A fronteira

Don Winslow · Capítulo 14 de 25

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A fronteira

4: Esse mundo de cabeça para baixo

4

 

Esse mundo de cabeça para baixo

 

“Se você olhar um abismo por bastante tempo, o abismo vai olhar para você também.”

— Friedrich Nietzsche

Além do bem e do mal

 

Cirello detesta esse trabalho.

Ele está cansado de ficar de chamego com traficantes, de pegar o

dinheiro deles, de fingir que é um escroto como eles. Meia dúzia de vezes, ele já pediu a Mullen para ser remanejado — para qualquer coisa — mas o chefe disse não.

— Nós estamos chegando a algum lugar — afirmou Mullen. — Agora

não é hora de desistir.

O problema, pensa Cirello, e isso é só para constar, é que eu sou bom

demais no que faço.

Ele enrolou Mike Andrea e Johnny “Jay” Cozzo que nem um novelo de

lã. Eles acharam que o estavam enganando, que o tinham na mão, por lhe fazerem favores e quitar suas dívidas de jogo. Primeiro, foi a checagem das placas para ver se eram policiais, depois, fazer verificações nos potenciais parceiros, para ver se estavam sendo investigados.

As coisas realmente decolaram quando ele deu seu “tudo nos

conformes” liberando Darius Darnell.

— O cara cumpriu um tempo em Victorville — Cirello disse a Andrea

—, mas foi um preso firmeza. NYPD não está com ele na mira.

— Você garante isso?

— Cem por cento — disse Cirello.

— E quanto ao Departamento de Narcóticos?

— Eles não estão nem aí pra ele — garantiu Cirello. Essa foi mamata:

ele pegou os cinquenta mil de Cozzo para “comprar” um contato na Narcóticos e foi até Mullen, que foi até sabe Deus quem, que mandou dizer que, se a Narcóticos algum dia esteve de olho em Darnell, agora não estava mais. — Mas, fala sério, vocês agora estão trabalhando com crioulos?

— Somos lacradores — respondeu Cozzo.

— Vocês são o quê?

— “Lacradores” — disse Cozzo. — Isso significa pós-racial.

— Significa que a gente trabalha com crioulo — disse Andrea —, se os crioulos conseguirem nos arranjar heroína de primeira.

Algo que Darius Darnell aparentemente conseguia, baseado no que Cozzo e Andrea começaram a espalhar pela cidade.

Cirello sabia disso em primeira mão, porque ele foi promovido para fazer a segurança das entregas de heroína, assegurando-se de que a Narcóticos não estivesse vigiando nenhum desses pontos e que nenhum dos carregamentos fosse roubado por gangues locais, sequestradores, ou até policiais realmente corruptos.

O trabalho é tormentoso e vai contra tudo o que Cirello sempre acreditou ou fez em sua vida passada, como um policial legítimo. Ele ajuda aqueles babacas a deslocar a heroína, cargas que valem milhões de dólares, e qualquer dessas entregas teria sido um caso muito importante. Eles poderiam ter prendido Cozzo e Andrea a qualquer momento que quisessem, mas Mullen não quis.

— São sete quilos, chefe — disse Cirello —, sabe o estrago que isso vai fazer na rua?

— Eu sei, sim — respondeu Mullen —, mas não é pra isso que entramos. Não estamos nisso pra vencer uma batalha, estamos pra ganhar a guerra.

Então, ele começou a fazer analogias à Segunda Guerra Mundial, falando sobre uma cidade que Churchill deixou que os alemães bombardeassem, mesmo sendo alertado antes.

— Se ele impedisse, isso teria alertado os alemães de que nós tínhamos o código deles — disse Mullen —, o que talvez nos levasse a perder a guerra. Então, Churchill precisou deixar que milhares de pessoas inocentes fossem mortas, para ganhar a guerra.

Cirello não sabe quanto à guerra, ele só sabe que viciados por toda a Costa Leste morreriam porque ele deixou esses carregamentos passarem.

Isso o está matando.

Ele pediu para sair.

— Vou ficar trabalhando com multas de trânsito em Far Rockaway —

ele disse a Mullen.

— Aguente firme, Bobby — respondeu Mullen. — Sei que está sendo

difícil pra você, mas aguente firme. Você é o melhor. Sabe por que eu sei que você é o melhor? Porque antes de você, o melhor era eu.

Sei, sei, pensou Cirello, esse é Mullen puxando meu saco. — Preciso que você suba um degrau — disse Mullen. — Estabeleça um

relacionamento com Darnell.

— Como eu vou fazer isso?

Policial branco, traficante negro.

Esqueça.

— Seja paciente — disse Mullen. — Independentemente do que fizer,

não force. Espere que ele venha até você.

O que nunca vai acontecer, pensou Cirello.

Mas duas semanas depois, exatamente como o chefe disse, Andrea vem

até ele e anuncia:

— Darnell quer conhecer você.

Recue, pensa Cirello. Pegue outro caminho, não pareça ávido. — Pra quê?

— Nós estamos com um negócio grande chegando — diz Andrea —, e

antes de chegar, Darnell quer conhecer você em pessoa. Algo a ver com “olhar nos olhos”.

— O que, ele não confia em mim?

— É o que o cara quer.

— Você agora está recebendo ordens de crioulo? — pergunta Cirello. —

Eu não quero conhecê-lo.

— Por que, porra?

— Porque quanto mais eu me exponho — diz Cirello —, mais eu me

exponho.

— Ele já sabe seu nome.

— Quem falou pra ele?

— Eu falei.

— Vá se foder, Mike.

— Você vai conhecê-lo.

— Quem disse?

— Disse o Lakers, quando não fez uma cesta de três pontos — responde

Andrea. — Acha que eu não sei disso?

Então, eles vão ao tal encontro para conhecer Darius Darnell.

Cirello decide que dirá a Mullen só depois de acontecer, paro chefe não foder tudo mandando a porra do departamento todo para dar cobertura. Ele simplesmente entra no carro com Andrea e vai até Linden Houses, a leste de Nova York.

— Acho que somos os únicos brancos aqui — diz Cirello, quando eles descem do carro.

— Você é branco? — pergunta Andrea. — Eu sou italiano, você é grego. A gente não é branco.

Uma pequena delegação dos G-Stone Crips aguarda por eles na entrada do conjunto e os conduz até um dos prédios, dentro do elevador e ao último andar, depois subindo uma escada até o telhado.

Um negro alto está na beirada, olhando a cidade.

— Lá está ele! — diz Andrea. — O rei inspecionando seu reino!

Típico de Andrea, sempre rasgando seda, puxando saco, pensa Cirello.

Darnell vira.

Ele está com uma jaqueta dos Yankees e um jeans de marca. Não os habituais tênis de basquete de primeira que Cirello esperava de um traficante negro, mas um par de botas.

— Passei muitos anos fechado — diz Darnell. — Gosto de ficar ao ar livre, quando posso.

— É um dia lindo — comenta Andrea.

Darnell ignora e olha Cirello de cima a baixo.

— Você deve ser o policial de quem esses caras vivem falando.

— Bobby Cirello.

— Eu sei seu nome — diz Darnell. — Sabe o que eu aprendi na cadeia, Bobby Cirello?

— Provavelmente, muitas coisas.

— Provavelmente, muitas coisas — repete Darnell. Ele se aproxima, fica a apenas alguns centímetros do rosto de Cirello. — Uma das coisas que aprendi é a conhecer um dedo-duro, assim que eu vejo. E sabe de uma coisa, Bobby Cirello? Eu acho que você é dedo-duro. Acho que você é infiltrado e acho que a única questão é se nós damos um tiro em você ou se o jogamos do telhado.

Cirello quase se borra de medo.

Ele deveria ter dito a Mullen.

Deveria ter pedido reforço.

Agora é tarde demais.

Ele vai por outro caminho.

— Ou me dá um tiro e depois me joga do telhado. Ou, se você quiser

mesmo botar pra quebrar, me joga do telhado e depois me dá um tiro. Então, há opções. Mas a questão é que você não vai fazer nada disso, porque nenhum negão traficante vai matar um policial de distintivo de ouro, da Cidade de Nova York, portanto por que não paramos com essa merda.

Um daqueles longos silêncios.

Então, Darnell diz:

— Se ele tivesse com grampo, os porcos já estariam chegando pra

salvar a vida do garoto deles. Tá limpo.

— Bom — diz Cirello. — Podemos ir embora agora? Detesto ar fresco. — Eu tenho um encontro, hoje à noite — diz Darnell. — Com uma

pessoa em quem não confio muito. Quero que você venha como segurança.

— Os garotos G não bastam pra você?

— São bons — responde Darnell. — Mas, como você diz, ninguém vai

se meter a besta com um distintivo dourado. Nove horas, encontro você na Gateway, na frente do Red Lobster. Vê se seu carro está limpo, é você que vai dirigir.

— Quem nós vamos encontrar?

— Você vai ver.

Cirello sai e manda lavar o carro. Às 21 horas em ponto, ele encosta na

frente do Red Lobster.

Darnell já está lá e senta no banco do passageiro. — Qual é a onda dos garotos brancos com Mustangs? — pergunta ele. — É um negócio do Steve McQueen — explica Cirello. — Bullitt. — Esse não é o carro do Bullitt. — Não, eu não pude comprar um daqueles — diz Cirello. — Você tem

que me falar pra onde a gente vai, porque eu não sei.

Ele está impressionado que Darnell tenha vindo sozinho, sem comitiva. Incomum para um traficante.

— Pegue a Belt, ao sul — diz Darnell. — Brighton Beach. — Você agora tá vendendo pros russos?

— Que ferro você trouxe? — pergunta Darnell. — Minha arma de serviço. Uma Glock 19. E você?

— Você não é trouxa — diz Darnell. — Um ex-presidiário armado, se a gente for parado, eu volto pra V-Ville.

— Se a gente for parado — afirma Cirello — eu dou uma carteirada e a gente vai embora contente.

— Vida boa de branco.

— Não é de branco, é de polícia — diz Cirello. — Você não gosta muito de brancos, gosta?

— Não gosto nada de brancos.

— Que bom saber.

Cirello pega a Belt e desce até a Ocean Parkway.

— Essa pessoa que eu vou encontrar — diz Darnell —, eu e ele vamos resolver umas paradas de demarcação.

— Ele não tem demarcação territorial?

