Arrebatadas

Blake Pierce · Capítulo 24 de 42

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Arrebatadas

Capítulo Vinte e Três

Riley não conseguia imaginar como é que iria explicar a morte não natural de Gretchen Lovick à sua família. O bairro onde ela vivera era composto de fileiras de impecáveis casas modernas com pequenos, mas imaculados relvados e arbustos bem tratados. Ocasionalmente, altas e magras palmeiras ficavam presas ao longo da rua como plumas de penas gigantes.

Riley disse a Bill, “Eu pensei que isto fosse um deserto. Mas olha para aquela relva toda. E há palmeiras de todos os tipos em a Phoenix.”

“As pessoas estão dispostas a gastar o que for necessário para o que consideram importante,” Respondeu Bill. “Parece que as pessoas por aqui podem pagar alguns extras. Aposto que há uma piscina em cada uma destas casas.”

Riley parou na morada que lhes tinha sido dada. A casa e o quintal estavam escrupulosamente arrumados e tratados.

Porquê? Questionou-se Riley.

Porque é que uma mulher que morava aqui escolheu um caminho tão desviante? Como é que foi parar a um lugar tão desprezível como o Kinetic Custom Gym? Como é que ela tolerava um proxeneta como o Jaybird?

Ao caminharem na direção da porta de entrada, teve que se perguntar se iriam dar esta notícia terrível ao homem errado. Mas Cyrus Lovick estava à sua espera e abriu a porta assim que eles tocaram à campainha. O homem vestia um polo e calças desportivas que poderiam ser vestuário de golfe, mas ele parecia um pouco amarrotado e ansioso.

“São do FBI?” Perguntou. “Disseram-me que alguém vinha a caminho.”

Riley e Bill mostraram os distintivos e apresentaram-se. Entraram no interior climatizado.

“O que é aconteceu?” Perguntou Lovick.

“Pedimos desculpa por ter que lhe dizer isto,” Disse Riley, “mas a sua mulher, Gretchen, foi encontrada morta.”

“Lamentamos a sua perda,” Acrescentou Bill.

“Oh, meu Deus,” Disse Lovick, caindo abruptamente numa poltrona. Por um momento, olhou em redor da sala, como se esperasse ver algo que não estava lá. Quando falou de novo, a sua voz soou entorpecida. “Eu tinha receio de que algo... Ela... Ontem, quando as crianças chegaram a casa, ela não estava aqui. Lexie - a minha filha mais velha – ligou-me, preocupada. Vim logo para casa. Algum tempo depois, liguei para a polícia e dei conta do desaparecimento. Então esta tarde o FBI ligou. Eu sabia que devia ter acontecido algo horrível.”

Ele olhava incessantemente de Riley para Bill e vice versa, “Mas como é que ela...?”

Riley disse-o tão gentilmente quanto possível, “Receio que tenha sido assassinada. O seu corpo foi encontrado esta manhã no Lago Gaffney.”

Lovick parecia atordoado. Depois de alguns instantes, perguntou, “A Gretchen afogou-se?”

Riley olhou para Bill e ele começou a explicar o ocorrido. Riley observou as expressões de Lovick quando soube que a mulher tinha sido sufocada e que o seu corpo tinha sido colocado num saco de cadáveres repleto de pedras. Ela pensou que as reações do marido perturbado pareciam reais, mas que ele não estava tão chocado quanto ela pensaria que ficasse.

Alguns momentos depois, Lovick perguntou, “Sabem quem fez isso? Sabem porquê?”

Bill explicou que o FBI estava a trabalhar nessas questões. Era por isso que ele e Riley estavam ali. A expressão do homem mostrava cada vez mais desânimo.

Riley disse, “Sr. Lovick, temos que perguntar. Pode dizer-nos onde esteve a noite passada?”

Lovick parecia não entender o motivo da pergunta.

“Eu estive aqui. A noite toda.”

Bill perguntou, “Alguém pode confirmar o seu paradeiro?”

“Penso que os meus filhos,” Respondeu Lovick.

