Arrebatadas

Blake Pierce · Capítulo 25 de 42

Páginas do PDF

Arrebatadas

Capítulo Vinte e Quatro

Riley pressentiu uma urgência de cortar à faca na sala de conferências do FBI quando ela e Bill chegaram. Sentaram-se numa extremidade da grande mesa e olharam para o grupo de pessoas que se acomodavam. O Agente Especial Responsável Elgin Morley queria certificar-se de que não deixava ninguém fora de fora.

Rachel Fowler, a patologista-chefe, também lá se encontrava. Assim como Igraine. Riley até reconheceu os rostos dos dois agentes que a a tinham impedido de agredir Calvin Rabbe. Havia vários outros que ela não conhecia e Riley questionava-se sobre o que todos esperariam daquela reunião.

Ela viu o Agente Garrett Holbrook a colocar a sua cadeira junto à mesa perto da porta. Ficou na dúvida se ele estava apenas a tentar ser discreto ou se estaria a planear uma saída prematura. Talvez as duas, Pensou.

Na extremidade da sala, um gigantesco mapa foi projetado, mostrando os locais onde os três corpos haviam sido encontrados. As dimensões do mapa eram exageradas mas, apesar disso, não era particularmente informativo. Ainda assim, deixava clara a mensagem que Morley fazia questão em transmitir - que estavam empenhados em apanhar o assassino.

Quando todos já se tinham acomodado, Morley levantou-se para iniciar a reunião. Não era um homem grande, mas tinha uma presença imponente que chamava a atenção de todos. Tornava-se cada vez mais óbvio para Riley porque é que ele era o Responsável.

“Ainda bem que cá estão todos," Pronunciou Morley. "Agora sabemos com toda a certeza que estamos a lidar com um assassino em série. Vai ser um caso difícil e não temos um momento a perder. Neste preciso momento, o homem que procuramos pode ter a próxima vítima debaixo de olho - ou talvez já a tenha morto. Temos que detê-lo agora e o mais rapidamente possível.”

Riley detetou sinais de impaciência na sua voz. E já o tinha notado anteriormente. Se Morley tinha um defeito, era esperar que fossem feitos progressos a um ritmo impossível. Ainda assim, ela admirava sua vontade indómita na obtenção de resultados.

Morley fez um gesto para a mesa em direção a Riley e Bill.

“Penso que a maioria de vocês já conheceu os Agentes Paige e Jeffreys. Eles vieram de Quantico para nos ajudar com a sua experiância. Vamos ouvir o que têm a dizer sobre o ponto da situação.”

Morley sentou-se. Riley e Bill trocaram olhares. Ela assentiu levemente e Bill sorriu quase impercetivelmente. Trocavam silenciosamente um sinal familiar. Riley queria que ele falasse primeiro para que ela pudesse captar os rostos e as reações das pessoas presentes.

Riley ficou satisfeita por ainda poderem comunicar sem que palavras fossem proferidas. Fora assim que haviam trabalhado juntos nos seus tempos áureos, apoiando-se mutuamente. Era bom para Riley regressar a a essa realidade.

Bill levantou-se. “Aqui está o que temos até agora,” Começou. “O Agente Morley tem razão. Estamos a lidar com um assassino em série e ele está a acelerar o ritmo..”

E fez um resumo do que tinha acontecido nos últimos dias, começando com a descoberta do corpo de Nancy Holbrook. Riley sabia que ele continuaria a relatar tudo o que tinham feito desde a sua chegada no sábado. Mas ela não precisava de todas aquelas explicações. Em vez disso, dedicou-se a centrar a sua atenção nas pessoas sentadas à sua volta. A sua experiência permitia-lhe detetar os elos fracos da equipa- agentes que não estavam preparados para o trabalho ou cuja capacidade de julgamento não fosse a mais adequada. Ela também detetaria alguém que se estivesse a refrear, talvez a não partilhar informações que todos tinham o direito de saber.

Ficou agradavelmente surpreendida ao deparar-se com um pequeno mar de entusiasmo, agilidade e aparente competência.

Nenhum elo fraco óbvio aqui, Pensou.

Mas algo lhe chamou a atenção. Garrett Holbrook levantou-se da cadeira e dirigiu-se para a porta. Parecia estar bastante agitado e abalado. Ela disse a si mesma que ele estava simplesmente perturbado por ter que rever os detalhes da morte da sua irmã. Talvez ele pensasse que não seria capaz de lidar com aquilo novamente.

Isso fazia sentido para Riley – ou talvez não. Afinal, Holbrook era um agente do FBI - um profissional treinado. Ele estava acostumado a lidar com crimes horríveis. Além disso, a ideia de chamar o FBI tinha sido sua.

Holbrook saiu pela porta e desapareceu. O que mais incomodava Riley era que ela ainda não sabia o que pensar dele. Ela não tinha sido capaz de discernir o que é que a incomodava no irmão de uma vítima de homicídio.

Outra presença pairava na mente de Riley - o próprio assassino. Onde estaria ele naquele momento? Estaria a rir-se dos seus esforços para o localizar?

Não, Pensou. Não somos assim tão importantes para ele.

