabe que, se eu for para a polícia da fronteira, eles vão me colocar infiltrado. Vou comprar drogas de Sinaloa antes que o senhor possa tirar meu nome de sua lista de cartões de Natal.

Você é mesmo filho do seu pai, pensa Keller. Vai fazer exatamente o que está dizendo e vai ser morto, e eu devo mais que isso a seu pai.

— Você quer derrubar o cartel? — pergunta Keller.

— Sim, senhor.

— Então talvez eu tenha um emprego pra você, bem aqui. Como meu assistente.

— Preenchendo papelada? — indaga Hugo.

— Se acha que vai derrubar o cartel comprando trouxinhas de coca em El Paso ou metralhando alguns sicários em El Salvador, talvez seja tolo demais para trabalhar aqui — responde Keller. — Mas, se quiser estar na guerra de verdade, pegue um voo de volta para Seattle, arrume as malas e esteja pronto para trabalhar na segunda-feira, bem cedo. Essa é a melhor oferta que você vai ter, filho. Se eu fosse você, aceitaria.

— Eu aceito.

— Que bom. Vejo você na segunda.

Ele acompanha Hugo até a porta. Porra, acabei de ser dobrado pelo filho de Ernie Hidalgo.

Keller olha novamente para a televisão.

Levaram o corpo de Adán de volta a Culiacán.

Se Ric tiver que ficar ali sentado por mais cinco minutos, vai dar um tiro na própria cabeça.

Desta vez, é certo.

Melhor morrer que ficar sentado nesta cadeira dobrável de madeira, encarando um caixão fechado com os ossos de Adán Barrera, fingindo pesar, fingindo recordar momentos afetuosos que na verdade não teve com seu padrinho.

A coisa toda é asquerosa.

Mas até que é engraçado, ao estilo Guillermo del Toro. Todo o conceito de velório é para que as pessoas possam ver o corpo, mas não há corpo nenhum, não de verdade. Só jogaram o esqueleto dentro de um caixão que provavelmente custa mais que a casa da maioria das pessoas, portanto, é meio como assistir a um filme que não tem imagem, só som.

Ainda teve toda aquela discussão do que fazer em relação ao terno,

porque o falecido deve ser vestido com seu melhor terno, para que não circule pela outra vida todo maltrapilho, mas isso claramente não daria certo, então dobraram o terno Armani que acharam em um dos armários de Adán e puseram dentro do caixão.

Mais engraçado ainda foi o dilema sobre o que mais pôr ali dentro,

porque a tradição é colocar coisas que o defunto gostava de fazer na vida, mas ninguém conseguia pensar em nada que Adán fizesse por diversão, nada de que ele realmente gostasse.

— A gente poderia botar dinheiro aí dentro — murmurou Iván para Ric,

durante a discussão. — Porra, ele gostava pra cacete de dinheiro.

— E de boceta — respondeu Ric.

Diziam que seu padrinho era pegador.

— É, mas acho que não vão deixar você matar alguma vadia gostosa e

botar aí dentro com ele — considerou Iván.

— Sei não. Tem espaço de sobra...

— Eu te dou mil dólares pra sugerir isso — ofereceu Iván. — Não vale — respondeu Ric, olhando para seu pai e Elena Sánchez,

imersos em uma sincera discussão sobre o assunto.

Não, seu pai não acharia a sugestão nada engraçada, e Elena já não

gostava dele. E, de qualquer forma, não diria nada sobre vadias gostosas na frente de Eva — que, por sinal, estava… bem… gostosa, com seu vestido preto.

Ric com certeza pegaria Eva — a mulher tinha a sua idade — mas

tampouco diria isso na frente de Iván, irmão dela.

— Eu pegaria ela — disse Belinda a Ric. — Com certeza. — Acha que ela joga nos dois times?

— Baby — respondeu Belinda —, comigo, todo mundo joga nos dois

times. Eu pego quem eu quero.

Ric pensou nisso por um segundo.

— Menos Elena. Ela tem gelo no meio das pernas. — Eu faria derreter — disse Belinda, mostrando a língua. — E

transformaria em lágrimas de prazer.

Nunca faltou confiança a Belinda.

De qualquer jeito, o que eles decidiram pôr no caixão foi uma bola de beisebol. Adán meio que gostava de beisebol, embora ninguém ali conseguisse se lembrar de um único jogo a que ele tivesse ido. Colocaram também um par de luvas de boxe da época da adolescência de Adán, como aspirante a promotor de boxe, e uma foto da filha que morrera jovem, fazendo Ric sentir-se meio mal por querer botar a mulher morta com ele.

Bem, foi o resultado dessa discussão — o debate mais sério foi sobre o local onde realizar o velório. Primeiro, pensaram em fazer na casa da mãe de Adán, em seu vilarejo natal de La Tuna, mas depois reconsideraram, pois poderia ser demais para a velhinha, e também — como Ric frisou — a locação rural traria muitas dificuldades logísticas.

Certo.

Decidiram fazer na casa de alguém em Culiacán, onde, afinal, ficava o cemitério. O problema era que todos tinham uma casa — na verdade, casas — dentro ou nos arredores da cidade, então começou a discussão sobre em qual casa seria, já que deveria ser um lugar com algum significado.

Elena queria que fosse na dela, afinal, Adán era seu irmão; Iván queria que fosse na casa da família Esparza, já que Adán era seu genro; o pai de Ric sugeriu a casa deles, nos subúrbios de Eldorado, por ser “mais distante dos curiosos”.