Parecia a Riley que ele não compreendia que estavam a tentar eliminá-lo como suspeito. A verdade era que ainda não o tinham conseguido. Teriam que conversar com os filhos. E mesmo assim, podiam restar algumas dúvidas sobre se ele os instruíra com o seu álibi.

Naquele momento, porém, ele parecia nada mais do que um marido aflito. E, por enquanto, Riley sabia que ela e Bill tinham de proceder tendo em mente que ele era exatamente isso.

Riley tentou pensar na forma de não o sobrecarregar com o que ela e Bill ainda tinham para lhe dizer.

“Onde trabalha, Sr. Lovick?” Perguntou Riley.

“Eu sou analista de sistemas. Tenho o meu próprio negócio. Hoje fiquei em casa.”

Ele ficou em silêncio novamente. Então conseguiu murmurar uma pergunta.

“Como é que isto pôde acontecer?”

Aquelas quatro palavras foram para Riley como um soco no estômago. As coisas estavam prestes a ficar extremamente difíceis.

Mas antes que ela ou Bill pudessem falar, ouviram o barulho de vozes jovens na porta da frente. A porta abriu-se e entraram três crianças - uma miúda adolescente, talvez com doze anos de idade, e dois irmãos mais novos. Um parecia ter cerca de dez anos, o outro cerca de oito. A julgar pela hora, Riley calculou que deviam estar a chegar da escola.

A conversa das crianças parou assim que viram o pai sentado com dois visitantes. O sorriso desapareceu de imediato do rosto da miúda.

“A mãe já voltou?” Perguntou.

Por um momento, Lovick não conseguiu responder.

Por fim, disse, “Lexie, leva os teus irmãos lá para fora. Vão brincar para a piscina.”

Com um olhar profundamente preocupado, a menina conduziu os irmãos para fora da casa.

Riley estudou o rosto de Lovick. Ele tinha um rosto esguio e o maxilar pequeno de um homem que poderia ter sido um nerd e um desajustado enquanto criança, mas que entretanto se convertera em alguém completamente enquadrado, bem-sucedido e sem dúvida acarinhado.

Falando devagar e gentilmente, Riley perguntou, “Sr. Lovick, sabia que a sua mulher estava a viver uma vida dupla?”

Lovick pareceu perplexo. “O que é que quer dizer com isso?”

Riley olhou para Bill, inquieta.

Bill disse, “Parece que a sua mulher trabalhava como prostituta de dia. Num bordel chamado Kinetic Custom Gym. Tinha conhecimento disso?”

Riley estudou a mudança na expressão de Lovick. Detetou menos choque no seu rosto do que seria de esperar. Em vez disso, parecia que algo começava a fazer sentido para ele.

“Eu sabia que havia alguma… Coisa de estranho,” Disse ele. “Mas não sabia o que era.”

Para Riley, tudo aquilo ainda era completamente desconcertante. Mas ocorreu-lhe uma possibilidade.

Então disse, “Sr. Lovick, a sua mulher sofria de algum tipo de transtorno dissociativo?”

Lovick olhou para ela e Riley prosseguiu, “Quero dizer, algo como um transtorno de identidade dissociativo? Ela já exibira personalidades múltiplas?”

“Não, isso não,” Disse Lovick. Mas não pareceu surpreendido com a pergunta.

Então ele disse, “Ela manifestou... Mudanças de humor extremas que me assustavam às vezes. Como, há alguns anos atrás, quando levámos as crianças ao Grand Canyon. Eu estava a conduzir pela South Rim, e de repente ela disse-me para parar. Eu parei e ela saiu do carro. Ela correu na direção do desfiladeiro. Eu fiquei cheio de medo e as crianças também. Parecia que ela se ia atirar do penhasco. Mas parou na borda. Abriu os braços, olhou para o desfiladeiro e riu.”

“Ela era bipolar, não era?” Perguntou Riley.

Lovick anuiu. “Os medicamentos ajudavam um pouco - quando os tomava. Mas ela não gostava deles. E quando deixou de os tomar, o seu comportamento ficou errático, ou pior. Quando estava deprimida, não conseguia sair da cama durante dias. Quando era maníaca, assumia riscos loucos, bebia demais, conduzia muito depressa, esse tipo de coisa. Ultimamente estava tudo pior. Eu não sabia o quão mau realmente era. Obviamente.”

