Arrebatadas

Blake Pierce · Capítulo 37 de 42

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Arrebatadas

Capítulo Trinta e Seis

Riley passou a manhã seguinte no avião do FBI a caminho de Nova Iorque. O dia quase já tinha terminado quando entrou na pequena sala de visitas de Sing Sing. Já ali tinha estado antes, mas não esperava ali ter que voltar.

Não era uma visita que lhe agradasse.

E lá estava ele - o assassino Shane Hatcher, sentado à mesa à espera dela. Era um Afro-Americano de meia-idade, forte de corpo e mente, e extremamente inteligente. No mais fundo de si mesma, Riley sentia que ele era o ser humano mais perigoso que ela já conhecera.

Hatcher tinha ligado na noite anterior, o homem que tinha dito enigmaticamente...

“Tem que falar comigo.”

Da experiência passada, Riley sabia que devia confiar no que ele dizia.

Sentou-se à sua frente. Como sempre, ele estava vestido com um macacão verde-escuro e usava uns pequenos óculos de leitura.

“Já lá vai algum tempo,” Disse ele.

“Nem por isso,” Disse Riley.

Na verdade, ela visitara-o duas vezes no mês anterior. A conselho de Mike Nevins, ela tinha ido ter com Hatcher devido às suas ideias sobre a mente do assassino das correntes.

Na sua juventude, Hatcher tinha sido um membro de gang implacável que se especializara em matar com correntes. Depois de ter espancado um polícia a ponto de o transformar numa massa irreconhecível e deixado o corpo na sua varanda para a mulher e filhos encontrarem, Hatcher tinha sido condenado e enviado para Sing Sing. Estava ali desde então. E provavelmente ali ficaria para o resto da sua vida.

Isso não incomodava Riley. A verdade era que, na sua opinião, Hatcher não merecia viver - não mais do que Derrick Caldwell merecia viver. Até já lhe tinha dito isso na cara, para seu óbvio prazer.

Mas ela não podia negar que ele era um recurso valioso. Ao longo dos anos, tornara-se num criminologista respeitado. Na verdade, ele era agora um reconhecido especialista na área. Publicara uma série de artigos académicos e fora dessa forma que Mike Nevins soubera da sua existência.

“Disse que me pode ajudar,” Disse ela.

“Eu ajudei-a da última vez, não ajudei?” Perguntou Hatcher.

Riley assentiu com a cabeça. “Como é que soube deste caso?”

Hatcher encolheu os ombros e sorriu.

“Como é que acha? Jornais. Televisão. A Internet.”

Riley olhou para ele com ceticismo.

“E pensa que me pode ajudar, apenas com base na cobertura dos meios de comunicação?”

Ele não respondeu, apenas continuou a sorrir para ela.

“Quer um favor para me ajudar, é claro,” Disse Riley.

“Claro.”

“O que é que quer?”

Ele soltou uma risada sinistra. “Simplesmente o prazer da sua companhia,” Disse.

As palavras fizeram a pele de Riley eriçar-se. Por muito que ele estivesse preso, Riley não conseguia deixar de pensar nele como um perseguidor. Estaria ele obcecado por ela? O telefonema de ontem fora apenas um ardil? Teria ele alguma intenção de a ajudar?

Ela estava determinada em concentrar-se no assunto em questão.

“Houve um novo desenvolvimento no caso,” Disse ela. “O nosso assassino parece ter levado uma rapariga. Não sabemos se ela está viva.”

Hatcher inclinou a cabeça com interesse.

“Um rapto,” Disse ele. “Interessante. Não o seu MO. A rapariga era uma prostituta adolescente?”

“Não sabemos. Não a identificámos. Ela parece ter fugido de casa. A mulher que a viu disse que tinha uma mochila.”

Hatcher afagou o queixo como se estivesse profundamente imerso nos seus pensamentos.

“A coisa toda da prostituição - que mundo feio, não é? Sou a favor de homens e mulheres fazerem o que quiserem. Mas tem tudo a ver com escolha. Eu fiz as minhas escolhas e vou viver com elas. Todos devem ter essa oportunidade. Mas uma criança na rua, bem...”

