A Mágica da Arrumação

Marie Kondo · Capítulo 17 de 68

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A Mágica da Arrumação

Olhe para o próprio espaço antes de criticar o dos outros

Quando saiu, carregou consigo não só o tapete de ioga, mas também três saias, duas camisas, duas jaquetas e vários materiais de escritório.

Tomei um gole de chá e perguntei a M com que frequência a mãe dela praticava ioga.

– Nunca vi minha mãe fazer ioga.

Era exatamente sobre isso que eu ia falar com M antes de a mãe dela entrar no quarto. Agora eu tinha um motivo a mais para enfatizar essa questão.

– Não deixe sua família ver o que está sendo descartado, não há necessidade disso. Se possível, leve você mesma os sacos para fora.

Recomendo aos meus clientes que evitem mostrar itens descartados principalmente aos pais. Não que haja motivos para se envergonhar da arrumação, mas em geral os pais não reagem bem ao ver seus filhos jogando muitos objetos fora. Eles ficam preocupados com a possibilidade de que alguma coisa possa fazer falta. Além disso, pode ser doloroso ver roupas, brinquedos e presentes dados por eles na pilha de descarte. É também uma questão de consideração evitar que vejam o que está sendo descartado. Isso também evita que pessoas da família reaproveitem itens de que não precisam. A “reciclagem” de objetos apenas aumenta a quantidade de coisas desnecessárias dentro de casa.

Na maioria esmagadora dos casos é a mãe que recupera itens da filha, apesar de raramente usar essas coisas. Muitas vezes, as mulheres na faixa dos 50, 60 anos jogam fora roupas que pegaram das filhas sem jamais as vestirem.

É lógico que não há nada de errado em outros membros da família aproveitarem coisas de que você não precisa mais. Se você mora com parentes, antes de iniciar a arrumação pode perguntar a eles se estão planejando comprar algo; se, ao organizar suas coisas, você deparar exatamente com esse item, dê de presente à pessoa.

 

Olhe para o próprio espaço antes de criticar o dos

outros

“Mesmo que eu organize, minha família desarruma tudo de novo.”

“Meu marido é acumulador. Como faço para convencê-lo a se desfazer das coisas?”

É irritante quando a família não colabora com suas tentativas de ter a casa “ideal”. Vivi isso na pele. Certa vez, estava tão envolvida com a ideia da organização que sentia que arrumar meu quarto não era suficiente. Então parti para os quartos dos meus irmãos e os outros cômodos. Acontece que, na maior parte do tempo, eu ficava frustrada com a desorganização da minha família. Um dos principais motivos de desentendimento era um armário que ficava no meio da casa. No meu ponto de vista, metade dele era ocupado por tralhas inúteis: roupas que nunca vi minha mãe usar e ternos completamente ultrapassados do meu pai. A parte de baixo era coberta de caixas de revistas em quadrinhos do meu irmão.

Eu esperava o momento certo e confrontava o dono com a seguinte pergunta: “Você não usa mais isso, certo?” A resposta era sempre “Uso, sim” ou “Eu mesmo vou jogar fora”, o que nunca acontecia. Toda vez que olhava para aquele armário, eu suspirava e reclamava: “Por que as pessoas teimam em acumular coisas? Será que não veem o esforço que estou fazendo para manter a casa arrumada?”

Perfeitamente ciente de que eu era diferente quando se tratava de organização, estava decidida a não deixar que eles me derrotassem. Quando minha frustração chegou ao limite, resolvi adotar a tática de agir em segredo. Identifiquei peças que não eram usadas havia anos, analisando seu design, a quantidade de poeira acumulada e o cheiro. Eu passava essas peças para a parte de trás do armário e observava o que acontecia. Se ninguém percebesse o sumiço, eu as jogava fora, uma de cada vez, como se estivesse podando plantas. Após três meses adotando essa estratégia, tinha conseguido descartar 10 sacos de lixo.

Em geral, ninguém notava nada, e a vida seguia seu curso. Contudo, no momento em que o volume de coisas em casa diminuiu significativamente, as pessoas começaram a dar falta de um ou outro item. Quando desconfiavam de mim, eu me fazia de sonsa. Fingia que não sabia de nada.

– Você sabe onde foi parar minha jaqueta?

– Não.

Se eles me pressionassem, eu apenas negava.

– Marie, tem certeza de que não jogou fora?

– Tenho certeza, sim.

– Puxa, não sei onde foi parar.

Se desistissem do assunto, eu concluía que realmente não teria valido a pena continuar guardando aquela peça. Mas mesmo quando não conseguia mais enganá-los, não me abalava.

– Eu sei que estava aqui, Marie. Vi com meus próprios olhos dois meses atrás.

Em vez de pedir desculpas por jogar fora as coisas dos outros sem permissão, eu retrucava:

– Joguei fora no seu lugar, já que você não consegue.

Olhando para trás, admito que fui muito arrogante. Depois de ser desmascarada, recebi uma enxurrada de sermões e reclamações, e fui proibida de arrumar qualquer coisa que não fosse o meu quarto. Se eu pudesse voltar no tempo, nem pensaria em começar essa empreitada ridícula. Jogar fora coisas que pertencem a outras pessoas demonstra uma enorme falta de bom senso. Embora a tática de agir escondido geralmente funcione e as pessoas nunca deem falta dos itens descartados, o risco de perder a confiança da sua família é muito alto. Além disso, não é correto. Se você quer o apoio dos seus parentes na campanha de desapego, existe uma forma bem mais fácil de conseguir isso.

Depois que me proibiram de arrumar os espaços dos outros e só me restou o meu próprio quarto, dei uma boa olhada ao redor e tive uma surpresa. Havia muito mais itens a serem descartados do que eu havia me dado conta antes – uma blusa que eu nunca tinha usado, uma saia totalmente fora de moda, livros que eu sabia que jamais iria ler. Fiquei em choque ao constatar que eu cometia exatamente o mesmo erro que meus pais e meus irmãos. Sem moral para criticar ninguém, peguei um monte de sacos de lixo e me concentrei na organização do meu quarto.

Após umas duas semanas, comecei a perceber uma mudança na família. Meu irmão, que antes se recusava terminantemente a jogar qualquer coisa fora, começou a fazer uma seleção cuidadosa de seus pertences. Em seguida, meus pais e minha irmã também começaram a selecionar e descartar roupas e acessórios. Depois de um tempo, a casa inteira estava bem mais arrumada.

A melhor maneira de lidar com uma família bagunceira é desfazer-se de tudo o que você tem em excesso sem fazer muito alarde. Atraídos pela sua atitude, os outros se inspiram a eliminar seus pertences desnecessários e a arrumá-los sem que você precise fazer uma única reclamação. Não acredita? Experimente. A organização provoca uma reação em cadeia.