A Mágica da Arrumação

Marie Kondo · Capítulo 44 de 68

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A Mágica da Arrumação

Arrumação: busque o máximo de simplicidade

Como eu já disse antes, sou obcecada por organização desde criança. Mas só descobri a importância do descarte na adolescência. Antes disso, eu passava os dias analisando o conteúdo de gavetas e armários, e deslocando as coisas alguns centímetros, tentando encontrar a disposição ideal. “O que aconteceria se eu deslocasse esta caixa para cá?”, “E se eu retirasse esta divisória?” Onde quer que eu estivesse, fechava os olhos e imaginava uma nova disposição para um ambiente, como se tudo fosse um quebra-cabeça. Eu tinha a impressão de que a organização era uma espécie de gincana intelectual com o objetivo de ver quanto eu conseguia fazer caber num espaço por meio de uma arrumação racional. Se houvesse um vão entre dois móveis, eu encaixava ali um monte de objetos e ficava exultante quando o espaço era preenchido. Em algum momento dessa trajetória passei a ver meus pertences, e até minha casa, como adversários que precisavam ser derrotados, e eu vivia em permanente estado de competição.

 

Arrumação: busque o máximo de simplicidade

Quando comecei a trabalhar nesta área, acreditava que deveria apresentar soluções de organização miraculosas para demonstrar minha habilidade – soluções inteligentes, daquelas que vemos em revistas, como um conjunto de prateleiras que se encaixam perfeitamente num espaço minúsculo que ninguém mais pensaria em aproveitar. Eu achava que essa era a única forma de satisfazer meus clientes, mas, no fim das contas, descobri que essas ideias inteligentes quase nunca são viáveis.

A título de exemplo, certa vez, quando ajudava uma cliente a organizar a casa, encontrei um suporte giratório que não estava sendo utilizado. Assim que o vi, tive a brilhante ideia de transformá-lo num organizador. Tive dificuldade para decidir como aproveitá-lo, pois era grande e volumoso, e foi então que a cliente mencionou que possuía muitos potes de molhos de salada e não conseguia mantê-los em ordem. Ela me mostrou um armário repleto deles. Peguei todos eles e posicionei-os no suporte giratório – e voilà! Eles couberam perfeitamente, e eu tinha uma unidade de organização com um visual bonito e sofisticado como o das lojas. Para alcançar um dos frascos de molho da parte de trás era só girar o suporte. Muito prático! Minha cliente adorou e tudo parecia perfeito.

Mas não demorou muito para que eu percebesse meu equívoco. Na aula seguinte, fui verificar a cozinha. De modo geral, estava arrumada, mas, quando abri o armário onde ficavam os molhos de salada, ele estava uma bagunça. Quando indaguei o motivo, ela explicou que toda vez que girava o suporte os frascos tombavam. Além disso, como eram muitos, ela apoiava alguns na beirada, impedindo que o suporte girasse.

A conclusão é que eu fiquei tão preocupada em aproveitar o suporte giratório na organização que não parei para pensar no tipo de coisa que estava guardando – frascos que escorregam e tombam com facilidade. Quando refleti melhor, me dei conta de que ninguém precisa acessar com frequência o que está guardado na parte de trás do armário, portanto não havia necessidade de usar um suporte giratório. Além disso, formas circulares ocupam muito espaço e geram desperdício da área de arrumação, portanto não são bons acessórios para a organização. Depois de ter chegado a essa conclusão, retirei o suporte e posicionei os frascos numa caixa quadrada que, embora simples e convencional, era bem mais prática. Após esta experiência percebi que quanto mais simples o método de organização, melhor. É inútil bolar estratégias complicadas.

A maioria das pessoas tem consciência de que a origem da bagunça é o excesso. Mas por que temos mais do que precisamos? Em geral é porque não sabemos exatamente quantas coisas possuímos, e isso acontece porque nossos métodos de organização são complexos demais – ou inexistentes. A habilidade de evitar o excesso depende da habilidade de simplificar a organização. O segredo de um ambiente organizado é buscar a simplicidade máxima na organização, de tal modo que baste uma olhadela para que a pessoa consiga ver o que tem. Há uma razão para que eu diga “simplicidade máxima”. É impossível se lembrar da existência de todos os objetos que possuímos, por mais que simplifiquemos os métodos de organização. Em minha casa, onde trabalhei arduamente para otimizar a organização, às vezes encontro um objeto dentro de um armário ou de uma gaveta do qual havia me esquecido completamente. Se minha organização fosse mais complexa e setorizada, tenho certeza de que muitos outros itens estariam relegados ao esquecimento e mofando na escuridão.