Fez uma pausa e depois disse, “Há abrigos para crianças assim. Existem grupos que ajudam a tirá-las da rua. Tem que os ver.”

“Faremos isso,” Disse Riley.

Outro silêncio se seguiu. Riley sentia-se desconfortável. Teria ela feito aquela viagem para nada?

“Não tenho tempo para jogos hoje,” Disse ela. “Está em causa a vida de uma rapariga. Diga-me o que sabe.”

Novamente veio aquela risada sombria.

“Não,” Disse Hatcher. “Diga-me o que sabe.”

*

O homem que se chamava T.R. sentou-se numa cadeira na sua cave, de frente para a rapariga que estava presa a outra cadeira com fita adesiva. Naquele momento a sua boca não estava amordaçada. Ela estava demasiado sedada para gritar. Rolava a cabeça e gemia.

“Não devias ter fugido de casa,” Disse ele.

Ela tentou olhar para os olhos dele. Ele não tinha a certeza se ela compreendia o que ele estava a dizer.

“A tua mãe deve estar preocupada,” Disse ele. “Nunca pensaste em como ela ficaria preocupada?”

Novamente, ela não respondeu.

Ele não gostou nada daquilo. Quando ele a apanhou no dia anterior de manhã, pensou que era apenas mais uma prostituta. Fora um erro estúpido. Estava cansado, assustado e desatento. Além disso, ela disse que conhecia Socorro. Lembrou-se das palavras exatas dela...

“Nós conhecemo-nos há muito tempo, a Socorro e eu.”

Demorara apenas alguns minutos a perceber que ela estava a mentir. Ela era apenas uma adolescente fugitiva que diria qualquer coisa para lhe darem boleia. Mas depois já era tarde demais. A prostituta na Avenida Conover reconhecera-o e agora a rapariga podia identificá-lo.

Felizmente, ele conseguira sedá-la logo no carro. E agora ele não tinha escolha a não ser matá-la. Ele não estava acostumado a matar por necessidade. Não haveria nada de epicurista nessa morte. Foi um desagradável pensamento, ter que matar sem dali retirar prazer.

Mas não se podia evitar e ele não se sentia culpado. Afinal, era culpa da miúda por ter fugido. E da mãe também. A rapariga chamava pela mãe de vez em quando desde que a tinha ali.

“A tua mãe devia ter cuidado melhor de ti,” Disse ele. “Não devias ter fugido.”

Ela gemeu suavemente. Parecia ainda não entender.

Ele não sabia ao certo por que é que ainda não a tinha matado. Mantê-la viva era um problema. De vez em quando, ele expulsava-a do seu estupor por um pouco de comida e água. Algumas vezes até a desatou para que pudesse utilizar a casa de banho da cave. Ela estava demasiado drogada para tentar o que quer que fosse.

Ainda assim, matá-la era inevitável e ele sabia disso. Ele parecia estar à espera do momento certo e esse momento ainda não chegara. Ele era, afinal de contas, um homem civilizado que gostava de fazer as coisas de maneira civilizada.

Mas mantê-la cativa era arriscado. Já assumira um risco demasiado elevado. Outro poderia significar o seu fim. Não gostava de riscos. Não gostava de perigo.

Agora ela gemia um pouco mais alto. Ela conseguiu focar os olhos nele. Ele viu o medo a crescer nos seus olhos. Ele pegou numa agulha hipodérmica e espetou-lha no braço. Ela ficou imediatamente quieta novamente.

*

“Está muito perto,” Disse Hatcher com um sorriso obscuro.

Riley não fazia ideia do que ele queria dizer. O que é que ele pensava que era aquilo, um jogo de escondidas?

Tinham-se passado duas horas sem que ambos se tivessem levantado. Falaram incessantemente. Até àquele momento, Riley não considerara a conversa informativa, mas estava longe de ser maçadora.

