Arrebatadas
Capítulo Vinte e Oito
Ver a terra lá em baixo era torturante para Riley. O avião parecia estar a mover-se muito lentamente. Mas ela sabia que a lentidão era apenas uma ilusão. Mas também sabia que muito poderia acontecer durante as quatro horas e meia em que estaria no ar.
Coisas terríveis, Pensou. E novamente, lembrou-se do corpo pendurado de Marie.
Mas afastou essa horrível imagem da sua cabeça. Não, nada disso ia acontecer desta vez. Mike tinha entretanto ligado e dissera-lhe que descobrira onde estava April e que já ia a caminho. E antes da decolagem, Riley conseguira falar com a filha, que ainda parecia aterrorizada, mas prometeu-lhe que ficaria bem.
Riley também estava ansiosa devido a outras coisas. Ela lembrava-se da fúria de Morley e do que lhe havia dito há pouco.
“Tiro-a do caso. Pode nunca mais trabalhar para o Bureau.”
Seria verdade? A sua carreira como agente do FBI chegara ao fim? Naquele momento, não estava inteiramente certa de que se importasse. Aquela fora a primeira vez que sobrepusera a sua condição de mãe ao trabalho.
Talvez, pensou, já fosse hora de fazer isso. Talvez essa decisão já devesse ter sido tomada. Ainda assim, ela entendia perfeitamente o ponto de vista de Morley. A sua decisão tinha sido pouco profissional. Ela havia deixado um trabalho importante inacabado. Era como Morley tinha dito...
“Há um assassino à solta e ele vai matar de novo em breve, se não o tiver feito já.”
À medida que o avião ganhava altitude, esse sentido de movimento distorcido tornava-se ainda mais bizarro. Na sua mente, ela ainda estava rastejando em direção à sua filha. Ao mesmo tempo, ela sabia que se estava afastar de uma outra responsabilidade a uma velocidade impensável. Não sabia qual das sensações era pior.
*
Quando chegou ao Aeroporto Nacional Reagan naquela noite, Riley rapidamente alugou um carro e conduziu pelo trânsito denso para o escritório de Mike Nevins. Demorou pelo menos uma hora a chegar lá. Quando encontrou Mike Nevins sentado numa cadeira fora do seu consultório, sentiu uma pontada de preocupação. Onde estava April?
Mas o sorriso de Mike enquanto se levantava para cumprimentá-la era profundamente reconfortante.
“Ela está aqui, Riley,” Disse ele. “Não te preocupes.”
Ele abriu a porta do escritório, e ele e Riley entraram. Então ela viu April sentada numa cadeira, a conversar com uma jovem que parecia cuidadosa e simpática.
April pôs-se de pé de um salto e atirou-se para os braços da mãe, soluçando.
“Oh, mãe, eu sinto muito,” Disse.
Riley mal conseguia segurá-la direita. A pobre menina sentia-se absolutamente incapacitada e exausta da sua provação.
“De que é que estás a falar?” Disse Riley, acariciando-lhe o cabelo. “Não é culpa tua. Nada é culpa tua.”
“Eu sei que ele está morto. Não sei o que se passou comigo.”
“Está tudo bem,” Tranquilizou-a Riley.
Quando Riley finalmente largou April, a mulher jovem levantou-se para lhe apertar a mão.
Mike explicou, “Riley, esta é Rose Shepard - uma residente. Rose, esta é a mãe de April, Riley.”
“A sua filha vai ficar bem,” Disse Rose.
“Obrigada,” Agradeceu Riley.
“Rose e April estão a fazer um ótimo trabalho juntas,” Disse Mike. “Vamos conversar os dois.”
Mike pegou gentilmente Riley pelo braço e escoltou-a para fora do gabinete. Sentaram-se juntos em duas cadeiras no corredor.
“A April está em boas mãos com a Rose,” Disse Mike. “Ela é jovem, inteligente e empática. Eu estou demasiado habituado a lidar com psicopatas para ajudar numa situação como esta.”