Que porra de diferença faz?, pensou Ric, assistindo à discussão que ficava inflamada. Adán não vai ligar, o cara está morto. Mas parecia importar para eles, que ficaram discutindo até que Eva disse, baixinho:

— Adán e eu também tínhamos um lar. Vamos fazer lá.

Ric notou que Iván não ficou muito animado com a irmã caçula tomando a palavra.

— É demais querer que vocês sejam a anfitriões disso.

Por quê?, pensou Ric. Até parece que Adán vai ficar ocupado demais servindo pastinha de feijão para desfrutar de seu próprio velório.

— É realmente demais, querida — disse Elena.

O pai de Ric assentiu, concordando.

— É tão longe, na zona rural.

Eles enfim concordam em algo, pensou Ric.

Mas Eva afirmou:

— Vamos fazer lá.

Então Ric e todos os outros tiveram que dirigir até o Leste do Cu do Mundo, rumo à estância de Adán, passando por estradas de terra sinuosas, além das barricadas da polícia estadual que provinham segurança. Uma porra de uma caravana de narcos indo prestar condolências, alguns por amor, outros por obrigação, alguns por medo de não serem vistos lá. Se você recebe um convite para o velório de Adán Barrera e não aparece, pode ser o convidado de honra do velório seguinte.

Seu pai e Elena cuidaram de praticamente tudo, e, portanto, claro que

tudo saiu perfeito. Helicópteros circulando acima, seguranças armados cercando o solo, manobristas com pistolas 9 mm na cinta.

Os convidados lotaram a colina gramada da frente. Mesas com toalhas

brancas tinham sido postas com travessas de comida, garrafas de vinho e jarros de cerveja, limonada e água. Garçons passavam com bandejas de canapés.

Uma das notáveis bandas de Rudolfo Sánchez tocava em um coreto. O caminho que subia até a casa estava coberto de pétalas de cravos, uma

tradição nos velórios.

— Eles realmente capricharam — comentou Karin, esposa de Ric. — O que você esperava?

Ric tinha frequentado dois semestres inteiros na Universidade

Autônoma de Sinaloa, cursando negócios, e tudo o que aprendera de economia foi que um preservativo barato pode custar muito mais caro que um bom. Quando contou ao pai que Karin estava embarazada, Ricardo falou que ele teria que fazer o que era certo.

Que Ric traduziu como se livrar do problema e terminar com Karin. — Não — corrigira Núñez. — Você vai se casar e criar seu filho. Ric Sênior achou que a responsabilidade de ter uma família faria seu

filho “se tornar um homem”. Até que fez, e o rapaz se tornou um homem que raramente volta para casa e que tem uma amante que faz tudo o que sua esposa não faz. Não que pedisse — Karin, apesar de bonita, era tão entediante quanto um jantar de domingo. Se sugerisse algumas das coisas que Belinda fazia, era provável que ela começasse a chorar e se trancasse no banheiro.

O pai não aprovava seu comportamento.

— Você passa mais tempo por aí, com os Esparza, do que na sua casa. — Preciso de uma noite com os meninos de vez em quando. — Mas você não é menino, é um homem. E um homem fica com a sua

família.

— Você conhece a Karin?

— Você que quis transar com ela sem a proteção adequada.

— Foi só uma vez — argumentou Ric. — Mas agora não preciso me preocupar muito sobre sexo com ela.

— Arrume uma amante — respondeu Núñez. — Todo homem faz isso. Mas, ao mesmo tempo, cuida da família.

Apesar disso, para seu pai, seria de cair o cu da bunda descobrir quem era a amante que Ric escolhera — a psicopata chefe de segurança. Não, o pai não aprovaria La Fósfora, então, mantinham discrição.

Seu velho tinha mais a dizer.

— Desrespeitar seu casamento é desrespeitar seu padrinho, e isso eu não posso permitir.

Ric fora para casa naquela noite. Ok.

— Você andou resmungando pro meu pai? — perguntara a Karin.

— Você nunca fica em casa! — respondera ela. — Passa todas as noites com seus amigos! Provavelmente está transando com alguma piranha!

Piranhas, no plural, pensara Ric, mas não falara. O que disse em vez disso foi:

— Você gosta deste casarão? Que tal o condomínio em Cabo? A casa na praia, em Rosario? De onde você acha que vem tudo isso? As roupas, as joias, a televisão de tela plana imensa na qual você vive com os olhos grudados. A babá da sua filha, para que você não precise parar de ver suas novelas. De onde acha que vem tudo isso? De mim?

Karin debochara.

— Você nem tem emprego.

— Meu emprego é ser filho daquele homem.

— Mini-Ric — completara ela, com outro deboche.

— Isso mesmo — respondera ele. — Para que alguém que não esteja agindo como uma puta imbecil possa pensar “Hmm, a última coisa que eu quero fazer é difamar meu marido para o pai dele e correr o risco de perder tudo isto.” Claro, isso seria alguém que não estivesse agindo como uma puta imbecil.

— Vá embora.

— Meu Deus, se decida. Você quer que eu fique em casa, ou quer que eu vá embora, qual dos dois? Uma maldita noite com você se transformou numa sentença de prisão perpétua.

— Como você acha que eu me sinto? — perguntara Karin.

Isso é o melhor que ela sabe fazer, pensara Ric. Se chamasse Belinda de

puta imbecil, ela daria um tiro no seu pau e depois chuparia para tirar a bala.