— Só não está com essa bola toda — diz Darnell. — É isso que a gente precisa acertar, quem vende pra quem por aqui. Dou área pra ele, se ele comprar só comigo.

— Parece que funciona.

— Vou apresentar você como detetive da NYPD — diz Darnell. — Não vou falar seu nome.

— Tenho que mostrar meu distintivo?

— Não, porra nenhuma. Só faz pinta de cana.

— Vou me esforçar — diz Cirello. — Onde você quer que eu vire?

— Estou olhando aqui no celular.

— Google Maps?

— Essa piranha metida fica me dizendo onde virar — reclama Darnell. — Eu tiro o som.

— Eu sei, também detesto.

— Direita na avenida Surf, esquerda na Ruby Jacobs.

— Isso não é Brighton Beach — diz Cirello. — Isso é Coney Island. Fica perto da montanha-russa, como é mesmo o nome, Thunderbolt.

— Não ando nisso — diz Darnell. — Minha vida já é uma montanha-russa.

— Certo.

— Tem um restaurante mexicano no fim da rua.

— Sei, não — diz Cirello.

— O que você não sabe?

— Tipo, por que aqui? — questiona Cirello, olhando em volta. — Todo

esse espaço vazio. Estacionamento, canteiro de obras…

— Está com medo, branquelo?

— Não sou branco, sou grego — diz Cirello. — Já viu aquele filme,

300? Aqueles eram gregos.

— Não passaram lá na V-Ville. Gay demais.

Cirello entra em uma vaga, no meio da Ruby Jacobs. É a última vaga

disponível, ainda a meia quadra a pé do restaurante, e ele não gosta nem um pouco dessa distância. É preciso caminhar por um negócio chamado Calçada do Clube do Urso Polar, para chegar lá.

— Clube do Urso Polar? — questiona Darnell. — No Ano-Novo — explica Cirello — a galera pula no mar. — Negros não são tão otários.

Eles estão na margem do estacionamento, quando Cirello vê. Um

movimento de canto de olho.

Ele derruba Darnell no asfalto.

As balas passam zunindo sobre a cabeça deles. Cirello ergue os olhos e vê uns caras correndo.

No carro, Cirello diz:

— Eu falei, porra, falei que essa merda não estava boa! — Eu deveria ter escutado.

Cirello percebe que está a toda, de ré, pela Belt, e tira o pé do

acelerador. Sua cabeça está girando. Eu agi que nem bandido, pensa ele, não como um policial. Eu deveria ter agido como um policial que sou — ficado na cena, esperado até que o pessoal fardado chegasse, depois os detetives. Em vez de sair correndo que nem o molambo que estou fingindo ser.

Ele pensa em dar a volta e ir até lá, mas não o faz. Não teria como explicar, não teria como explicar por que ele abandonou

a cena sem destruir sua carreira. E acabaria com a investigação — todo aquele trabalho, todos esses meses de intimidade com criminosos, tudo desperdiçado.

Ele continua dirigindo.

Sabendo que o que ele deveria fazer era ligar para Mullen. Deixar

Darnell e ligar para Mullen. Ir sentar em sua cozinha e contar tudo para ele, deixar que o chefe decida o que fazer.

Cirello leva Darnell de volta até o Red Lobster.

— Você salvou minha vida — diz Darnell.

— Era o meu trabalho — responde Cirello.

Isso é o que devo fazer, isso é o que um policial faz, salva a vida das pessoas. Mesmo de um merda que nem você, que vende veneno a crianças.

— Você poderia ter só saído do caminho — diz Darnell. — Não fez isso.

Talvez eu devesse, pensa Cirello.

— Você não trabalha mais pros italianos — declara Darnell. — Vou pegar sua conta.

— Não precisa fazer isso.

— Se eu achasse que precisava, não pegava — diz Darnell.

— Eles não vão ficar contentes.

— Não sou eu que tenho que deixar eles contentes — responde Darnell. — Eles é que precisam me deixar contente. Não sou o crioulo deles, eles é que são meus. Se não gostarem, eu corto eles, arranjo outros. Ligue para mim quando se sentir melhor, a gente resolve isso.

— O que você vai fazer em relação aos russos? — pergunta Cirello.

— Deixa comigo.

Cirello vai pra casa.

Entra no banheiro e vomita.

Quando Libby chega em casa, ela pergunta como foi o dia e ele diz que foi bom. Mais tarde, ela o procura para fazer sexo e ele finge estar dormindo. Ele não está, mal consegue dormir à noite, e ela já saiu para a aula quando ele finalmente levanta.

E assim Bobby Cirello se torna motorista chefe e guarda-costas de Darius Darnell, fazendo a segurança de grandes entregas, de olho no radar para ter certeza de que a luz de Darnell não está piscando. E os italianos não gostam, embora não digam merda nenhuma a Darnell.

É no ouvido de Cirello que eles falam merda.

— Você subiu na vida — Andrea diz a Cirello. — Chofer de macaco? Nossa, Bobby, minhas costas estão doendo, no lugar onde você pisou pra subir.

— Eu não pedi isso.

— É, mas ganhou assim mesmo, não foi?

Mullen fica ligeiramente mais entusiasmado.

— Como isso aconteceu?

— Não sei, você mandou eu me aproximar, eu me aproximei. Ele conta a verdade sobre o encontro no telhado. — Você não deveria ter ido até lá sem reforço. — Provavelmente, não — admite Cirello.

— Mas você está dentro, Bobby, está dentro — diz Mullen. — O

próximo passo é descobrir onde Darnell está arranjando a heroína.

O próximo passo, pensa Cirello. Sempre tem um próximo passo. Quando isso vai parar?

A maluquice é que Mike Andrea veio até ele, algumas semanas antes, e

fez exatamente o mesmo pedido.

— Você gosta de trabalhar para Darnell? — pergunta ele. — Paga bem.

— Eu poderia pagar melhor — diz Andrea. — Darnell acha que é o rei

de Nova York, mas se você olhar bem, ele é só um intermediário. Se a gente pudesse fazer contato direto com o fornecedor dele, poderíamos comprar direto, sem a margem de lucro dele.

— Certo.

— Você sabe quem é o fornecedor?

— Não.

— Mas poderia descobrir — diz Andrea. — Faz esse contato pra gente,

Bobby, e teremos algo pra você. Corto Darnell, incluo você.

Cirello precisa admitir que é engraçado, dois mafiosos e o cabeça da

Divisão de Narcóticos da NYPD querendo que ele faça a mesma coisa. O fato de que isso faz sentido é só parte da vida bizarra que ele está vivendo, e que tem sua própria lógica interna. Nesse mundo, você não prende traficantes de heroína, você os auxilia; você não resiste à corrupção, você a abraça; quanto pior você for, melhor você é.

É como uma daquelas antigas peças gregas, em que eles falavam de

“terras de doidos”.

Ele sabe que não pode manter isso para sempre. Mas nem será preciso, porque é uma situação fundamentalmente

insustentável, uma questão de tempo até que uma parede ou outra se feche sobre ele. Em sua vida de policial, Bobby Cirello já ficou falado. Ninguém diz nada, mas essa é a questão. Outros policiais o evitam, o excluem de dados da inteligência, não querem ser vistos andando com ele. Uma noite, ele entra em um bar, perto da One Police, e todos os policiais presentes subitamente encontram motivo para olhar para seus drinques.

Existe um clima circulando de que Cirello é “bicho de estimação” de Mullen, e isso não é bom. Os distritos policiais são locais intensos e a One Police Plaza é isso multiplicado por dez. Boatos se espalham mais depressa que gripe, e o nome de Cirello toda hora surge: Cirello tem problema com jogo, Cirello está atolado em dívidas com agiotas, ei, o pessoal à paisana da Um-Quatro viu Bobby Cirello circulando com Mike Andrea, em um bar, em Staten Island.

Ele sabe que o IAB, o Departamento de Assuntos Internos, vai farejar, porque os caras de lá são como cachorros no parque, não conseguem ficar com o nariz fora da merda. Se já não estão em cima, vão ficar.

E sempre tem a possibilidade de alguém, um dos italianos, um dos negros, ser preso e, diante de uma pena bem severa, tentar vendê-lo. Ele quase torce para que isso aconteça, porque aí Mullen terá que intervir e encerrar a história toda.

Mas não é só o IAB ou a NYPD que preocupam Cirello. Tem a Polícia Estadual de Nova York e tem a Divisão de Narcóticos. Os federais têm um mega tesão pelos Cozzo; e se estiverem investigando Jay? Porra, as famílias de Nova York têm mais ratos delatores que um píer abandonado; e se Andrea ou mesmo Cozzo já estiverem colaborando como testemunhas?

Mullen tenta tranquilizá-lo.

— Nós estamos com a proteção da polícia federal nessa operação, proteção do mais alto nível.

Sei, que ótimo, pensa Cirello. E quanto ao nível médio, e níveis baixos? Eles receberam alguma ordem para não ficar em cima dele? E se foi o caso, seria preciso de apenas um policial corrupto para dar uma palavra com os italianos ou com Darnell, e Cirello seria morto.

Porque essa seria a outra parede se fechando em cima dele. De novo, é só uma questão de tempo até que essa porra toda vá pro caralho, ou alguém ferre tudo e estoure a encenação dele. Uma questão de tempo até que Darnell peça algo que ele simplesmente não tenha como fazer; então, ele vai querer saber o motivo. Isso faz Cirello ficar acordado à noite… bem, muitas ideias lhe tiram o sono… que Darnell possa querer que ele revele algum infiltrado, que ele dê o nome de um delator e faça com que alguém acabe sendo morto.

Ou até pior, que Darnell o mande matar alguém.

Darnell deu a entender, uma vez.

— Você é o zero zero sete.

— O que isso quer dizer?

— Você tem licença para matar — respondeu Darnell. É, Darnell é que tem a licença.

Cirello sabe disso, porque ele é o cara que volta dirigindo até Brighton

Beach, onde um mafioso russo entrega um saco a Cirello e diz:

— Aqui tem cem mil. Por favor, diga ao sr. Darnell que nós

lamentamos, foi um equívoco, e as pessoas responsáveis já foram punidas.

Alguém deu um susto do caralho nos russos, alguém falou a eles para

não ficarem de sacanagem com Darius Darnell e Cirello imagina que sejam certas pessoas no México, com peso para isso.

Ele entrega o saco a Darnell em um de seus cafofos, no leste de Nova

York. Darnell abre o saco, olha dentro e entrega a Cirello um pacote lacrado de notas de cem, como “taxa de serviço”.

