A Mágica da Arrumação
Se você não precisa de algo, sua família também não precisa
Arrumar discretamente o que é seu gera outra mudança interessante: a capacidade de tolerar certo nível de desorganização por parte dos outros. No momento em que fiquei satisfeita com a arrumação do meu quarto, parei de sentir a necessidade de descartar as coisas dos meus pais e dos meus irmãos. Quando verificava que os espaços de uso comum – como a sala e o banheiro – estavam bagunçados, eu me punha a arrumá-los e não dizia uma palavra a respeito.
Se você fica irritado com a bagunça da sua família, dê uma boa olhada no seu próprio espaço, sobretudo nos lugares onde costuma armazenar as coisas. Com certeza você vai encontrar itens que devem ser descartados. A mania de apontar falhas na organização dos outros normalmente é um sinal de que seu próprio sistema precisa de ajustes. Por isso, você deve começar descartando somente as suas coisas. Deixe as áreas de uso comum para o final: o primeiro passo é arrumar o que é seu.
Se você não precisa de algo, sua família também
não precisa
Minha irmã é três anos mais nova que eu. Tranquila e um tanto tímida, prefere ficar em casa lendo e desenhando em vez de sair e ter uma vida social. Sem dúvida, ela foi o maior alvo das minhas experiências de organização, sendo minha cobaia sem desconfiar de nada. Quando eu estava na faculdade, meu foco era o descarte, mas eu tinha muita dificuldade em me desapegar de algumas coisas – como uma camiseta que adorava, mas que não cabia em mim. Eu me sentia incapaz de me desfazer dessas peças, então as experimentava inúmeras vezes diante do espelho e, no final, acabava sendo forçada a admitir que simplesmente não serviam para mim. Se fosse uma roupa nova ou um presente dos meus pais, eu me sentia culpada só de pensar na ideia de jogar fora.
Nessas ocasiões, minha irmã era muito útil. O método de “presentear minha irmã” parecia a maneira perfeita de me livrar daquelas peças sem ser tomada pelo remorso. Quando digo “presentear”, não estou dizendo que embrulhava com um belo papel e entregava num momento solene. Era bem diferente disso: com a respectiva peça nas mãos, eu invadia o quarto dela, arrancava o livro de suas mãos e perguntava: “Quer esta camiseta? Se quiser dou para você.” Vendo seu olhar confuso, aplicava o golpe final: “É nova e bem bonita. Mas se você não quiser eu jogo fora. Tudo bem por você?”
A coitada, muito boazinha, não tinha escolha a não ser concordar em ficar com a peça.
Isso acontecia com tanta frequência que o guarda-roupa da minha irmã, que quase nunca comprava nada, transbordava de roupas. Embora ela usasse uma coisa ou outra de vez em quando, a maioria das peças que eu lhe dava ficava esquecida no armário. Eu não me dava conta disso e continuava a presenteá-la, achando que ela deveria estar feliz por ganhar um monte de roupas legais. Só percebi meu equívoco quando comecei a dar consultoria e conheci uma certa cliente, que vou chamar de K.
K tinha 20 e poucos anos, trabalhava numa empresa de cosméticos e morava com os pais. Quando estávamos separando suas roupas notei um fato estranho em suas escolhas. Apesar de ter roupas suficientes para encher um armário de tamanho padrão, a quantidade de peças que ela separava para manter era surpreendentemente pequena. Quando eu perguntava se as peças lhe davam alegria, a resposta era quase sempre “não”. Dava para ver a expressão de alívio no rosto dela ao se livrar daquelas roupas. Analisando o conjunto das peças que ficaram, percebi que a maioria era de um estilo casual, como camisetas e calças jeans. As que seriam descartadas eram completamente diferentes, em geral saias curtas e blusas decotadas. Quando a questionei a respeito, ela respondeu: “Essas roupas eram da minha irmã mais velha.” Depois que terminamos de separar tudo, K comentou: “Que horror! Eu estava rodeada por esse monte de coisas de que não gostava e que não tinham nada a ver comigo.” As peças que a irmã lhe repassara ocupavam mais de um terço do guarda-roupa, e praticamente nenhuma delas lhe dava algum prazer.
Esse não é um caso isolado. Ao longo dos meus anos de trabalho, constatei que o volume de roupas descartadas por irmãs mais novas é sempre maior que o das irmãs mais velhas. Existem dois motivos para as caçulas guardarem roupas que herdaram e de que não gostam muito: a primeira é que é difícil jogar fora o que se ganha de um parente, a segunda é que muitas vezes elas não sabem do que gostam, portanto não sabem bem o que descartar. Como herdam muitas roupas, quase não precisam comprar coisas novas, de modo que têm menos oportunidades de desenvolver a noção daquilo que lhes dá alegria.