Hatcher tinha-a alertado para detalhes que mesmo Morley ou Brent Meredith não teriam exigido. Ele parecia especialmente intrigado com o enigmático Garrett Holbrook, o irmão da vítima Nancy Holbrook. Hatcher achou estranho que Holbrook insistisse que o assassinato de Nancy se tornasse uma investigação do FBI, para permanecer na periferia desde então. Isso também impressionara Riley.

"O que pensa dele?" Não parava de perguntar a Riley.

Riley desejava saber mas ainda não sabia.

Mas Hatcher parecia menos interessado no que ela tinha observado ou aprendido do que nas suas ações e reações - o que ela realmente estava a fazer e como se sentira, até ao último detalhe sensorial. Ele exigiu saber tudo o que ela tinha experimentado desde que ela e Bill tinham entrado no avião do FBI para Phoenix no último sábado.

O que sentira ao visitar um verdadeiro bordel? Como é que se sentira quando fingiu ser uma prostituta? Quando salvou a adolescente que fugira de casa? Ou quando o suspeito fugiu por entre os seus dedos?

Então ele voltou à questão de ela ter fingido ser prostituta.

Ele disse, “Gostava de ter visto.”

Quando ela não respondeu, acrescentou, “Você é uma mulher bonita. Como é que se está a dar com o seu parceiro? O que é que ele pensa de haver outros homens na sua vida?”

Ela ignorou essas perguntas também. Finalmente, ele acenou com a cabeça e mudou de assunto.

As perguntas tinham-se tornado perturbadoras. O interesse de Hatcher pela vida interior de Riley pareceu-lhe algo distorcido, até mesmo voyeurista. Parecia cada vez mais provável que ele estivesse obcecado por ela. Teria ela feito aquela viagem apenas para satisfazer a sua curiosidade distorcida?

Por fim, a conversa tinha acabado por redundar naquilo que Riley não podia deixar de considerar irrelevâncias. Ele exigiu ouvir um relato completo do colapso mental de April e de como Riley tinha desafiado Morley, indo ao encontro da filha para a ajudar.

E naquele momento, auscultava-a sobre a sua visita ao pai. Ele insistia em saber cada palavra proferida nesse terrível encontro. Recitava tudo de memória.

Porquê? Continuava a interrogar-se Riley.

Era a última coisa de que queria falar naquele momento. Ela não queria pensar mais no pai. Esperava nunca mais ter que o ver.

Hatcher parecia estar a brincar com ela. E aquilo desagradava-lhe mais a cada minuto que passava.

Finalmente, ele recostou-se na cadeira, com os óculos apoiados na ponta do nariz.

“Está muito perto,” Disse ele novamente.

As palavras eram irritantes.

“O que é que quer dizer com isso?” Perguntou Riley.

E ali ficou ele sentado, sorrindo em silêncio novamente.

“Eu gosto desse seu paizinho,” Disse ele finalmente.

Riley sufocou o desejo de dizer que ela não gostava dele, mas reprimiu-o e não disse nada.

“Ele e eu temos muito em comum,” Disse Hatcher.

Agora Riley tivera que se impedir de dizer que concordava com ele. Hatcher e o pai eram monstros no seu caminho. Ambos tinham tido o seu quinhão de matança - o pai no Vietname, Hatcher nas ruas da sua juventude. Eles eram manipuladores e não davam qualquer importância aos sentimentos das outras pessoas. E nenhum deles parecia realmente capaz de sentir arrependimento.

“Não respeita o seu pai o suficiente,” Declarou Hatcher.

A raiva de Riley aumentava mas esforçou-se por reprimi-la. Ele só ficaria satisfeito se ela descarregasse nele.

Ele inclinou-se para ela, perscrutando os seus olhos profundamente, sorrindo sombriamente.

“Está muito perto,” Continuou a repetir. “Devia dar ouvidos ao seu paizinho.”

Ele susteve o seu olhar durante um interminável momento. Então virou-se e gritou, “Guarda, acho que terminámos.”

Levantou-se da cadeira quando o guarda abriu a porta.

“É tudo o que tem a dizer?” Perguntou Riley.

“Oh, eu disse muito, querida. Eu disse exatamente o que precisava de ouvir. Um dia vai-me agradecer. Acredite, vai-me agradecer.”

