A fronteira

Don Winslow · Capítulo 7 de 25 · parte 1/2

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A fronteira

1: O Acela

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

1

 

O Acela

 

Esse trem não carrega mentirosos…

— canção folk tradicional americana

Cidade de Nova York

Julho de 2014

 

Keller olha pela janela do trem, vendo os prédios das fábricas abandonadas de Baltimore, e fica imaginando quais viraram antro de usuários de injetáveis. As vidraças estão estilhaçadas, há pichações de gangues pelas paredes de tijolinhos, os mastros das cercas pendem como marujos bêbados, e o arame entrelaçado foi cortado.

É a mesma história, por toda a extensão da linha da ferrovia Amtrak, na

periferia da Filadélfia, de Wilmington e de Newark — as fábricas são carcaças, os empregos sumiram, e muitos dos ex-trabalhadores estão usando heroína.

Uma imensa placa acima de um prédio em ruínas, na periferia de

Wilmington, diz tudo. Antes lia-se “BUY GOOD JOBS”, mas alguém pintou por cima “GOODBYE JOBS”.

Ainda bem que peguei o trem, em vez de ir de avião, pensa Keller. Lá de

cima, deixaria de ver tudo aquilo. É tentador pensar que as causas da epidemia de heroína estão no México, porque está tão focado na interdição, mas a verdadeira fonte está bem ali e nas tantas cidadezinhas menores.

Os derivados de ópio são uma resposta à dor.

Dor física, dor emocional, dor econômica.

Do trem, pode ver todas as três.

A trifecta da heroína.

Keller está a bordo do trem Acela, o trajeto ferroviário de três horas de

Washington DC até a cidade de Nova York, partindo do centro do poder governamental e rumo ao centro financeiro, embora, às vezes, seja difícil saber qual rege qual.

É complicada a questão do que ele pode fazer sobre o México, lá de Washington, quando a verdadeira origem do problema do ópio talvez esteja simplesmente em Wall Street. Você está tentando limpar o esgoto com uma vassoura, com uma vassoura, pensa. Keller está tentando varrer de volta a onda de heroína, enquanto bilionários mandam os empregos para o exterior, fechando fábricas e cidades, matando esperanças e sonhos, causando dor.

Depois de tudo, chamam ele para resolver a epidemia de heroína.

Quer saber a diferença entre um gerente de investimentos e um chefão de cartel?

A Wharton Business School.

Ele se vira e vê Hugo Hidalgo vindo pelo corredor, carregando uma bandeja de papelão com café e sanduíches. O jovem agente senta na poltrona do corredor, ao seu lado.

— Comprei um panini de presunto e queijo para você. Espero que esteja bom.

— Está ótimo. O que você comeu?

— Um hambúrguer.

— Homem de coragem.

Na verdade, um homem de bem.

Em poucos meses, Hidalgo já se tornou um rockstar. Ele é o primeiro a chegar, pela manhã, e o último a sair, à noite, embora Keller desconfie que Hugo às vezes durma em uma caminha no escritório, como se estivesse monitorando algo.

Hugo está mergulhado na análise de tráfego de celulares, e-mails, sinais de satélite, relatórios de trabalho externo, qualquer coisa que ele possa ajudá-lo a montar um quadro da natureza mutável e fluídica do cartel Sinaloa.

Ele se tornou o relator pessoal de Keller, e deu seu último resumo esta manhã, antes que os dois partissem para pegar o trem: três traficantes de rua de Tijuana tinham sido encontrados enforcados em uma ponte.

— Era pessoal do Esparza — dissera Hugo. — Resposta de Elena ao assassinato de seu filho.

— Ele ainda está negando a responsabilidade pela morte de Rudolfo?

— Está, mas o pessoal da rua diz que está usando a hostilidade de Elena como desculpa para não entregar Baja. Em resposta ela derrubou seus traficantes de rua.

As vendas mexicanas de rua são um centro de lucro relativamente

pequeno, comparado ao comércio que cruza a fronteira, mas são essenciais para manter o território fronteiriço. Para manter uma plaza, um chefe precisa de pistoleiros locais, e os pistoleiros ganham a maior parte de seu dinheiro com as vendas locais de rua.

Sem vendas de rua, nada de exército.

Sem exército, nada de plaza.

Assim, sem vendas locais, nada de comércio internacional. Portanto, a menos que Núñez consiga garantir a paz, Elena e Iván vão

brigar, em Baja, disputando o controle das travessias na fronteira.

— Elena tem tropas? — perguntara Keller.

Hugo deu de ombros.

— Difícil dizer. Alguns dos leais a Barrera estão voltando para o lado

dela agora que Elena mostrou que está de volta. Muitos eram amigos de Rudolfo e estão em busca de vingança. Outros estão se mantendo com os Esparza, mortos de medo de que Iván traga Tito Ascención e seu pessoal de Jalisco para mantê-los na linha.

É um medo sensato, pensa Keller. O antigo cão de guarda de Nacho, El

Mastín, é o mais brutal que há.

— E Núñez?

— Está neutro — dissera Hugo. — Tentando manter a paz. As suspeitas de Keller sobre Núñez se provaram verdadeiras — Barrera

havia indicado o advogado como seu sucessor, como o “primeiro entre pares” a reger o cartel. Núñez está em uma posição difícil: se deixar que Iván fique com Baja, vai parecer fraco, algo que, no mundo narco, é o topo de um morro escorregadio. Porém, se forçar Iván a entregá-la, terá que entrar em guerra contra os Esparza. De qualquer maneira, sua organização ficará fragmentada. Embora a maior parte da ala de Barrera se mantenha leal a Núñez, há relatos dos que estão olhando para Elena e Iván como opções.

Núñez terá que forçar Iván e Elena a uma negociação de paz, ou será

forçado a escolher um lado.

No rastro da morte de Adán Barrera, o Pax Sinaloa começa a se

dissolver.

Talvez seja tudo como um punhado de cadeiras no convés do Titanic,

pensa Keller. Talvez, nem faça diferença quem está mandando a heroína, só o fato de ela estar entrando. Os narcos podem ficar brincando de dança das cadeiras pelo tempo que quiserem. Eles ali podiam até esvaziar as cadeiras com a chamada estratégia do chefão, prendendo ou matando os chefes de cartéis — mas o trono sempre é preenchido, e as drogas continuam vindo.

Keller foi um dos principais executores dessa estratégia, participando da eliminação dos jefes da antiga Federación, do cartel Golfo, dos zeta e sinaloas, e qual foi o resultado?

Mais americanos morrendo de overdose.

Se pedir a um cidadão comum para citar a guerra mais longa dos Estados Unidos, ele provavelmente dirá Vietnã, então logo irá consertar, dizendo Afeganistão, mas a verdadeira resposta é a guerra contra as drogas.

