Arrebatadas

Blake Pierce · Capítulo 22 de 42

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Arrebatadas

Capítulo Vinte e um

Riley pensou que o Kinetic Custom Gym parecia mesmo a fachada de um bordel. O lugar tinha mau aspeto e estava decrépito, ainda mais do que o bairro problemático em que se encontrava. Um sinal de "FECHADO" estava pendurado à porta, mas ela tinha a certeza de que o lugar estava aberto e a funcionar para um tipo de negócio bem diferente.

O carro em que ela e Bill chegaram era o único veículo no parque de estacionamento. Quando saíram e caminharam em direção ao edifício, puderam ver algumas máquinas de exercícios pelas janelas da frente. A única pessoa à vista era um homem sentado na receção. Ele devorava uma cópia do Scientific American. Riley presumiu que se tratava de Jaybird, o homem que Snowflake indicara. E Riley tinha certeza de que ele era um proxeneta.

Se ele era ou não o assassino que procuravam, isso era outra questão.

Bill estava prestes a tirar o seu distintivo para o mostrar pela janela.

“Ainda não,” Disse-lhe Riley.

Ela queria tirar algumas conclusões sobre o homem antes de descobrir quem eles eram. Ela sorriu agradavelmente e bateu na janela. O homem levantou os olhos da revista. Ela acenou como se ela e Bill fossem apenas clientes que quisessem ver o lugar.

O homem apontou para o sinal FECHADO e continuou a ler. Riley bateu na janela novamente, sempre a sorrir. O homem fitou-a mais uma vez, percebendo que ela e Bill não se iriam embora.

Levantou-se e caminhou em direção à porta. O homem era louro e tinha cerca de trinta anos - um homem baixo e musculoso que andava de forma arrogante e orgulhosa com os punhos cerrados. Riley conseguia decifrar muita coisa na forma como se movimentava. Soube que tinha experimentado muita violência na vida e que a podia eliminar quando precisasse ou quisesse.

É este o homem que procuramos? Questionou-se. Começou a parecer algo bastante provável.

O homem destrancou a porta e espreitou para o exterior.

“Estamos fechados,” Disse. “Não sabem ler o sinal?”

Sorrindo tão encantadoramente como sempre, Riley apontou para as horas indicadas nas portas de vidro.

E disse, “Sim, mas de acordo com isto, deviam estar abertos. Só queremos dar uma vista de olhos.”

“Não me parece,” Ripostou o homem.

Chegara o momento de parar de fingir. Riley mostrou o seu distintivo.

“Sou a Agente Paige e este é o meu parceiro, Agente Jeffreys.”

Do rosto do homem irrompeu um sorriso endiabrado. Se estava intimidado, não o demonstrou.

“Com que então, FBI?” Disse. “Por que não disseram logo? Entrem.”

Bill e Riley entraram.

Riley olhou à sua volta, reparando nas decrépitas máquinas - esteiras, uma máquina de remo, duas máquinas de pesos. Cheirava a coisas velhas e estagnadas. Riley também tirou as medidas ao espaço total daquela área visível e concluiu que devia haver muito espaço na parte de trás para a realização de serviços ilícitos.

“O seu nome é Jaybird?” Perguntou Bill.

“Sim, sou eu,” Respondeu o homem. “Mas penso que devem precisar do meu nome verdadeiro para, do tipo, fins oficiais. Chamo-me Jerome Kehoe.”

Ele não oferecera uma cadeira a Bill e Riley propositadamente, não fazendo qualquer esforço para os deixar confortáveis. Mesmo assim, mantinha uma aparência de hospitalidade.

“Sabem, vocês são mesmo as pessoas com quem quero falar agora. Quero dizer, vocês fazem parte de uma força policial. Isso significa que estão interessados em questões de livre arbítrio, certo? Porque não tenham dúvidas que eu estou.”

Jaybird pegou na revista que estava a ler e acenou-a na direção de Riley e Bill.

“Este artigo diz que os cientistas provaram que a nossa realidade é apenas uma simulação de computador,” Despejou ele muito rapidamente. “Quero dizer, olhem à vossa volta, olhem para tudo que veem, cheiram, saboreiam, tocam. Tudo não passa de realidade virtual numa moldura gigante.”

Riley percebeu que ele os estava a distrair com aquela conversa absurda. Mas também captou que o seu interesse era genuíno. Ele era inteligente, até filosófico.

Também teve a certeza de que era emocionalmente volátil - extremamente. Ela pressupôs que a sua hiperatividade era periodicamente interrompida por colisões emocionais, marcadas por terríveis acessos de fúria. Mesmo fúria assassina, tinha a certeza.

Acima de tudo, ele era bom a enganar as pessoas, a mantê-las desequilibradas, manipulando-as. Se ela e Bill não se chegassem à frente, o mais certo seria deixarem aquele lugar com nada mais do que uma subscrição de um ano de um ginásio inexistente.