Mas ele importava muito a Riley. A fim de derrubá-lo, ela sabia que teria que encontrar uma maneira de mergulhar nos recessos escuros da sua mente. Riley saia estarem perante um homem que controlava totalmente o que fazia, um homem seguro...

As suas meditações foram interrompidas pelas palavras de Bill, “E agora a minha parceira, Agente Paige, vai falar-nos do perfil que apurámos até ao momento.”

Riley levantou-se e falou para o grupo.

“Podemos fazer algumas suposições. O assassino era um homem com idade compreendida entre os vinte e um e os quarenta e três anos de idade quando cometeu o seu primeiro homicídio, e provavelmente ainda estará dentro dessa faixa etária. Ele tem pelo menos um nível de ensino médio, e tenho certeza que passou algum tempo na faculdade. Na verdade, pode ter uma educação muito acima da média. Ele tem um emprego, provavelmente um emprego bem pago. Há uma boa hipótese de ter mulher e filhos, ou que pelo menos tenha sido casado e tido filhos. Ele é muito inteligente e muito seguro de si mesmo.”

Uma mão levantou-se. Um dos agentes que haviam tirado Riley de cima de Rabbe tinha uma pergunta.

“Quanto do que diz é facto e quanto é hipótese?” Perguntou.

Riley sorriu. Era uma boa pergunta.

“Os factos ainda são escassos neste momento,” Disse Riley. “Mas eu não estou a inventar o que vos transmiti.”

Uma onda de riso percorreu a sala.

“São mais opiniões abalizadas,” Prosseguiu. “A UAC reuniu dados importantes sobre assassinos em série de prostitutas. Estou a basear algumas das minhas suposições nesses dados. Por exemplo, em cada um dos casos que vimos aqui, o assassino transportou o corpo para longe da cena do crime e atirou-o para a água. Estes tipos de assassinos em série querem colocar tempo e distância entre eles e as suas vítimas. Ao contrário de assassinos em série que procuram publicidade, eles não querem que ninguém saiba que ocorreu um homicídio. Eles não obtêm prazer do pânico do público.”

O agente que fizera a pergunta parecia pensativo. Por fim, acrescentou, “Então este tipo obtém todos os estímulos da morte em si?”

“Certo,” Anuiu Riley, “e se me é permitido dizer, parte do que estou a dizer provém dos meus muitos anos de experiência de campo. E eu acredito que este assassino é atípico em alguns aspetos. Por exemplo, penso que não tem registo criminal. Algo que tornará mais difícil a sua localização. O seu comportamento quotidiano é provavelmente bastante normal. Trata-se de um sociopata que ataca prostitutas porque estão mais facilmente disponíveis. Ele considera-as descartáveis.”

“É inteligente, mas não um criminoso com prática. Ele teria conseguido safar-se com o primeiro homicídio se não se tivesse atrapalhado com o segundo. O terceiro foi um caso de má sorte, mas também um sinal de que ele não antecipou todas as possibilidades. Ele pode mudar o seu MO da próxima vez... E haverá uma próxima vez.”

Outra mão se ergueu. Riley não reconheceu a jovem.

“Como se chama?” Perguntou Riley.

“Robin Mastin,” Disse a mulher. “Faço parte da polícia local.”

Riley reconheceu o nome de imediato. Tratava-se da aluna de mergulho que encontrara o esqueleto de Marsha "Ginger" Kramer. Riley também sabia que a jovem novata insistira em continuar as buscas mesmo depois do líder da equipa, Quentin Rosner, querer desistir.

Riley disse, “Fez um excelente trabalho no Lago Nimbo.”

Robin Mastin sorriu e corou. “Obrigada, Agente Paige,” Agradeceu Robin.

Riley teve a forte sensação de que a jovem apreciava especialmente o elogio de um agente experiente.

“A sua pergunta?” Perguntou Riley.

“O corpo que encontrei ainda usava uma pulseira de aparência cara. Isso é significativo?”

“De facto, é,” Disse Riley. “O corpo de Nancy Holbrook ainda usava um anel de diamante. Gretchen Lovick usava um colar, também com um diamante. Não peças demasiado caras, mas muito para além do que poderíamos esperar encontrar.”

Riley pensou que aquele era o momento adequado para dar à novata uma possibilidade de brilhar.

“O que é que isso lhe sugere?” Perguntou.

A jovem pensou por um momento.

“Bem, parece provável que o assassino tenha oferecido esses acessórios às mulheres como presentes. Isso deve querer dizer que tinha um bom relacionamento com elas quando as matou. Elas pensaram que podiam confiar nele.”

“Muito bem,” Disse Riley. Robin Mastin enrubesceu novamente e sorriu orgulhosamente.

Riley continuou, “É importante ter isto em mente. O nosso assassino não arrebata as suas vítimas na rua, nem as rapta pela força. Ele usa algum tipo de ardil. Podemos ter a certeza de que ele se apresenta como um john - mas um john gentil e generoso. É um vigarista mortal.”

Riley parou por um momento e disse, “Aqui está um detalhe importante. A sua primeira vítima era seropositiva. É muito provável que o assassino também seja. Se assim for, o mais certo é sabê-lo.”