Que perdura há mais de cinquenta anos.

Já custou mais de um trilhão de dólares — e isso é apenas parte da equação, o dinheiro “legítimo” e “limpo” destinado a equipamentos, força policial, tribunais e cadeias. Porém, para ser sincero, Keller sabe que também é preciso contabilizar o dinheiro sujo.

Dezenas de bilhões de dólares — em espécie — vão apenas para o México a cada ano, e é tanto dinheiro que nem contam, pesam. Isso tem que ir para algum lugar, os narcos não podem enfiar embaixo do travesseiro ou cavar buracos no quintal dos fundos. Boa parte é investida no México, e estima-se que a quantidade de dinheiro proveniente das drogas injetada na economia mexicana é de 7 a 12 por cento.

Mas muito desse dinheiro volta para os Estados Unidos em compra de imóveis e outros investimentos.

Para o sistema bancário, de onde sai para negócios legítimos.

É o segredo sujo da guerra contra as drogas: quando um viciado crava uma agulha no braço, todo mundo ganha dinheiro.

Somos todos investidores.

Todos nós somos o cartel.

Agora você é o general no comando dessa guerra, pensa Keller, e não faz ideia de como ganhá-la. Tem milhares de soldados corajosos e dedicados, e tudo o que eles podem fazer é segurar as pontas. Keller só sabe fazer as mesmas coisas de sempre, e não estão funcionando, mas, qual é a alternativa?

Simplesmente desistir?

Se render?

Não pode fazer isso, porque as pessoas estão morrendo. Mas precisa experimentar algo diferente.

O trem entra em um túnel, a caminho de Manhattan. Intencionalmente, não há ninguém lá aguardando por eles. Ninguém da

Narcóticos ou do gabinete do procurador-geral. Eles saem da Penn Station pela saída da 8ª avenida e chamam um táxi. Hugo diz ao motorista:

— Siga para a Oeste 99, na rua 10.

— Nós não vamos pra lá — corrige Keller, e, antes que Hugo possa

perguntar o motivo, diz: — Porque se eu der uma mijada no escritório de Nova York da Narcóticos, Denton Howard vai saber quanto eu mijei e qual era a cor antes que eu lave as mãos.

Keller sabe que há vazamento na Narcóticos — para a mídia

conservadora e também para os políticos republicanos, que agora disputam a indicação presidencial, Ben O’Brien entre eles.

Um dos potenciais candidatos está bem ali, em Nova York, embora

Keller tenha dificuldade de acreditar que o cara é para valer.

Magnata do setor imobiliário e astro de reality show, John Dennison

está fazendo ruído quanto à candidatura, e muito do barulho que faz tem a ver com o México e a fronteira. Só falta Howard abastecendo as meias-verdades de Dennison com informação privilegiada, incluindo a de que Keller anda se reunindo em particular com o chefe da Narcóticos da Polícia de Nova York.

— Para onde estamos indo? — pergunta Hidalgo. Keller diz ao motorista:

— Duzentos e oitenta, Richmond Terrace. Em Staten Island. — O que tem lá? — pergunta Hidalgo.

— Você faz perguntas demais.

Brian Mullen aguarda por eles na calçada, do lado de fora de uma casa antiga.

Keller desce do táxi, caminha até ele e diz:

— Obrigado por me encontrar.

— Vou me ferrar se meu chefe descobrir que estou fazendo isso na

encolha — diz Mullen.

Mullen galgou sua carreira a duras penas, primeiro trabalhando como

infiltrado no Brooklyn, durante a antiga época pesada do crack, e saiu de uma delegacia corrupta impecavelmente limpo. Agora está quebrando todos os protocolos, ao concordar em se encontrar com Keller sem informar seus superiores.

A visita do chefe da Narcóticos seria um acontecimento, repleto de gente da mídia, com fotos de uma gangue de chefões uniformizados da One Police Plaza. Haveria auxiliares e copeiros e RPs e muita conversa, e nada seria feito.

Mullen usa uma jaqueta dos Yankees e jeans.

— Faz lembrar sua época de atuação à paisana? — pergunta Keller.

— Um pouco.

— Que lugar é esse? — pergunta Keller.

— Amethyst House — responde Mullen. — Uma casa de reintegração para mulheres viciadas. Se eu for visto por algum policial da 120, posso alegar que estava me encontrando com uma fonte.

— Este é Hugo Hidalgo — diz Keller. Ele percebe que Mullen não está pulando de alegria ao ver que veio mais alguém junto. — O pai dele e eu trabalhamos juntos, nas antigas. Ernie Hidalgo.

Mullen aperta a mão de Hugo.

— Bem vindo. Venham, eu tenho um carro. Tem uma delicatessen na esquina, se quiserem um café, ou alguma outra coisa.

— Estamos bem.

Eles seguem atrás de Mullen até um Navigator preto sem identificação estacionado na rua. O cara ao volante não olha para eles, quando entram na traseira. Um cara jovem, cabelo preto penteado para trás, jaqueta preta de couro.

— Esse é Bobby Cirello — apresenta Mullen. — Ele trabalha pra mim. Não se preocupem. O detetive Cirello é profissionalmente surdo e burro. Apenas nos leve para dar uma volta, certo, Bobby?

Cirello sai com o carro.

— Este é o bairro de St. George — diz Mullen. — Era o epicentro do surto de heroína em Nova York, por ser mais próximo da cidade, só que agora a heroína está por toda a ilha: Brighton, Fox Hills, Tottenville… daí o nome “Ilha da Heroína”.

St. George parece um território de doidões, pensa Keller. Do carro, vê o que parecem ser viciados dando um tempo na esquina, em estacionamentos e terrenos desocupados.

Mas, depois, seguem de carro até um local que poderia ser qualquer subúrbio dos Estados Unidos. Áreas residenciais com casas em ruas arborizadas, jardins bem cuidados, balanços, entradas de carros com cestas de basquete.

— A heroína está matando os garotos daqui, agora — diz Mullen. —

Por isso que chamamos de “epidemia”. Quando eram os negros e porto-riquenhos, não era doença, era crime, certo?

— Ainda é crime, Brian.

— Você entendeu o que eu quis dizer. É a tal cinnamon. Trinta por cento

mais forte que a black tar que os mexicanos vendiam, com a qual os viciados estavam acostumados. É por isso que estão tendo overdoses; estão aplicando a quantidade de costume e apagando. Ou estão acostumados a tomar comprimidos, mas a heroína é mais barata, e eles tomam demais.

Conforme o trajeto segue ao sul, adentrando áreas mais requintadas,

Mullen aponta casas — um filho dessa casa, uma filha daquela... essa gente deu sorte, porque os garotos tiveram overdoses, mas sobreviveram e agora estão na reabilitação. Depois quem sabe, vamos ver.