Lovick abanou a cabeça.

“Eu só queria que ela fosse feliz,” Disse. “Eu sempre quis que ela fosse feliz. Nós conhecemo-nos quando andávamos na faculdade, e ela tinha todos os tipos de talento, poderia ter sido uma ótima programadora se quisesse. Mas ela disse que não queria. Ela disse que queria ser mãe e ficar em casa, pelo menos até ver. Haveria tempo para uma brilhante carreira mais tarde, dizia.”

Ele parou de falar, mas não foi difícil para Riley preencher o resto da sua história. Eles começaram a ter filhos quando eram ambos muito jovens. Gretchen descobriu que não estava destinada a ser apenas dona de casa e mãe. O marido estava a construir um negócio enquanto ela estava presa em casa, loucamente entediada.

E foi assim que terminou. Com a sua morte.

De repente, Riley percebeu que o seu rosto estava quente, as palmas das mãos suavam e as mãos tremiam. Ela sabia o que significavam esses sintomas.

Ela estava furiosa. Ela estava furiosa como tudo.

A emoção apoderou-se dela completamente de surpresa. Naquele mesmo dia, ela tinha falado com um traficante de drogas, um homem vil cujo único trabalho na vida era lidar com a morte e o desespero. A própria Gretchen seguramente se tinha abastecido da sua terrível mercadoria.

Mas Riley não tinha ficado zangada com Clay Hovis. Pelo contrário, ela quase sentira uma estranha empatia por ele.

Mas agora estava zangada. Estava zangada com aquele homem, Cyrus Lovick. O marido de Gretchen.

Porquê? Questionou-se. Seria ele culpado?

A resposta a essa pergunta rasgou a sua mente como o gume de uma faca.

Sim.

Mas não fazia sentido. Ela sabia que estava a ser exagerada. Ela sabia que estava a ser irracional. E tinha que se manter concentrada com o que tinha em mãos.

“Sr. Lovick,” Prosseguiu Riley, “Não fazia realmente ideia do que estava a acontecer? Que a sua mulher tinha essa outra vida?”

Ele pareceu chocado com o seu tom. Também ela se sentiu chocada com o seu tom.

Ele disse, “É como lhe disse, eu sabia que havia alguma coisa.”

“Mas como podia não saber?” Interrogou-o Riley, com a voz trémula agora. “Nunca lhe perguntou?”

Ele fixou Riley.

“Você não faz ideia da quantidade de vezes que perguntei,” Disse ele.

Agora o homem parecia magoado e zangado. Mas Riley não se importava. O seu humor piorara. Mas porquê? Sentiu-se a cair numa espiral sem controlo.

Atirou-lhe, “O Sr. disse que pensava que ela queria ser dona de casa. Mas deve ter chegado um momento em que viu que isso não estava a funcionar para ela. Certamente sabia que ela se sentia vazia, perdida e entediada. Por que não fez nada? Por que não a ajudou? “

Riley sentiu a mão forte de Bill no seu ombro.

Bill disse a Lovick, “Gostaria de conversar em particular com a minha colega por um momento.”

Lovick acenou com a cabeça, parecendo horrorizado com a postura de Riley. Bill apressadamente escoltou Riley para a cozinha e fechou a porta atrás deles.

“Que raio achas que estás a fazer ali?” Perguntou-lhe Bill. “Estás a tratá-lo como um suspeito.”

“Tanto quanto sabemos ele é um suspeito,” Disse Riley.

Bill mal conseguia acreditar no que ouvia.

“Riley, por amor de Deus, pensa por um momento. Usa a cabeça. Achas realmente que este homem matou a sua própria mulher? E aquelas outras duas mulheres? Uma delas há três anos? Foram apenas ensaios ou chamarizes ou o quê? Isto não é um estúpido programa de TV. Não faz sentido e tu sabes.”

Riley não sabia se sabia ou não. Ela sabia que não fazia sentido - ou pelo menos não parecia fazer sentido.

“Temos que conversar com as crianças,” Insistiu. “Confere o álibi dele.”

“Era o que mais faltava,” Rosnou Bill.

“É o procedimento.”