— Essa é a questão. — Se quer reclamar, reclame para as suas amigas,

em um desses almoços de vocês. Vá se queixar com a empregada, reclame com aquela merdinha daquele cachorrinho que eu paguei. Mas nunca, jamais, reclame com o meu pai.

— Se não, o quê?

Karin estava bem perto do rosto dele.

— Eu jamais bateria em uma mulher — respondera Ric. — Você sabe

que eu não sou assim. Mas vou me divorciar. Você vai ficar com uma das casas e vai morar lá sozinha. E boa sorte tentando arranjar um marido com uma criança pendurada no quadril.

Mais tarde, naquela noite, voltara para a cama bêbado o suficiente para

amolecer um pouquinho.

— Karin?

— O quê?

— Eu sei que sou um babaca. Sou um hijo e não sei ser diferente. — Só que você…

— Eu o quê?

— Você só brinca com a vida...

Ric dera risada.

— Baby, o que mais há para fazer com ela?

Como um hijo, já vira amigos, primos, tios mortos. A maioria jovem,

alguns mais jovens que ele. É preciso brincar enquanto a vida dá tempo para brincar, porque, cedo ou tarde, provavelmente cedo, vão colocar seus brinquedos prediletos em uma caixa com você.

Carros velozes, barcos velozes, mulheres mais velozes ainda. Comida

boa, bebida melhor, as melhores drogas. Casas boas, roupas melhores, armas melhores ainda. Se há mais que isso na vida, não conhecia.

— Brinque junto comigo — pedira. — Não posso — respondera ela. — Eu tenho uma filha. Depois que Karin se acomodara com a maternidade, criando a garotinha,

o casamento passara da hostilidade aberta para a tolerância entediante. E claro, a mulher teve que acompanhá-lo ao velório de Adán, pois qualquer outra opção pareceria “inconveniente”, aos olhos do pai dele.

Mas o fato de Belinda também estar lá não ajudou muito.

Ela estava a trabalho.

Mas Karin percebeu.

— Aquela garota. Ela é da segurança?

— Ela é chefe da segurança.

— Ela é estonteante — disse Karin. — Acha que é tortillera?

Ric riu.

— Como você sabe essa palavra?

— Eu sei coisas. Não moro num casulo.

Ah, meio que mora, sim, pensou Ric.

— Não sei se ela é lésbica ou não. Deve ser.

Karin está sentada ao lado de Ric, parecendo tão infeliz quanto se sente, mas olhando zelosamente para o caixão (Karin cumpre seu dever como uma freira reza um terço, pensa Ric), como deve fazer a esposa de um afilhado.

O que faz Ric lembrar-se de que se tornou afilhado de Adán na feliz ocasião de seu casamento, uma antiga tradição mexicana, segundo a qual um homem pode “adotar” um afilhado na celebração de um grande evento de sua vida, embora Ric saiba que Adán fez isso mais para homenagear seu pai do que para expressar qualquer proximidade específica com ele.

Ric já ouvira mais de mil vezes a história de como seu pai conhecera Adán Barrera.

Ricardo Núñez era um jovem de apenas 38 anos, quando Adán foi trazido aos portões da prisão, depois de ter obtido a “compaixão da extradição” dos EUA, para cumprir no México o restante de sua pena de 22 anos.

Era uma manhã fria. O pai de Ric sempre dizia isso quando contava a história. Adán estava algemado pelos punhos e tornozelos, tremendo, quando trocou sua jaqueta azul por um uniforme marrom, com o número 817 costurado na frente e nas costas.

— Eu fiz um discurso cheio de desdém — contara Núñez (E você faz algum outro tipo?, pensa Ric). — Adán Barrera, você agora é prisioneiro de CEFERESO II. Não pense que seu status anterior lhe dá qualquer vantagem aqui. Você é como qualquer outro criminoso.

Fez isso por conta das câmeras, algo que Adán entendeu muito bem. Lá dentro, ele graciosamente aceitou o pedido de desculpas de Núñez e a garantia de que todo o possível seria feito para que ele ficasse confortável.

E de fato foi.

Diego Tapia já tinha providenciado sua segurança. Inúmeros de seus

homens de maior confiança haviam concordado em serem presos, condenados e enviados para a instituição, para que pudessem fazer a guarda de “El Patrón”. E Núñez colaborou com Diego para prover a Adán uma “cela” de 180 metros quadrados com cozinha completa, um bar bem abastecido, televisão de LED, computador e geladeira comercial abastecida de produtos frescos.

Em algumas noites, o refeitório da cadeia era convertido para Adán

promover o “cinema noturno” para seus amigos, e o pai de Ric sempre fazia questão de relatar que o chefão das drogas preferia filmes leves, sem sexo ou violência.

Em outras noites, os guardas da prisão iam até Guadalajara e voltavam

com uma van cheia de garotas de programa para o pessoal de apoio e os empregados de Barrera. Mas Adán não participava, e não demorou a começar um caso com uma linda detenta, a ex-Miss Sinaloa, Magda Beltrán, que veio a se tornar sua famosa amante.

— Mas Adán era assim — dissera Núñez. — Ele sempre teve classe,

dignidade e apreço pela qualidade nas pessoas e nas coisas.

Adán cuidava das pessoas que cuidavam dele. Portanto, foi bem ao estilo dele quando, pouco antes do Natal, foi até o

escritório e silenciosamente sugeriu que Núñez pedisse demissão. Que uma conta bancária fora aberta para ele nas Ilhas Caimã, e que ele encontraria a papelada em sua casa nova, em Culiacán.