— Estamos falando de fazer uma triagem — diz Mullen. — O primeiro

passo é tratar os feridos, certo? Ver se podemos salvá-los no campo de batalha. O estado de Nova York acaba de nos dar uma concessão para equipar vinte mil oficiais com naloxone.

Keller sabe dessa droga, conhecida no mercado como “Narcan”. Parece

uma caneta EpiPen de injeção de adrenalina. Mas, se um dependente que estiver passando por uma overdose for tratado a tempo, é possível praticamente trazê-lo de volta dos mortos. Um kit de Narcan custa sessenta dólares.

— Mas a Narcóticos expressou “reservas”, certo? — diz Mullen. —

Vocês receiam que isso só venha a incentivar os dependentes a usarem, ou acham que a garotada vai começar a usar o remédio pra ficar chapado. Estão com medo das “Festas Narcan”.

Isso parece conversa do Denton Howard para a mídia, pensa Keller,

mas fica quieto. Não quer ficar dando desculpas do tipo “esse não sou eu”.

— Eu colocaria kits de Narcan pela rua, como se fossem extintores de

incêndio — diz Mullen. — Talvez os dependentes pudessem salvar os amigos, porque até chegar a polícia ou o pessoal de primeiros socorros, geralmente é tarde demais.

Faz sentido para Keller. Também seria suicídio político. Se ele abrisse a

distribuição de Narcan, o pessoal da FoxNews o picaria em pedacinhos.

— Certo, triagem… continue.

— Reduzir as mortes por overdose é o primeiro passo — afirma Mullen —, mas, quando o dependente volta a si, ainda é dependente. Ficamos só salvando o cara, para depois salvá-lo de novo, até que um dia, não tem mais salvação. O que temos de fazer é colocar esse indivíduo na reabilitação.

— Então, a reabilitação é a resposta?

— Eu sei que a cadeia não é — retruca Mullen. — Eles conseguem ficar chapados lá dentro, só custa mais. Tribunais de drogas talvez possam pegá-los, fazer com que um juiz os obrigue a entrar em reabilitação? Não sei se há uma resposta. Mas temos que tentar algo diferente. Temos que mudar nossa maneira de pensar.

— E essa é a sua opinião mesmo? — pergunta Keller. — Quer dizer, você simboliza uma mudança na forma de pensar do seu departamento, ou é um ponto fora da curva?

— Um pouquinho de cada — responde Mullen. — Olhe, se levar essas ideias ao chefe ou a alguns dos caras mais velhos, eles olham como se você fosse doido. Mas até alguns caras da One Police estão começando a buscar outras respostas, estão vendo o que está acontecendo. Porra, um dos nossos detetives teve overdose dois anos atrás, você ficou sabendo? O cara se machucou em serviço, começou a tomar analgésicos. Depois, partiu para a heroína. Então, teve uma overdose. Era um escudo dourado da polícia de Nova York, pelo amor de Deus. Isso fez as pessoas pensarem. Buscarem novas soluções. Você ouviu falar do IIS?

Instalações de Injeções Supervisionadas. Locais onde os viciados podem ir e se aplicar. Há uma equipe médica para supervisionar o conteúdo e a dose.

— A legalização da heroína?

— Chame como quiser — retruca Mullen. — Está salvando vidas. A porta giratória do “prende e condena”, não. Eu prendo os dependentes, eles usam na cadeia. Eu derrubo os traficantes, outros vêm e tomam o lugar. Apreendo heroína, mais heroína chega. Bobby, vamos até Inwood, para mostrar a este homem o que ele precisa ver.

— Jersey, ou Brooklyn? — pergunta Cirello.

— Não gosto de sair da minha jurisdição.

— Pegue a Verrazano — diz Mullen. Ele olha para Keller.

Eles pegam a Rota 278, adentrando Bay Ridge na parte do Brooklyn,

depois Sunset Park e Carroll Gardens. Mullen explica:

— Essa área era conhecida como Red Hook, mas Carroll Gardens

[Gancho vermelho] soa melhor para o mercado imobiliário. Você não é de Nova York, é?

— San Diego.

— Cidade linda — comenta Mullen. — Um clima ótimo, não? — Não passei os últimos anos lá. Estive mais em El Paso. E agora em

DC.

Eles cruzam a Brooklyn Bridge rumo à parte baixa de Manhattan,

atravessam até a West Side Highway quase até o fim da ilha, e viram na rua Dyckman, depois pegam a esquerda e sobem a Broadway.

— Onde estamos? — pergunta Keller.

— Fort Tryon Park, região de Inwood. A ponta mais a nordeste de

Manhattan, e região central da heroína.

Keller olha em volta, para os condomínios bem cuidados de tijolinhos.

Parques, campos de esporte, babás empurrando carrinhos com bebês.

— Não parece.

— Pois é — diz Mullen. — Não há muitos usuários, mas é aqui em

Inwood e em Washington Heights, bem perto, que ficam os moinhos de heroína. É pra cá que os seus mexicanos trazem essa merda, vendem aos atacadistas, separam em papelotes e despacham. É tipo um centro de abastecimento da Amazon.

— Por que aqui?

Mullen explica que é tudo questão de localização. Acesso fácil à Rota 9,

direto até as cidadezinhas junto ao Hudson, que estão sendo bombardeadas com aquela merda. Um pulo até a 95 e ao Bronx, ou até Long Island, ou a New England. O Harlem está logo ali, descendo a Broadway, e também é perto da West Side Highway e da rodovia Franklin Delano Roosevelt, que leva aos burgos.

— Se você fosse responsável pelos correios, como a UPS ou a FedEx e

quisesse atender ao Northeast Corridor, seria aqui que você se instalaria — explica Mullen. — De carro, chega na Jersey Turnpike ou na Garden State em minutos, e de lá dá para seguir até Newark, Camden, Wilmington, Philly, Baltimore, Washington. Se estiver transportando menos peso, é só botar a droga numa mochila e pegar algum dos trens até a Penn Station, e de lá pegar o Acela. Segue dali para o sul, até as cidades que acabei de mencionar, ou para o norte, para Providence, ou Boston. Ninguém vai tentar impedir ou revistar a mochila, e tem wi-fi no trem. Dá até para assistir Narcos no caminho.

— Seu pessoal também está nessa. A gente estoura moinhos aqui… dez quilos, vinte, trinta e cinco, milhões em dinheiro vivo… mas os narcos consideram isso despesa de negócio, e a merda continua chegando.

— É como tentar enxugar o oceano — diz Keller.

— Algo assim.

— Você está recebendo o que precisa da minha agência?

