Arrebatadas

Blake Pierce · Capítulo 23 de 42

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Arrebatadas

Capítulo Vinte e Dois

Não era longa a viagem até ao apartamento de Clay Hovis. Situava-se no mesmo bairro do Kinetic Custom Gym. Riley não estava ansiosa para entrevistar o homem. Depois de uma já longa carreira a lidar com o horror, não fazia ideia de como ainda era surpreendida pelos horrores deste mundo. Naquele momento, o caso parecia estar a ficar cada vez mais complicado.

“Estás bem?” Perguntou Bill a Riley enquanto ela conduzia.

Riley não respondeu. Ela simplesmente não sabia o que dizer.

Então Bill perguntou, “O que te parece o Jaybird? Achas que é o nosso homem?”

Riley pensou por um momento.

“Não,” Disse ela. “Ele é apenas um homem de negócios. Oh, ele é um empresário que odeia as mulheres. E ele sente-se bem a bater e a abusar de mulheres. Faz parte da sua linha de trabalho. Mas o homicídio é mau para o negócio. Ele não gosta disso.”

Riley pensou por um momento, depois acrescentou, “E ele não é impotente.”

“E o nosso assassino é?” Perguntou Bill.

“Intermitentemente, pelo menos,” Afirmou Riley. “Embora eu tenha a certeza de que ele não gosta de o admitir, mesmo para si mesmo. E talvez não quando começou a matar. Mas agora o desempenho sexual é um problema para ele. Ele obtém o seu prazer com os homicídios, não com sexo ou violência sexual.”

Ela pensou nisso por mais um momento. “E o Jaybird não é assim,” Disse Riley. “A sua fanfarronice e bravata são genuínas, não uma forma de compensar a falta de virilidade.”

“Então esta dica sobre este tal Clay Hovis pode ser legítima?” Perguntou Bill.

“Pode ser,” Confirmou Riley.

Fazia cada vez mais sentido para ela. Jaybird parecia muito irritado com Hovis. O homem deve ter causado algum problema real para Jaybird o ter proibido de frequentar o lugar. E Jaybird estava, sem dúvida, preocupado com o que aconteceria se ou quando se soubesse daqueles homicídios. Era algo que realmente prejudicaria o seu negócio. Se Hovis era o assassino, Jaybird tinha razões de sobra para o querer fora de cena.

“É melhor ligares para o quartel-general,” Disse Riley a Bill, ao virar numa esquina de uma zona especialmente perigosa do bairro. “Temos que obter informações sobre a Gretchen Lovick. Temos que localizar os seus parentes mais próximos. A Chrissy disse que o marido fazia algum tipo de trabalho relacionado com computadores. Não deve ser difícil encontrá-lo.”

Bill pegou no telefone. Enquanto Bill falava com Morley, Riley percebeu que ela e Bill poderiam ter que informar Lovick que a mulher estava morta. Esse pensamento não melhorou a sua disposição. Tendo em consideração que o corpo não tinha sido identificado até agora, o marido provavelmente não saberia que ela tinha sido assassinada. A menos que, claro, ele a tivesse morto, mas isso não era de todo provável num caso com três prostitutas mortas ao longo de um período de vários anos. O homem que iam ver agora era um suspeito muito mais provável.

Riley estacionou o carro à frente de um prédio de apartamentos grande, com aspeto degradado onde vivia Clay Hovis. Saíram do carro e subiram três lances de escadas. Enquanto seguiam pelo corredor em direção ao apartamento de Hovis, uma cacofonia de música e vozes altas cercaram-nos. Era difícil a Riley imaginar pessoas a viver ali. Como é que alguém poderia dormir ou até mesmo pensar?

Ao aproximarem-se da porta do apartamento de Hovis, ouviram um cão a ladrar lá dentro. Antes mesmo de baterem à porta, ouviram um grunhido hostil e o arranhar de garras contra a porta. O animal parecia grande e extremamente perigoso.

Depois de um momento de fúria animal, ouviram a voz de um homem perguntar.

“Quem é?”

Riley percebeu que o ocupante do apartamento estava a espreitar através do olho mágico. Riley recuou para estar totalmente à vista. Tirou o distintivo.

“Agentes Paige e Jeffreys, FBI,” Disse Riley. “Gostaríamos de lhe fazer algumas perguntas.”

O cão começou a ladrar oura vez.

“Têm um mandado?” Gritou o homem através da porta.

