Arrebatadas
Capítulo Quinze
Riley recebeu um SMS de Bill, quando saía do abrigo de emergência onde deixara Jilly. Só dizia que tinha detido Calvin Rabbe. Riley apressou-se de regresso ao edifício do FBI de Phoenix.
Encontrou Bill no exterior da sala de interrogatório.
"O que é que aconteceu?" Perguntou Riley sem fôlego. "Por que é que o detiveste? Nem sequer temos um mandado.”
“Posse de cocaína,” Disse Bill. "Tive sorte, muita sorte. Ainda bem que chegaste. Estava mesmo a preparar-me para falar com ele. Entra e dá-me uma ajuda.”.
Riley seguiu Bill para a sala de interrogatório. Calvin Rabbe estava ali sentado, algemado, a gozar com a situação como se fosse um aluno mal-comportado que fora enviado ao gabinete do diretor.
“Alguém me vai dizer de que se trata?” Perguntou Rabbe. "Eu não sou um idiota. Eu sei que não é por causa da coca. O motivo tem que ser outro.”
Riley e Bill sentaram-se na mesa à sua frente. Riley olhou para ele calmamente, tentando decidir como lidar com ele. Não se poderia acusá-lo imediatamente de matar Nancy Holbrook. Ele arranjaria forma de se safar e escorregaria por entre os seus dedos. Uma abordagem menos direta parecia a forma mais eficaz de conduzir o interrogatório.
Riley disse, “Sabemos que é um cliente ocasional da Ishtar Escorts.”
“Quem lhe disse isso?” Perguntou Rabbe. “Isso não é verdade.”
“O seu nome foi-nos dados pela própria Ishtar,” Declarou Bill.
Rabbe parecia surprendido, mas não chocado, nem mesmo especialmente aborrecido.
“Bem, essa velha puta,” Disse Rabbe. “Que mundo é este em que vivemos? Se não podemos confiar em putas, em quem podemos confiar?”
Riley debruçou-se sobre a mesa na sua direção.
“Então gosta de prostitutas, Calvin?” Atirou.
Rabbe encolheu os ombros. “Com as mulheres que por aí andam, as putas acabam por ser melhores do que a maioria.”
“Então tem um problema com mulheres?” Perguntou Riley.
“Não me povoque,” Rosnou Rabbe, desviando o olhar.
Pus o dedo na ferida, Compreendeu Riley que começava a sentir que o interrogatório ia no caminho certo.
“Fale-nos um pouco sobre a Nanette,” Continuou Riley.
“Quem é a Nanette?”
“Oh, vá lá,” Disse Riley. “Sabe muito bem de quem é que estou a falar. Uma das meninas da Ishtar. Encontrou-se com a Nanette no último sábado à noite.”
Rabbe deixou escapar um esgar de desdém. “Eu não me encontrei com ela,” Disse. “É claro que tinha encontro marcado com ela. Mas ela não apareceu e estragou a minha noite. Era suposto acompanhar-me a um evento de caridade patrocinado pela minha mãe. Apareceu nas notícias. Talvez já tenham ouvido falar na Fundação Judith Rabbe.”
Ele proferiu as palavras com uma repugnância palpável. Riley estava a ficar intrigada.
“Não, não posso dizer que tenha ouvido falar,” Disse Riley.
Rabbe revirou os olhos.
“Oh, a minha mãe tem essa mania de educar meninas em todos os países com nomes impronunciáveis. Tenta corrigir um problema que nem sequer é um problema. Eles têm a ideia certa sobre as mulheres nesses lugares. Nada parecido com a cultura invertida que aqui temos.”
Riley podia ver Rabbe com mais clareza agora.
Um porco misógino, Pensou. Exatamente o tipo de homem que procuramos.
Bill fez a próxima pergunta. “Como é que a sua mãe encara o facto de levar acompanhantes aos seus eventos elegantes?”
Pareceu a Riley uma excelente pergunta. Lembrou-se da roupa menos respeitável que Nancy Holbrook usava quando o seu corpo foi encontrado. E depois enquadrou isso no tipo de evento de caridade de luxo que a mãe de Rabbe havia certamente patrocinado.
Um sorriso amplo e satisfeito formou-se no rosto de Rabbe.