— Em curto prazo? — diz Mullen. — Até que sim. Mas, olha, a verdade é que sempre tem essa tensão entre federais e a polícia local, não vamos mentir. Tem gente sua com receio de dividir informação conosco, seja porque querem fazer as apreensões, seja porque acham que todos os policiais locais são corruptos. Meu pessoal fica brincando de esconde-esconde com o seu, porque querem as apreensões e não querem os federais tomando conta e levando os créditos.

Keller sabe que coordenar equipes é um negócio capcioso, mesmo quando é na melhor das intenções, o que nem sempre é o caso. É fácil demais que duas agências trombem com os informantes ou testemunhas protegidas uns dos outros, atravancando uma investigação promissora ou até causando a morte de informantes. E ele sabe que a Narcóticos pode ter pulso forte com o efetivo policial local, mandá-los ficar longe das investigações, assim como sabe que os caras locais estão mais que dispostos a dar um gelo nos federais, deixando-os sem informações valiosas.

Inveja na profissão pode ser um problema. Todos querem dar seus próprios flagrantes, pois as apreensões são o caminho para as promoções. E são também boa propaganda — todos querem ficar diante daquela mesa abarrotada de drogas, armas e dinheiro na hora de tirar a foto. Uma prática que virou clichê — e que pode ser bem perigosa, pois dá falsa impressão de que a polícia está ganhando a guerra.

As drogas na mesa são como fotos de vietcongues mortos.

— Mas, na maior parte das vezes — prossegue Mullen —, acho que até que estamos trabalhando bem em conjunto. Claro que sempre pode melhorar.

Keller repara que está sendo sondado para mais parcerias quando Mullen pergunta:

— E o que você realmente veio fazer aqui?

— Por que não batemos um papo longe dos garotos? — retruca Keller. — Já esteve no Cloisters?

Keller e Mullen caminham pelos arcos e pilares do convento Cuxa Cloisters, no parque, não muito longe de Inwood. Houve uma época em que a estrutura era parte da abadia de St. Michel, nos Pirineus Franceses; mas fora transferida para Nova York em 1907, e agora cerca um jardim central.

Keller sabe que Mullen não o levou até ali por acaso. E, claro, Mullen

comenta:

— Ouvi falar que você gosta de monastérios.

— Morei em um por um tempo.

— É, foi o que ouvi. No Novo México, certo? Como era? — Quieto.

— Disseram que você era encarregado, de que, mesmo? Colmeias, ou

algo do tipo?

— O monastério vendia mel — responde Keller. — O que mais você

quer saber, Brian?

Porque se Brian Mullen tem dúvidas em relação a ele, é melhor saber

logo.

— Por que você foi embora de lá?

— Porque deixaram Adán Barrera sair da cadeia. — E você queria prendê-lo de volta.

— Algo assim.

— Eu gosto daqui — comenta Mullen. — Gosto de vir aqui, caminhar e

pensar. Aqui, consigo me distanciar da merda toda. Não tenho certeza se gosto do mundo moderno, Art.

— Nem eu. Mas é o único que a gente tem.

— Ei, estamos na capela, quer entrar? — pergunta Mullen. — Quer

dizer, se vamos ter uma conversa sagrada de autosacrifício é melhor irmos logo a Jesus.

Passam pelas portas pesadas de carvalho, ladeadas por entalhes de

animais saltando. No salão, predomina o ambiente da abóbada, com um crucifixo ao fundo. A parede lateral tem afrescos em homenagem à Virgem Maria.

— Tudo isso foi trazido lá da Espanha — comenta Mullen. — Lindo, não?

— É sim.

— Escuta, Art, qual é o verdadeiro motivo de você estar aqui? Sei que não veio a turismo, para que eu mostre as coisas que você já conhece.

— Você falou de triagem — diz Keller. — De soluções de curto e longo prazo. Quero definir minhas intenções de longo prazo. Vou passar a Divisão de Narcóticos para um novo curso, mais na direção do que nós estávamos falando antes. Para longe da porta giratória de prisão e encarceramento, mais perto da reabilitação. Quero retomar as iniciativas locais, removendo os obstáculos federais.

— Isso é possível? Seu pessoal não vai gostar.

Keller compreende o que Mullen não está dizendo, apenas dando a entender: que a Narcóticos tem um interesse velado em manter a guerra contra as drogas, que sua própria existência depende dessa eterna batalha.

— Eu não sei — responde Keller. — Mas vou tentar. Se quero ter êxito, vou precisar de apoio das forças policiais como a NYPD.

— E em curto prazo?

— Até que possamos mudar a linha de base, precisamos fazer tudo que pudermos para desacelerar o fluxo de heroína.

— Comigo, não há o que discutir.

— Cheguei à conclusão de que não posso fazer muito no México — afirma Keller. — Eles são protegidos demais. Se vou atacar o problema, tem que ser aqui em Nova York, que se tornou o núcleo da heroína.

Mullen sorri.

— Alguma outra epifania, Art?

— Aham. Não temos como definir o que leva as pessoas a usarem drogas. Mas sabemos por que drogas são vendidas. Muito simples: dinheiro.

— E daí?

— Então, se realmente quisermos fazer algo, vamos atrás do dinheiro — diz Keller. — E não estou falando do México.

— Você sabe do que está falando?

— É, eu sei. Estou pronto para isso. Acho que a questão é se você está.

Keller sabe o que está pedindo ao homem.

É uma ação que pode pôr fim à sua carreira.

Os viciados de rua, não têm como reagir. Mas os centros de poder, têm

maneiras de sobra de revidar.

Podem enterrar quem vai atrás deles.

Mullen não parece amedrontado.

— Só se você for até o fim — responde. — Não estou interessado em

mandar uns trouxas para o Club Fed por alguns anos. Mas, se vai com isso até onde quer que isso nos leve, então… do que você precisa?

De um banqueiro, retruca Keller.

Um banqueiro de Wall Street.

No trem de volta, Hidalgo come outro hambúrguer, dizendo que até que

não é ruim.

— Que bom — responde Keller.

Porque o rapaz vai passar muito mais tempo no Acela. Este é o começo da Operação Agitador.

Guerrero, México

Para Ric, a heroína lembra a Páscoa.

As papoulas reluzem em um tom vibrante de roxo sob a luz do sol, e as

flores que não são roxas são cor-de-rosa, vermelhas e amarelas. Em contraste com o verde esmeralda das hastes, parecem cestos de doces.

O avião sacode um bocado na Sierra Madre del Sur conforme faz a

aproximação para pousar em uma pista estreita na periferia da cidade de Tristeza, em Guerrero. O pai de Ric o trouxe ali como um tipo de tutorial, “para aprender como funciona o negócio, desde o solo”. É parte dos sermões contínuos de “sua geração”, sempre acompanhado de frases como: “Sua geração se distanciou da terra que tornou todos vocês ricos.”

