Arrebatadas

Blake Pierce · Capítulo 38 de 42

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Arrebatadas

Capítulo Trinta e Sete

Bill sentiu-se incomodado ao ver as raparigas no abrigo para adolescentes. Brenda, a assistente social residente, levou-o para a sala de estar. As raparigas lá dentro conversavam, viam TV, jogavam jogos em telemóveis, como qualquer adolescente. Mas estas crianças não eram comuns.

Este maldito caso, Pensou ele.

Ao longo dos anos, ele chegou a pensar que era imune ao horror. Mas aquele lugar perturbava-o profundamente. Era, afinal de contas, uma casa intermediária para crianças que tinham fugido do inferno -e ainda para lá poderiam voltar em breve.

Olhou para o relógio. Ainda tinha muito tempo antes que Riley voltasse. Tomaria as providências necessárias para a reunião mais tarde. Ele esperava que a sua intuição estivesse certa. Ele queria fechar o caso o mais rapidamente possível.

Entretanto, havia que salvar uma rapariga. Uma miúda como aquelas. Contudo, ela já poderia estar morta.

Ele podia ver que algumas das raprigas estavam visivelmente feridas. A maioria delas tinha um olhar cauteloso que ele reconheceu como um sinal de contusões emocionais. Todas elas tinham sido levadas para aquele local porque eram prostitutas novatas ou tinham tentado tornar-se prostitutas. Tinham sido encontradas a vaguear nas ruas que ele e Riley tinham conhecido de perto nos últimos dias.

Lembrou-se de que Riley lhe pedira para verificar uma em particular.

Perguntou a Brenda, “Qual delas é a Jilly?”

A assistente social apontou para ela - uma jovem magra, de pele escura, sentada numa mesa com um grupo a jogar um jogo de cartas. Segurava as suas cartas junto ao peito.

“A sua parceira parece ter uma ligação especial com a Jilly,” Disse a assistente social.

“Tem,” Respondeu Bill. Então pensou que uma pequena explicação poderia ser necessária. “Mas a Agente Paige tem uma filha adolescente que passou por algumas dificuldades recentemente.”

A mulher anuiu compreensivamente. Bill pensou em ir até lá e apresentar-se a Jilly como o parceiro de Riley. Mas não sabia como é que ela poderia reagir. Como é que se sentiria ao ser abordada por um agente do FBI do sexo masculino? Parecia melhor manter a distância, pelo menos por enquanto. Mas ele poderia transmitir a Riley que Jilly parecia estar bem.

Brenda disse, “Quando ligou disse que queria que averiguássemos sobre outra rapariga.”

“Já deve ter ouvido falar de um assassino em série que estamos a tentar apanhar,” Disse Bill.

Brenda assentiu. “Aquele que mata prostitutas.”

“Isso mesmo,” Assentiu Bill. “Estamos em crer que ele tenha apanhado uma fugitiva, uma adolescente.”

Brenda demonstrou a sua preocupação. “Elas são tão terrivelmente vulneráveis. Quem é a rapariga?”

“Esse é que é o problema. O FBI montou uma operação, mas nem sequer sabemos de quem se trata. Apenas temos uma descrição vaga. Poderia ajudar se soubéssemos mais sobre ela. Seria ótimo se pudéssemos encontrar uma foto.”

Brenda pensou por um momento.

“Ontem, foi o que disse? Nenhuma das nossas desapareceu nos últimos dias. Mas recebemos alertas de todos os abrigos. Podemos verificar.”

Brenda levou Bill diretamente ao escritório. Ela sentou-se em frente ao computador e começou a procurar.

“O que sabe sobre ela?” Perguntou a Bill.

Bill lembrou-se de alguns pormenores. Jewel, a prostituta que tinha presenciado o seu rapto, tinha-lhes dado uma descrição.

“Provavelmente terá uns quatorze anos,” Disse Bill. “Cerca de um metro e sessenta e sete, talvez menos. Loira, olhos azuis, pele pálida, fina. Tinha uma mochila.”