“Não,” Respondeu Bill em voz alta. “Só queremos conversar.”

O ruído animal prosseguiu.

“Não,” Disse o homem.

Riley disse, “Sr. Hovis - penso que estamos a falar com o Sr. Hovis – tudo será muito mais fácil se cooperar.”

Mais uma vez, o homem respondeu, “Não.”

Riley olhou para Bill, sem saber o que fazer. As coisas seriam diferentes se tivessem um mandado para o deter ou para fazer buscas na sua casa. Naquela situação, Clay Hovis estava no seu direito em não querer abrir a porta, mesmo a uma força policial. E ele parecia saber isso.

Bill gritou por cima do latido, “Tudo bem, Sr. Hovis. Nós entendemos. Não tem que conversar connosco se não quiser.”

Riley olhou para Bill surpreendida. Bill mostrou-lhe um meio sorriso que lhe assegurou que ele sabia exatamente o que estava a fazer.

Quando a fúria do cão cresceu, Riley rapidamente compreendeu a tática de Bill. Embora Hovis tivesse o direito de não falar com eles, ela e Bill tinham todo o direito de ficar onde estavam. E enquanto eles ficassem à frente da porta, a intranquilidade do cão continuaria. Hovis não conseguia acalmar a criatura e a situação dentro do apartamento parecia estar a tornar-se insustentável.

Passados alguns momentos, a porta abriu-se ligeiramente, parada por uma corrente. Riley agora podia ver o focinho negro de um doberman pinscher. O seu nariz enfiou-se tanto quanto podia na abertura. Mostrava aos estranhos uns dentes enormes e os seus olhos chispavam fúria. A criatura ladrou furiosamente.

Um homem Afro-Americano também espreitou pela abertura.

“O que é que querem?” Perguntou por cima do ladrar.

“Como eu disse, só queremos conversar,” Repetiu Bill.

O homem praguejou e destrancou a corrente. Abriu a porta, segurando o cão firmemente pela coleira.

“Está tudo bem, Genghis,” Disse o homem ao cão. Então ele disse a Riley e a Bill, “Entrem.”

Riley e Bill entraram cautelosamente no apartamento. O cão grunhia, mas agora que o dono os convidara a entrar estava mais calmo. O homem amarrou uma trela à coleira do cão, levou a grosseira criatura para uma poltrona e sentou-se.

“Genghis, senta,” Ordenou o homem.

O cão obedeceu, deitando-se ao lado da cadeira com um lamento. Parou de rosnar, mas continuava a observá-los atentamente. Então Hovis encarou Riley e Bill.

Bill começou, “Foi-nos dito que frequentou o Kinetic Custom Gym.”

“Sim,” Confirmou o homem.

Riley acrescentou, “O que é que sabe sobre duas das suas empregadas - Chiffon e Ginger? Ginger trabalhou lá há muito tempo. Mas a Chiffon é muito recente.”

“Nunca ouvi falar delas,” Respondeu Hovis.

O rosto e a voz do homem eram tão vazios de expressão que Riley não podia discernir se estava ou não a mentir.

“As duas mulheres estão mortas,” Disse Bill. “A Chiffon morreu ontem à noite. Ginger morreu há cerca de três anos.”

Hovis não disse nada.

Riley prosseguiu, “Será que nos pode dizer onde estava e o que estava a fazer a noite passada, entre o pôr-do-sol e o amanhecer?”

"Estava aqui,” Respondeu Hovis.

“Tem alguma testemunha que o possa comprovar?” Perguntou Bill.

“Não.”

Então caiu novamente o silêncio. O ar ainda estava cheio de ruído ambiente dos apartamentos vizinhos e o cão continuava a ganir um pouco. Hovis não estava obviamente a querer colaborar. Riley ainda não sabia se ele escondia algo ou se era reticente por natureza.

Mas tanto ela como Bill sabiam por experiência que o melhor era não apressar uma situação daquelas. Era melhor deixar Hovis pensar que não tinham pressa.

Riley observou o homem com atenção. Era negro, alto e bastante desajeitado. O seu olhar era direto e muito intenso. Ela notou que ele vestia uma t-shirt de mangas compridas e calças de ganga, apesar do ar condicionado do compartimento estar a funcionar audivelmente e a sala estar demasiado quente.

Um instante depois, Riley disse, “Conversámos com Jaybird. Parece que vocês tiveram uma desavença.”

Hovis soltou um leve sorriso cínico.