Até parece, pensa Ric, que meu pai advogado passou um único dia no

campo. Sua experiência mais próxima de ser campesino foi uma breve tentativa de cultivar tomates no quintal dos fundos, que acabou com uma declaração de que era “economicamente mais eficiente” comprá-los no mercado, apesar do capítulo anterior da série de sermões, “sua geração não sabe de onde vem a comida”.

Sim, sabemos, pensa Ric.

Do mercado.

O avião pousa com uma batida forte.

Ric vê os Jipes cheios de homens armados nas laterais da pista,

esperando para levá-los montanha acima, pelas estradas de terra sinuosas. É preciso um comboio, pois essa região está virando cada vez mais “uma terra de bandidos” relativamente novos ao cartel Sinaloa.

Os campos do cartel em Sinaloa e Durango não conseguem acompanhar a demanda crescente por heroína, de modo que o cartel se expandiu para dentro de Guerrero e Michoacán.

Ambos os estados estão produzindo cada vez mais pasta de ópio, Ric sabe. O problema é que a infraestrutura ainda não alcançou a produção, e precisam recorrer a organizações menores como intermediários entre os cultivadores e o cartel.

Até que não seria ruim se os intermediários não estivessem em guerra uns com os outros. Portanto, essa linda região rural, que Ric admira, enquanto o Jipe passa por matas de imensos pinheiros ocote, está repleta de pistoleiros caçando uns aos outros.

Primeiro, há os Cavaleiros Templários, predominantemente em Michoacán, sobreviventes da antiga organização La Família e ainda possuídos (e essa é a palavra perfeita para o caso, na opinião de Ric) por um zelo quase religioso de erradicar os “malfeitores”. Sinaloa os tolerou enquanto ajudavam a lutar contra os zeta, porém, a utilidade dos Cavaleiros está chegando depressa ao fim, e eles representam mais problema do que vantagens. Em especial porque esses “benfeitores” são altamente envolvidos com metanfetamina, extorsão e assassinato de aluguel.

Os Cavaleiros insistem em guerrear contra Los Guerreros Unidos, um braço da organização Tapia, fundada pelo antigo pistoleiro Eddie Ruiz, agora residente de uma prisão de segurança máxima, uma supermax americana.

Ruiz foi o primeiro americano a chefiar um cartel mexicano. Ric o encontrou uma ou duas vezes, ainda criança, porém o conhece mais por seus vídeos famosos no YouTube, quando “Eddie, o doido” filmou a si mesmo entrevistando quatro zeta, antes de executá-los. Depois, enviou as gravações a todas as emissoras de televisão e pôs o vídeo na internet.

Isso lançou uma tendência.

Agora, os “Garotos de Eddie”, como são conhecidos os Guerreros Unidos, estão em um frenesi assassino em Guerrero, Morelos e Edoméxi, matando rivais, sequestrando por dinheiro, extorquindo o comércio e, de maneira geral, apenas sendo um pé no saco.

Núñez tinha tido que não podiam esmagá-los porque precisavam deles.

Principalmente em Guerrero, onde eles controlam Tristeza, uma cidade de cerca de cem mil habitantes. Tristeza tem uma importância além de seu tamanho, pois está localizada na interseção de várias estradas, incluindo a importante interestadual que leva a Acapulco. A prefeita é membro antigo da facção GU e, pelo menos por enquanto, o cartel precisa estar em suas graças.

A GU tem lutas sanguinárias com Los Rojos, mais um braço da

organização Tapia que — é preciso ressaltar — tinha se originado no cartel Sinaloa.

— O conflito é pelas rotas de contrabando — explicara Núñez —, mas

numa análise mais aprofundada, dá para ver que, nós somos o motivo da briga. Isso é uma falha no sistema que nós instituímos. Adán estava ocupado demais lutando contra os zeta para consertá-la, e, desde sua morte, a questão só piorou.

Ric então descobrira que o cartel Sinaloa, na verdade, não é dono das

fazendas de cultivo de heroína em Guerrero. A maioria tem apenas alguns acres escondidos em meio às montanhas e é de propriedade de pequenos agricultores, que colhem a papoula e vendem a pasta de ópio aos intermediários, tais como o GU e Los Rojos, que transportam ao norte — quase tudo escondido em ônibus comerciais da periferia de Tristeza até Acapulco, e depois até laboratórios de refino em Sinaloa ou mais perto da fronteira americana.

Eles matam uns aos outros pelo direito de venderem para nós, pensa

Ric, com a respiração já ofegante, enquanto a subida vai passando da marca de dez mil pés.

E tem seu velho amigo Damien Tapia.

Agora se exibindo como o “Jovem Lobo”, outro pé no saco de Sinaloa. Damien reorganizou alguns dos antigos homens leais a seu pai e

começou a vender cocaína e metanfetamina em Culiacán, Badiraguato, Mazatlán e até em Acapulco, onde supostamente fica baseado, extorquindo bares e boates, protegido por alguns dos ex-capangas de Ruiz. Há boatos de que foi visto em Durango e ali em Guerrero. Se for verdade, então também tentará ingressar no mercado de heroína.

— Um rapaz tão bacana — comentara Núñez. — Uma pena que seu pai

tenha enlouquecido e precisado ser sacrificado como um cão raivoso.

O comboio chega a uma curva acentuada, e Ric vê o lampejo de cor adiante — escondidas por trás de um punhado de pinheiros, em uma colina íngreme, despontam as cores vivas das papoulas em flor. Ele vê e sente o cheiro dos tocos queimados de pinho, onde o fazendeiro queimou as árvores para abrir a mata para o cultivo do ópio.

O campo talvez tenha apenas dois acres, mas Núñez lhe diz que não se engane.

— Um acre bem irrigado, cultivado com habilidade, em Guerrero, pode fornecer até oito quilos de seiva de ópio por estação, o suficiente para produzir um quilo de heroína bruta. Só no último ano, esse quilo de seiva foi vendido por cerca de setecentos dólares, e o preço já dobrou para mil e quinhentos, com o aumento da demanda. Nós só conseguimos manter o preço baixo assim por sermos o único comprador. Tipo um Walmart, se preferir. Um agricultor pode ter até oito ou dez pedaços de terra como esse, espalhados pela encosta da montanha, escondidos dos helicópteros do exército que patrulham o território para borrifar herbicidas. A três mil dólares por terreno, começa virar um bom dinheiro.

Trinta mil dólares é dinheiro do almoço para o meu velho, pensa Ric, mas uma fortuna para um pobre agricultor da zona rural de Guerrero.

Ele desce do jipe para observar os rayadores trabalhando na terra.