Ele continuou, “Quero dizer, pensem nas implicações ontológicas dessa merda, para o tipo de trabalho que vocês fazem. Porque se eu cometer um crime, mas é pré-programado em algum tipo de máquina de Deus onipotente, eu sou realmente culpado? Sou responsável pelo meu próprio comportamento? Vocês são? Alguém é? É uma pergunta interessante, não é?”

Riley sabia que era melhor não se envolver em qualquer discussão. Era hora de passar ao cerne da questão.

“Gostaríamos de saber onde estava e o que estava a fazer ontem à noite,” Principiou Riley.

“A que horas?” Perguntou Jaybird.

“Entre o pôr-do-sol e a aurora,” Disse Bill.

Jaybird grunhiu um pouco impaciente. “Isso são muitas horas. E as minhas noites podem ser bastante ocupadas, se é que me faço entender. E eu não durmo. Eu nunca durmo. Ando sempre por aí. Então, é uma pergunta difícil. Eu não sou um erudito constitucional, mas tenho a certeza que não estão aqui para me prender, mas ainda assim, tenho a certeza de que não tenho que responder a nenhuma pergunta. Corrijam-me se estiver enganado. Estou enganado?”

Riley ergueu abruptamente o seu telemóvel para lhe mostrar a selfie de Chiffon.

“Esta é uma das suas meninas, não é?” Perguntou Riley.

Riley percebeu pela sua expressão que finalmente conseguira desequilibrá-lo. Nem valia a pena mentir.

“Sim,” Anuiu. “Chama-se Chiffon. Ela trabalha aqui.”

“O que é que ela faz?” Perguntou Bill.

Jaybird encolheu os ombros.

“Dá massagens,” Declarou. “Tenho mulheres aqui que fazem isso. Não há nada de errado em dar massagens.”

“Ninguém disse que havia,” Ripostou Bill com ironia. “A minha parceira disse que havia algo de errado com isso? Eu disse que havia algo de errado com isso? Quem é que disse que havia alguma coisa de errado com isso?”

Riley gostou de ver Bill a meter-se com aquele tipo, a virar o feitiço contra o feiticeiro. Ela pressentiu que Jaybird começava a ficar um pouco intimidado. Jaybird podia ser duro, mas Bill era maior e igualmente imponente.

Vou deixar o Bill levar a dele durante um bocado, Pensou.

“Não, ninguém disse isso,” Disse Jaybird. “Mas a Chiffon não está cá.”

“ Nós sabemos,” Continuou Bill. “Ela está morta.”

Jaybird não disse nada. Riley não sabia como interpretar a sua reação - ou falta dela. Talvez Bill pudesse compreendê-lo melhor.

Naquele momento, o telemóvel de Riley tocou. Ela afastou-se de Bill e Jaybird para atender a chamada. Era Elgin Morley a ligar da sede. Riley podia ouvir Bill e Jaybird a falarem durante o telefonema.

“Agente Paige, tivemos alguma sorte,” Disse Morley. “Fizemos uma busca de registos dentais para o crânio encontrado esta manhã e encontrámos uma correspondência. O nome da vítima era Marsha Kramer. A família informou que estava desaparecida há três anos. Ela estava na faculdade quando desapareceu.”

“Podia enviar-me uma foto dela?” Pediu Riley.

“Envio-lhe já,” Disse Morley.

Enquanto Riley esperava, ouviu Bill e Jaybird prosseguirem o debate. Bill tentava obrigá-lo a falar mais sobre Chiffon, sem muito sucesso. Riley tinha que regressar àquela conversa.

Entretanto recebeu a foto de Marsha Kramer.

Riley agradeceu a Morley e terminou a chamada. Entretanto, caminhou para junto de Bill e Jaybird, e mostrou a foto.

“E esta jovem?” Perguntou Riley. “Conhece-a?”

Jaybird não disse nada, mas viu um flash de reconhecimento nos seus olhos.

Bill disse, “Jaybird - Sr. Kehoe... Vamos parar com os joguinhos. Nós não temos um mandado, mas não teremos problemas em conseguir um. Tudo correrá melhor para si se cooperar.”

“Sim, eu lembro-me dela,” Disse Jaybird. “Já lá vai muito tempo. Anos, talvez. Não me lembro dela muito bem. Sinceramente, não. Talvez a minha mulher pudesse ajudar.”

Jaybird virou-se e caminhou em direção a uma porta que dava para a parte traseira do edifício. Riley seguiu-o, determinada a não o perder de vista. Jaybird não fez nenhum esforço para a impedir. Ouviu os passos de Bill logo atrás de si.