É assim que funciona. Cirello está na lista de pagamentos de Darnell,

mas não recebe um cheque semanal, uma contribuição previdenciária. Ele faz um serviço para Darnell e o homem lhe dá uma quantia aleatória em espécie.

Que Cirello leva até Mullen; eles cuidadosamente registram o dinheiro

e o botam em um cofre.

Bem, quase tudo.

Parte ele gasta consigo mesmo, como um policial corrupto. Ele compra

umas roupas, por exemplo, leva Libby para jantar em lugares caros, também faz algumas apostas. Ele precisa fazer isso, do contrário Darnell ficaria desconfiado. Uma vez, o traficante até lhe pergunta, diretamente:

— O que você faz com o dinheiro que eu lhe dou? Cirello explica que guarda a maior parte, economizando para quando se

aposentar, porque se ele começar a gastar que nem uma Kardashian, isso chamaria a atenção do IAB, que fica de olho em policiais vivendo acima de seus vencimentos.

Darnell acredita, faz sentido.

Mas as operações infiltradas nunca são vendas, são sempre locações. A

ideia é sempre sair delas e seguir em frente, e Cirello mal pode esperar por esse momento. Porém, para fazer isso, ele tem que esperar e conseguir o nome dos fornecedores de Darnell.

As mesmas pessoas que puderam dizer aos russos para ajoelhar e chupar

o pau do Darnell.

Gente da pesada.

Gente que está matando a garotada em Staten Island.

Então, Cirello aguenta firme.

Isso gera um inferno em seu relacionamento com Libby. O trabalho normal de policial já é bem difícil para os relacionamentos, mas o trabalho de infiltrado mata é de matar. Ele cumpre seu horário das 9 às 17 horas, na One Police, mas fica de prontidão e tem que sair batido sempre que Darnell precisa dele. É difícil explicar pra Libby por que o seu celular toca à uma hora da manhã, ele tem que sair e não pode dizer a ela aonde vai, nem o motivo.

— É o trabalho — ele diz, uma vez.

— Eu sei disso.

— Não é outra mulher — ele diz.

— Também sei disso.

É, ela provavelmente sabe, pensa Cirello. Ela sabe que é linda, é inteligente, qualquer homem teria sorte em tê-la e nem pensaria em procurar mais alguém.

Não, ela sabe que é o trabalho, ela só detesta o trabalho.

Detesta que ele não possa compartilhar com ela essa parte de sua vida.

E ela vê as mudanças nele — os ternos Zegna, camisas Battistoni, gravatas Gucci e sapatos Ferragamo.

— O que é isso, elegância de mafioso?

— Você não gosta?

— Eu não desgosto — diz ela. — É só que você, sabe, está diferente.

E ela fica imaginando de onde vem o dinheiro. O Bobby Cirello que ela conheceu era simples, sabia para onde ia cada dólar. Ele sempre se vestiu bem, mas sempre olhou a etiqueta de preço. E agora ele está soltando milhares de dólares no guarda-roupa? Não parece ele.

Não é só externo, nas roupas.

Bobby está mudando.

Ele parece tenso o tempo todo. Levanta à noite e sai do quarto. Ela ouve a televisão com o som baixinho. Ele está bebendo mais — não fica bêbado, mas está certamente bebendo mais.

E falando menos — passa longos períodos em silêncio, quase emburrado.

E há as vezes em que ele sai, vai para algum lugar. Vai embora sem explicação, volta sem explicação, geralmente agitado, zangado, procurando uma briga que ela não dá.

Libby ama Bobby, ela está apaixonada por Bobby, mas isso não pode

continuar.

Ela está prestes a deixá-lo.

Ele sabe.

Libby não diz nada, não faz ameaças nem dá ultimatos, mas ele sabe

que ela está com um pé para fora da porta.

Cirello não pode culpá-la.

Porra, eu me abandonaria, se tivesse escolha, pensa ele. Ele acha que a ama, acha que está apaixonado por ela, mas até sair

disso, nem vai pensar em comprar um anel. Nesse mundo de cabeça para baixo, ele está se distanciando de Libby e se aproximando de Darnell. Esse é um perigo conhecido do trabalho de infiltrado; todos sabem que você tende a começar a se identificar com seus alvos — é quase um pré-requisito para o sucesso —, mas Cirello descobre que ele de fato está começando a gostar de Darius Darnell.

O que não faz sentido, porque ele odeia a porra do Darnell. Mas eles estão começando a ficar bem próximos. Uma noite, enquanto voltam de carro de Inwood, eles passam pelo

túmulo de Grant, e Darnell diz:

— Eu li um livro sobre ele, em V-Ville.

— Ah, é?

— Aquele homem ganhou a guerra.

No fim das contas, Darnell leu um monte de livros em cana,

provavelmente mais livros que Cirello já leu na vida, e tem bastante conhecimento de história americana.

E opinião.

— Não tem branco nenhum — disse ele, uma vez — na história deste

país, que já tenha feito alguma coisa pelo homem negro, a não ser que fosse para levar alguma vantagem.

Eu salvei a sua vida, seu filho da puta, pensa Cirello; mas diz: — E o Grant?

— Foi para ser presidente.

— Certo, que tal Lincoln? — pergunta Cirello. — Racista.

— Ele libertou os escravos.

— Só pra salvar a União — diz Darnell.

— Você é um homem duro, Darius.

— Eu sei.

Outra vez, Darnell se abre sobre sua época na cadeia.

— Sabe o que é o sistema judicial criminal, Bobby Cirello? Pretos em jaulas.

— Tem caras brancos na cadeia — diz Cirello.

— Caras brancos pobres — rebate Darnell. — Pretos pobres, mulatos pobres. Haveria amarelos pobres, mas isso não existe.

— Então, a questão não é a raça — diz Cirello. — É a classe.

Eles estão lá no telhado da Linden, bebendo cerveja e assistindo ao pôr do sol. Darnell diz:

— Não, é a raça. Temos um branco concorrendo à presidência, que admite ter agarrado mulheres pela boceta. O que acha que aconteceria se Obama falasse que agarrou uma mulher branca pela boceta? Eles trariam de volta o linchamento.

— Provavelmente.

— Não tem “provavelmente” nisso — diz Darnell. — Eles o linchariam, depois linchariam metade dos irmãos em DC, só pra garantir. Você nunca ouviu falar no Emmett Till?

— Quem é?

— Ele tinha quatorze anos — conta Darnell — e lincharam o garoto porque uma mulher branca disse que ele assoviou pra ela. Quatorze anos, Bobby Cirello.

Cirello olha para ele e pensa ver uma lágrima escorrer no rosto de Darnell.

— Está chorando, Darius?

— Não choro desde que o médico deu um tapa na minha bunda preta.

— Certo.

— Mas eu ouvi homens chorando — diz Darnell. — Ouvi homens chorando à noite, nas celas.

— Aposto que sim.

Darnell ri.

— Isso é o que você não deveria fazer, Bobby Cirello. Você não deveria apostar. Em nada. Foi assim que você se meteu nessa enrascada. Como você vai indo com isso?

— Dei uma diminuída.

— Isso é bom — diz Darnell. — Você frequenta reuniões? Como alguns

viciados fazem?

— Não sou muito um cara de reuniões.

Outra vez, Cirello o está levando para casa e Darnell lhe diz para entrar

na rua 91.

— Pra onde estamos indo? — pergunta Cirello. — Buscar meu filho.

— Eu não sabia que você tem um filho.

— Ele tá na escola, bem ali.

Cirello conhece a Trinity, uma escola particular com um valor anual

bem robusto. O filho de Darnell está em pé, do lado de fora, com o blazer da escola e calça cinza, uma mochila nas costas, segurando um taco de lacrosse.

Garoto bonitinho, uns treze anos.

— DeVon — diz Darnell —, diga oi ao sr. Cirello. — Bobby — diz Cirello.

— Não, “sr. Cirello” — corrige Darnell. — O menino tem educação. O menino é tímido.

— Olá.

— Como foi o treino? — pergunta Darnell.

— Eu fiz um gol.

— Que bom.

Eles o levam até a casa da mãe, na rua 123 com a Amsterdam. Cirello

aguarda, enquanto Darnell acompanha o filho até lá dentro.

— Garoto bacana — diz Cirello, quando Darnell volta para o carro. — Graças à mãe dele — responde Darnell. — Eu não estava por perto

na maior parte do tempo, não o vi crescer.

— Ei, ele agora está na Trinity, não é?

— Depois vai pra faculdade. Você tem filhos? — Não — diz Cirello.

— Está perdendo.

— Imagino que eu tenha tempo.

— Todos nós imaginamos que temos tempo — diz Darnell. — E isso

não é verdade. É o tempo que nos tem. O tempo é invencível, cara. Você nunca pode ganhar dele. Quer saber a respeito do tempo, pergunte a um condenado. Somos especialistas no assunto.

Foi depois disso que Cirello apresentou uma teoria a Mullen. Eles estão sentados em sua mesa de café da manhã, quando Cirello explica:

— Darius Darnell cumpriu oito anos numa prisão federal. Antes de entrar, ele era um traficante de coca, de nível baixo a médio, do Brooklyn. Após seis meses de sua saída, ele está passando cargas imensas, de heroína de primeira. O que isso lhe diz? Ele fez o contato em Victorville.

— Negros e latinos não se misturam em cana.

— Mas nós sabemos que ele está traficando heroína mexicana — insiste Cirello —, portanto, eles se misturaram, em algum lugar. Olhe, nós sabemos que os mexicanos costumam fazer negócios na Costa Leste com seu próprio pessoal, ou com outros latinos: dominicanos, porto-riquenhos. Esse é o modus operandi. Mas esse fornecedor lida com negros, o que significa que há um novo participante no jogo, que não liga para a tradição, ou que não conseguiu entrar pelos canais normais.

— Um mexicano forasteiro.

— É uma teoria.

É, tudo bem, pensa Cirello, um “mexicano forasteiro”.

Ele sabe um pouquinho sobre ser um forasteiro.

Eddie Ruiz ficou no programa de proteção à testemunha por cerca de 37 minutos.

Tempo que levou para que ele fizesse sua investigação preliminar em St. George, Utah, e dissesse:

— Acho que não.