Fica sabendo que eles ganham bem. Um trabalhador produtivo pode fazer de trinta a quarenta dólares por dia, sete vezes o que seus pais conseguem trabalhando nos campos de milho ou nos pomares de abacate. Os rayadores, são quase todos adolescentes, e a maioria é de meninas, por conta das mãos menores e mais ágeis. Com o auxílio de lâminas pequenas presas a anéis que usam nos polegares, elas cortam com cuidado pequenos talhos nos bulbos de ópio, até que a seiva escorra como uma lágrima.

É um trabalho delicado: se o corte for raso demais, não se obtém a seiva. Se for profundo demais, estraga-se o bulbo, um desastre para a rentabilidade. O rayador voltará à mesma planta — um bulbo pode ser sangrado até sete ou oito vezes, a fim de obter o máximo possível de seiva.

Uma vez que o corte é feito, o líquido que escorre é deixado para enrijecimento, formando uma pasta marrom, e os rayadores usam lâminas para delicadamente raspar a pasta em panelas, depois a levam para cabanas ou celeiros, onde outros trabalhadores a enrolam em bolas ou bolos que podem ser armazenados por anos, se necessário.

Quando o fazendeiro estocou bastante pasta de ópio, entra em contato

com o intermediário, que vem coletá-la, efetua o pagamento e leva para um laboratório, para ser processado e transformado em heroína. Dali, a droga segue até um ponto de despacho como Tristeza, onde é carregada em ônibus para o que é chamado de “embarque espingarda”, rumo ao norte.

O intermediário aumenta o valor em até quarenta por cento, elevando o

preço a até 2.100 dólares o quilo, e vende ao cartel — que, mais uma vez, controla o preço, por ser literalmente o único comprador.

Nos EUA, um quilo de heroína bruta será vendido por algo entre 60 e 80

mil dólares.

— A margem é excelente — diz Núñez — e até quando embutimos os

custos do transporte, contrabando, segurança e, claro, as propinas, ainda podemos vender barato para os farmacêuticos americanos e gerar um lucro saudável.

Ric é um garoto urbano, mas não pode deixar de apreciar a beleza do

cenário à sua frente. É idílico. O ar é fresco e limpo, as flores são lindas, e dá uma paz além de palavras ver aquele campo multicolorido cheio de meninas jovens, com seus aventais brancos e cabelos negros, trabalhando em silêncio e com eficiência, em toda a sua simplicidade.

— É gratificante saber que esse negócio provê emprego tão rentável

para tantas pessoas, com um salário que elas jamais poderiam ter de outro modo — acrescenta Núñez.

Há centenas de lavouras como essas espalhadas por toda Guerrero. Trabalho de sobra para todo mundo.

É, pensa Ric, somos benfeitores. Ele entra novamente no Jipe e o comboio segue, serpenteando montanha

abaixo, os sicários atentos aos bandidos.

Damien Tapia, o “Jovem Lobo”, observa o comboio pelo visor telescópico de seu fuzil de atirador.

Escondido sob a cobertura das árvores da encosta em frente, está com

Ricardo Núñez — chefe do cartel Sinaloa, um dos homens que tomaram a decisão de matar seu pai — literalmente no centro da cruz da lente.

Quando Damien era pequeno, seu pai era um dos três chefões do cartel

Sinaloa, junto com Adán Barrera e Nacho Esparza, dois homens que Damien considerava tios. À época, os irmãos Tapia eram poderosos — Martín, como político, Alberto, o pistoleiro, e seu pai, Diego, o líder absoluto.

Quando Tío Adán foi capturado nos Estados Unidos, foi o pai de Damien que cuidou dos negócios. Quando Tío Adán foi transferido de volta para o México, para a prisão Puente Grande, foi o pai de Damien que providenciou sua proteção. Quando Tío Adán saiu, foi o pai de Damien que lutou a seu lado para tomar Nuevo Laredo do Golfo e dos zeta.

Naquela época, eram todos amigos, os Tapia, os Barrera, os Esparza... Era um tempo em que Damien se espelhava nos meninos mais velhos, como Iván, Sal e Rubén Ascensión — e Ric Núñez, de idade mais próxima à sua. Eles eram seus camaradas, seus cuates. Eles eram Los Hijos, os filhos que herdariam o todo poderoso cartel Sinaloa, que o administrariam juntos, e seriam irmãos para sempre.

Então, Tío Adán se casou com Eva Esparza.

A pequena Eva é mais nova que eu, pensa Damien, mirando a lente na têmpora meio grisalha de Ricardo Núñez; nós brincávamos juntos, quando éramos pequenos.

Mas Tío Nacho queria Baja para Iván, e, para conseguir, entregou a própria filha, como um cafetão. Depois que Eva se casou com Tío Adán, a ala Tapia do cartel se tornou um filho enteado — afastado, ignorado, deixado de lado. Na mesma noite em que Adán estava tirando o cabacinho da pequena Eva, seus federales foram prender Alberto, tio de Damien, e o mataram. No fim das contas, Adán vendera os Tapia para salvar seu sobrinho, Sal, de uma acusação de assassinato.

Meu pai nunca mais foi o mesmo depois daquilo, lembra Damien. Ele não podia acreditar que os homens a quem chamava de primos — Adán e Nacho — o trairiam, matariam um de seu próprio sangue. Começou a se afundar cada vez mais na Santa Muerte, na coca. A raiva e a tristeza o comiam vivo, e a guerra que ele declarou para se vingar despedaçou o cartel.

Na verdade, aquela guerra de merda tinha despedaçado o país inteiro, conforme Diego aliava a organização Tapia aos zetas, para lutar contra os Barrera e os Esparza, seus antigos parceiros no cartel Sinaloa.

Milhares de pessoas morreram.

Naquele dia, Damien tinha só dezesseis anos. Foi logo depois do Natal, quando os mariners rastrearam seu pai até um arranha-céu em Cuernavaca, entraram com carros blindados, helicópteros e metralhadoras e o assassinaram.

Ele guarda a foto no celular, como proteção de tela. Diego Tapia,

crivado de balas no rosto e no peito, a camisa aberta e rasgada, as calças arriadas, notas de dólar jogadas sobre ele.

Os mariners tinham feito aquilo a seu pai.

Eles o mataram, debocharam de seu cadáver, postaram as fotos

repulsivas na internet.

Mas Damien sempre culpara Tío Adán.

E Tío Nacho.

Seus “tios”.

E Ricardo Núñez, pai de Ric.

O que eles fizeram com Diego Tapia é imperdoável, pensa Damien. Meu

pai foi um grande homem.

E eu sou filho do meu pai.

Ele escreveu um narcocorrido a respeito e pôs no Instagram.

