A Mágica da Arrumação
Apego ao passado ou ansiedade com o futuro
Como já contei, meu interesse pelas tarefas domésticas e pela organização começou quando eu tinha 5 anos. Acredito que, do meu jeito, eu estava tentando não causar problemas para meus pais, que claramente estavam ocupados com meus irmãos. Entendi muito cedo a necessidade de evitar depender de quem quer que fosse, mas queria que eles me notassem e me elogiassem.
Desde criança, era eu quem colocava o despertador para acordar todo mundo em casa. Não gostava de contar com ninguém, desconfiava de todos e tinha dificuldade de expressar meus sentimentos. Como passava a maior parte do tempo sozinha, fazendo arrumações, não é difícil concluir que eu não era muito extrovertida. Ainda hoje prefiro fazer as coisas desacompanhada, inclusive viajar e fazer compras. É algo natural para mim.
Minha dificuldade de me relacionar e criar vínculos fez com que eu me apegasse exageradamente às coisas. Acho que justamente porque não me sentia à vontade para demonstrar minhas fraquezas e minhas emoções, meu quarto e meus pertences eram muito valiosos para mim. Ali eu não tinha de fingir nem precisava esconder nada. Foram os bens materiais e a minha casa que me ensinaram sobre o amor e a segurança. Confesso que às vezes ainda me sinto insegura e inadequada.
Tenho, contudo, confiança no meu ambiente. Quando se trata dos meus pertences, das roupas que visto e da casa em que moro, sou confiante e profundamente grata. Hoje estou rodeada apenas por aquilo que realmente amo – sejam coisas ou pessoas –, pois aprendi a selecionar somente o que é especial. Meu objetivo é fazer com que pessoas como eu compreendam quanta força podem receber do ambiente em que vivem. É por isso que dedico meu tempo ensinando-as a organizar suas casas.
Apego ao passado ou ansiedade com o futuro “Descarte tudo o que não lhe dá alegria.” Se você tentou aplicar esse método pelo menos um pouco, já entendeu que não é tão difícil identificar as coisas que inspiram felicidade. Assim que as toca, você sabe a resposta. A dificuldade está em decidir o que descartar. Encontramos todo tipo de desculpa para não nos desfazermos dos objetos, como “Não usei este pote este ano, mas acho que ele pode ser útil em algum momento” ou “Eu adorava este colar. Foi meu namorado que me deu”. Mas, quando realmente nos aprofundamos nas razões que nos levam a não conseguir desapegar, descobrimos que elas resumem-se a duas: apego ao passado ou medo do futuro.
Durante o processo de seleção, se encontrar algo que não lhe traz alegria mas que você não consiga descartar, pare um momento e reflita: “Estou tendo dificuldade em me livrar disto por apego ao passado ou por temer o futuro?” Repita a pergunta sempre que essa situação surgir.
Com o tempo, a relação que você tem com seus pertences vai seguir um padrão, que se enquadrará em uma dessas três categorias: apego ao passado, desejo de estabilidade no futuro ou a combinação de ambos. É importante entender o seu padrão porque ele é uma expressão dos valores que norteiam sua vida. A decisão sobre que objetos você quer manter é, na realidade, uma definição sobre que tipo de vida deseja viver. O apego ao passado e o medo do futuro governam não só o modo como você escolhe seus pertences, mas também como você se relaciona com as pessoas e o trabalho.
Uma mulher muito ansiosa quanto ao futuro tende a escolher um namorado mais porque ele lhe dá sensação de segurança do que por amor. Da mesma forma, ela prefere o emprego numa empresa que ofereça mais estabilidade, mesmo que não goste muito do trabalho.
Por outro lado, uma mulher com forte apego ao passado não consegue voltar a se relacionar porque não esquece o ex-namorado que a deixou. Ela também é fechada para testar novos métodos, já que o atual funcionou razoavelmente até o momento.
Quando um desses padrões de pensamento atrapalha o descarte, não conseguimos enxergar o que realmente desejamos. Não temos certeza do que nos satisfaz nem do que buscamos. A consequência disso é que consumimos mais e ficamos soterrados em bens materiais. A melhor maneira de descobrir o que queremos de verdade é nos livrando daquilo que não queremos.