Arrebatadas
Capítulo Trinta
A chuva caía forte, enquanto Riley subia em direção às Montanhas Apalaches. As estradas de terra estavam atoladas de lama e a condução era difícil. O clima desagradável espelhava os seus sentimentos. As suas raras visitas ao pai nunca haviam sido agradáveis.
Ainda assim, ela sabia que aquela visita era necessária. Ela penetrava em algo mais do que apenas um deserto montanhoso. Ela penetrava nas profundidades da sua dúvida. Era uma parte da sua alma que ela precisava olhar sem hesitar. Caso contrário, nunca se poderia livrar da sua indecisão e incerteza.
Além disso, considerou a chuva estranhamente refrescante. Era certamente uma mudança após a secura do ar quente do Arizona. E a floresta circundante era exuberante e verde. A primeira geada ainda não se tinha abatido sobre as folhas.
A chuva não mostrava nenhum sinal de querer abrandar ao aproximar-se da pequena cabana. O pai tinha comprado aquele lugar e alguma área circundante quando se aposentara dos fuzileiros navais. De um modo geral, os visitantes não eram bem-vindos ali. Ele nem sequer tinha um telefone ou um computador para se comunicar com o mundo exterior, embora às vezes soubesse das notícias nas suas visitas ocasionais à cidade vizinha.
Ela abriu um guarda-chuva e correu para a porta. Ela bateu - não que esperasse que alguém respondesse ou a recebesse lá dentro. O pai não era assim. Mas ela ouviu alguém tossir dentro da cabana.
Abriu a porta e entrou. O único quarto estava quente e seco, aquecido por um fogão a lenha. Cinzento e curvado, o pai estava sentado num banquinho, a esfolar um esquilo morto. Várias carcaças de esquilos estavam amontoadas a seu lado.
“Olá, paizinho,” Cumprimentou Riley.
Ele não ergueu o olhar e ela não esperava que ele o fizesse. Ele tinha acabado de fazer os cortes iniciais e estava a puxar a pele para fora da carcaça. Desde que ela tinha caçado com ele quando menina que admirava a forma como ele fazia aquilo. Executava-o de forma tão suave e graciosa como se estivesse a ajudar uma senhora a despir um casaco num jantar romântico.
Ele tossiu alto por um momento. Riley detetou um som estranho naquele tossicar. Ela não se lembrava nunca de o ter visto doente.
Quando conseguiu controlar a tosse, disse, “Voltaste num instante.”
Riley entendeu o que ele queria dizer. Tinham decorrido alguns meses desde a última vez que o visitara, em julho. Antes disso, mais de dois anos se haviam passado sem que ela tentasse entrar em contacto com ele. E, claro, nunca nenhuma tentativa de contacto viera dele.
Riley sentou-se, o mais confortavelmente possível numa cadeira de vime desconfortável. O pai tossiu novamente. Ele parecia mais pálido do que da última vez que o vira - talvez um pouco mais magro também. O cabelo estava apenas um pouco mais longo do que o habitual.
“Estás doente, paizinho?” Perguntou.
Ele riu, sombrio. “Bem que gostarias, não é? Nada te faria mais feliz do que me ver impotente e doente e às portas da morte. Não estás com sorte, miúda. Não desta vez.”
Riley sentiu o maxilar e o corpo contrairem-se. Aquela visita estava a correr mal, ainda mais rapidamente do que a última.
“Então, no que é que estás a trabalhar agora?” Perguntou o homem.
“O de sempre,” Disse Riley, de forma fria e desapegada, à semelhança das palavras articuladas pelo pai. “Um assassino em série no Arizona. Assassina prostitutas.”
“Com que então Arizona?”
Ele cortou o esquilo pelo abdómen e começou a retirar as entranhas.
“Filho da mãe esquelético,” Resmungou ele.
O cheiro das tripas de esquilo flutuava pelo compartimento na direção de Riley. Ela lembrava-se bem. Não era agradável, mas não era tão mau quanto o odor de um cadáver humano em decomposição.
“Estás muito longe do Arizona,” Disse ele. “O que é que estás a fazer aqui?”
Riley não respondeu. Mais uma vez sentiu os seus músculos contrair-se.
“Não me digas,” Disse ele a rir e tossir em simultâneo. “Não sabes o que fazer. Tens dúvidas se foste talhada para esse tipo de trabalho. Sim, eu também me senti assim de vez em quando no Vietname. Mas nunca fugi. Nem é hipótese desertar quando estás nos Marines. Talvez o Bureau seja um pouco mais indulgente. Mime-vos demais.”
Riley preparou-se emocionalmente. Era hora de abrir-se a um homem que não fazia nenhuma ideia do isso fosse.
“Muita coisa aconteceu desde a última vez que estive aqui,” Disse ela. “A April foi capturado pelo último assassino que eu apanhei. Ela quase morreu.”