Núñez se demitiu de seu cargo e voltou para Sinaloa. Na noite de Natal, um helicóptero levou Adán Barrera e Magda Beltrán

do telhado em uma “fuga” que, de acordo com os boatos, custou mais de quatro milhões de dólares em pagamentos para o pessoal, na Cidade do México.

Parte desse dinheiro estava em uma conta, em Grand Caimã, para

Ricardo Núñez.

Os investigadores federais vieram interrogá-lo, mas Núñez não sabia de

nada sobre a fuga. Eles expressaram a aversão moral ao tratamento de favorecimento dado a Adán na cadeia e ameaçaram processar, mas não deu em nada. E, embora Núñez tenha se tornado inempregável como promotor, já não importava — Adán fizera valer sua palavra e estendera-lhe a mão.

Colocou-o no negócio da cocaína.

Núñez se tornou respeitado.

De confiança.

E discreto. Núñez nunca foi ostentoso, ficava fora dos holofotes e das mídias sociais. Atuava deliberadamente fora do radar, de modo que nem mesmo a SEIDO, ou a Narcóticos — na verdade, pouquíssimas pessoas no cartel — sabiam quão importante ele havia se tornado.

El Abogado.

Núñez, na verdade, se tornou o braço direito de Adán.

O Ric passara pouco tempo com Barrera; portanto, era estranho ficar ali sentado fingindo pesar.

O caixão de Adán está sobre um altar erguido para a ocasião nos fundos de um imenso salão. Pilhas de flores frescas cobrem o altar, junto com ícones religiosos e crucifixos. Espigas de milho, abóboras e confete pendem de um arco montado acima do caixão. Embalagens de grãos de café foram dispostas, outra tradição de velórios, algo que Ric desconfia ter mais a ver com o cheiro de decomposição.

Como afilhado, Ric senta na fileira da frente, junto com Eva, é claro, os Esparza, e Elena e seus filhos. A mãe de Adán, velha como a terra, está sentada em uma cadeira de balanço, vestida de preto, com um xale preto na cabeça, o rosto enrugado mostrando a tristeza paciente da campesina mexicana. Deus, as coisas que essa mulher deve ter visto, pensa Ric. As perdas que já sofrera — dois filhos, um neto morto, uma neta que morreu tão jovem, tantos outros que se foram.

Ele conhece a expressão “cortar a tensão com uma faca”, mas a tensão daquela sala não poderia ser partida nem com um cutelo. Deveriam estar trocando histórias afetuosas sobre o falecido, só que ninguém consegue pensar em nenhuma.

Ric tem algumas ideias:

Ei, lembram daquela vez que Tío Adán mandou matar uma vila inteira só pra garantir que um dedo-duro fosse morto?

E aquela vez que Tío Adán mandou que a cabeça da amante do rival fosse enviada pra ele num pacote de gelo seco?

Ei, ei, lembra quando Tío Adán jogou aqueles dois garotinhos da ponte? Que gozado. Que cara mais engraçado, hein?

Barrera fizera bilhões de dólares, criara e regera uma porra de um império, e o que tinha para mostrar?

Uma filha morta, uma ex-esposa que não fora ao velório, uma jovem viúva troféu, filhos gêmeos que cresceriam sem o pai, uma bola de beisebol, luvas de boxe fedorentas e um terno que nunca usara. E absolutamente nenhuma das centenas de pessoas presentes conseguia pensar em uma única história boa para contar sobre ele.

E aquele era o cara vitorioso.

El Señor. El Patrón. O Padrinho.

Ric vê Iván olhando para ele, tocando o nariz com o dedo indicador.

Iván levanta da cadeira.

— Tenho que mijar — anuncia Ric.

E fecha a porta do banheiro depois de entrar.

Iván está esticando carreiras de pó na bancada de mármore. — Porra, será que dá pra ficar mais entediante? — Está um pavor.

Iván enrola uma nota de cem dólares (é claro, pensa Ric), cheira uma

carreira, depois passa a cédula para ele.

— Nada dessa merda combina comigo, cuate. Quando eu partir, quero

uma festa do cacete, depois pode me botar numa canoa e pronto, enterro de viking.

Ric se debruça e cheira a coca.

— Porra, assim está melhor. E se eu for primeiro? — Vou jogar seu corpo num beco.

— Valeu.

Os dois ouvem uma batida à porta.

— ¡Momento! — grita Iván.

— Sou eu.

— Belinda — diz Ric.

Ele abre a porta e ela entra depressa.

— Eu sabia o que os dois babacas estavam fazendo aqui. Também

quero.

Iván tira o frasco do bolso e dá para ela.

— Pode se esbaldar.

Belinda estica uma carreira e cheira.

Iván se recosta na parede.

— Adivinha só quem eu vi, outro dia? Damien Tapia. — Não brinca — responde Ric. — Onde?

— Numa Starbucks.

— Meu Deus, e o que você disse?

— Eu disse “oi”, o que você acha?

Ric não sabe o que achar. Damien tinha sido um hijo, quando eram pequenos e brincavam juntos o tempo todo, festejavam, essa merda toda. Ele era tão próximo de Damien quanto de Iván, até que Adán e Diego Tapia tiveram uma briga, que se transformou em uma guerra, e o pai de Damien foi morto.

Na época, ainda eram todos adolescentes.

Adán ganhara a guerra, claro, e a família Tapia fora expulsa do grupo. Desde então, foram proibidos de ter qualquer contato com Damien Tapia. Não que Damien quisesse ter algo a ver com eles. Ainda estava pela cidade, mas trombar com ele era… esquisito.

