A Mágica da Arrumação
Organizar é uma forma de autodiálogo
Não me entenda mal: não estou dizendo que você deve jogar todas as suas roupas usadas no lixo. Quando você quer se desfazer de algo, o melhor que pode fazer é doar. Existem muitas pessoas que necessitam desse gesto de solidariedade. O que estou afirmando aqui é bem diferente: você deve eliminar o hábito de empurrar coisas para os seus parentes só porque não consegue se livrar delas. Minha irmã nunca reclamou, porém tenho certeza de que ela não ficava muito feliz quando recebia minhas roupas usadas. Eu simplesmente transferia minha culpa para ela, que se sentia obrigada a aceitá-la. Era uma atitude nada nobre da minha parte.
Se você deseja se desfazer de alguma coisa, não empurre para os outros sem lhes dar a chance de decidir se querem ou não. Procure estar atento ao que gostam e só mostre o que se encaixar no estilo de cada um. Devemos ter consideração pelas pessoas, para que elas não se tornem acumuladoras – algo que você está tentando deixar de ser.
Organizar é uma forma de autodiálogo
“Marie, gostaria de vir comigo até a cachoeira?”
Recebi esse convite inusitado de uma cliente idosa. Aos 74 anos, ela administrava um negócio, era esquiadora, montanhista e praticava meditação sob água corrente havia mais de uma década. Aceitei o convite e fiquei surpresa: o lugar para onde ela me levou não era para iniciantes. Saímos às seis da manhã, subimos uma montanha por uma trilha, escalamos muros, transpusemos um rio com água na altura dos joelhos, até que finalmente chegamos à cachoeira isolada.
Não estou contando isso apenas para falar da peculiar forma de recreação da minha cliente. É que percebi que existe uma semelhança significativa entre a meditação sob a cachoeira e a prática da organização. Quando nos sentamos debaixo de uma cachoeira, o único som audível é o do estrondo da água. À medida que a água bate no corpo, qualquer dor logo desaparece e uma dormência se espalha. Em seguida, um calor nos aquece de dentro para fora e entramos numa espécie de transe. Embora eu nunca tivesse experimentado esse tipo de meditação antes, a sensação foi extremamente familiar, pois era bem parecida com a que tenho quando faço arrumações. Claro que não se trata de um transe, mas às vezes, quando estou organizando minhas coisas, entro numa comunhão silenciosa comigo mesma. O trabalho de avaliar com cuidado cada objeto que possuo para ver se me traz alegria é como ter um autodiálogo por intermédio dos meus pertences.