A patologista Dra. Rachel Fowler ergueu os olhos do seu bloco de notas.

“Isso é interessante,” Disse Fowler. “As duas últimas vítimas não tinham VIH. Mas a verdade é que ele não teve qualquer relação sexual com elas ou pelo menos não quando as matou. Os restos mortais de Marsha Kramer estavam demasiado decompostos para podermos efetuar uma avaliação segura.”

“De acordo com pessoas que a conheciam, Kramer tinha o vírus,” Disse Riley. “E eu tenho um palpite de que o nosso assassino era sexualmente ativo há três anos e foi infetado por ela. Considerando o seu provável estatuto social, ele estará provavelmente a tomar medicação de forma ilícita ou através de receita médica.”

Riley dirigiu-se a Igraine.

“Igraine, há alguma forma de usar esta informação para o localizar?” E sem ironia, acrescentou, “Com a magia que tem à sua disposição?”

Igraine remexeu num dos seus piercings pensativamente.

“Eu não ficaria otimista, Agente Paige,” Disse. “Podemos tentar obter um relatório de farmácias. Mas mais de dez mil pessoas na área são conhecidas por serem seropositivas ou por terem SIDA. Mesmo se deixarmos de lado as mulheres, os idosos ou os muito jovens, ainda ficam muitas pessoas para avaliar com a rapidez suficiente para ser um auxílio imediato.”

Riley ficou impressionada com a demonstração de conhecimento de Igraine.

“Eu entendo, Igraine,” Disse ela. “Vamos pensar noutra abordagem para si e para a sua equipa.”

Agora Riley percebeu que Morley se tinha levantado e se dirigia à porta. Parecia estar a retribuir uma mensagem SMS.

Deve ser algo importante, Pensou Riley enquanto ele se afastava silenciosamente.

Riley e Bill responderam a mais algumas perguntas, até darem a reunião por concluída. Todos saíram da sala, exceto eles os dois.

“Onde está o Holbrook?” Perguntou Bill. “Pensei que ficasse por aqui.”

“Vi-o ir-se embora logo no início,” Disse Riley.

“Isso é um bocado estranho,” Disse Bill.

“Ele é um bocado estranho,” Concordou Riley.

Morley regressou à sala, parecendo mais animado do que o habitual.

“Acabámos de receber uma dica,” Disse a Riley e Bill. “É de uma mulher chamada Ruthie Lapham, que gere o bar no Desert King. É outra paragem de camiões por onde prostitutas andam. Ruthie é uma espécie de mãe para as prostitutas de lá, cuida delas tanto quanto pode. Está preocupada com uma mulher chamada Clover que está desaparecida há alguns dias.”

Bill abanou a cabeça.

“Uma prostituta desaparecida não é propriamente uma pista,” Disse ele.

Riley tinha que concordar. “É triste, mas acontece todos os dias.”

Morley disse, “Sim, e com a cobertura dos meios de comunicação social dos homicídios, as nossas linhas foram inundadas com falsas pistas. Mas isto pode ser diferente. Ruthie diz que um sujeito suspeito para por lá de vez em quando. Ele destaca-se. A clientela habitual são os motoristas de camião e aquele homem simplesmente não se encaixa naquele perfil. Sempre as deixou nervosas e, claro, agora ainda estão mais sobressaltadas do que o habitual. Mas Ruthie acha que elas podem ter razão em relação a este homem.”

O interesse de Riley foi instigado. “Então por que é que Ruthie só agora ligou?” Perguntou.

“Porque o homem acabou de aparecer lá novamente,” Disse Morley. “Ela acha que talvez devêssemos ir até lá.”

“Pode já ter ido embora quando chegarmos,” Disse Bill. “Ainda assim, é melhor arriscarmos ir. Sempre podemos falar com as mulheres e descobrir o que sabem sobre ele.”

Mas Riley lembrou-se de como fora difícil conversar com a maioria das mulheres no Hank’s Derby.

“Não vai bastar entrarmos como FBI,” Disse ela. “Nunca o apanharemos dessa forma. E acreditem, elas não vão falar connosco.”

“Só têm que as fazer falar,” Redarguiu Morley.

Um longo silêncio se seguiu e, por fim, Riley tomou uma decisão.

“Só há uma maneira de fazer isto,” Decidiu Riley.

Eles olharam para ela.

“Vou infiltrar-me.”

“E como é que pretende fazer isso?” Perguntou Morley.

“Vou-me juntar às prostitutas,” Explicou Riley.

Bill parecia atordoado, enquanto Morley a fitava, franzindo o cenho.

Bill balbuciou, “Na paragem de camiões?”

Riley assentiu.

“Isso é muito perigoso,” Protestou Bill. “Vais fazer de ti um alvo para um assassino.”

Riley sabia que assim era mas não conseguia deixar de pensar na vida dessas mulheres, na urgência que se impunha. Ela não podia ficar de braços cruzados enquanto outra mulher morria.

“Está fora de questão,” Sentenciou Morley. “Não o vou permitir.”

Então Riley disparou.

“Não estou a pedir permissão,” Disse. “Vou fazê-lo.”