— Quando eu assumir — declara Iván —, vou trazer o Damien de volta.

— É?

— Por que não? A briga foi entre Adán e o velho de Damien. Adán está morto, como você deve ter notado. Eu vou acertar as coisas com Damien, e será como antes.

— Parece bom — diz Ric.

Sente falta de Damien.

— Aquela geração — comenta Iván, apontando o queixo para a porta —, nós não temos que herdar as guerras deles. Nós vamos seguir adiante. Os Esparza, você, Rubén e Damien. Como antes. Los Hijos, como irmãos, certo?

— Como irmãos — diz Ric.

Eles batem os nós dos dedos.

— Se vocês já terminaram de ser gays — diz Belinda —, é melhor a gente voltar, antes que descubram o que estamos fazendo. Cheirando pó no velório do patrón, hein? Tsc, tsc, tsc.

— Foi o pó que ergueu este lugar — afirma Iván.

— Pó vendido, não cheirado — responde Belinda. Ela olha para Ric. — Limpa o nariz, namorado. Ei, sua esposa é bonitinha, hein?

— Você já tinha visto.

— É, mas ela está mais bonitinha hoje. Quer fazer um ménage? Posso ensinar umas coisinhas pra ela. Anda, vamos nessa.

Ela abre a porta e sai.

Iván segura Ric pelo cotovelo.

— Ei, você sabe que eu tenho que cuidar dos meus irmãos. Mas vamos deixar a poeira baixar por alguns dias e depois conversamos, está bem? Sobre onde você se encaixa.

— Certo.

— Não se preocupe, mano. Eu serei justo com seu pai e vou cuidar de

você.

Ric sai atrás dele.

Elena está sentada atrás dos filhos.

Viu um documentário na televisão, um programa sobre a natureza, e

aprendeu que quando um novo leão assume um bando, a primeira coisa que faz é matar os filhotes do leão anterior. Seus próprios filhotes ainda ostentam o nome de Barrera, e as pessoas vão presumir que eles têm ambições, mesmo que não tenham. Rudolfo tem um pequeno séquito de guarda-costas e alguns parasitas. Luis tem até menos. Independentemente da minha vontade, pensa ela, terei que agir com certo grau de poder, para protegê-los.

Mas assumir o lugar no topo?

Nunca houvera uma mulher encabeçando o cartel, e ela não quer ser a

primeira.

Mas terá que fazer algo.

Sem uma base de poder, os outros leões irão atrás de seus filhotes para

matá-los.

Olhando o caixão do irmão, gostaria de ter mais sentimentos por ele.

Adán sempre tinha sido muito bom para ela, bom para seus filhos. Quer chorar, mas as lágrimas não vêm, e ela diz a si mesma que é porque seu coração está exausto, esgotado por tantas perdas ao longo dos anos.

A mãe, empoleirada em uma cadeira como um corvo, está literalmente

catatônica. Enterrou dois filhos, um neto e uma neta. Elena gostaria de poder fazê-la mudar-se para a cidade, mas ela insiste em ficar na casa que Adán construiu para ela em La Tuna, sozinha, a não ser pelos criados e pelo guarda-costas.

Ela não vai sair de lá, vai morrer naquela casa. Se minha mãe é um corvo, pensa Elena, o restante é um bando de

abutres. Ficam só rondando, esperando o momento certo para mergulhar e pegar os ossos do meu irmão.

Iván Esparza e seus dois irmãos, tão cretinos quanto ele, Núñez, o

horrendo advogado de Adán, e um bando de figuras menos importantes — chefes de plazas, líderes de cadeias, pistoleiros — em busca de maior reconhecimento.

Ela se sente ainda mais cansada quando vê Núñez vindo em sua direção.

— Elena — diz ele —, será que poderíamos dar uma palavra? Em particular.

Vai atrás dele, lá para fora, até a colina gramada que subiu tantas vezes com Adán. Núñez lhe entrega um pedaço de papel e diz:

— Isto é estranho.

Ele espera enquanto ela lê.

— Esta não é uma posição que me dá satisfação — afirma Núñez —, com certeza não é o que eu queria. Na verdade, rezei para que este dia nunca chegasse. Mas sinto fortemente que o desejo de seu irmão deve ser respeitado.

Sem dúvida é a letra de Adán, pensa Elena. E ele declara de forma explícita que Ricardo Núñez deve assumir, no caso da morte de Adán, até que seus próprios filhos cheguem a uma idade de responsabilidade. Meu Deus, os gêmeos mal fizeram dois anos. Núñez terá uma longa regência. Tempo de sobra para transferir a organização para os próprios filhos.

— Entendo que isso talvez seja uma surpresa — diz Núñez — e uma decepção. Só espero que não haja ressentimento.

— Por que haveria?

— Eu entenderia se você achasse que esse papel deveria ir para a família.

— Nenhum dos meus filhos está interessado, e Eva…

— É uma rainha de concurso de beleza — completa Núñez.

— Magda Beltrán também — diz Elena, embora não saiba por que sente a necessidade de discutir com ele. Mas é verdade. Adán deveria ter se casado com sua amante magnífica. A bela Magda conheceu Adán na prisão, se tornou sua amante, depois explorou isso com sucesso, junto com sua considerável perspicácia nos negócios, criando sua própria organização multimilionária.

— E olhe o que aconteceu com ela — diz Núñez.

Verdade. Os zetas cortaram um “Z” no peito de Magda, depois a sufocaram com um saco plástico. E ela estava grávida de um filho de Adán. Magda havia confidenciado isso a Elena, e agora ela se pergunta se Adán chegara a saber. Torce para que não. Ele teria ficado arrasado.