“Qualquer coisa do género.”

Bill disse, “Quer contar-nos o que aconteceu?”

“Negócios,” Disse Hovis sucintamente.

Riley continuou, “Jaybird disse-nos que estava a ser bruto com as mulheres. Ele disse que tanto Ginger quanto Chiffon tinham medo de si.”

Pareceu a Riley que o homem parecia vagamente ofendido.

“Eu nunca toquei nas mulheres dele,” Disparou.

Riley olhou para o apartamento. Era pobre e miserável, e todos os móveis pareciam velhos e usados. Ainda assim, o lugar estava incrivelmente limpo. Clay Hovis era tudo menos preguiçoso.

Próximo encontrava-se um tabuleiro de xadrez numa mesa de cozinha dos anos 50. Parecia que um jogo estava em progresso. Teria Hovis companhia para jogar xadrez com ele de vez em quando ou estava a jogar sozinho? De qualquer das formas, Riley teve a sensação de que Hovis era um excelente jogador.

E a julgar pelos livros existentes numa estante próxima, Riley deduziu que Hovis era inteligente e autodidata. Tudo isso era consistente com o perfil do assassino. Mas não lhe era possível chegar a qualquer conclusão.

Riley devolveu o olhar do suspeito. Ele manteve contato visual inabalável com ela. E ela começava a decifrar algo naquele rosto. Só não sabia exatamente o quê. Lembrou-se então novamente de que não se devia apressar, não forçar. Este homem exigia paciência.

Então Hovis perguntou, “Como é que elas morreram?”

Riley detetou algo na sua expressão. Fora um flash de preocupação? Não, Riley percebeu que era mais profundo do que isso.

Culpa, talvez, Pensou Riley.

“Foram assassinadas,” Disse Bill.

Riley continuou a estudar o seu rosto, tentando avaliar a sua reação.

“Suspeitam de Jaybird?” Perguntou Hovis.

“Não descartámos ninguém,” Declarou Riley. Ela perguntou-se se ele sabia que ela estava a mentir a respeito de Jaybird.

Hovis não tentou fugir ao olhar de Riley. Pelo contrário, ele mantinha os olhos fixos nos dela.

“O que é que faz para ganhar a vida, Sr. Hovis?” Perguntou Riley.

“Trabalho de construção independente,” Disse ele.

Riley detetou tanto na sua voz quanto no seu olhar que era mentira. Também sentiu que ele não se importava muito que ela soubesse que era mentira. Até parecia querer que ela soubesse. Parecia querer dizer-lhe algo. Mas era algo que ele não podia dizer abertamente.

Ele quer que eu analise isto de alguma forma, Depreendeu Riley.

“Sr. Hovis,” Prosseguiu ela calmamente, “vou dizer algumas coisas. Afirmações, não perguntas. O senhor não tem que dizer nada. Não tem que fazer absolutamente nada. Só quero que ouça.”

Um ligeiro sorriso esboçou-se nos seus lábios. Sim, era isso que ele queria.

Ela olhou à volta do apartamento esparsamente decorado. Não viu um único objeto de valor real. Então, por que é que Hovis tinha um cão de guarda tão grande e feroz? O que é que ele estava guardar?

Riley voltou a olhar para Hovis. Ela notou que o seu rosto e as suas mãos eram estranhamente pastosos para uma pessoa negra. E novamente observou aquelas mangas e calças compridas. Ele estava de meias. Não usava cinto. Ele vestira aquelas roupas à pressa quando ela e Bill chegaram. Ele queria encobrir alguma coisa.

E de repente, Riley percebeu...

Marcas de agulhas. Em todo o corpo.

“É um toxicodependente,” Disse ela.

Ele olhou para ela. Nada no seu olhar a contradisse.

Então ela continuou, “É um viciado, mas é um viciado com elevado desempenho.”

Aquela espécie de sorriso apareceu novamente.

“Não trabalha na construção,” Afirmou Riley.

A sua cabeça inclinou-se ligeiramente para a frente, quase um aceno de cabeça.

As coisas a fazerem sentido na mente de Riley, sem Hovis dizer uma palavra. Ele era um traficante de droga, mas não um traficante de droga sociopata. Ele fora obrigado a vender drogas para manter o seu vício.

Então ela lembrou-se da pergunta que ele tinha feito antes

“Como é que elas morreram?”