“April?” Perguntou com um grunhido.
“A minha filha. Tua neta.”
Ele tossiu um pouco mais. “Oh sim. Como é que ela lidou com isso? Será que se transformou numa bola tremente de medo indefeso?”
Riley sentiu-se satisfeita pela resposta que ia dar.
“Não. Ela ajudou-me a matá-lo.”
O pai atirou o esquilo esfolado e estripado para uma pilha e começou a trabalhar noutra carcaça.
“Linda menina,” Disse. “Devias trazê-la cá um destes dias. Gostava de a conhecer.”
Nunca na vida, Pensou Riley.
O pai continuou a falar.
“Então agora sentes-te culpada. Achas que talvez estejas a fazer o trabalho errado. Queres ser uma boa mãe e criar uma boa menina. Merda. Sabes o que eu penso sobre tudo isso.”
“Há monstros a andar por aí, paizinho,” Disse Riley. “Eu levei-a para um mundo de monstros.”
Ele começou a rir, mas o riso degenerou num ataque de tosse.
“Que monte de merda. Achas que estás a enfrentar um monstro no Arizona? Um homem que mata prostitutas? Achas que estás a lidar com um monstro. Raios, tu nem estás a lidar com o mal. Tu estás a lidar com o que as pessoas chamam de normal. Este teu assassino - quando ele não está a matar, ele é um bom homem, um pilar da comunidade, um bom marido, um bom pai. O oposto de mim e o oposto de ti.”
Riley sabia, pelo perfil que ela mesma montara, que ele não estava completamente errado. Mas isso não respondia a nada.
“Se ele é tão bom, por que é que continua a matar mulheres?” Perguntou Riley.
O pai parou de cortar o esquilo. A pergunta parecia interessá-lo. Ele olhou Riley diretamente nos olhos.
“Por que é que tu continuas a matar homens?” Perguntou.
Riley sentiu que tinha sido mergulhada num lago gelado. Era uma boa pergunta. Era uma pergunta importante. Era exatamente a pergunta que ela esperava ali ver respondida.
“Tu és ums caçadora,” Disse o pai, ainda sustendo o seu olhar. “O que as pessoas chamam de normal – matava-te tentares viver essa vida por muito tempo. A verdade é que mata toda a gente, toda essa maldita normalidade. Não é natural, é contra a natureza humana. Enlouquece as pessoas de tédio. Faz com que matem sem motivo algum. Agora, tu e eu, nós temos as nossas razões para matar. Somos bons animais dessa maneira. Nós sabemos quem somos. Esses assassinos que caçam e matam - eles simplesmente não têm a perspetiva apropriada. Eles não se conhecem. Eles descontrolam-se.”
Ele continuou a olhar para ela.
“Lembra-me um ditado. ‘Num mundo louco, só os loucos são sãos.’ Não me lembro quem disse isto. Mas é verdade e isso é o que nós somos. Pessoas loucas num mundo louco cheio de pessoas que não têm razão para ser sãs. Somos os únicos que sabem o que realmente está a acontecer.”
Ele baixou os olhos, falando quase num sussurro.
“Tu vais regressar ao trabalho. Vais apanhar o próximo avião que conseguires. Eu sei que sim. Não tens escolha. Eu nunca te dei escolha. Eu criei-te como deve ser, para seres uma caçadora. Gostava de ter feito o mesmo com a tua irmã, mas já é tarde demais para emendar isso.”
Riley sentiu como se tivesse recebido um choque elétrico. Não conseguia lembrar-se da última vez que ele mencionara Wendy. Parecia estranho, porque Riley andava a pensar muito nela ultimamente.
“Talvez eu não a tenha tratado devidamente,” Disse ele.
“Tu batias-lhe,” Disse Riley.
O pai grunhiu e assentiu lentamente. “É o que eu quero dizer. Eu só lhe bati com as minhas mãos. Magoei-a fisicamente e foi tudo. Não a atingiu o suficiente. Eu sabia o que fazer. Eu nunca te bati. Eu marquei-te de forma muito mais profunda. E tu aprendeste. Aprendeste.”
Agora o pai tossia muito. Riley percebeu que ele estava muito doente. Mas não fazia sentido falar com ele sobre isso.
Quando a sua tosse abrandou, disse, “Eu convidava-te para um ensopado de esquilo. Mas não aceitavas ficar com um velho filho da mãe como eu. Estás pronta para desandar daqui.”
Ele estava absolutamente certo, mas Riley não o disse.
Em vez disso, declarou, “Eu não te odeio, paizinho.”
“Ou estás a mentir ou és demente,” Disse ele.
Riley ficou irritada com aquela reação.
“Que raio quer isso dizer?”
“Significa exatamente o que eu disse. Se não me odeias, não fiz o meu trabalho como deve ser.”