Não ficou muito claro se sua realocação para St. George, no coração mórmon polígamo, foi ou não uma piada maliciosa do Departamento de Justiça, considerando o ambíguo estado civil de Eddie — por ele ter família com uma mulher com quem se casou nos EUA, ainda adolescente, e outra com aquela que desposou no México, um tempo depois. Mas o Departamento de Justiça só reconheceu a primeira família e, portanto, só estava disposto a realocar aquela.

A primeira esposa, Teresa, que foi animadora de torcida no Ensino Médio no Texas, não ficou muito empolgada com o privilégio.

— Não tem nada aqui.

Os dois filhos ecoaram obedientemente o sentimento.

— Não tem nada aqui.

Mas Eddie tinha planos mais elaborados.

— Como assim? Eles têm tudo aqui. CostCo, Target, McDonald’s,

Yogurt Barn…

— Só tem mórmons — disse Teresa.

— Mórmons.

Por ter ficado afastado, Eddie não sabia quando sua filha de quinze anos

e seu filho de doze haviam se transformado em Donnie and Marie (falando em mórmons), mas ele logo mudou de assunto.

— Aqui foi onde o governo designou que o papai, vocês sabem, faça seu

trabalho secreto.

Eddie Jr., tendo abandonado o Papai Noel apenas recentemente, ainda

acreditava na história de que “o papai era agente secreto”, mas Angela era antenada demais na internet e tinha lido tudo sobre o papai ter sido um mega traficante de drogas. Ela também sabia que, se o governo estava mudando a família para algum lugar, era porque seu pai tinha dedurado alguém.

— Onde você descobriu essas coisas? — perguntou Eddie, quando ela o

confrontou a respeito.

— Mob Wives — disse Angela. — É um programa de TV. O pai de uma

das esposas é Sonny Gravanno, e ele entrou no programa de proteção à testemunha porque era um dedo-duro.

— Eu não sou dedo-duro.

— Tanto faz — disse ela. — Mas, por que eles nos deram um

sobrenome de “Martin”? Nós somos hispânicos, não temos cara de Martin.

— Ricky Martin é hispânico e seu nome é Martin — retrucou Eddie,

saboreando essa pequena vitória, porque cada pequena vitória é rara, com uma filha de quinze anos.

Quando Eddie estava em cana, ele ouvia incontáveis caras reclamando

sem parar, dizendo “Eu só quero voltar para os meus filhos, só quero voltar para os meus filhos”. Justiça seja feita, ele também era bem assim, mas agora que está de volta com os filhos, ele percebe que não é toda essa alegria.

Seu filho é uma fatura ambulante de ortodontista, só vive no dentista,

quando não está trancado no quarto batendo punheta, e a filha está ressentida por ter que deixar os amigos lá em Glendora, mais por um garoto chamado Travis que Eddie estava bem certo de que ela andava chupando.

— Sexo oral não é sexo — disse Angela, uma noite, no trajeto de carro até Utah. — Foi um presidente que disse.

— Então, por que chamam de sexo? — perguntou Teresa.

— Aposto que você viu muito sexo oral na prisão — ela falou a Eddie.

— Prisão? — perguntou Eddie Jr.

— O papai trabalhou por um tempo como infiltrado, numa prisão — disse Eddie.

— Nossa.

Eddie se entristecia um pouco por seu filho, que levava seu nome, ser tão retardado.

— Ela andou chupando ele — Teresa disse na cama, naquela noite. — Eu sei.

— Bem, em Utah ela não vai chupar garoto nenhum.

— Como você sabe?

— Porque esses garotos são mórmons — respondeu Eddie —, e boquetes são pecados sérios. Além disso, eles usam aquelas cuecas.

— Do que está falando?

— Eles usam uma cueca — explicou Eddie, cansado por ter dirigido todo o trajeto ouvindo os filhos choramingando — que é difícil de tirar.

— Deixo por sua conta saber como se tira cueca de homem.

— Que bacana — disse Eddie. — Está vendo, foi daí que ela puxou.

De qualquer maneira, Eddie instalou a Família Número Um em uma bela casa de três quartos, no fim de uma rua sem saída, no subúrbio de St. George, e se apresentou em seu emprego como gerente assistente, em uma loja de autopeças NAPA, onde os 37 minutos se passaram.

Ele conseguiu ficar no emprego por 36 minutos, e foi depois que seu gerente, Dennis, o convidou com a família para uma noite empolgante jogando Uno, com direito a seus sundaes especiais (“castanha é o truque”), que Eddie saiu porta afora, pagou em espécie por um Chevy Camaro e pegou a rodovia 15, ao sul, rumo a Las Vegas.

Eddie se registrou no Mandalay Bay, pediu uma garrafa de vodca, chamou uma garota de programa, e finalmente comemorou sua libertação de Victorville. Ele comemorou por três dias, depois entrou de volta no carro e dirigiu até San Diego, onde tinha guardado a Família Número Dois.

Priscilla estava muito injuriada.

— Faz uma semana que você saiu e é agora que vem nos ver?

— Benzinho, eu tive que ver uns negócios.

— Você não sentiu minha falta? — perguntou Priscilla. — Não sentiu

falta da sua filha, do seu filho?

— É claro que senti.

É, na verdade, nem tanto. Sua garotinha agora estava com cinco anos e

meio e o menino com três e meio, e eles já eram dois mimados de carteirinha. Estragados porque Priscilla dava tudo o que eles queriam, sem cerimônia. “Bem, eles não tiveram um pai, tiveram?”

Eddie nunca deixava de se surpreender por suas esposas alegremente

pegarem seu dinheiro de drogas e depois o infernizarem, indignadas, por ele estar na prisão. Ele conheceu uns caras que cumpriram trinta anos cujas esposas mantinham a boca fechada a respeito.

E as coxas também.

Ele tinha uma forte desconfiança de que Priscilla andava transando com

algum cara, enquanto ele estava fora, porque ela sempre parecia mais feliz do que deveria. Quando Teresa ia visitar, ela parecia apropriadamente frustrada e infeliz, mas Priscilla tinha um ar de frescor, tipo acabei-de-trepar.

Eddie lhe perguntou a respeito, na primeira noite em San Diego, depois

que eles enfim subornaram as crianças para irem dormir.

— Priscilla, me deixe perguntar uma coisa — disse ele —, você transou

com outros caras, enquanto eu estava fora?

— Não.

Ela já estava falando com sotaque californiano, perceptível até nessa

resposta.

— Certo — disse Eddie. Sua piranha mentirosa. — Então, o que fazia

com sexo?

Priscilla esticou a mão até a mesinha de cabeceira e pegou um vibrador. — Só eu e meu coelhinho, meu bem. Você acha que pode competir com

isso?

Ela ligou o negócio e ele olhou.

— Bem, eu não consigo fazer meu pau rodopiar. — Vem cá, benzinho, eu vou fazê-lo rodopiar. Ela bem que fez, e Eddie estava totalmente apagado quando seu celular

tocou, na manhã seguinte, e ele viu que era Teresa. Ele vestiu um jeans e apressou-se até lá fora para atender a ligação.

— E aí, meu bem.

— E aí meu bem é o cacete. Onde você se meteu, porra?

— Viagem de negócios.

— Aquele cara, o tal do Dennis, fica ligando, todo preocupado — disse Teresa. — Ele falou que vai ter que demitir você.

Ah, não, pensou Eddie.

— Olhe, Teresa, eu não vou ser vendedor de autopeças em Utah.

— Então, vai simplesmente abandonar a gente aqui?

— Não, benzinho — disse Eddie. — Só deixa eu me instalar e vou mandar buscar vocês.

— Instalar? Onde? Onde é que você tá?

— Na Califórnia.

— Califórnia? Por quê?

Porque os negócios são aqui, pensou Eddie.

— Sério, T? Eu tenho mesmo que explicar tudo isso pra você?

— O que os federais vão dizer?

— Quem se importa? — disse Eddie. — Não estou em condicional, eu posso abandonar o programa de proteção quando quiser. Olhe, diga a Eddie Jr. que eu estou em missão, diga a Angela, não sei, tanto faz, e fica fria. Eu vou ligar para você.

Ele desligou e tentou voltar para a cama.

Não rolou.

— Com quem você estava falando? — perguntou Priscilla.

— O quê?

— Lá fora, onde eu não podia ouvir — disse ela. — Quem era no celular?

— Era negócio.

— Negócio de boceta.

— Quer que eu faça você virar testemunha, é isso que você quer? — perguntou Eddie. — Eu estava protegendo você. Meu Deus.

Ele saiu da cama e desceu para fazer café e comer algo. As crianças já estavam na cozinha, fazendo a maior zona, jogando Cheerios e leite para todo lado.

— Priscilla! — gritou ele. — Quer vir aqui cuidar dos seus filhos?!

— Eles também são seus filhos!

As crianças o encaravam.

— O quê? — perguntou Eddie.

A garotinha, Brittany, perguntou:

— Você é o nosso papai?

— Tem mais alguém que vocês chamam de papai? Brittany continuou olhando para ele.

Eddie enfiou a mão no bolso e tirou uma cédula toda amassada. — Você quer vinte dólares, Brittany?

— Sim.

— Eu quero vinte dólares — disse Justin.

Eu sou mexicano puro, pensou Eddie, Priscilla é mexicana pura, e nós

temos filhos chamados Brittany e Justin.

— Certo, quem quer vinte paus? Tem mais alguém que vocês chamam

de papai?

Priscilla chegou.

— Vinte, Eddie? Que pão-duro.

— Eu vou até a Starbucks.

— Vá.

Eddie foi.

Achou um hotel na praia, em Carlsbad, e deu uma relaxada por alguns

dias.

Agora ele pega o celular e liga para Darnell.

— Já saí.

— Bem-vindo de volta ao mundo, irmão.

— Valeu. Está com meu dinheiro?

— Está tudo aqui pra você. Cada centavo.

Eddie vinha antecipando a heroína para Darnell, até que saísse. Já tinha

algo em torno de três milhões.

— Confio em você. Você tem como fazer chegar até mim? — Eddie

precisa da grana para pagar Caro. O esquema é Caro antecipando a droga para Eddie, que antecipa para Darnell, que repassa aos vendedores. Os vendedores passam para os usuários e o dinheiro é lavado, fazendo o caminho de volta. — Você tem uma mula em que confie, com esse tipo de grana?

— Acho que sim — responde Darnell. Então, ele diz: — Eddie, tem um

problema.