“Como e que ela está?” Perguntou Riley.
Mike acariciou o seu queixo pensativamente.
“Isto já acontece há algum tempo,” Disse ele. “Ela tem reprimido as coisas há demasiado tempo. É bom que comece a libertar essas tensões.”
Riley encolheu-se com a palavra “comece”. Mike queria obviamente dizer que April ainda não tinha afastado os fantasmas que a assombravam.
“Eu devia ter previsto isto,” Disse Riley.
“Culpares-te não vai ajudar, Riley. A April tem que fazer a sua própria cura ao seu próprio ritmo. Não depende de ti. Esta é uma parte necessária do processo.”
Nevins debruçou-se sobre Riley com um olhar preocupado.
“E tu, Riley? Como tens passado?”
Riley encolheu os ombros. “Estou bem.”
“Não, não estás. Consigo perceber pelo teu rosto. Tens que falar comigo.”
Riley queria dizer a Mike que era só a diferença horária que a incomodava. Voar através de fusos horários podia desregular o organismo. Mas ele estava certo, é claro.
“Mike, eu não sei mais o que fazer. Parti a meio de um caso. O chefe do Arizona está furioso. Terei tomado a atitude certa?”
“Só tu o podes saber, Riley.”
Riley suspirou. “Dito como um verdadeiro psiquiatra,” Disse ela.
Mike riu um pouco. “Sim, e tu sabes que é verdade,” Disse ele.
Na verdade, ela sabia que era verdade. E ela sabia que Mike queria que ela falasse sobre isso.
Ela disse, “Eu continuo a ter sempre o mesmo problema. Como é que posso ser agente e mãe? É mesmo possível? Estou errada ao tentar? O Ryan também está zangado comigo. Claro, ele está sempre zangado comigo, mas desta vez quase me pergunto se ele não terá razão. Ele diz que eu deveria ter ficado em casa e ter sido mãe a tempo inteiro. Isso é verdade? Talvez April estivesse melhor com ele.”
Mike zombou um pouco. “Sabes bem que não.”
Riley não disse nada. Mas é claro que Mike estava certo de novo. Sabia bem que April não estava melhor com o pai irresponsável, vagabundo e emocionalmente distante. Ela estava a deixar a sua auto-comiseração levar-lhe a melhor.
“As horas impossíveis são suficientemente más,” Disse ela. “É pior que eu esteja sempre a colocar-me em perigo e que ela possa perder-me um dia destes. Mas eu acabei colocando-a em perigo também e vê o que lhe aconteceu. Tenho tanto medo de que algo assim volte a acontecer.”
Mike franziu a testa, dando às palavras de Riley a sua melhor atenção profissional.
“Pareces pensar que a tua situação é exclusiva,” Disse ele. “Claro, os riscos são mais terríveis para ti do que para a maioria dos pais. Mas tudo se resume ao facto de criar uma criança - não há sempre uma única coisa certa a fazer. A maioria dos pais compreende isso mais cedo ou mais tarde. Mas não tu. Tu continuas a pensar que tens que fazer o impossível. E porquê?”
Os olhos de Riley ardiam repletos de lágrimas. Às vezes magoava o facto de Mike a compreender tão bem. Mas então, era exatamente por isso que ela muitas vezes se voltava para ele para pedir conselho e amizade.
Ele disse, “Eu sei que não é isto que queres ouvir, mas atingiste um ponto de crise. Agora que te estás a libertar do teu SPT, ainda estás cheia de dúvidas. Não me parece que consigas ultrapassar isto sem algum tipo de catarse emocional.”
Um soluço soltou-se da boca de Riley. Ela lutou para se controlar.
“Mike, eu não sei o que fazer a seguir.”
“Não tem mal não saber o que fazer,” Disse Mike.
“Não num momento como este. Eu tenho que tomar uma decisão.”
Mike susteve o seu olhar durante um longo momento.