Brenda percorreu uma lista de nomes.

“Aqui está uma ocorrência de ontem,” Disse ela. “O nome dela é Sandra Wuttke-Sandy. Desapareceu de um centro na Avenida Windermere ontem de manhã cedo. Se estava num dos nossos abrigos, tem que ser ela.”

Brenda clicou no nome e surgiu uma foto no ecrã. Era uma rapariga magra e loira com uma expressão desafiadora. Bill assentiu com a cabeça. Parecia realmnete corresponder à descrição que Jewel fizera.

Brenda marcou o número do centro e colocou a diretora na linha em alta-voz.

“Claudia, tenho um agente do FBI aqui comigo,” Disse ela. “O Agente Bill Jeffreys. Ele está preocupado com uma rapariga que se encaixa na descrição de Sandy Wuttke. Ela pode estar em perigo.”

A voz de Claudia parecia preocupada.

“Que tipo de perigo?” Perguntou ela.

“Lamento dizer isto,” Disse Bill. “Mas ela pode ter sido raptada pelo assassino em série de que se tem falado ultimamente.”

“O homem que está a matar prostitutas?” Perguntou Claudia, com a voz trémula de alarme. “Mas isso não faz sentido. A Sandy năo é uma prostituta a sério. Ela trocou boleia ou comida por sexo algumas vezes. Depois alguém a orientou para aqui. Mas ela andava inquieta. Não fiquei surpreendida quando ela se foi embora.”

Bill perguntou, “Ela usava uma mochila quando se foi embora?”

“Usava, de acordo com as raparigas que a viram partir. Mas eu não posso acreditar que ela foi apanhada por aquele assassino. Talvez tenha ido para casa. Não tivemos tempo para confirmar. Somos tão poucos. Há tantas raparigas.”

Bill sentiu que a mulher estava a tentar arduamente não acreditar no pior.

“Poderia dar-me informações sobre a sua família?” Perguntou Bill.

Brenda parecia olhar para os seus próprios registos.

“Só temos a mãe,” Disse Claudia. “Colleen Wuttke. Ela não tem telefone. Posso mandar alguém a casa dela para confirmar.”

“Obrigado, mas é melhor ser eu a ir,” Disse Bill. “Encaminhe tudo o que tem sobre ela para o FBI local. Brenda, anote a morada para me dar.”

Bill agradeceu a ambas as mulheres e a chamada terminou. Então, munido da morada da mãe de Sandra, saiu do abrigo.

Experimentava sentimentos contraditórios. Estava grato por pessoas como aquelas estarem ali para ajudar Jilly e outras jovens.

Mas por que existiam tantas daquelas miúdas? Questionou-se. Por que é que é tão fácil aos predadores encontrarem presas?

*

Quando Bill chegou à morada, viu que se tratava de um bloco de apartamentos degradado. As crianças brincavam na calçada e alguns rapazes estavam sentados nos degraus da frente. Os rapazes olharam para ele, mas depois desviaram o olhar quando ele passou por eles e entrou no prédio.

As escadas e corredores escuros eram iluminados apenas por pequenas janelas em cada lance. O apartamento 4D encontrava-se no fundo do corredor no quarto andar.

Quando Bill bateu à porta, ouviu alguém a movimentar-se no interior. Dali a um instante, uma mulher abriu um pouco a porta e olhou para ele.

“Oh,” Disse com uma espécie de rosnado trémulo. “Eu estava à espera... Bem, não era de si que estava à espera. Quem diabos é você?”

“É Colleen Wuttke?” Perguntou Bill.

“Sim. Quem quer saber?”

Bill exibiu o seu distintivo pela estreita abertura.

“Sou o Agente do FBI, Bill Jeffreys. Gostaria de conversar consigo.”

Colleen Wuttke parecia indecisa em abrir-lhe a porta ou bater-lha no nariz. Bill colocou o pé na abertura.