— Eva obviamente não é a pessoa para assumir.

— Por favor, entenda — insiste Núñez — que eu vou manter essa posição em confiança para os filhos de Adán. Mas, se você achar que pode ser uma escolha melhor, estou disposto a ignorar o pedido de Adán e recusar o cargo.

— Não quero — responde ela.

Deixar que Núñez assuma o trono significa pôr seus próprios filhos de

lado, mas Elena sabe que eles ficarão felizes em segredo. E, francamente, se Núñez quer ser um alvo, melhor ainda.

Mas Iván… Iván não vai gostar nada disso.

— Você tem meu apoio — diz Elena. Vê Núñez assentir com a

graciosidade de um advogado que ganhou um acordo. Então, solta a bomba: — Só tenho um pequeno pedido.

Núñez sorri.

— Por favor.

— Quero Baja de volta. Para Rudolfo.

— Baja é de Iván Esparza.

— E, antes de ser dele, era minha.

— Com toda franqueza, Elena, você abriu mão. Você quis se aposentar. Foi meu tio, M-1, que mandou que meus irmãos tirassem a Baja de

Güero Méndez e de Rafael Caro, pensa Elena. Tinha sido em 1990, e Adán e Raúl tinham dado conta do recado. Eles seduziram os jovens ricos de Tijuana e os transformaram em uma rede de tráfico que tomou a estrutura do poder de seus pais em nosso benefício. Recrutaram gangues de San Diego para serem pistoleiros e derrotaram Méndez, Caro e todos os outros para tomarem a Plaza e usá-la como base para tomarem o país inteiro.

Nós fizemos de Sinaloa o que é hoje, pensa ela, portanto, se eu quiser a

Baja de volta, você vai me dar. Não vou deixar meus filhos sem uma base de poder com que possam se defender.

— A Baja foi dada a Nacho Esparza — diz Ricardo. — E, com a morte

dele, passou a Iván.

— Iván é um palhaço — retruca Elena. — Todos eles são. Todos os

hijos, incluindo seu filho, Ricardo.

— Com uma alegação legítima e um exército para respaldar — diz

Núñez.

— E você agora tem o exército de Adán — diz Elena, deixando o óbvio

em silêncio: se eu respaldar você.

— Iván já ficará muito desapontado por não ganhar a cadeira grande —

diz Núñez. — Elena, eu tenho que deixá-lo com alguma coisa.

— E Rudolfo, sobrinho de Adán, não ganha nada? — pergunta Elena. — Os irmãos Esparza têm de sobra, têm mais dinheiro do que podem desperdiçar somando o tempo de vida de todos eles. Estou pedindo uma plaza. E você pode manter suas vendas domésticas lá.

Núñez parece surpreso.

— Ora, por favor — diz Elena. — Sei que o jovem Ric está traficando suas drogas por toda Baja Sur. Está tudo bem, eu só quero o norte e a fronteira.

— Ah, só isso.

Elena quer uma das plazas mais lucrativas de todo o comércio de narcóticos. Baja tem uma crescente narcomenudeo, venda doméstica de rua, mas esta é diminuída pelo trasiego, os produtos que passam de Tijuana e Tecate para San Diego e Los Angeles. Dali, as drogas são distribuídas por todo o território norte-americano.

— É tanto assim? — pergunta Elena. — Para que a irmã de Adán dê sua benção aos últimos desejos de seu irmão? Você precisa disso, Ricardo. Sem isso…

— Você está me pedindo para dar algo que não é meu — interrompe Núñez. — Adán deu a plaza a Esparza. E, com todo o respeito, Elena, meu negócio doméstico em Cabo não é da sua conta.

— Falou como um advogado agora — diz Elena. — Não um patrón. Se você vai ser El Patrón, seja El Patrón. Tome decisões, dê ordens. Se quiser meu apoio, o preço é Baja para meu filho.

O rei morreu, pensa Elena.

Vida longa ao rei.

Ric está lá fora, sentado junto à piscina, ao lado de Iván.

— Aqui está bem melhor — diz Ric. — Eu não aguentaria ficar mais nem uma porra de um minuto lá dentro.

— Onde está Karin?

— No celular com a babá, provavelmente discutindo a cor do cocô. Vai demorar um pouco.

— Acha que ela percebeu você e Belinda? — pergunta Iván.

— Quem se importa, porra?

— Xii.

— O que foi?

— Olha — diz Iván.

Ric vira e vê Tito Ascención caminhando na direção deles. Da altura de

uma geladeira, só que mais largo.

O Mastim.

— O antigo cão de guarda do meu pai — diz Iván. — Tenha respeito — responde Ric. — Ele é pai do Rubén. De qualquer

forma, sabe quantos caras ele já matou?

Muitos.

Três dígitos, pelo menos.

Tito Ascención era o chefe da ala armada de Nacho Esparza. Lutou

contra os zeta, depois os Tapia, depois novamente contra os zeta. Tito uma vez matou 38 zeta em uma única incursão e pendurou os corpos em uma passarela sobre a estrada. No fim das contas, foi um engano; não eram zeta, só cidadãos comuns. Tito vestiu uma touca ninja balaclava e deu uma coletiva de imprensa, pediu desculpas pelo equívoco e advertiu que seu grupo continuava em guerra com os zeta, portanto, seria prudente não ser confundido com um deles.

