Arrebatadas
Capítulo Quarenta
Riley não estava a encontrar nada de útil e sabia que teria que desistir da busca em breve. Ela não tinha motivos legais para vasculhar a casa do médico - nada além da sua súbita intuição a seu respeito. E se a sua intuição estivesse errada? E se a sua mente paranóica a fizesse suspeitar do médico mais respeitável com quem a polícia já trabalhara?
O tempo esgotava-se e começava a entrar em pânico quando abriu um par de portas de armário e ouviu um ruído quase impercetível. Afastou uma pilha de rolos de papel higiénico.
Muito para trás do armário encontrava-se um pequeno frigorífico. Ela abriu a porta e uma luz saiu de lá de dentro.
O mini-frigorífico estava cheio de grandes garrafas de plástico branco, não frascos de prescrição. Ela pegou numa garrafa e despejou enormes comprimidos cor-de-rosa na sua mão.
Era o medicamento contra o VIH roubado. Ela tinha a certeza. Essas garrafas pareciam ter vindo diretamente de um fabricante e ela sabia que alguns desses medicamentos requeriam refrigeração.
O coração batia-lhe descompassadmente no peito quando todas as peças encaixaram nos seus devidos lugares. A sua intuição estava certa e agora os seus pensamentos atropelavam-se confusamente.
Por que é que não suspeitara de Poole na primeira visita? Por que é que o deixara encantá-la a ponto de gostar dele?
A resposta era simples. Deixara-se enganar pela sabedoria convencional. Era conhecido entre os agentes do FBI que, apesar das histórias sobre assassinos que colobaravam em investigações policiais, tal era algo que sucedia muito raramente. Ela nem sequer tinha considerado essa possibilidade.
Mas Shane Hatcher considerara-a - baseado unicamente no que ela lhe contara sobre o Dr. Poole. Hatcher sabia que Poole era o homem que procuravam. Ele sabia que Riley já tinha encontrado o assassino.
Lembrou-se do seu sorriso sinistro.
“Está muito perto.”
E agora fazia todo o sentido. Que melhor maneira para Poole encobrir os seus próprios roubos de medicamentos para o VIH? A polícia nunca suspeitaria do próprio homem que os estava a ajudar - um homem com uma excelente reputação de honestidade e integridade.
Riley ouviu um som atrás dela, mas antes que se pudesse mover, algo duro bateu nas suas costas. Ela caiu para a frente e feriu a cabeça no topo do armário. Aturdida, ela tinha consciência de que um joelho estava pressionado nas suas costas, mantendo-a contra o chão. Então o joelho afastou-se e as suas mãos foram puxadas para trás e amarradas. Ela sentiu algo a ser puxado sobre a sua cabeça e rosto.
Riley contorceu-se e tentou virar-se. Mas então veio outro brutal empurrão, que atirou o seu rosto contra o chão. Agora ele estava ajoelhado sobre ela, com o peso na parte inferior das costas, mantendo-se fora do seu alcance. Ele já tinha feito aquilo antes. Ele sabia como fazê-lo. E era mais forte do que parecia.
Riley lutou para respirar, dando pontapés loucamente. Ela não podia nem inalar nem exalar. O plástico transparente embaciado em frente dos seus olhos. Agora estava a perder a consciência. Imagens desfilavam defronte dos seus olhos. Ela esperava ver-se de regresso ao inferno da prisão de Peterson, ver o seu rosto iluminado pelo maçarico de propano. Mas em vez disso, viu o rosto do pai. A sua expressão era severa e dura. Ele segurava uma faca junto ao seu rosto.
"Deixa-me ajudar-te a safares-te desta," Dizia ele.
Viera ele em seu auxílio? Não, Riley ainda tinha suficiente presença de espírito para saber que estava a ter alucinações.
"Deixa-me ajudar-te a safares-te desta," Repetiu o pai.
E apontou a faca debaixo do seu queixo. Ela sabia o que é que ele estava prestes a fazer. Ele estava prestes a esventrá-la. Ele iria esfolá-la como um esquilo - arrancar a sua pelagem tão suave e graciosamente como se ajudasse uma senhora a tirar o seu casaco num jantar romântico.
Vou perimitir que isto termine assim? Pensou.