Claro, pensa Eddie — sempre tem uma porra de um problema. O problema, neste caso, Darnell explica a Eddie, é que eles têm

concorrência. Sinaloa vem mandando gente para Nova York como se fossem representantes farmacêuticos, que estão indo aos varejistas e se oferecendo para antecipar a heroína. Eles vão mais aos dominicanos de Upper Manhattan e do Bronx, porém, estão cada vez mais buscando os clientes de Darnell, no Brooklyn e em Staten Island.

As gangues dominicanas também são um problema, vendendo produto de Sinaloa no alto do Hudson, em New England e abaixo, em Baltimore e em DC, território que Darnell quer. Antigamente, Chicago que era o grande núcleo Sinaloa, de onde eles distribuíam cocaína para o país todo. Mas agora que o cartel ingressou na heroína, ele quer Nova York também. E não é apenas Sinaloa. Darnell tem se deparado com traficantes que compram de um fornecedor de Jalisco.

— Isso não tá certo, Eddie — diz Darnell. — Você precisa acertar essa merda.

Eddie não tem muita certeza se consegue. Em outras épocas, quando o cartel Sinaloa era uma organização, Adán Barrera e Nacho Esparza poderiam simplesmente emitir uma ordem dividindo o território de varejo nos EUA. Mas agora, o cartel Sinaloa é pelo menos três cartéis — Núñez, Esparza e Sánchez, este último também conhecido como CBNG —, e Eddie não quer dar pista a Darnell de que seu fornecedor é, na verdade, um antigo forasteiro de Sinaloa: Damien Tapia. E também tem Tito Ascensión, e o novo cartel Jalisco. E, claro, todos querem vender em Nova York.

E a coisa piora.

O produto da concorrência é melhor, Darnell diz a ele.

Eles o estão passando para trás em preço e em qualidade.

— É essa merda de fentanil — diz Darnell. — A cinnamon não é mais tão boa. A gente precisa se atualizar nessa merda.

— Entendo.

— Você consegue fentanil?

Por que, não? pensa Eddie. Fentanil vem de barco da China, e sua antiga equipe controla Acapulco e seus portos, portanto, isso não deve ser problema.

— É, acho que podemos trabalhar nisso de duas formas, D. Podemos batizar a H com fentanil e também podemos vender o fentanil puro. Dar uma escolha aos clientes.

— Mas tem que ser em doses pequenas — diz Darnell. — A gente não vai querer matar a base da clientela. A gente precisa mandar ver nisso, Eddie. Estou perdendo território e dinheiro. E tire esses filhos da puta de Sinaloa da minha área, ou eu…

— Calma, D — diz Eddie. — Nós não queremos uma guerra. — Não, mas eu não vou deixar que eles simplesmente tomem na mão

grande, sabe qual é?

— Não faça nada precipitado, eu estou marcando em cima — diz Eddie. Ele começa a dar seus telefonemas.

A vida dupla de Cirello está prestes a terminar.

Com uma apreensão gigantesca.

Vinte quilos de fentanil estão a caminho de Darius Darnell. Um

caminhão baú com vinte quilos da droga mortal, cinquenta vezes mais forte que heroína, está a caminho. Darnell vai levar a carga para um moinho em Upper Manhattan e transformar em comprimidos para papelotes de “fogo”, heroína batizada de fentanil.

E Cirello está fazendo a segurança da entrega. É a apreensão pela qual eles vêm trabalhando há quase dois anos — a

prisão em flagrante de Darnell e fentanil suficiente para matar literalmente milhões de pessoas.

Cirello sabe a matemática e é estarrecedora. Produzir um quilo de

fentanil custa de 3 a 4 mil dólares. Darnell vai pagar 60 mil por quilo, portanto, 1,2 milhão de dólares por esse carregamento. Mas se ele vai usar para batizar heroína; cada quilo de fentanil vai render cerca de vinte quilos do produto no varejo, estimado em mais de um milhão por quilo. Se ele elaborar o fentanil puro, em comprimidos, os números passam a ser uma loucura — as pílulas têm menos de 2 miligramas (mais que isso mataria o usuário), portanto, cada quilo vai produzir 650 mil doses, que serão vendidas por 20 ou 30 dólares cada.

Esse carregamento pode colocar treze milhões de comprimidos na rua. Treze milhões de doses de fentanil vão subir até a Costa Leste como

uma praga, matando viciados em Nova York, Boston, Baltimore e DC. Isso vai arrasar cidadezinhas em New England, Pensilvânia, Ohio e West Virginia.

Só que não, pensa Cirello.

Porque nós vamos impedir.

Agora, Cirello está a caminho da cozinha de Mullen para dar a boa

notícia. Fazer os planos para a apreensão: a escolha do pessoal (da Narcóticos e da SWAT), como vai ser o bote, como eles irão se comunicar. Ele ainda não sabe a localização exata — assim que souber, precisará descobrir um meio de se comunicar com Mullen. As tropas terão que estar prontas para entrar em um piscar de olhos.

É complicado, mas empolgante.

A apreensão vai salvar muitas vidas.

Incluindo a minha, pensa Cirello.

Ele está perdendo a cabeça. Não consegue mais viver nesse estresse, no isolamento, fingindo ser o oposto do que é.

Ou, talvez, não seja, ele pensa, enquanto dirige até a casa de Mullen. Talvez seja apenas outra parte dele, que gosta do dinheiro fácil, das noites malucas, das roupas bacanas, da jogatina, da bebedeira, da adrenalina do risco. E se esse for, mesmo, o caso, pensa Cirello, é até melhor que acabe logo, antes que eu realmente me transforme em quem estou fingindo ser.

Mullen o recebe na porta da frente.

— Entre, entre. O que está rolando?

Eles vão para a cozinha. A sra. Mullen dá um oi rápido, um beijo no rosto de Cirello e some.

Cirello conta a Mullen sobre a entrega iminente de fentanil.

Espera que o chefe comece a pular de punho fechado no ar.

Não acontece.

Mullen ouve e só fica ali sentado, franzindo o rosto, pensando.

— O que foi? — pergunta Cirello.

— Vamos deixar passar.

— O quê?!

— Vamos deixar passar — repete Mullen. — Analise, Bobby. Se nós fizermos a apreensão, vamos evitar que os vinte quilos cheguem às ruas. Isso só significa que centenas de outros quilos, milhares, vão entrar. Nós não queremos apreender a droga, queremos pegar as pessoas.

— Vamos pegar Darnell.

— Nós queremos as pessoas que estão fornecendo para o Darnell — diz Mullen.

— Você não está me ouvindo — insiste Cirello. — É uma entrega. Os fornecedores estarão lá.

— Algum representante intermediário estará lá — afirma Mullen. — Eles são descartáveis. Se nós os prendermos, haverá dúzias de outros. Se prendermos Darnell, o fornecedor vai simplesmente encontrar outro Darnell.

Cirello não diz nada.

Ele não sabe o que dizer.

A decepção é esmagadora.

— Quero falar com uma pessoa a respeito disso. — Eu vou indo — Cirello levanta.

— Não, fique. É bom você participar disso.

Mullen pega o telefone. Vinte minutos depois, ele está na linha com Art

Keller. Cirello o escuta contando ao chefe da Divisão de Narcóticos o que está acontecendo, depois perguntar:

— O que acha? Chegou a hora de puxar o gatilho? Cirello ouve um longo silêncio, depois:

— Não.

— Concordo — diz Mullen. — Mas, Art, você sabe que tem gente que

vai morrer por conta dessa decisão.

Outro silêncio.

— Sim, eu sei.

— Certo. Eu retorno a você, com detalhes. — Ele desliga. — Bobby… — Não fale — diz Cirello. — Por favor, não fale, senhor. Não quero

ouvir o quanto isso é importante, como precisamos olhar o panorama geral, não quero ouvir sobre o bombardeio do convento…

— Sei que estou pedindo bastante…

— Haverá garotos mortos.

— Mas que droga, eu sei disso!

Eles ficam em silêncio por um minuto, então, Mullen diz: — Sei que você está no seu limite. Sei quanto isso está lhe custando. Não, não sabe, pensa Cirello.

— Se houvesse escolha, eu tiraria você — diz Mullen. — Mas você é o

único que tem um relacionamento com Darnell, você chegou mais alto que qualquer pessoa que já tivemos, e se tivermos que começar de novo…

Mais garotos vão morrer, pensa Cirello.

— Bobby — diz Mullen —, você pode segurar mais um pouquinho? Se

não puder, não pode; então me diga e eu tiro você agora.

Ele está lhe oferecendo uma saída, pensa Cirello, aceite. Ele está lhe oferecendo sua vida de volta, pegue. — Não — diz Cirello. — Eu estou bem.

Nesse mundo de cabeça para baixo, eu estou bem.

Quando ele chega em casa, Mike Andrea está estacionado na rua. Cirello chega ao carro antes que Mike possa descer. Ele recosta na porta, sinaliza para Andrea descer o vidro.

— Que porra você está fazendo aqui? — pergunta Cirello.

— Você não tem aparecido, ultimamente, Bobby — diz Andrea.

— Não venha à minha casa.

— É, eu a vi, quando ela entrou — diz Andrea. — Não posso culpá-lo por querer sua privacidade. Não, nós achamos que já teríamos notícias suas a esta altura, Bobby. Sobre aquele negócio que conversamos. De onde o Darnell arranja o bagulho?

— Já disse que não sei.

— Mas ele tem um grande carregamento chegando, não tem? — pergunta Andrea.

— Quem disse isso?

— Ele mesmo — diz Andrea. — Como aquele cara dizia, na TV, “eu também sou cliente”. Ele vai nos vender uma parte. Você estará lá, Bobby, pra ter certeza de que tudo saia redondo, certo? Conhecendo gente nova, fazendo novos amigos… só não se esqueça dos seus velhos amigos, hein? Seus velhos amigos é que o protegem, fazem questão de que sua bela garota esteja protegida…

Cirello o agarra pelas lapelas, puxa metade para fora do carro.

— Não fale dela com essa boca suja, e fique longe dela. Ou eu mato você, Mike. Entendeu? Primeiro, eu vou estourar seus miolos, depois mato aquele idiota do seu chefe.

Ele empurra Andrea de volta para dentro.

Andrea alisa as lapelas.

— É bom você ficar esperto… botando as mãos em mim… ameaçando as pessoas…

— Apenas lembre-se do que eu lhe disse.

— E você, lembre-se de quem você é, porra — diz Andrea. — Nós queremos ter notícias suas, Cirello.