Ele tossiu um pouco mais. Parecia realmente muito doente. Riley queria ter pena dele. Mas não se ia permitir. Ele deixara-a furiosa.
Sarcasticamente, disse, “Bem, já que estamos no assunto do 'trabalho' que fizeste, talvez eu te deva agradecer. Aprendi muito com o teu exemplo. Eu aprendi tudo o que havia para aprender sobre como não ser pai.”
“Estúpida,” Disse ele. "Provavelmente estás a criar aquela tua filha para te amar. Ela crescerá fraca. E tu vais viver para te arrependeres.”
“O que é que sabes sobre arrependimento?” Estalou Riley.
“Não muito. E tenho orgulho disso. Devias era estar agradecida, sua rameira chorona.”
Riley já suportara o suficiente. Ela tolerou esse tipo de abuso durante toda a vida. Ela nunca tinha lutado. Tudo o que tinha feito fora afastar-se. E o tempo de se afastar chegara ao fim.
Ela estava à frente dele, demasiado perto para o gosto de qualquer um deles.
“Tens espelhos por aqui, paizinho? Aposto que não. Não ias gostar do que visses.”
“E o que é que seria?”
“Um cobarde. Um pequeno homem doente, assustado, que nunca teve a coragem de amar. Um homem que intimidava crianças pequenas em vez de homens do seu próprio tamanho.”
Os seus olhos reviraram-se de fúria. Ergueu a mão aberta e balançou-a na direção do rosto de Riley. Ela habilmente desviou o golpe com o pulso.
“Vá, tenta bater-me,” Disse ela em tom de desafio. “Já não podes. Sou mais forte do que tu agora, paizinho. Não me podes voltar a tocar.”
Com um rugido de raiva, ele levantou-se e tentou atingi-la no rosto. Riley estendeu a mão e pegou o seu punho com a mão dela. Ela deu um passo na direção dele.
“Tenta isso de novo e eu juro por Deus que te mato.”
Agora a sua boca curvava-se num sorriso malicioso. Riley sentiu-se trespassada por um frio indefenível. Ele estava a adorar aquilo. Ele vivia para o seu ódio. Era tudo o que tinha de seu.
Mas ela recusou-se a tornar-se como ele. Ela não iria desperdiçar o seu ódio nele.
Ela soltou o aperto no seu punho e empurrou-o. Olhou-o diretamente nos olhos.
E disse novamente, “Eu não te odeio, paizinho. Eu recuso-me a odiar-te, não importa o quanto queiras.”
Ele parecia ferido agora. Ele não parecia ferido quando o dissera anteriormente. O que mudara?
Desta vez ele acredita em mim, Pensou.
Afinal, era a coisa mais dolorosa que ela lhe poderia dizer. Ela tinha-lhe tirado o seu bem mais precioso no mundo.
Riley virou-se e afastou-se. Assim que ela abriu a porta para sair, ouviu-o gritar mais uma coisa.
“Nunca confies num homem cujos filhos não o odeiam.”
Era algo cínico, mesmo que dito pelo pai. Mas ela não responderia. Saiu e fechou a porta atrás de si. Não se deu ao trabalho de abrir o guarda-chuva. A chuva sabia bem. Ela limitou-se a ficar ali e deixar-se encharcar por ela.
A visita fora azeda, exatamente como ela esperava. Ainda assim, tinha servido o seu propósito. Lembrou-se do que Mike Nevins lhe dissera.
“Não me parece que consigas ultrapassar isto sem algum tipo de catarse emocional.”
O pai tinha-lhe proporcionado essa catarse. E agora até tinha chuva para completar a limpeza.
Sem dúvida, o pai estava doente. Mas se ele não procurava ajuda ou sequer admitia que estava doente, não havia nada que Riley ou qualquer outra pessoa pudesse fazer. Ela não tinha que vê-lo nunca mais. E com certeza que não planeava fazê-lo.
Agora sentia-se ela própria. E pela primeira vez desde que começara a trabalhar naquele caso, sentiu a presença palpável do assassino. E ele não era nem um pouco como ela.
Ele teve uma vida bem-sucedida, Percebeu.
Ao contrário dela, o assassino tinha feito tudo o era suposto fazer e ele nunca sentira qualquer problema quanto a isso. No que lhe dizia respeito, matar putas era apenas uma maneira de desabafar, como jogar golfe ou bridge. Não havia nada de errado naquilo. Não havia nada de errado com ele.
Riley compreendia tudo agora. Ele era um assassino, nada mais. Mas Riley era uma caçadora. Ela sabia o que estava a fazer na vida, ele não. Ele era a sua presa desavisada. E ela ia apanhá-lo.
Entrou no carro e começou a conduzir. Enquanto conduzia pela montanha inundada de chuva, lembrou-se de algo mais que Mike Nevins lhe dissera...
“Não há sempre uma única coisa certa a fazer.”
Ela sorriu. Agora estava em paz.