A Mágica da Arrumação
Você cumprimenta sua casa?
Não estou dizendo que meus clientes nunca se arrependeram de se desfazer de algo. Longe disso. É natural que aconteça algumas vezes ao longo do processo de organização, porém não se deixe afetar por isso. Seja prático. E se você precisar de um documento que jogou fora? Bem, para começo de conversa, você já sabe que não tem mais aquele documento porque reduziu consideravelmente a quantidade de papel, portanto o estresse envolvido na procura não irá existir. Então mude o foco e comece a pensar no que fazer. Encontrada a solução, aja. Não fique lamentando nem sofrendo. Na maioria das vezes, o problema é menor e bem mais fácil de resolver do que imaginávamos.
Mesmo quando se arrependem de uma escolha, meus clientes não se queixam. Tendo desenvolvido uma nova postura ao longo do processo, eles não culpam ninguém pelos seus erros. Sabem que decidiram com base em suas convicções, portanto assumem seus atos, mesmo quando se enganam.
Selecionar e descartar seus pertences é um processo contínuo de tomada de decisões baseadas nos próprios valores. O ato de descartar aprimora a capacidade de decidir. Não é uma pena perder a oportunidade de aperfeiçoar essa habilidade apenas para acumular coisas? Quando vou à casa dos clientes nunca jogo nada fora. Esse trabalho é deles. Se eu escolhesse em seu lugar, não haveria sentido em organizar a casa. É o ato de analisar peça a peça que muda nossa mentalidade.
Você cumprimenta sua casa?
A primeira coisa que faço ao visitar um cliente é saudar a casa. Ajoelho-me no chão, no centro da casa, e dirijo-me a ela mentalmente. Apresento-me e peço que me ajude a criar um ambiente onde aquela família possa ser mais feliz. É um ritual silencioso que leva apenas dois minutos, mas arranca olhares de espanto.
Dei início a este ritual inspirada pelas regras de etiqueta de adoração dos santuários xintoístas. Não me recordo exatamente quando comecei, porém acredito que o fiz ao constatar a tensão e a expectativa que pairam no ar quando um cliente abre a porta, que tornam a atmosfera semelhante à de um recinto sagrado.
Quando me visto para trabalhar, não uso roupas esportivas nem informais: escolho um vestido e um blazer. De vez em quando coloco um avental. Alguns clientes temem que eu possa estragar minha roupa, mas não me preocupo com isso. Estar bem-arrumada é meu jeito de demonstrar respeito pela casa e por seu conteúdo. Acredito que a organização é uma celebração, uma despedida especial das coisas que deixarão o local – portanto, tenho que estar vestida à altura da ocasião. Essa postura acelera o processo e elimina as dúvidas, fazendo tudo fluir com tranquilidade. Sinto como se a casa me dissesse como ela deseja ser organizada.
Talvez você não acredite que é capaz de fazer isso, achando que só um profissional pode “ouvir” o que o ambiente diz. Mas, na verdade, o dono é quem melhor consegue entender o que seu lar está dizendo. À medida que as aulas avançam, os clientes começam a ver claramente o que devem descartar e qual o lugar natural das coisas, e então a organização prossegue de forma bem mais rápida. Existe uma estratégia que aprofunda essa comunicação: cumprimente sua casa sempre que entrar nela. Esta é a primeira lição que dou aos meus clientes. Assim como cumprimenta seus familiares e seus animais de estimação, faça o mesmo com a casa quando chegar da rua. Se esquecer ao passar pela porta, logo que lembrar, diga: “Agradeço por me dar abrigo.” Se ficar constrangido de falar em voz alta, não há problema em dizer apenas mentalmente.
Se fizer isso constantemente, vai começar a captar o prazer de sua casa como se fosse uma brisa suave. Estabeleça um diálogo com ela durante a organização. Sei que pode parecer difícil colocar isso em prática, mas vale a pena tentar.
Organizar, em essência, deveria ter como objetivo restaurar o equilíbrio entre as pessoas, seus pertences e a casa onde moram. Métodos tradicionais de organização, todavia, tendem a colocar o foco unicamente na relação entre as pessoas e seus objetos, sem prestar atenção à residência. Eu, no entanto, tenho plena consciência do papel que a casa desempenha no bem-estar de seus ocupantes. Ela está sempre lá, esperando você voltar para casa e pronta para lhe oferecer abrigo e proteção. Você não encontrará ninguém mais generoso e acolhedor. Organizar a casa é sua oportunidade de expressar gratidão por ela e por tudo o que ela faz por você.