Ele fecha o vidro e vai embora.

Cirello entra em casa.

Libby dá uma olhada para ele e diz:

— Bobby, o que foi? Você está tremendo.

— Estou?

— Sim. Vem cá.

Ela passa os braços em volta dele.

— É — diz ele. — Talvez eu esteja pegando alguma coisa.

Cirello leva Darnell ao encontro.

— Tem certeza? — pergunta Darnell.

— Já falei, está limpeza — diz Cirello. — Não tem ninguém em cima. — Nem federais?

— Como eu falei.

— É bom mesmo — diz Darnell. — Isso me custou muito. Não é sobre o dinheiro, Cirello sabe. Ele só está tentando encobrir os

nervos. Darnell tem muito em jogo ali: dezenas de milhões de dólares e uma posição no que se tornou meio que uma corrida, cabeça a cabeça, entre os traficantes de drogas, para ver quem vende o produto mais forte. Darnell está sob muita pressão da concorrência — os dominicanos, os porto-riquenhos, os chineses — e precisa desse carregamento para passar à frente, ou até se equiparar.

E tem muita coisa que pode dar errado: uma trapaça, um flagrante, um

sequestro. Uma van vem atrás deles com quatro dos garotos do Brooklyn de Darnell, todos armados com ARs. Outra equipe está aguardando nas redondezas do local de entrega — analisando a área, mantendo guarda, pronta para entrar se alguma coisa der errado. Uma terceira equipe espera perto do moinho, pelo mesmo motivo.

Se necessário, Darnell vai mandar ver.

Cirello está com sua 9 mm na cintura e outra arma, um 38 descartável,

colado ao tornozelo, além de uma espingarda 590 Mossberg embaixo de um casaco, no banco traseiro.

Ele também está pronto para mandar ver.

Só não sabe com quem.

Agora tem gente demais envolvida nisso — Mullen, o Departamento de

Narcóticos, os italianos, o IAB farejando em volta, Deus sabe quem mais.

Ele sobe a West Side Highway.

— Pegue a ponte George Washington — diz Darnell. — Nós vamos pra Jersey? — pergunta Cirello. — O que parece?

— Eu não tenho jurisdição em Jersey — diz Cirello. — Se Jersey

estiver vigiando você, eu não saberia a respeito.

— Então, é melhor você torcer pra que não estejam.

É uma técnica clássica dos traficantes de drogas, pensa Cirello. Atravessar a jurisdição, dificultando um flagrante da polícia. Transferir drogas em Nova Jersey, levá-las para Nova York. Essa estratégia também funciona em nível micro, é por isso que os traficantes de rua ficam na divisa entre dois distritos e simplesmente atravessam a rua quando a polícia do outro distrito aparece, sabendo que os policiais não querem fazer a papelada de ultrapassagem distrital.

Cirello entra na ponte.

— Fique na 95, depois saia na rua 4, ao norte — diz Darnell.

Depois de alguns minutos já dentro de Jersey, ele diz:

— Encoste aqui.

— No Holiday Inn? — questiona Cirello.

— Por que, não é bom pra você? — pergunta Darnell.

Bem conveniente, pensa Cirello. Logo na saída da 95. Os mexicanos podem entregar o bagulho e pegar a estrada na hora. Ele vê a van que veio com eles estacionando três vagas atrás, e algumas figuras de Darnell descem e dão uma olhada no estacionamento.

— Temos que esperar o geek — diz Darnell.

— Hã?

— Um geek de computador, que está na van — explica Darnell. — Programa criptografado. Ele está falando com os mexicanos, pra eles saberem onde estamos.

Darnell recebe uma ligação e diz:

— Vamos nessa. Quarto 104.

Eles descem, entram por um lobby e viram à direita, em um corredor. Quando Darnell vai bater na porta, Cirello o puxa para o lado.

— Não fique em pé aí na frente, porra. Se alguém lá dentro o quiser morto, vão atirar através da porta.

Ele fica em pé ao lado e bate na porta com os nós dos dedos.

— ¿Quién es?

— É Darnell.

A porta abre uma fresta, então a corrente é retirada e a porta é totalmente aberta. Cirello estende o braço esquerdo, atravessado na frente de Darnell, mantém a mão direita no cabo da arma e entra.

O homem à porta tem quarenta e poucos anos, e mais parece um vendedor fuleiro do que uma mula de drogas, o que parecer ser a intenção, pensa Cirello, pois esse é o tipo de lugar onde um representante de vendas ficaria. Ou um casal turista procurando um local barato para ficar, perto de Manhattan, pois a mulher sentada na cadeira também tem quarenta e poucos anos, é meio rechonchuda, com uns dez quilos acima do peso.

Nenhum balconista prestaria atenção neles.

A televisão está ligada em um canal de língua espanhola, o volume

baixo. Tem um MacBook Pro aberto em cima de uma mesinha.

Há duas malas comuns no chão, embaixo da janela. — Eu vou revistá-lo, está bem? — diz Cirello. O homem dá de ombros, aceitando.

Cirello o apalpa, não sente nenhuma arma ou grampo, e diz: — Ela também.

A mulher levanta da cadeira, vira de costas e ergue os braços até a altura

dos ombros, e Cirello percebe que não é sua primeira vez. Ele faz a revista nela, até embaixo, e verifica que está limpa.

Cirello acena para Darnell entrar.

Não é como no cinema, em um galpão, com tropas de caras com

metralhadoras, em passarelas. É um negócio comum — um casal com pinta tediosa, em um quarto de hotel barato. Eles não estão armados, porque não vão trocar tiros com a polícia. Também não vão trocar tiros com ladrões. Se algum aparecer, esses dois vão abrir mão do bagulho e o cartel vai rastrear e cuidar dos bandidos quando eles tentarem repassar a droga.

Sem hesitar.

Não, eles apenas botam a droga no carro, ou caminhão, e partem da

Califórnia, e o cartel confia neles, em não roubar, pois eles geralmente têm algum membro da família que ficou no México como refém de seu bom comportamento. Não há pais no mundo que fujam com milhões de dólares em drogas, se souberem que isso significa que seus filhos serão torturados e mortos. Mesmo que houvesse — e Cirello espera que não há — onde eles iriam vender o produto?

O que vai acontecer é: Darnell vai comunicar ao fornecedor que está

com o produto e o refém será liberado, provavelmente de uma luxuosa suíte de hotel, em algum lugar, e esses dois irão receber um belo trocado.

A mulher diz a Darnell:

— Seu amigo mandou lembranças.

— Mande também.

Então, ela olha para Cirello.

— Eu vou abrir a mala. Tudo bem?

— Apenas não coloque as mãos dentro.

Ela se curva, abre uma das malas e Cirello vê os tijolos bem embalados em plástico, com várias voltas de fita adesiva reforçada. Ela se ergue de pé.

— Não vou abrir nenhum pacote.

Darnell sacode a cabeça.

— Eu confio em meu amigo.

De qualquer maneira, é perigoso demais, Cirello sabe. Policiais e equipes de socorristas já morreram só por terem contato com fentanil. Se você tem um corte aberto, ou se inalar por acidente, já era.

— Dois sacos — diz ela. — Dez quilos cada um. Você quer pesar?

— Como eu falei, confio no meu amigo.

Ela fecha a mala.

Em seguida, Cirello fica surpreso com o que não acontece.

Nada de dinheiro. Nem um centavo.

Darnell simplesmente pega um dos sacos, gesticula para que Cirello pegue o outro, e eles saem.

Eles colocam os sacos no porta-malas do carro de Cirello.

Darnell pega o celular.

— Diga a eles que está conosco.

Então, atravessam a ponte George Washington de volta, seguem ao norte pela Riverside Drive, entram à direita na Plaza Lafayette e depois à esquerda, na Cabrini Boulevard, até Castle Village, um condomínio com cinco arranha-céus de apartamentos com vista para o Hudson.

Ali, um pequeno apartamento de dois quartos chega a cifras de seis dígitos.

Não é o tipo de lugar onde se espera encontrar um laboratório de heroína, mas, de novo, pensa Cirello, essa é a intenção.

Localização, localização, localização.

Um bairro tranquilo, de classe média alta, com fácil acesso à rota 95, à rota 9, e à rua 181, em direção à ponte rumo a Bronx, Queens, Brooklyn e Staten Island.

Cirello entra na garagem.

Ele e Darnell saem do carro, pegam os sacos cheios de bagulho e tomam o elevador até o último andar do último prédio do condomínio.

Darnell comprou os três apartamentos daquela ala.

Um guarda armado os encontra junto ao elevador e os conduz até a porta

de um apartamento. Cirello vê um tipo de sala de espera de escritório — algumas poltronas, um sofá, uma televisão, e araras com macacões de proteção pendurados na parede.

— Vista um desses — diz Darnell.

Cirello se sente ridículo, mas coloca um dos macacões brancos. Darnell faz o mesmo e lhe entrega luvas plásticas. Uma porta vigiada leva ao apartamento seguinte. O guarda abre e

Cirello entra no moinho de heroína.

Cinco mulheres de macacões de proteção estão aguardando, como

trabalhadoras prontas para o início de seu turno.

O que imagino ser o caso, pensa Cirello.

Ele deixa seu saco ao lado do saco de Darnell, em uma mesa dobrável.

Uma das mulheres vem até Cirello e lhe entrega uma máscara para colocar sobre o nariz e a boca. Então, ela põe também uma máscara e abre uma das maletas, tira um tijolo e corta com uma faca.

— Debbie tem mestrado em química pela NYU — diz Darnell. — Eu a

contratei tirando-a da Pfizer.

Debbie cuidadosamente usa um cotonete para remover uma pequena

quantidade de pó e leva a um tubo de ensaio. Em seguida, coloca uma fita de teste dentro do tubo e remove, alguns segundos depois.

— Oitenta ponto cinco. Excelente.

As mulheres começam a trabalhar, arrumando os tijolos de fentanil

sobre as mesas, dividindo em panelas de heroína, depois distribuindo o “fogo” em saquinhos transparentes que irão para a rua.

Debbie pega a outra mala e conduz Cirello e Darnell a uma terceira sala.

Há mesas alinhadas com várias máquinas imaculadas de aço inoxidável.

— RTP 9”— diz Debbie. — Mesas rotatórias de pressão. De última

geração. Com essas máquinas, podemos produzir dezesseis mil pílulas por hora.