“Eu sou filho do meu pai e sempre serei

Sou um homem de família

Um homem do ofício

Jamais darei as costas ao meu sangue

Essa é a minha vida, até a morte

Eu sou o Jovem Lobo”

Sua mãe já implorou que ele deixasse o negócio, fizesse outra coisa,

qualquer coisa, pois já perdera muitos entes queridos para o ofício. Você é tão bonito, ela diz, lindo como um artista de cinema, um rockstar, beleza tipo Telemundo, por que não vira ator, cantor, apresentador de televisão? Mas Damien sempre respondia que não, não desrespeitaria o pai dessa maneira. Tinha jurado sobre o túmulo de Diego que traria os Tapia de volta para seu lugar.

No topo do cartel Sinaloa.

— Eles roubaram o cartel de nós, Mami — dizia Damien à mãe. — E eu

vou tomar de volta o que eles roubaram.

Fácil de falar.

Mais difícil de fazer.

A organização Tapia ainda existe, porém com apenas uma fração do poder que tinha antes. Sem a liderança dos três irmãos — Diego e Aberto mortos, Martín na cadeia — opera mais como um grupo de franquias dando lealdade nominal ao nome Tapia, enquanto cada grupo atua de forma independente, traficando coca, meta, maconha e, agora, heroína. E os grupos estão espalhados, com células no sudeste de Sinaloa, Durango, Guerrero, Veracruz, Cuernavaca, Baja, Cidade do México e Quintana Roo.

Damien tem a própria célula, baseada em Acapulco, e, embora outras células lhe demonstrem certo nível de respeito, por conta de quem foi seu pai, não o veem como o chefe. E Sinaloa — talvez por culpa pelo que fizeram com sua família — o tolera, contanto que seja subserviente e não venha atrás de vingança.

E a verdade, Damien sabe, é que ele não chega a ser uma ameaça — é lamentavelmente inferior em contingente armado, se comparado às alas Barrera e Esparza do cartel.

Até agora, pensa.

Agora Tío Adán e Tío Nacho estão mortos.

Iván Esparza e Elena Sánchez estão em guerra.

O jogo mudou.

E agora pode apertar o gatilho e detonar Ricardo Núñez.

— Atire — diz Fausto.

Fausto — bigodudo, atarracado e parrudo — foi um dos homens leais a seu pai que seguiu com Eddie Ruiz depois da morte de Diego. Agora, com Eddie na prisão, está de volta com Damien.

Baseado em Mazatlán, Fausto é um matador de pedra.

É do que Damien precisa.

— Atire — repete Fausto.

O dedo de Damien força o gatilho.

Depois faz parar.

Por diversos motivos.

O primeiro é que está incerto quanto ao vento. O segundo é que nunca matou ninguém. Mas o terceiro…

Damien muda o foco para Ric.

Ric está sentado bem ao lado do pai, e Damien não quer correr o risco de errar o tiro e acertar o amigo.

— Não — responde, baixando o fuzil. — Eles vão vir com tudo pra cima da gente.

— Não se estiverem mortos — afirma Fausto, dando de ombros. —

Merda, deixa que eu faço.

— Não, é cedo demais. Ainda não estamos no poder. Isso é o que diz a Fausto, o que diz a si mesmo. Fica observando o comboio virando a curva seguinte, desaparecendo de

vista e da mira.

O avião faz uma manobra inesperada.

Ric esperava que fizessem um voo direto de volta para Culiacán, mas o

avião inclina a oeste, na direção do mar, para Mazatlán.

— Eu quero que você veja uma coisa — diz Núñez. Ric acredita que já conhece Mazatlán razoavelmente bem, pois ali já foi

um mega playground para Los Hijos. Passavam o carnaval desde que eram pequenos, e, quando ficaram mais velhos, frequentavam os bares e boates da orla, paquerando a mulherada turista que vinha aos montes dos EUA e da Europa em busca de areia e sol. Foi em Mazatlán que Iván ensinou Ric a dizer “Gostaria de dormir comigo esta noite?” em francês, alemão, italiano e, em uma ocasião meio enevoada na memória de Ric, em romeno.

Talvez tenha sido nessa noite — Ric não tem certeza — que ele e os

garotos Esparza e Rubén Ascención foram presos no Malecón, por alguma transgressão já esquecida, e levados para a cadeia, mas imediatamente soltos, com pedidos de desculpas, quando revelaram seus sobrenomes.

Ric tem uma vaga ideia de que Mazatlán, assim como muitas cidades de

Sinaloa, foi colonizada pelos alemães e ainda tem um toque bávaro na música e na afinidade pela cerveja, uma herança que Ric assumiu mais do que deveria.

Um carro que está aguardando na pista os conduz não até o calçadão ou

à praia, mas até o porto.

Ric também conhece bem aquele lugar, porque é ali que chegam os

navios de cruzeiro, e onde há navios de cruzeiro, há mulheres disponíveis. Ele e os Esparza ficavam sentados no calçadão acima dos ancoradouros, avaliando as mulheres que desembarcavam, depois fingiam ser guias turísticos e se ofereciam para levar as mais gatas aos melhores bares.

Apesar disso, houve uma vez em que Iván olhou para uma norueguesa

alta, arrebatadora, bem dentro de seus olhos azuis e falou, diretamente “Na verdade, eu não sou guia. Sou filho de um chefão de cartel. Tenho milhões de dólares, barcos velozes, carros velozes, mas o que eu gosto mesmo é de transar com mulheres lindas como você”.

Para surpresa de Ric, a mulher aceitou, então lá foram eles com as amigas dela. Alugaram uma suíte de hotel, beberam muita Dom, cheiraram uma montanha de pó e treparam que nem macacos até chegar a hora de as meninas voltarem para o navio.

É, Ric poderia mostrar ao pai algumas coisas em Mazatlán.

Mas não vão para as docas turísticas. Passam direto e vão até as docas comerciais, onde os cargueiros atracam.

— Um negócio nunca pode ficar parado — diz Núñez, quando descem do carro, ao lado de um galpão. — Se você estiver estático, está morrendo. Seu padrinho, Adán, sabia muito bem disso, e nos transferiu nossos negócios para a heroína.

Um guarda abre a porta do galpão para eles.

— A heroína é boa — continua Núñez, enquanto entram —, é lucrativa, mas, como todas as coisas lucrativas, atrai concorrência. Outras pessoas veem você ganhando dinheiro e querem imitar. A primeira coisa que tentam fazer é baratear, vender por um valor mais acessível, pondo o preço lá embaixo e reduzindo o lucro de todo mundo.

Se o cartel realmente fosse um cartel, no sentindo clássico — ou seja, várias pequenas empresas que dominam um produto, acordando os preços — não haveria problema.