Bill parecia lutar para não desatar a gritar.

“Para o inferno com o procedimento. Riley, vais dar a notícia a essas crianças, de que a măe foi assassinada e depois escalpelizar com elas o que o pai estava a fazer quando ela foi morta? O mundo deles acabou de ser destruído. Queres tornar tudo ainda pior? O que é que se passa contigo?”

“Estou a tentar fazer o meu trabalho.”

“Não. Não estás. Há uns dias atrás quase espancaste um suspeito. Também vais bater neste homem?”

Riley mal podia acreditar na insinuação.

“Isto é diferente,” Disse ela.

“Sim,” Disse Bill. “É pior.”

Aquelas palavras acabaram com Riley. Ela começava a cair em si.

“Vamos embora daqui,” Concluiu Bill.

Riley seguiu-o de volta à sala. Bill conseguiu dirigir-se a Lovick com voz firme e calma.

“Sr. Lovick, lamentamos muito a sua perda. Não temos mais perguntas a fazer.”

Lovick olhou-o silenciosamente. Bill deu-lhe um cartão.

“Aqui tem o número de uma linha de atendimento para vítimas. Penso que não deve esperar para ligar.”

Riley percebeu que Bill tinha vindo preparado com essa informação. Em contraste, ela não estava preparada.

Saíram da casa e caminharam para o carro. Bill impediu que Riley se dirigisse para o lado do condutor.

“Tu não vais conduzir,” Disse ele. “Não no teu estado de espírito.”

Ela não podia discordar, embora Bill estivesse muito agitado. Ela foi para o lado do passageiro e entrou.

“Para onde vamos agora?” Perguntou Riley.

“Voltamos para o quartel-general, acho.”

Bill começou a conduzir em silêncio.

Riley repetiu mentalmente as suas palavras e ações dos últimos minutos. Em que é que ela estava a pensar? O que provocara a sua raiva?

Começava agora a entender. Ela e a sua própria filha tinham sido trancadas em compartimentos exíguos, as meninas de Jaybird passavam os dias numa cela de uma sauna extinta, meninas como Trinda eram atiradas de camião para camião, e só Deus sabia que tipos de tormento Justine tinha suportado nas mãos de incontáveis homens.

Mas Gretchen Lovick tinha sido atormentada na sua própria respeitável casa de classe média alta. Ela tinha vivido num inferno que odiava tanto, a ponto de se refugiar noutro tipo de inferno.

Não admirava que a situação tivesse deixado Riley no limite. Mas desde quando é que ela deixava esse tipo de coisa levar-lhe a melhor?

Tenho que me controlar, Pensou.

Entretanto o seu telemóvel tocou. Viu que o telefonema era de Morley.

“O que tem para mim, Agente Paige?” Perguntou quando ela atendeu.

Riley não respondeu. Não conseguia dizer a palavra "nada".

Havia uma nota de raiva débil na voz de Morley. “Nós trouxemos vocês de Quantico. Esperávamos resultados.”

A fúria de Riley começou a emergir de novo. Ela e Bill tinham chegado no sábado, e eles nem sequer tinham tido a certeza de que estavam a lidar com um assassino em série até àquela manhã. Que tipo de resultados é que Morley esperava?

Mas Riley conteve a sua fúria.

“Vamos conseguir resultados,” Garantiu Riley. “Estamos a caminho da sede.”

“Podem crer que sim,” Disse Morley. “Vamos ter uma reunião daqui a vinte minutos. Vamos reagrupar-nos. Temos que resolver isto antes que mais mulheres acabem mortas.”

“ Lá estaremos,” Disse Riley.

Ela terminou a chamada.

“Morley?” Perguntou Bill.

“Sim. Vai fazer uma reuniăo. Chegamos mesmo a tempo.”

“Presumo que ele não esteja satisfeito,” Comentou Bill.

“Não. Não está.”

Bill continuou a conduzir e um silêncio frio interpôs-se entre eles. Riley não podia culpar Bill por estar aborrecido com ela. Sentia-se afogada num mar de dúvidas. Ela não sabia o que fazer com este caso. E começava a parecer que ela não sabia o que fazer consigo mesma.