— Onde você as comprou? — pergunta Cirello. — Na internet — responde Debbie. — São feitas no Reino Unido, mas

nós as compramos de um representante no Texas, em Fort Worth.

— Você sabe usar? — pergunta Darnell.

— Até uma criança saberia — diz Debbie. — Você despeja o pó aqui

dentro, ele desce por essa peça giratória, é forçado a esses canais e sai como pílulas. Quer ver?

É simples como ela disse.

Cirello já viu micro-ondas mais complicados, e ele fica ali olhando, enquanto a máquina começa a cuspir comprimidos como balas de uma metralhadora.

Eles estarão embalados e na rua, amanhã.

E amanhã, alguém provavelmente irá morrer.

A última sala é uma estação de segurança, pela falta de uma expressão melhor. Ao final do turno, cada funcionário precisa ir ali, tirar toda a roupa e passar por um teste de cavidade. Então, outro guarda passa o dedo enluvado nas bocas, para garantir que eles não tenham colocado nada nas bochechas.

— Conheço tudo isso, lá de V-Ville — diz Darnell.

— O que vocês fazem, quando flagram alguém? — questiona Cirello.

— Ainda não sei — responde Darnell. — Ainda não aconteceu, porque eles sabem que serão revistados, e eu pago bem. Prevenção é melhor que cura.

— Ei, Darius? — diz Cirello. — Ninguém enfia o dedo da minha bunda, a menos que eu peça. E eu nunca peço.

— Achei que você fosse grego.

— Isso é estereotipo racista.

— Negros não são racistas — diz Darnell.

Darnell se debruça no alambrado do telhado e olha as luzes de Manhattan, do outro lado do rio.

— Levei meu garoto ao zoológico, outro dia — diz ele.

— Ao zoológico? — pergunta Cirello.

— Ao zoológico do Bronx — diz Darnell. — Ele está fazendo um trabalho sobre os gorilas, então nós fomos à “Floresta do Gorila do Congo”, pra ver os gorilas. O menino fazia anotações, com três de seus coleguinhas em volta, olhando os gorilas, mas eu estava ali em pé, percebendo que não me identificava com as pessoas, e sim com o gorila. Quer dizer, eu simplesmente sei o que aquele gorila está pensando, de dentro de uma jaula.

— É, mas não é uma jaula, certo? É um daqueles “ambientes”.

— Essa é a questão — diz Darnell. — Não parece uma jaula, mas mesmo assim, é uma jaula. Aqueles gorilas não podem ir embora, eles têm que ficar ali dentro, deixar que as pessoas fiquem olhando pra eles. Quando eu estava em V-ville, eu sabia que estava numa jaula, porque eu olhava através das grades. Agora, estou aqui fora e não parece uma jaula, mas ainda é. Eu ainda sou o gorila. Neste país, um homem negro sempre estará numa jaula.

Então, subitamente, ele pergunta:

— Como sei se posso confiar em você?

Cirello sente um aperto na barriga. Darnell parece sério, não em um tom

de palhaçada.

— Porra, eu salvei sua vida, não foi?

— Como sei se aquilo não era o seu jogo — Darnell pergunta —, que

você não está infiltrado?

— Quer me revistar, vá em frente.

— Você é esperto demais para usar um grampo — diz Darnell. —

Talvez eu precise que você faça algo que não poderia fazer como infiltrado. Você, como infiltrado, não pode cometer nenhum delito, pode?

— O que você tem em mente, D?

— Tem uma piada antiga que fala de matar uns “canos” — diz Darnell.

— Africanos, Mexicanos. Talvez eu precise que você mate um mexicano.

— Eu não vim aqui pra isso.

Darnell diz:

— Tem um mexicano entrando no meu território, roubando meus

clientes. Preciso me defender. Acho que posso matar dois pássaros com uma cajadada só: defender minha área e descobrir se você é confiável.

— Achei que você já confiasse em mim.

— Tenho algo grande em mente pra você — diz Darnell. — Mas antes,

eu preciso saber.

Darnell está me mostrando a porta aberta, pensa Cirello. A saída dessa

porra dessa missão. Simplesmente vá embora e não volte. Ninguém poderá culpá-lo. Nem mesmo Mullen sancionaria um assassinato.

Nem o tal, qual é o nome dele, a porra do Art Keller, de DC, vai

endossar um assassinato.

Caminhe na direção da luz, Bobby, pensa ele.

Caminhe para a luz.

— Não estou aqui pra matar, Darnell. Desculpe. — Você não tem filhos — diz Darnell —, mas talvez tenha, um dia. E

eles serão inteligentes como você, eles irão pra faculdade. Você quer que eles se formem com aquele monte de dívidas nas costas, ou quer que comecem a vida livres de dívidas? Não estou falando de dinheiro pra Fordham, pra John Jay. Estou falando de dinheiro pra Harvard, Yale. Durma pensando nisso, Bobby Cirello, depois você me fala.

Cirello não consegue dormir nada.

Ele fica lá deitado, pensando.

Ele acabou de botar vinte quilos de fentanil nas ruas que jurou proteger, e agora estão lhe pedindo para cometer um assassinato.

— O que foi Bobby? — pergunta Libby.

— Estou pensando em me aposentar — ele diz, de repente, surpreendendo-se.

— Achei que você adorasse ser policial.

— Eu adoro — diz Cirello.

Bem, eu gostava.

Pelo menos, acho que gostava.

Agora está difícil lembrar.

Na noite seguinte, ele está do lado de fora da Casa Iluminada de Jesus Cristo, ao lado do Umbrella Hotel, no Bronx.

É onde Efraín Aguilar está hospedado.

Darnell ficou satisfeito quando Cirello lhe disse que havia mudado de ideia.

— Agora, sim, você está usando a cabeça, Bobby Cirello.

Efraín Aguilar é basicamente um representante de vendas de laboratório farmacêutico, de um cartel concorrente vendendo fentanil; ele vendeu mais barato e tirou três compradores de Darnell, no Brooklyn, e Darnell quer mandar um recado.

Cirello passou o dia todo na cola do filho da puta e agora está esperando que ele volte das compras no outlet da Nine West com a Third Avenue. Deve estar comprando presentes para a família, ou namorada, algo assim, antes de voltar para o México, com seu bloco de pedidos preenchido.

Cirello pensou em pegá-lo na Third, mas achou que estaria movimentado demais. Além disso, tem uma loja de roupas infantis e uma pet shop lá, e Cirello não quer correr o risco de machucar alguma criança.

Ele se sente mal pelo que está prestes a fazer, mas depois pensa, foda-se. Quantas vidas Aguilar já tirou com seu produto? É como aquela velha canção, “God Damn the Pusher Man”, e há um lugar especial no inferno para os merdas que vendem esses troços.

Agora ele vê Aguilar subindo a rua.

Ãrrã, sacolas de compras na mão.

Cirello caminha em direção a ele.

Aguilar não está nem aí, deveria esperar algo assim, mas, não. Cirello

está em cima, antes que ele perceba, então vira, e cola a arma em suas costas e diz:

— Está vendo aquela van branca estacionada ali, filho da puta?

Caminhe até lá e entre.

— Por favor, não me mate.

— Anda.

Aguilar caminha até a van. Quando ele chega ao lado, a porta desliza

abrindo e Cirello o enfia pra dentro, entra depois dele e fecha a porta.

Hugo Hidalgo sai dirigindo.

Cirello empurra Aguilar para o chão, enfia um trapo na boca dele e um

capuz em sua cabeça. Hidalgo segue dirigindo até o St. Mary’s Park, os dois arrastam Aguilar para fora e o levam por uma trilha isolada de grama, atrás de algumas árvores, onde Cirello o empurra de joelhos, arranca o capuz e pressiona a pistola em sua testa.

— Diga boa noite agora.

— Por favor — diz Aguilar.

Seus olhos estão vermelhos de chorar, seu nariz está escorrendo e ele

mijou nas calças.

— Você tem uma chance — diz Cirello.

— Qualquer coisa.

— Deita aí. — Cirello empurra Aguilar de barriga para cima, guarda a

pistola no coldre, depois pega uma caneta piloto e pinta um buraco bem caprichado no meio de sua testa. — Abra os olhos bem arregalados e a boca.

Aguilar faz.

Cirello pega o telefone e tira uma foto.

Ele manda para Darnell.

— De volta pra van — diz Cirello. — Agora você está morto. Se disser

o contrário a alguém, nós vamos encontrá-lo e matar você de verdade. ¿Comprende?

— Eu entendo.

— É mais do que você merece, seu merda.

Hidalgo leva Cirello de volta até seu carro e vai embora com Aguilar algemado no banco de trás.

— O que você fez com ele? — pergunta Darnell.

— Você não se importa se eu não o tornar uma potencial testemunha contra mim, não é? — pergunta Cirello. Na verdade, D, Aguilar está a caminho de uma fortaleza, em algum lugar, como testemunha federal sob proteção, e provavelmente está fazendo sua melhor imitação de Fred Mercury, neste momento, para o pessoal da Divisão de Narcóticos. — Basta dizer que você não precisa mais se preocupar com ele e que o recado foi dado.

— Se algum dia eu for preso de novo, eu serei condenado à perpétua, de qualquer jeito— diz Darnell —, então, o primeiro nome que vou dar é o seu, e a primeira história que vou contar é essa.

— É, eu tô sabendo — responde Cirello. — Então, qual é a minha grande recompensa? De onde vem o meu dinheiro de Harvard?

— Você vai pra Las Vegas.

— É isso?

— Entregar dinheiro — diz Darnell.

Ao fornecedor dele.

Talvez ele se sinta culpado.

Talvez Cirello sinta que deve algo a eles, mas ele deixa Darnell, vai ver Mullen, e depois vai até a Starbucks, em Staten Island.

Jacqui não fica contente em vê-lo.

— Você pode tirar um intervalo? — pergunta ele.

— Se eu quiser perder meu emprego.

— Que horas termina seu turno?

— Você falou que iria embora — diz Jacqui.

— Eu menti — responde Cirello. — É isso que a polícia faz. Que horas termina seu turno?

— Quatro horas.

— Travis vem buscar você? — Quando ela assente, ele diz: — Vou encontrar vocês dois às 16 horas. Não me façam sair procurando vocês.

Ele sai e fica sentado no carro.