— Mas “cartel” no nosso caso, é, na verdade, uma designação equivocada — explica o pai. — É contraditório falar “cartéis”, no plural.

Eles têm concorrência. Os remanescentes dos zeta, fragmentos restantes do cartel Golfo e dos Cavaleiros Templários, mas o que preocupa Núñez é Tito Ascensión.

Ascensión pediu a Iván permissão para ingressar na heroína, e Iván espertamente recusou, mas e se Tito entrar, mesmo assim? Jalisco logo poderia se tornar o maior concorrente do cartel Sinaloa. Venderia mais barato, e Núñez não é do tipo que se permite ser forçado a reduzir margens de lucro; portanto…

Eles entram em uma sala dos fundos.

Núñez fecha a porta.

Um jovem asiático está sentado atrás de uma mesa, na qual há pilhas de tijolos bem embalados de…

Ric não reconhece o que é.

— A única boa resposta para preços mais baixos — explica Núñez —, é

uma qualidade mais alta. Clientes pagam bem pela qualidade.

— Então isso é heroína de qualidade superior? — pergunta Ric. — Não — diz Núñez. — Isso é fentanil. É cinquenta vezes mais forte

que heroína.

Ele explica que o fentanil, um derivado sintético do ópio, foi

originalmente usado em adesivos de pele para pacientes terminais com câncer. É tão poderoso que mesmo um pontinho pode ser letal. Mas a dose certa deixa o dependente bem mais doido, e muito mais rápido.

Ele leva Ric para fora do escritório, até os fundos do galpão. Há

inúmeros homens ali; alguns Ric reconhece como pessoal de alto escalão do cartel — Carlos Martinez, que opera em Sonora; Hector Greco, chefe da plaza de Juárez; Pedro Esteban, de Badiraguato. Alguns outros, Ric não conhece.

Atrás deles, ao longo da parede, há três homens amarrados em cadeiras. Basta uma olhada para Ric saber que são viciados. Definhados, tremendo, acabados.

Um cara que parece um técnico de laboratório está sentado em uma

cadeira, junto a uma mesinha, sobre a qual há três seringas.

— Cavalheiros — diz Núñez. — Eu falei a vocês sobre o novo produto,

mas ver é crer. Portanto, vamos a uma pequena demonstração.

Ele assente para o técnico laboratorial, que pega uma das seringas e

agacha ao lado de um dos viciados.

— Essa é nossa heroína padrão cinnamon. O técnico de laboratório prende o garrote no braço do homem, encontra

uma veia e injeta. Um segundo depois, a cabeça do cara dá um tranco para trás, depois relaxa.

Totalmente chapado.

— A próxima seringa é a heroína batizada com uma pequena porção de

fentanil — anuncia Núñez.

O técnico injeta a segunda cobaia.

A cabeça dá um tranco, os olhos se arregalam, a boca se contorce em

um sorriso quase beatífico.

— Ah, meu Deus. Ah, meu Deus — murmura o sujeito. — Como é? — pergunta Núñez.

— É maravilhoso. É tão maravilhoso...

Ric tem a sensação de estar assistindo o canal da Polishop.

E meio que está. Ele sabe que, segundo o mito, os chefes dos cartéis são ditadores que simplesmente dão ordens e esperam que sejam cumpridas. Isso é verdade com os sicários, os pistoleiros e os níveis mais baixos, mas um cartel é composto por negociantes, que só fazem o que for bom para o negócio e que precisam ser convencidos.

— A injeção seguinte — diz Núñez — é uma seringa com três miligramas de fentanil.

A última cobaia se retorce nas amarras e grita:

— Não!

Mas o técnico põe o garrote, localiza a veia e injeta uma seringa cheia em seu braço. O mesmo tranco na cabeça, os mesmos olhos arregalados. Então, os olhos se fecham e a cabeça pende à frente. O técnico pousa dois dedos no pescoço do e balança a cabeça, anunciando:

— Ele se foi.

Ric reluta diante da vontade de vomitar.

Deus do céu, o pai tinha mesmo feito aquilo? De verdade? Não poderia ter usado um rato de laboratório, um macaco, algo assim? Ele simplesmente matou um ser humano para fazer uma demonstração de venda?

— Qualquer viciado que experimentar o novo produto jamais vai voltar atrás — promete Núñez —, e nem vai poder voltar atrás, para os comprimidos mais caros e menos potentes, nem mesmo à cinnamon. Afinal, por que pegar o trem parador se pode pegar o expresso?

— Qual é o custo para nós? — questiona Martinez.

— Quatro mil dólares americanos por quilo. Se bem que, na compra por atacado, talvez possamos baixar para três. Mas cada quilo de fentanil produz vinte quilos de produto acrescido, avaliado em mais de um milhão de dólares no varejo. A margem não é problema.

— Qual é o problema? — pergunta Martinez.

— O fornecimento. A produção de fentanil é estritamente controlada nos Estados Unidos e na Europa. No entanto, podemos comprar na China e despachar para os portos que controlamos, como Mazatlán, La Paz e Cabo. Mas isso significa que precisamos reforçar o controle dos portos.

Núñez paz uma pausa, então continua:

— Cavalheiros, há trinta anos, o grande Miguel Ángel Barrera, M-1, o fundador da organização, introduziu um derivado de cocaína em uma reunião semelhante a esta. O derivado “crack” tornou nossa organização abastada e poderosa. Eu agora estou introduzindo um derivado de heroína que nos levará a um nível ainda mais alto. Quero levar a organização a ingressar no fentanil, e espero que vocês me apoiem. Muito bem, reservei mesa para um jantar em um restaurante local e gostaria que os senhores me acompanhassem.

E todos saem para jantar em um restaurante chique na costa. E Ric vê que é o de sempre uma sala privativa nos fundos, o restante

todo reservado, com um cordão de seguranças em volta. Pedem ceviche, lagosta, camarão, marlim defumado e tamales regados a cerveja Pacífico, e, se qualquer um deles voltou a pensar no viciado morto nos fundos do galpão, Ric não percebe.

Depois do banquete, o avião leva Ric e o pai de volta a Culiacán.

— Então, o que acha? — pergunta Núñez, durante o voo. — Sobre…

— Fentanil.

— Acho que você os convenceu. Mas, se o fentanil é tão bom assim, a

concorrência vai cair em cima.

— Claro que vai — concorda Núñez. — O mercado é assim. A Ford

desenha uma boa caminhonete, a Chevy imita e melhora, então a Ford desenha uma melhor ainda. O segredo é chegar primeiro, monopolizar a cadeia de fornecimento, estabelecer canais de venda dominantes e uma base fiel de clientes e dar continuidade em servi-los. Você pode ser muito útil, garantindo que La Paz permaneça exclusivamente nossa.

Continuar: parte 2 de 2