A caminho das tarseiras, passaram por uma porta aberta. Riley parou e olhou lá para dentro. O quarto era uma sauna com painéis de cedro. Mas não estava a ser utilizado naquele momento e provavelmente não era há anos.

Em vez disso, o quarto agora parecia ser uma área de descanso para as mulheres que ali trabalhavam. Seis delas de proveniências várias e escassamente vestidas estavam lá naquele momento. Nenhum delas era atraente e todas pareciam cansadas, doentes e apáticas.

Riley estremeceu. Uma imagem brilhou na sua mente, a gaiola escura de Peterson e a sua chama de propano. Ela não tinha a certeza por que lhe surgira agora aquela imagem. Sacudiu-a da memória. Havia trabalho a fazer.

“Estas são as minhas meninas de massagem,” Disse Jaybird. “E se tiver tempo, oferecemos-lhe uma massagem grátis.” E dirigindo-se a Riley, acrescentou, “Você também. Mas parece que está de serviço. Bem, talvez noutra altura.”

Riley sabia que aquilo não era bluff, pelo menos não exatamente. Se ela ou Bill pedissem, qualquer uma daquelas mulheres estava preparada para lhes dar, pelo menos, uma espécie de massagem. Ainda assim, ela tinha a certeza de que nenhuma das mulheres estava certificada ou treinada para aquele serviço.

Jaybird conduziu-os por um corredor ladeado de cubículos com cortinas, onde os clientes certamente obtinham os seus serviços. A privacidade não era obviamente uma prioridade num negócio de baixo nível como aquele.

O corredor terminou na entrada das traseiras. Uma mulher na casa dos vinte anos estava sentada a uma secretária a ver televisão num pequeno aparelho e a mastigar pastilha elástica. Estava vestida como as outras mulheres e a sua expressão era igualmente vaga. Riley sentia-se bastante segura de que os clientes usavam esta entrada traseira em vez da frente, e que aquela mulher era rececionista.

“Esta é a minha mulher, Chrissy,” Disse Jaybird a Riley e Bill. “Chrissy, estão aqui uns agentes do

FBI.”

Chrissy parecia preocupada.

“Não te preocupes, vêm em paz,” Disse Jaybird com uma risada. “Só querem fazer algumas perguntas.”

Riley interrogou-se se Jaybird e Chrissy eram realmente casados. Nem usavam uma aliança de casamento. Qualquer que fosse o seu relacionamento real, Riley tinha a certeza de que não era exclusivo.

“Eles têm más notícias sobre a Chiffon,” Disse Jaybird. “Dizem que ela está morta.”

Chrissy soltou um esgar de choque. Riley percebeu que ela devia ter conhecido bem a vítima.

“Quem a matou?” Perguntou Chrissy.

As palavras pareceram reveladoras a Riley – ela não perguntara “Como é que morreu?”, mas “Quem a matou?”

Antes que Riley pudesse responder, Jaybird riu e disse, “Bem, se ouvires estes dois, vais pensar que fui eu. Dizem que foi ontem à noite. Mas tu sabes que não fui eu, não é, Chrissy?”

Chrissy sorriu debilmente.

“Com certeza que não foi o Jaybird,” Disse ela. “Eu sei o que é que ele estava a fazer a noite passada.”

“Sim, a Chrissy sabe,” Disse Jaybird com uma risada grosseira. “Ela até pode contar alguns detalhes. Mas nem tudo seria muito apropriado para a senhora,” Acrescentou, indicando Riley novamente.

“Eu tinha um mau pressentimento acerca dela,” Continuou Chrissy. “Ela às vezes passava muito tempo sem vir trabalhar, mas desta vez parecia diferente de alguma forma. O marido já sabe?”

A pergunta apanhou Riley de surpresa. E Bill tivera a mesma reação.

“Ela era casada?” Perguntou Bill.

“Sim, o marido fazia qualquer coisa relacionada com computadores,” Disse Chrissy. “Ela tem... Teve… Três filhos.”

Chrissy encolheu os ombros e acrescentou: “Ela não precisava de trabalhar aqui. Quero dizer, ela não precisava do dinheiro. Ela só estava aborrecida.”

Riley detetou os olhares que Chrissy trocara com Jaybird. Ela estava a ter cuidado para não dizer nada que ele não quisesse que ela dissesse. Ele lançava-lhe todo o tipo de olhares, acenos e piscadelass como indicações não-verbais. Ainda assim, naquele momento, Jaybird não parecia preocupado com o que Riley e Bill sabiam sobre o negócio. Era óbvio que não era um segredo. E afinal de contas, eles não estavam ali para o matar.

Mas pode ter mais com que se preocupar, Pensou Riley.

Riley ainda não conseguia decifrar se ele seria o assassino.

Riley disse, “Chiffon não era o seu nome verdadeiro, pois não Chrissy?”