Às 16h05, a van de Travis encosta, Jacqui sai da loja e entra no carro. Cirello caminha até lá e bate na porta. Quando Jacqui abre, ele diz:

— Tem uma lanchonete Sonic na outra quadra. Eu vou pagar uma

refeição pra vocês.

— Preciso descolar um bagulho.

— É só uma porra de um hambúrguer. Dez minutos. Eles o encontram na Sonic. Ele paga os hambúrgueres, milk-shakes e

batatas fritas, e eles ficam sentados em um reservado. Ele percebe que os dois estão em crise de abstinência.

Ele e Mullen debateram a respeito disso. O chefe foi contra. — Por que você acha que deve algo a esses garotos? — Não acho — disse Cirello. — Só quero dar a eles uma chance. — Você é um policial, não um assistente social. — As funções se fundem.

— Não deveriam — retrucou Mullen. — Nós precisamos manter uma

linha divisória bem clara.

— Com todo o respeito, senhor, não existe tal coisa — disse Cirello. —

Por que estamos fazendo tudo isso, a menos que seja para impedir as agulhas nos braços deles?

— Nós conseguimos isso interditando o fornecimento. — E eles me deram informação para fazer exatamente isso. — Porque você deu uma prensa neles — disse Mullen. — Há milhares

de viciados por aí, Bobby, nós não podemos colocar todos eles em um programa.

— Não estou pedindo por todos eles — insistiu Cirello. — Só para esses

dois.

— Nós não temos orçamento…

— Eu tenho dinheiro entrando o tempo todo — disse Cirello. — Aquele dinheiro precisa ser registrado.

— Ou não — disse Cirello. — É preciso amar essa ironia, chefe, essa

simetria: usar o dinheiro da heroína para tratar viciados em heroína.

Cirello esperou. Ele conhece o chefe, conhece seu coração. O homem é

um cupcake de aço. Claro, depois de um longo silêncio, Mullen disse:

— Está certo, ofereça a eles.

Então, agora Cirello está sentado à mesa diante de dois viciados e faz

sua oferta.

— Eu tenho uma oferta pra vocês, uma chance única, pra pegar ou

largar. Se vocês quiserem parar, eu posso colocá-los num programa de reabilitação. Os dois.

— Isso é o quê? Tipo, uma intervenção? — pergunta Jacqui.

— É, tudo bem.

— Nós não temos plano de saúde — diz Jacqui.

— Existe um fundo para esse tipo de coisa — afirma Cirello. Bem, agora existe. — É um lugar no Brooklyn, não é tipo um spa em Malibu, de-frente-pro-mar-fazendo-ioga. Mas, se vocês quiserem, posso arranjar vaga pra vocês hoje à noite.

— Por que está fazendo isso? — questiona Travis.

— Vocês querem, ou não? — pergunta Cirello.

— Quanto tempo nós vamos ficar? — pergunta Jacqui.

— Não sei quanto tempo — diz Cirello. — Não sei qual é a cor das paredes, não sei se eles possuem o básico da TV a cabo… só sei que eles conseguem resultados. Vocês podem se desintoxicar em uma cama, em vez de em uma cela, podem ficar limpos.

— Eu não sei — diz Jacqui.

— O que há pra não saber? — pergunta Cirello. — Vocês são viciados morando numa van. Estão sentados na Sonic, tendo crise de abstinência. Não sabem de onde vem o próximo pico. Não sei do que vocês acham que estariam abrindo mão.

— Heroína — diz Jacqui.

— Olhe — diz Travis —, talvez não nos faça mal ficar limpos, por um tempo.

Cirello ouve a questão temporal, mas não liga. Se eles conseguirem ficar com esses garotos por uns dias, talvez consigam segurá-los. Ao menos, eles terão uma chance.

Jacqui não vê dessa forma.

— Você está amarelando comigo? — Ela pergunta ao namorado. — Ficando com medinho? Mas, olha, se você quiser ir…

— Não sem você.

Comovente, pensa Cirello.

Amor de doidão.

Mas talvez dê certo, pode ser que eles usem a culpa para empurrar um ao outro para ir. Tanto faz o que for preciso, ele não dá a mínima.

— Está bem — diz Jacqui. — Eu vou.

Travis assente.

— Vou fazer as ligações — diz Cirello. — Arrumem seus troços, juntem tudo, e eu vou encontrá-los aqui, às seis da tarde, pra levá-los pra lá. Vocês têm alguém que precisem avisar?

— Não — diz Travis.

— Acho que é melhor eu avisar a minha mãe — diz Jacqui. — É, faça isso — diz Cirello. — Seis da tarde. Até lá, fiquem firmes, as

coisas vão melhorar.

Um último pico, pensa Jacqui.

Ela está passando muito mal.

— Não dá pra entrar no detox passando mal demais — ela diz a Travis. — Como você sabe?

— Eu conheço gente que já fez desintoxicação — diz ela. — Porra, a

Shawna fez cinco vezes. Ela me contou.

— Nós nem sabemos onde arranjar.

— Isso aqui é a Ilha da Heroína — diz ela. — Apenas dirija. — Sei não.

— Ora, vamos, benzinho — insiste Jacqui. — Uma última onda. Uma

última farra, antes de ficarmos naquela merda toda de doze passos.

Eles percorrem Tottenville.

Descem a Hylan, seguem a Craig, atravessam a Main. Não veem ninguém.

Esse é o problema em descolar na Ilha. É tudo invisível, não dá para ver.

É tudo por trás das portas, salas dos fundos, atrás das lojas. Se alguém não souber que há um problema de heroína em Staten Island, continua sem saber.

Eles encontram, até que apropriadamente, em um beco atrás da drogaria

perto do Arthur Kill — uma van estacionada onde não deveria estar, com a porta lateral aberta e dois caras negros em pé, como se estivessem com a loja aberta.

E estão.

Jacqui desce da van e caminha até eles.

— O que está procurando, mama?

— O que você tem?

— O que você precisar.

Ela dá a ele uma nota de vinte. Ele enfia a mão dentro da van e tira dois

envelopes.

— Parece esquisito — diz Jacqui.

— É um bagulho novo.

— O que é?

— O futuro — diz ele. — Depois que tomar isso, você nunca mais vai querer o antigo.

Ela pega os envelopes e volta para dentro da van. Travis dirige até a South Bridge e encosta em um estacionamento, ao lado de uma loja de autopeças.

— Vamos — diz Jacqui. — Nós não temos muito tempo.

Eles precisam encontrar o policial bondoso que força barra, em 45 minutos.

Ela cozinha.

Travis também.

— Que merda é essa?

— Um negócio novo. Parece que é ótimo.

— Espero que sim — diz Travis. — Para a última viagem.

Jacqui está tremendo tanto que tem dificuldade de segurar a agulha na colher.

— Espera um instante — fala Travis. — Deixa eu tomar e depois eu aplico em você.

Ele estende seu braço branco comprido, espeta a agulha na veia e aperta a seringa. Então, ele tira a agulha e mergulha na mistura dela.

— Que porra você está fazendo, cara? — questiona ela.

— Eu sou maior que você — diz Travis. — Preciso de mais.

Ele se aplica de novo.

Sorri pra ela.

Então, a cabeça dele dá um tranco para trás, seu corpo começa a tremer, depois a sacudir e dar solavancos, como se ele estivesse sendo eletrocutado.

— Travis!

Jacqui o agarra pelos ombros. Tenta segurá-lo, mas ele está se sacudindo como um cabo elétrico em curto e ela não consegue. Ele bate com a parte de trás da cabeça no chão da van.

— Travis! Benzinho! Não!

Então, ele aquieta.

Mole.

Seu peito arfa.

Começa a espumar pela boca, resfolegando.

Seus olhos vazios olham pra ela.

— Travis!!!!! Nãããããoooo!!!!!!

Cirello está sentado, aguardando, do lado de fora da Sonic.

Eu deveria saber, pensa ele, que eles não iriam aparecer. Mullen tentou

me falar, eu não ouvi.

Babaca liberal de coração mole.

Então, ele ouve o chamado no rádio. Viatura chamando os paramédicos

e ele sabe, simplesmente sabe. Ele põe a sirene no teto, arranca e vai voando em direção à South Bridge Road. Jacqui está sentada no chão, ao lado da van, com os braços em volta de si, balançando para a frente e para trás, gemendo.

Os paramédicos já estão lá.

Cirello mostra o distintivo ao policial uniformizado. — O que temos? — Homem, branco, vinte e poucos anos, teve overdose — diz ele. —

Eles aplicaram o Narcan, mas foi tarde demais. Agora estamos esperando pelo legista.

— E quanto à garota?

— Porte.

— Já registrou?

— Não.

— Pode me fazer um favor? — pede Cirello. — Pode liberá-la? — É claro, detetive.

Cirello anota o nome do guarda e o número de seu distintivo, depois vai

até Jacqui e agacha na frente dela.

— Eu lamento por sua perda.

— Ia ser a nossa última onda — diz ela. — A gente ia parar. — Fique firme.

Ele entra na van. O corpo de Travis está esparramado no chão. Fentanil, pensa Cirello.

Talvez, o mesmo que ele ajudou a entregar.

O garoto não sabia.

Cirello sai de novo, diz a Jacqui:

— Entre no carro.

Ela sacode a cabeça que não.

— É tarde demais.

— Pra ele, não pra você.

— É a mesma coisa.

— Não faça essa merda de Romeu e Julieta — diz Cirello. — Salve a si mesma. Se serve de algum consolo, ele iria querer que você fizesse isso. Agora, entre no carro.

— Não.

— O que eu vou ter que fazer — pergunta Cirello —, algemá-la?

— Não me importo se o fizer.

— Está bem.

Ele puxa Jacqui e a põe de pé, vira e algema suas mãos atrás das costas. Caminha com ela até o carro, abre a porta, empurra a cabeça dela para baixo, e a coloca para dentro. Depois ele a leva até o Brooklyn, enquanto ela vomita em seu carro todo.

Cirello entra na clínica de reabilitação, onde a enfermeira de admissão diz:

— Achei que você fosse trazer dois.

— Um não conseguiu. — Ele abre as algemas de Jacqui. — Ela está vindo sozinha.

— Entendi.

— Boa sorte, Jacqui.

Ela está atordoada, mas consegue dizer:

— Vá se foder.

— É, eu vou me foder — diz Cirello, enquanto sai.

Ele leva o carro a um lava-rápido, aspira o interior, limpa e lava tudo com spray, até ficar com cheiro de vômito de baunilha, em vez de vômito puro.