De qualquer maneira, Tito teve um papel muito importante na vitória

das guerras para Sinaloa, e, como recompensa, Nacho deixou que ele começasse sua própria organização em Jalisco, independente, mas ainda um braço de Sinaloa.

Tito adorava Nacho e, quando ouviu falar que os zetas o haviam matado

na Guatemala, atacou cinco deles, os torturou até a morte ao longo de semanas, depois cortou o pau dos cinco e enfiou em suas bocas.

Não, não se desrespeita El Mastín.

Agora, a sombra do homem literalmente recai sobre os dois. — Iván — diz Tito —, posso dar uma palavra? — Falo contigo depois — anuncia Ric, tentando não rir. Só consegue pensar em Luca Brazi, na cena do casamento em O

poderoso chefão, que ele teve que assistir com Iván umas 57 mil vezes. Iván é obcecado por esse filme, apenas um pouco menos que por Scarface.

— Não, fique — diz Iván, e, quando Tito assume um ar duvidoso, ele

declara: — Ric será meu número dois. Qualquer coisa que você disser para mim, pode dizer na frente dele.

Ele falou meio devagar, como se Tito fosse parvo. Tito anuncia:

— Quero transferir a minha organização para a heroína. — Você acha isso sábio? — pergunta Iván.

— Acho rentável — diz Tito.

Nisso ele está certo, pensa Ric. Sinaloa está fazendo milhões com heroína, enquanto Jalisco ainda está brincando com cocaína e metanfetamina.

— As duas coisas nem sempre andam juntas — diz Iván, tentando parecer seu pai. — Pra começar, isso colocaria você em concorrência com a gente.

— O mercado é grande o suficiente para nós dois.

Iván franze o rosto.

— Tito, por que consertar o que não está quebrado? Jalisco faz dinheiro de sobra com meta, não faz? E nós não cobramos nem num piso para você usar nossas plazas.

— Isso era o que eu tinha combinado com seu pai — lembra Tito.

— Você pagou suas dívidas — diz Iván —, sem dúvida. Tem sido um bom soldado, e recebeu sua própria organização como recompensa por isso. Mas acho que é melhor simplesmente deixar as coisas como estão, não acha?

Meu Deus, pensa Ric, é quase como se ele estivesse afagando a cabeça do homem.

Bom garoto, bom garoto.

Senta.

Junto.

Mas Tito retruca:

— Se é o que você acha melhor.

— É, sim — responde Iván.

Tito assente para Ric e sai andando.

— Rubén herdou o cérebro da mãe — diz Iván. — A pinta também, graças a Deus.

— Rubén é um cara bom.

— Ele é um cara ótimo.

E Ric não sabe? Rubén é o sólido número dois de Tito, cuidando de sua força de segurança, em Jalisco, e é altamente envolvido no transporte de seus produtos. Inúmeras vezes Ric ouviu o próprio pai dizer Se ao menos você fosse mais como o Rubén Ascención. Sério. Maduro.

Ele já deixou bem claro, pensa Ric. Se tivesse escolha, preferiria ter Rubén como filho.

Azar para nós dois.

— O que é? — pergunta Iván.

— O que é o quê?

— Você está com uma cara… como se alguém tivesse comido a bunda

do seu cachorrinho.

— Eu não tenho cachorro.

— Talvez seja isso — responde Iván. — Quer que eu arranje um pra

você? Que tipo de cachorro você quer, Ric? Vou mandar alguém buscar agora mesmo. Quero que você fique feliz, mano.

Iván sendo Iván, pensa Ric.

Era assim desde que eram pequenos. Se você dissesse que estava com

fome, ele saía para buscar comida. Se sua bicicleta fosse roubada, logo aparecia uma nova. Se dissesse que estava com tesão, uma garota logo aparecia na sua porta.

— Eu te amo, cara.

— Também te amo — diz Iván. Então, acrescenta: — Agora é a nossa

vez, mano. É a nossa hora. Você vai ver… vai ser ótimo.

— É.

Ric vê seu pai se aproximando.

Mas não é com ele que o pai veio falar.

— Iván, nós precisamos conversar — anuncia Núñez. — Precisamos — concorda Iván.

Ric vê o sorriso no rosto do amigo, e sabe que esse é o momento que ele

vinha esperando.

É a hora de sua coroação.

Núñez baixa o olhar para seu filho e diz:

— Em particular.

— Claro. — Iván dá uma piscada para Ric. — Eu já volto, bro. Ric assente.

Ele se recosta na cadeira e fica vendo o melhor amigo e o pai se

afastarem.

Então, tem uma lembrança de Adán.

Em pé, no acostamento de uma estrada de terra, no interior de Durango. — Olha à volta — dissera Adán. — O que você vê? — Campos — respondera Ric.

— Campos vazios — corrigira Adán. Ric não tinha como discordar. Em ambos os lados, até onde a vista

alcançava, havia campos com plantações de maconha.

— A maconha foi legalizada nos Estados Unidos — explicara Adán. — Se minhas fontes americanas estiverem certas, dois ou mais estados logo tornarão isso oficial. Nós simplesmente não podemos competir com a qualidade nem com os custos de transporte. Ano passado, estávamos recebendo 100 dólares por um quilo de maconha. Agora vendemos por 25. Nem está mais valendo a pena plantar esse troço. Estamos perdendo dezenas de milhões de dólares por ano, e se a Califórnia, por exemplo, legalizar, o prejuízo será dez vezes maior. Mas está calor aqui, hein? Vamos pegar uma cerveja.

Eles seguiram por mais umas dez milhas, até uma cidadezinha.