Chrissy abanou a cabeça. “Chamava-se Gretchen qualquer coisa. Oh, sim. Gretchen Lovick.”

Riley mostrou-lhe a foto da mulher que acabara de ser identificada, Marsha Kramer.

“Conhecia esta mulher?” Perguntou a Chrissy.

Chrissy franziu as sobrancelhas enquanto se tentava lembrar.

“Oh, sim,” Disse por fim. “Foi há muito tempo. Chamava-se Ginger. Nunca soube o seu nome verdadeiro. Pensei que tivesse morrido. Quer dizer, talvez ela não tenha muito tempo para viver. Ela…”

Jaybird cortou-lhe a frase com um grunhido. Mas Riley debruçou-se para perto dela e disse gentilmente, “Ela era o quê, Chrissy?”

“Ela estava muito doente,” Concluiu Chrissy.

Riley percebeu que Chrissy agora tinha medo de Jaybird. O melhor era não forçar o assunto. Além disso, o que Chrissy quisera dizer era óbvio. Marsha "Ginger" Kramer tinha sido seropositiva.

Então Bill perguntou a Chrissy, “Conhece uma mulher chamada Snowflake?”

“Sim, ela trabalhava aqui, ela…”

Mas Jaybird pigarreou e ela parou a meio da frase.

“A Snowflake já não trabalha aqui,” Atirou Jaybird.

Mais uma vez, Riley não viu necessidade de forçar mais o assunto. Tudo estava bem claro para ela. Snowflake tinha fugido deste lugar horrível por causa da brutalidade de Jaybird. Só porque estava livre de Jaybird é que ousara colaborar.

“Ei, esperem lá,” Disse Jaybird. “Esperem lá. Eu sei quem é que vocês devem investigar.”

“Quem?” Perguntou Riley.

“Calma,” Disse Jaybird. “Só vos digo se não me incomodarem. Estou apenas a gerir um negócio honesto.”

O estômago de Riley deu uma volta só de pensar em fazer qualquer tipo de acordo com aquele homem.

“OK,” Concordou Riley, “mas só se a dica for boa.”

“É um tipo que se chama Clay Hovis. Sim, eu recordo-me da Ginger ter medo dele. Todas as nossas miúdas tinham medo dele. Especialmente a Chiffon. Na verdade, eu acabei por correr com ele daqui porque tinha sido muito duro com a Chiffon. Não é verdade, Chrissy?”

Chrissy assentiu em silêncio.

Jaybird disse: “Sim, tem que ser o Clay. Ele é realmente má rês. Dá-me um papel para eu escrever o nome e a morada.”

Chrissy entregou a Jaybird um papel e um lápis, e Jaybird anotou algo. Enquanto Bill lhe pedia alguns detalhes sobre Hovis, Riley virou-se para observar Chrissy.

Riley ficou com o coração apertado. Ainda em silêncio, Chrissy olhava para ela com uma expressão implorante. Depois de todos os sinais não ditos que Chrissy e Jaybird tinham trocado, Riley teve a certeza de que Jaybird iria bater-lhe mal ela e Bill se fossem embora. A pobre mulher queria desesperadamente alguém para resgatá-la daquela vida horrível. Mas Riley sabia que qualquer resgate seria temporário. Esta mulher tinha que estar disposta a resgatar-se. E todas as outras também.

Enquanto os homens conversavam, Riley inclinou-se e sussurrou a Chrissy, “Pode vir agora comigo se quiser.”

Chrissy olhou para ela sem entender.

“Eu posso levá-la para um lugar onde pode ficar. Há pessoas que podem ajudá-la.”

Chrissy disse que não com a cabeça. Agora Riley sentia-se doente.

Ela tem demasiado medo para sequer pensar em ir embora, Compreendeu Riley.

Entregou o cartão a Chrissy e sussurrou, “Ligue-me se mudar de ideias.”

Chrissy aceitou o cartão, mas desviou o olhar.

Agora Riley sabia por que as mulheres doentes, cansadas e desesperadas na sauna a fizeram recordar a gaiola de Peterson. O seu tormento tinha durado apenas alguns dias. Chrissy e o resto das mulheres que ali viviam, cumpriam pena de prisão perpétua.

De certa forma, não importava muito se Jaybird era o assassino que procuravam, ou Hovis, ou qualquer outro homem.

São todos monstros, Pensou Riley.

E não havia forma de os deter a todos.

Riley afastou-se de Chrissy e caminhou ameaçadoramente na direção de Jaybird.

“Espero bem que a dica seja boa,” Trovejou Riley. “Dê-me só uma desculpa. Dê-me o mais ínfimo motivo. E abato-o como um cão.”

Jaybird olhou para ela sombriamente.

“Vamos,” Disse Bill a Riley. “Vamos ter com este Clay Hovis.”