“Podem ter a certeza de que não gosta,” Indicou. “E só lhe fica bem. Mas a Nanette deixou-me apeado naquela noite. Sem tempo para a substituir. Eu fiquei lá sozinho naquela casa repleta de harpias estridentes que não paravam de falar sobre a opressão e a hegemonia patriarcal e esse tipo de coisas. Um horror.”
A sua expressão alterou-se. Parecia ter-lhe ocorrido alguma coisa.
“Esperem lá,” Disse. “É sobre o vício de heroína da Nanette? Foi por isso que me trouxeram para aqui? Eu não tinha nada a ver com isso.”
Era mentira e Riley imediatamente o percebeu.
“Mas não se importava que ela estivesse pedrada, não é?” Atirou Riley.
Rabbe deu uma risadinha.
“Eu gosto delas dóceis, se é que me faço entender,” Disse. “Mais como a natureza pretendia que elas fossem. Devia ler um pouco de psicologia evolucionária, querida. As mulheres não estão destinadas a fazer um trabalho como o seu, a viver o tipo de vida que vive. A natureza concebeu-vos para ficarem na caverna enquanto os homens saíam para caçar. Deviam ter filhos e cuidar bem deles.”
Ele olhou-a fixamente nos olhos.
“Só se estão a tornar infelizes,” Disse-lhe Rabbe. “A combater o seu próprio código genético, quero dizer. E eu sinto pena do seu namorado ou marido - a não ser que seja lésbica, o que faria sentido.”
Riley sabia que ele estava a tentar enervá-la. Mas a estratégia não ia resultar. Ia precisar de muito mais do que um antifeminismo pseudocientífico para despoletar a sua reação, especialmente depois da cruel realidade que acabara de testemunhar no Hank’s Derby.
Rabbe disse, “Consigo farejá-la a milhas. Conheço o seu tipo bem demais. E aposto tudo o que quiser que é péssima na cama.”
Chegara a vez de Riley sorrir. “Isso vindo de um homem que só consegue ir para a cama com alguém se pagar,” Respondeu Riley.
O comentário parecia não ter tido qualquer impacto nele.
“Oh, eu consigo comapnhia,” Disse. “Eu posso conseguir todas as mulheres que quiser, à hora que quiser. É uma arte e uma ciência, e eu sou um mestre. Eu poderia tê-la a si se quisesse. Eu poderia fazê-la implorar se me esforçasse.”
Riley quase riu perante a ideia de Rabbe tentar esta estratégia de engate com ela. Ainda assim, detetou que ele estava quase a dizer a verdade. Era esperto e amoralmente enganador, e sabia exatamente o que estava a fazer. Ela sentiu que ele poderia abandonar essa maneira vulgar de odiar as mulheres e adotar uma personalidade muito mais galante e atraente. Podia apresentar-se como atencioso, delicado e sensível perante uma mulher. Ele poderia conseguir o que queria com muitas mulheres antes de se aperceberem do seu erro.
Mas elas vivem sempre para se arrependerem, Pensou.
Ou talvez algumas não tivessem vidido para se arrepender.
E este crápula não tinha remorsos. De nada do que fazia. E de nada do que dissesse. Ela sentia o seu nojo inato por este tipo de homem a revirar-lhe as entranhas. “Então, por que recorre a prostitutas?” Perguntou Bill.
Rabbe olhou para Bill. “Acredite em mim, amigo, as putas são o melhor. Ou talvez já saiba isso. Elas são honestas. Não temos que pechinchar o ‘consentimento.’ Hoje em dia é tudo ‘posso’ isto e ‘posso’ aquilo. Um homem pode ir para a prisão apenas por ter relações sexuais com a sua própria mulher.”
“Sexo não consensual,"”Disse Bill.
“No casamento não existe tal coisa.”
Rabbe fez questão de o dizer diretamente a Riley. Mas ela não teve qualquer dificuldade em manter-se calma. Sentiu que agora era um bom momento para chegar ao cerne da questão.
“Esteve de alguma forma relacionado com a morte da Nanette?” Perguntou Riley.
Riley tentou perscrutar algum tipo de reação. O rosto de Rabbe não mostrou qualquer mudança de expressão.
“Ela está morta?” Perguntou suavemente.
“Foi morta na noite de sábado,” Disse Riley.
Bill acrescentou, “Na noite em que tinha um encontro com ela.”
