A Mágica da Arrumação
Os maiores acumuladores que já vi
Outro item tão difícil de descartar quanto as fotos são as recordações dos filhos. Um presente de Dia dos Pais feito na escola, um desenho do seu filho que foi escolhido pelo professor como o melhor da turma, um enfeite que sua filha criou. Se essas coisas ainda lhe dão alegria, então pode mantê-las. No entanto, se seus filhos cresceram e você está guardando essas lembranças com receio de magoá-los se jogá-las fora, converse com eles a respeito. É bem provável que respondam: “O quê? Você ainda guarda isso?”
E o que dizer das lembranças da própria infância? Você ainda tem os boletins da escola e os diplomas de cursos? Quando vi na casa de um cliente o uniforme escolar de 40 anos antes, até eu senti um aperto no coração – mas, ainda assim, sabia que aquilo precisava ser descartado. Desfaça-se de todas as cartas que recebeu de ex-namorados(as). A finalidade de uma carta se cumpre no momento em que é lida. Hoje, a pessoa que a redigiu já se esqueceu há muito tempo do que escreveu, se é que se lembra de tê-la escrito. Quanto a todas as outras coisas desse tipo que ganhou de presente, fique somente com aquelas que lhe dão alegria. Se você guarda cartas de um antigo amor porque não consegue esquecê-lo, mais um motivo para jogá-las no lixo. Apegar-se a elas pode fazer você perder oportunidades de novos relacionamentos.
Não devemos celebrar as lembranças, mas sim a pessoa que nos tornamos por causa das experiências que tivemos. Esta é a lição que os objetos de valor emocional nos ensinam quando os organizamos. O espaço em que vivemos deve se adequar à pessoa que somos agora, e não àquela que fomos um dia.
Os maiores acumuladores que já vi
Quando vou à casa dos meus clientes para ajudá-los no processo de organização, frequentemente tenho duas surpresas: encontro objetos bastante incomuns ou coisas comuns em quantidades impressionantes. Quanto aos itens atípicos, encontro em todos os espaços. Pode ser um microfone que foi usado por certo cantor, um utensílio de cozinha estranho, etc. De certa forma, isso é até natural, visto que meus clientes têm interesses e profissões extremamente variados.
Mas o que sempre me deixa chocada é o acúmulo excessivo de objetos usuais. Algumas pessoas exageram feio, e novos recordes surgem o tempo todo. Certa vez encontrei uma enorme coleção de escovas de dente. O recorde até então tinha sido de 35 escovas, e isso já me parecia muito. Então conheci esse cliente, que tinha uma impressionante coleção de 60 escovas! Dispostas em caixas no armário sob a pia, pareciam uma pequena obra de arte. É interessante como a mente humana tenta extrair significado até mesmo daquilo que não faz nenhum sentido. Fiquei um tempo pensando qual seria o objetivo daquilo.
Outra surpresa foi encontrar um estoque de 30 caixas de filme plástico. Abri um armário sobre a pia da cozinha e estava lotado de caixas que pareciam grandes peças de brinquedos de montar. “Uso filme plástico para embalar coisas todos os dias, então acaba rápido”, a cliente justificou. Bem, mesmo que ela usasse uma caixa por semana, aquele estoque duraria mais de meio ano. Um rolo de tamanho padrão costuma ter 20 metros, portanto, para gastar um rolo por semana, é preciso cobrir um prato de 20 centímetros de diâmetro 66 vezes, mesmo sendo generoso na quantidade usada. Fico com LER só de imaginar a repetição do gesto de puxar e cortar um filme plástico tantas vezes.
O recorde de papel higiênico até o momento é de 80 rolos. “Tenho o intestino solto, acaba bem rápido” foi a desculpa dada pela cliente. Ainda que usasse um rolo por dia, ela teria um estoque para quase três meses. Não sei se ela conseguiria gastar um rolo por dia, mas achei melhor nem pensar nas implicações disso.
O mais impressionante, contudo, foi o acúmulo de 20 mil cotonetes, distribuídos em 100 caixas de 200 unidades. Se a cliente usasse um cotonete por dia, levaria quase 55 anos para acabar com o estoque. Ao terminar, teria desenvolvido técnicas incríveis para limpar o ouvido.
Pode ser difícil acreditar nesse relato, mas não estou brincando. O estranho é que nenhuma dessas pessoas tinha noção da quantidade de coisas que guardava até começar a organizar a casa. E mesmo tendo estoques tão imensos, elas continuavam com a sensação de que não tinham o suficiente e ficavam ansiosas com a possibilidade da falta. Não existe quantidade suficiente para deixar um acumulador seguro, pois quanto mais esse tipo de pessoa tem, mais teme ficar sem aquilo e mais ansioso se sente. Ainda que tenham dois itens de um produto em casa, saem para comprar mais cinco.