Um carro ia na frente, para assegurar que estivesse tudo desimpedido. Depois de um tempo, entraram em uma taverna, que logo se esvaziou. O dono, todo nervoso, e a garota que parecia ser sua filha trouxeram um jarro de cerveja gelada e copos.

Adán seguira dizendo:

— Nosso mercado de maconha, que já foi uma grande fonte de lucro, está desmoronando, as vendas de metanfetamina estão caindo, as de cocaína estão baixas... Pela primeira vez em mais de uma década, estamos diante de um ano fiscal de crescimento negativo.

Não que estivessem perdendo dinheiro. Todos ainda ganhavam milhões. Mas eram menos milhões do que no ano anterior, e é da natureza humana que, mesmo que você seja rico, ficar menos rico dê a impressão de estar pobre.

— A situação é insustentável — afirmara Adán. — Da última vez que isso aconteceu, fomos salvos pela inovação da pedra de metanfetamina. Que ainda hoje é, uma grande fonte de lucro, mas o potencial de crescimento é pequeno demais para compensar as perdas com a maconha. E o mercado de cocaína também parece ter atingido um ponto de saturação.

— O que nós precisamos — respondera Núñez — é de um produto novo.

— Não — dissera Adán. — Nós precisamos de um produto velho.

Adán fizera uma pausa para dar um efeito dramático, depois completara:

— Heroína.

Ric ficara chocado. Claro que ainda vendiam heroína, mas era um produto secundário em comparação à maconha, à meta e à coca. Mas o negócio começara com a heroína, com o ópio, lá atrás, na época dos antigos gomeros, que cultivaram as papoulas e fizeram fortuna vendendo aos americanos, que a usavam para fazer morfina durante a Segunda Guerra Mundial. Depois da guerra, a máfia americana que entrou no mercado, comprando todo o ópio que os sinaloanos pudessem cultivar para fazer sua heroína.

Mas, nos anos 1970, a Divisão de Narcóticos americana uniu forças com

os militares mexicanos para queimar e envenenar os campos de papoula em Sinaloa e Durango. Pulverizavam pesticida de aeronaves, queimavam os vilarejos, tiravam os campesinos de suas casas e separavam os grupos de gomeros.

Foi o tio de Adán, o grande Miguel Ángel, M-1, que reuniu os gomeros

em um encontro semelhante àquele de sua memória e anunciou que não seriam mais ser agricultores — fazendas podiam ser envenenadas e queimadas — , que passariam a ser traficantes. Ele os apresentou ao mercado colombiano de cocaína, criando o maior golpe de sorte financeiro que os gomeros — agora conhecidos como narcos — já conheceram.

Milionários se tornaram bilionários.

A confederação informal de narcos se tornou a Federación. E Adán queria que voltassem a plantar ópio?, pensara Ric, na ocasião.

Ele achava que a heroína era a solução?

Era insano.

— Nós temos uma oportunidade ainda maior que o crack — explicara

Adán. — Um mercado já pronto, só esperando para ser explorado. E foram os próprios americanos que o criaram.

As gigantescas empresas farmacêuticas americanas, explicara ele,

tinham viciado milhares de pessoas com analgésicos.

Comprimidos.

Oxicodona, Vicodin e outros, todos derivados do ópio, todos frutos da

papoula.

Mas os comprimidos são caros e podem ser difíceis de obter, explicara

Adán. Viciados que já não conseguem mais as receitas com os médicos recorrem à rua, onde os produtos contrabandeados podem custar até trinta dólares a dose. Alguns desses caras precisam de até dez doses diárias.

— O que eu proponho — dissera Adán — é aumentar nossa produção de

heroína em setenta por cento.

Ric estava cético. A heroína mexicana preta nunca conseguira competir com a qualidade do produto mais puro, que vinha do sul asiático — o famoso Triângulo Dourado. Aumentar a produção, quase dobrá-la, só traria perdas maciças.

— A black tar está com cerca de quarenta por cento de pureza — continuara Adán. — Eu estive com os melhores cozinheiros da Colômbia, e eles me assegurara que podem pegar nosso produto base e criar algo que chamam de “heroína cinnamon”. — Ele tirou um vidrinho do bolso do casaco e o ergueu. — A cinnamon tem setenta, até oitenta por cento de pureza. E a beleza disso é que pode ser vendida por dez dólares a dose.

— Por que tão barato? — perguntara Núñez.

— Porque compensamos na quantidade. Vamos virar o Walmart. Vamos deflacionar os laboratórios farmacêuticos americanos em seu próprio mercado. Eles não têm como competir. Isso vai mais que compensar as perdas com a maconha. O rendimento pode ser de bilhões de dólares. A heroína foi o nosso passado e também será o nosso futuro.

Adán, como sempre, estava certo.

Numa época em que apenas três estados americanos tinham legalizado a maconha, as vendas do cartel caíram em quase quarenta por cento. Levaria tempo, mas Núñez começara a converter os campos de maconha para papoulas. Apenas ao longo do ano passado, tinham aumentado a produção de heroína em 30 por cento. Logo chegará a 50, e, até o fim do ano, aos 70 por centro, que é a meta.

Os americanos estão comprando. E, por que não?, pensa Ric do presente. O novo produto é mais barato, mais abundante e mais potente. É vantagem de todos os lados. A heroína está fluindo para o norte, e os dólares fluem de volta. Talvez os Adanistas estejam certos, pensa Núñez. Adán vive.

A heroína é seu legado.

E dá para contar a história dessa forma