Agora Rabbe parecia realmente entediado.
“Bem, lamento muito o que aconteceu,” Disse, fingindo abafar um bocejo. “Então é disso que se trata. Vocês julgam que fui eu. Bem, eu tenho um álibi. Eu estava no evento de caridade da minha mãe. Até podem encontrar fotos minhas lá na Internet.”
Recostou-se na sua cadeira.
“OK, agora acabou a brincadeira,” Disse Rabbe. “Quero fazer o meu telefonema. Quero o meu advogado.”
Riley não tinha a certeza se fora do bocejo artificial ou do comentário sobre brincadeira, mas já não ouvia nada. Saltou para a mesa e agarrou Rabbe pelo colarinho da sua camisa cara.
“Muito bem!” Gritou Riley. “Acabou a brincadeira.”
O grito que ele emitiu quando Riley o atirou ao chão fora profundamente satisfatório. Ela atirou-se a ele e ele tentou fugir recuando para trás no chão, movendo-se com espantosa destreza para alguém que se encontrava algemado. Dois agentes mais jovens correram para a sala, agarrando os braços de Riley de ambos os lados, mas ela ainda estava a mover-se na direção de Rabbe. Começou por tentar afastá-los, mas não resistiu a Bill quando ele a abraçou por trás, segurando-lhe nos braços.
“Chega,” Disse Bill. “Vais ser suspensa outra vez,” Disse Bill com severidade.
“Outra vez?” Perguntou um dos agentes mais jovens.
“Tudo bem,” Disse Riley. "Tudo bem." A sua fúria diminuíra agora. Descontraiu o corpo e Bill soltou-a.
Naquele momento, Rabbe gritava que queria o seu advogado e lançava ameaças de processos judiciais. Riley olhou para ele e ele ficou quieto.
Ele era um suspeito raro, percebeu Riley - do tipo que ela não conseguia decifrar. Riley virou-se para Bill.
“Vamos falar lá fora,” Disse friamente.
Ela e Bill saíram da sala de interrogatório.
“Acho que o devíamos deixar ir embora,” Afirmou Riley.
Bill parecia chocado e surpreendido.
“Pensas que não é quem procuramos?” Perguntou Bill.
“Não sei.”
“Então não o devíamos interrogar mais?”
Riley soltou um suspiro desanimado. “Podemos confirmar o seu álibi. Mas neste momento tudo o que temos é uma acusação de droga. Apenas posse de uma pequena quantidade. E com o tipo de advogado que ele pode pagar, nós não estaremos à altura. Sai daqui em dois tempos. Se o deixarmos ir agora, podemos colocar alguns agentes a segui-lo. Talvez o consigamos apanhar em falso.”
Bill abanou a cabeça.
“Não gosto nada disto,” Disse. “Mas fazemos como dizes. Talvez isso o impeça de apresentar queixa contra ti.”
Riley viu pela janela Bill a tirar as algemas a Rabbe e a dizer-lhe que se podia ir embora. Rabbe olhou na direção da janela. Ele sabia obviamente que Riley o estava a observar. Rabbe sorriu de forma afetada e baixou os olhos, saindo apressado da sala.
Riley não estava habituada a duvidar de si. E agora lembrava-se de que o chefe da equipa de mergulho lhe havia dito que não havia um segundo corpo no lago. Ela ainda não tinha tido a oportunidade de contar aquilo a Bill, mas fora algo que abalara a sua confiança. Enquanto esperava que Bill acabasse de acompanhar Rabbe para fora do edifício, sentiu a sua mente encher-se de perguntas. Poderia ela realmente ter a certeza de que os mergulhadores estavam errados? Seria possível que este afinal não fosse um caso de assassino em série?
Ela estava acostumada a seguir o seu instinto, mas agora o seu instinto transmitia-lhe sinais contraditórios. Talvez todo o trauma dos últimos meses - ser mantida em cativeiro e tendo que resgatar April do cativeiro - tivesse embotado os seus instintos. Talvez ela já não estivesse à altura deste tipo de trabalho. Ainda assim, havia uma coisa que ela queria fazer, mesmo que este fosse o último trabalho que executasse como agente de campo. Queria apanhar o assassino de Nancy Holbrook. Mas estaria certa em suspeitar de Rabbe?
Ou será que ela queria que ele fosse culpado?