“A sua filha está aqui? Sandy?”

“Nem pensar.”

“Estava à espera dela?” Perguntou.

“Não. Estava à espera de outra pessoa. E não quero falar consigo. Se tentar entrar, eu grito. Alguns tipos grandes vivem por aqui e eles não gostam de polícias.”

Bill não receava os homens, mas não ajudaria nada se ela começasse a gritar.

“Não estou aqui para prender ninguém,” Disse ele. “Eu só preciso de algumas informações.”

De repente ela soltou a porta e afastou-se. Resmungou, “Que raio, quem quero eu enganar? Ninguém se importaria se eu gritasse.”

Bill empurrou a porta gentilmente e ela cedeu. A mulher parecia esquelética e fraca e o seu rosto estava pesadamente marcado. Bill imediatamente reconheceu os sinais do vício prolongado em metanfetamina.

Ele estudou o seu rosto e não encontrou muitas semelhanças com a rapariga da foto. Mas calculou que ela seria loira se alguma vez se dignasse a lavar o cabelo.

Ele viu um quarto com um sofá rafado que obviamente servia de cama, uma mesa raquítica, um prato quente e uma pia. Uma cortina pendurada numa porta estava aberta o suficiente para mostrar uma casa de banho degradada. Uma cama de solteiro numa alcova de um lado estava apinhada de roupa.

A mulher observou-o a olhar em redor. “Isto é tudo,” Disse ela.

Ela sentou-se no sofá de frente para ele.

Bill disse, “A sua filha estava num dos abrigos da cidade para raparigas.”

“Estava?”

“Sim, mas fugiu.”

“Fugiu?”

Enquanto a mulher falava, Bill percebeu que ela não era tão velha quanto pensara. A metanfetamina havia arruinado a sua aparência, mas provavelmente tinha apenas trinta anos. Ela devia ser muito jovem quando teve a filha.

“Quando é que viu a sua filha pela última vez?”

O rosto da mulher ficou vazio. Finalmente disse, “Não faço ideia.”

Com uma das mãos ela tocou na borda da túnica, puxando-a para mostrar as pernas esqueléticas. Bill percebeu que ela estava a tentar engatá-lo e sentiu-se agoniado.

“Então ela não entrou em contacto consigo recentemente?”

“Por que é que o faria, de qualquer das formas?”

Bill não sabia o que responder.

“A Sandy nunca voltará para casa,” Disse Colleen Wuttke.

Ela pegou num par de brincos de metal de aparência barata que se encontrava numa mesa ao lado do sofá.

“Eu tinha muitas coisas destas a dada altura, bonitas, todas em tons de ouro e em forma de flores. Consegui-os baratos de um homem e vendia-os às vezes para ter algum dinheiro extra. Ela levou vários da minha coleção. Penso que já os vendeu todos agora. Eles não valem nada, mas ela não deveria ter roubado. É por isso que está à procura dela? Ela roubou alguma coisa?”

Bill estava prestes a dizer-lhe a verdade - que Sandy poderia estar nas garras de um assassino. Mas foi tomado por uma sensação de impotência. Não fazia sentido. A mulher nem se importaria se a vida da sua própria filha estivesse em perigo.

Ele entregou-lhe um cartão.

“Se ela entrar em contacto consigo, ligue-me,” Disse ele.

“Oh, farei isso com certeza,” Disse a mulher com uma nota de sarcasmo na voz.

A disposição de Bill continuava em baixo ao descer as escadas do prédio. Estava habituado a ver coisas feias e estava habituado ao homicídio. Mas também estava habituado a conseguir contabilizar as vítimas. Neste momento, o mundo parecia estar positivamente repleto de vítimas - se não do assassino, de inúmeros outros atormentadores e agressores.

Mas agora não era o momento de se deixar avassalar pelos sentimentos. Riley estaria de volta em breve. E se o palpite de Bill estava correcto, o caso estaria arrumado naquela mesma noite.