Ela pensou novamente nas mulheres do Kinetic Custom Gym - quão cansadas e desgastadas pareciam. E Chrissy também. Hovis tinha medo de que ele fosse responsável pelas suas mortes.

“Você não as matou,” Disse Riley.

Riley viu algo novo na expressão de Hovis. Quase parecia gratidão. Ela sabia que o seu pequeno jogo de xadrez com Hovis tinha chegado ao fim. Terminara num empate, o que convinha aos propósitos de ambos.

“Agora vamos embora, Sr. Hovis,” Disse Riley. “Obrigado pelo seu tempo.”

Bill parecia apenas ligeiramente surpreendido por Riley estar a encurtar o interrogatório. Ela sabia que ele estava habituado às suas conclusões silenciosas.

Quando ela e Bill saíram do prédio, Riley disse, “Ele não é o nosso homem. Mas ele vendia para o Jaybird. O Jaybird gosta de manter as suas mulheres dependentes e desamparadas. Hovis não gostou. Ele prefere fazer negócios com dependentes como ele, pessoas que têm algum controlo sobre as suas vidas. Então ele cortou o fornecimento ao Jaybird.”

“Já percebi,” Disse Bill. "Então o Jaybird estava chateado e deu-nos o nome de Hovis só para se vingar dele."

“Sim - o filho da mãe traiçoeiro. Hovis só se queria eliminar como suspeito, para podermos continuar o nosso trabalho. Na verdade ele estava a tentar ajudar.”

Ela pensou por um momento e acabou por acrescentar, “O nosso acordo com o Jaybird fica sem efeito. A pista era falsa. Assim que tiver a oportunidade, vou assegurar-me que o negócio dele chega ao fim.”

Bill sugeriu, “Se dermos uma dica à polícia local, eles limpam o local.”

“Eu sei,” Disse Riley. Ela pensou por um momento, depois disse, “Mas também quero dar a essas mulheres algum tipo de alternativa. Quero que a Chrissy tenha a oportunidade de sair daquela vida. Ela odeia aquilo, mas tem medo do Jaybird. Tenho a certeza de que há abrigos na cidade que trabalham com prostitutas que querem abandonar aquela vida.”

“Se conseguirmos prender o Jaybird será mais fácil para as mulheres. Mas vão precisar de muita ajuda.”

Riley sabia que a maioria das prostitutas tinha sido vítima de violência ou negligência antes de entrar na vida. Elas tinham tido vidas terríveis e muitas vezes não se consideravam dignas de salvação. Algumas delas tinham problemas de SPT tão devastadores quanto o seu.

“Tenho certeza de que existem organizações em Phoenix que ajudarão,” Disse Riley. “Vou por alguém a tratar disso.”

O telefone de Bill vibrou quando estavam a entrar no carro. Viu quem era e disse, “Uma mensagem do Morley. Têm o nome e morada do marido de Gretchen Lovick. Ligaram-lhe e ele está em casa, vão enviar agentes para dar a notícia.”

Riley agonizou em silêncio por um momento. Ela sabia o que tinha que ser feito de seguida.

“Diz ao Morley que nós vamos falar com ele. Vê qual é a morada, dá-me as coordenadas e vamos até lá.”

Enquanto conduzia, Riley foi assombrada pela memória do olhar silencioso de Hovis. Ela tinha encontrado uma variedade estranha e perturbadora de pessoas ultimamente. Alguns deles eram simplesmente exploradores e abusadores, como Ishtar Haynes, Calvin Rabbe e Jaybird. Outros eram simplesmente vítimas, como Justine, Trinda, Jilly e Chrissy.

Mas outros eram mais difíceis de perceber. Houvera Rex, o motorista - um homem que gostava das suas prostitutas, mas ficou horrorizado quando no meio delas viu uma criança. E agora havia Hovis, um homem que não queria prejudicar ninguém, mas que, no entanto, destruíra vidas com as drogas que vendia.

Era um estranho território moral e Riley não se sentia confortável nele.

Mas agora tinha que afastar esses pensamentos da sua mente. Chegara o momento de fazerem uma visita ao marido de Gretchen Lovick e contar-lhe a terrível notícia. Uma vez que o corpo não tinha sido previamente identificado, o mais certo era nem saber que ocorrera um homicídio. No que lhe dizia respeito, esse tipo de coisa era a pior parte do seu trabalho. E desta vez seria pior do que o normal.

Como é que Riley e Bill iriam explicar este caso doentio ao marido da mulher assassinada?