Hatcher seguiu o guarda atrás da porta aberta. O guarda fechou de novo a porta com um golpe de ferro pesado.

“E vamos encontrar-nos de novo,” Disse ele através das grades. “Lembre-se do que lhe digo, vamos encontrar-nos de novo.”

*

Pouco tempo depois, Riley já estava no avião do FBI a observar as Montanhas Catskill a rastejarem debaixo dela. Teria aprendido alguma coisa com Hatcher? Se assim fosse, não compreendia o quê. No entanto, ele tinha sido muito enfático sobre algo...

“Devia dar ouvidos ao seu paizinho.”

Contou-lhe todas as palavras que o pai lhe dissera durante a visita. Ele apanhou alguma coisa. Será que o pai lhe tinha dado uma dica sem que ela se tivesse apercebido?

Riley estava cansada e fechou os olhos. Voltou para o pesadelo do seu cativeiro, a chama brilhando na escuridão. Perguntou-se se talvez devesse ficar ali, naquela memória, naquela escuridão particular. Afinal, os recessos escuros da sua mente tinham-na servido bem no passado. Ela tinha sido capaz de entrar na mente do mais cruel dos assassinos.

Mas então, trespassada por um arrepio, lembrou-se de algo que o pai tinha dito...

"Não estás a lidar com um monstro. Raios, nem sequer estás a lidar com o mal. Estás a lidar com o que as pessoas chamam de normal.”

E ela lembrava-se de como ele o descrevera...

“O oposto de mim e o oposto de ti.”

Talvez - apenas talvez - o pai tivesse deslindado o que a intrigava. Seria possível que ela estivesse finalmente a lidar com um assassino cujo coração não era tão frio e escuro quanto o dela?

Com os olhos ainda fechados, imaginou-se a sair daquela escuridão cativa, longe da chama, subindo em direção à luz do sol.

Sim, ela agora sentia-se mais perto dele. Ela estava no seu encalço. E encontrá-lo-ia a viver uma vida quotidiana normal, num mundo povoado por pessoas que não eram monstros. Porque ele próprio não era um monstro. Ou pelo menos não se via como um monstro.

Não como o meu pai, Pensou. E não como eu.

A sua mente estava agora exposta à luz do dia. Ela podia sentir-se a ver o dia através dos seus olhos, sentir o sol na sua pele, o conforto agradável de uma vida respeitável.

No entanto, ela também podia sentir a sua apreensão e medo. Essas emoções eram-lhe estranhas. Ele não sabia como lidar com elas. Ele estava acostumado apenas à amizade, respeito, autoconfiança e até mesmo a um sentimento de justiça. Mesmo agora, ele não sentia que tivesse feito nada de errado. Mas ele estava fora da sua zona de conforto, esgotado e assustado, e nunca se sentira assim antes.

Ela sorriu para si mesma. Lembrou-se das palavras que Hatcher repetira.

"Está muito perto."

Era verdade. Ela estava perto. Agora só precisava de resolver o caso com Bill. Ligou-lhe.

“Alguma informação relevante?” Perguntou Bill.

Riley pensou por um momento. “Devemos verificar os abrigos de crianças fugidas de casa. Começa com o abrigo onde está a Jilly. Pergunta se talvez a menina poderia ter estado num abrigo em algum lugar em Phoenix. E vê como tem passado a Jilly.”

“Vou fazer isso.”

Bill fez uma pausa. Parecia ter algo em mente.

“Riley, tenho uma ideia,” Disse ele.

“O que é?” Perguntou Riley.

Outro silêncio caiu.

“Ainda estou a montá-la,” Disse ele. “Digo-te quando voltares. Estás de regresso a Phoenix a tempo de me encontrares na sede às oito?”

“Claro,” Disse Riley.

“Então encontramo-nos lá,” Disse Bill.

Terminaram o telefonema. Riley perguntou-se o que teria Bill em mente. Bem, em breve saberia. E o seu instinto dizia-lhe que algo estava prestes a acontecer. Hoje à noite, na verdade. Ela tinha a certeza absoluta.