“Não sei se isto te vai ajudar,” Disse ele cuidadosamente. “Mas a situação da April está sob controlo. Combinei com uma colega minha de Fredericksburg. O seu nome é Lesley Sloat e é uma excelente terapeuta pediátrica. Ela está disposta a trabalhar com a April todos os dias durante o tempo que for necessário. Tu e a April podem ir ter com ela amanhã de manhã.”
Riley detetou uma dica não expressa nas palavras de Mike. Ele parecia estar a dizer que a presença imediata de Riley não seria necessária por muito tempo. Poderia voltar a trabalhar logo se quisesse.
Mas quereria? Sentia-se terrivelmente perdida e confusa.
A porta do gabinete de Mike abriu-se. Rose e April foram para o corredor. O braço de Rose rodeava o ombro de April.
“Acho que fizemos um bom trabalho hoje, não é, April?" Disse Rose com uma voz quente e agradável.
O sorriso de April era fraco, mas genuíno.
“Acho que sim,” Respondeu ela.
“Vamos para casa então,” Disse Riley.
Riley segurava a mão da filha com força enquanto saíam do edifício e caminhavam em direção ao carro.
“Sinto muito por tudo isto, mãe,” Disse April.
“Pára de dizer isso, por favor,” Pediu Riley.
*
April foi para a cama logo depois de chegarem a casa. Ela estava exausta depois da sua provação e Riley esperava que dormisse profundamente. Mas Riley não se sentia pronta paa dormir. Era mais do que a mudança horária. Estava profundamente perturbada.
Assim que teve a certeza de que April dormia, foi para o seu quarto e estirou-se na cama. Ligou a Bill.
“Riley!” Disse logo Bill ao atender a chamada. “Como está a April?”
“Ela vai ficar bem,” Disse Riley.
Riley ouviu Bill suspirar de alívio. Era bom ouvir a voz dele.
“E o caso?” Perguntou Riley.
“Estamos completamente paralisados aqui. Gostava que ainda aqui estivesses.”
Um silêncio caiu. Riley sentiu que Bill tentava encontrar as palavras certas para algo que ela poderia não querer ouvir.
Finalmente disse, “Riley, o Morley fez o que disse que ia fazer. Ligou ao Brent Meredith em Quantico e deu-lhe um sermão sobre como estava lixado contigo. Ele tirou-te do caso.”
Foi a vez de Riley ficar em silêncio. Ela não fazia ideia do que dizer.
“Riley, eu posso resolver isto,” Disse Bill. “Já liguei ao Meredith. Ele entende aquilo por que estás a passar. Ele pode sobrepor-se à decisão do Morley. Ele pode reintegrar-te. Mas a decisão final depende de ti.”
A ansiedade de Riley era tão intensa que mal conseguia respirar.
“Preciso de um tempo para decidir, Bill,” Disse ela.
Bill soltou um ligeiro lamúrio de impaciência.
“Infelizmente não dispomos de muito tempo,” Disse ele. “O Morley já fala sobre trazer um substituto de Quantico. Eu estou a atrasá-lo por agora, mas não o consigo fazer por muito tempo. E quando um substituto chegar, será muito mais difícil tu voltares.”
“Eu entendo,” Disse Riley. “Obrigado, Bill.”
Terminaram o telefonema. Riley ficou deitada ali na cama, sentindo-se desamparada, indefesa e deprimida. Era uma sensação nova e terrível. Durante a sua vida, ela conhecera a raiva, o terror, a dor e quase todos os outros tipos de emoções negativas que podia imaginar. Mas de alguma forma aquilo era pior. Ela mal se reconhecia agora - uma massa tremulante de indecisão e desespero. Quando terminaria aquela tristeza?
Lembrou-se de algo que Mike Nevins havia dito.
“Não me parece que consigas ultrapassar isto sem algum tipo de catarse emocional.”
No que lhe dizia respeito, aquilo era um mau presságio. As coisas iriam piorar antes de melhorarem. Lembrou-se de como quase chorara quando conversara com Mike naquele dia.
Talvez seja disso que eu preciso agora, Pensou. Chorar.
Mas as lágrimas não surgiram.