Iria deixar que o pai lhe fizesse aquilo?
Iria deixar o Dr. Poole fazer aquilo?
Iria deixar que aquele mundo feio de abuso e exploração a esvaziasse de tudo o que era e de tudo o que esperava ser?
Riley desbravou o caminho de regresso à consciência. Torceu o corpo com força e rapidamente. Sentiu o peso de Poole ceder quando ele caiu para um lado. Sentiu as cordas amarradas apressadamente nos seus pulsos se soltarem, e então as suas mãos estavam livres.
Tirou o plástico do rosto, e a sua garganta e pulmões ardiam da ingestão de ar. Levantou-se e virou-se.
O Dr. Gordy estava de pé à sua frente e segurava numa arma com as duas mãos. Era a arma de Bill.
Ela tentou falar, para lhe perguntar o que tinha feito a Bill. Mas depois do tempo privada de ar, as palavras não lhe saíam.
Ele segurou a arma tremulamente, parado numa posição absurda para disparar. Era óbvio para Riley que ele nunca tinha disparado uma arma na vida. Mas naquele espaço exíguo, isso não o tornava menos perigoso do que um homem que frequentava todos os dias a carreira de tiro.
Ela saltou na sua direção e ele disparou. Mas ele atrasara-se uma fração de segundo e ela já tinha desviado o seu braço. Ela ouviu a bala bater inofensivamente nos azulejos da casa de banho. A arma caiu da mão do médico e derrapou pelo chão.
Ela deu um passo atrás e bateu com o punho na sua barriga. Ele dobrou-se com um gemido audível. Ela bateu com o seu outro punho duro na parte lateral da sua cabeça que embateu contra o batente da porta e ele caiu sem sentidos no chão.
Riley sacudiu a mão. Aquilo doera como o raio. Mas pensava que não devia estar partida. Algemou o médico numa barra de segurança colocada na parede, certa de que ele não iria a lugar algum.
Pegando na arma, ela cambaleou para fora da casa de banho e atravessou o quarto na direção do corredor.
Agora, finalmente, conseguira gritar.
“Bill! Bill!”
Não obtivera resposta.
As forças de Riley estavam a regressar. Ela correu pelo corredor e entrou na sala de estar. Bill estava deitado no tapete, sangrando de uma ferida na cabeça. Um atiçador de lareira estava no tapete ali próximo.
Riley ajoelhou–se junto ao parceiro. Respirava com dificuldade e os batimentos cardíacos eram fracos. Riley sentiu invadir-se por uma onda de tristeza, de pesar, de culpa. E se ele morresse? Esse homem que ela conhecia melhor que ninguém à face da terra?
Ligou para a linha de emergência do FBI.
“Agente ferido. Preciso de uma ambulância.”
“Entendido,” Responderam-lhe. A voz ao telefone confirmou a morada.
“Depressa,” Disse Riley e desligou. Viu Bill novamente, mas ela sabia que não deveria tentar movê-lo. Tinha que esperar pela ambulância.
Riley levantou-se e olhou em redor da sala. Ela sabia que se a rapariga ainda estivesse viva, provavelmente estava em algum lugar naquela casa. Voltou para o corredor e começou a verificar as portas que tinha passado na sua busca pelos medicamentos. Uma delas abriu-se num patamar e escadas em direção à escuridão.
Riley ligou uma luz e apressou-se a descer os degraus.
No meio da cave bem mobilada estava uma rapariga magra, amarrada a uma cadeira com fita adesiva.
Ela tinha virado a cadeira e estava deitada de lado. A sua boca não estava amordaçada, mas Riley percebeu pelo seu olhar vago que se encontrava fortemente sedada.
Riley foi acometida de um júbilo indefinível. A rapariga estava viva.
Ela correu na direção de Sandra Wuttke e começou a desamarrá-la.
A rapariga pareceu compreender o que se estava a passar e começou a chorar.
“Ele ia-me matar,” Disse ela.
Riley segurou-a e embalou-a.
“Agora está tudo bem,” Disse. “Ele já não te pode magoar. Está tudo bem agora.”
Riley sentiu lágrimas a rolar no seu próprio rosto. Esta menina era mais jovem do que April e a sua vida quase tinha sido interrompida. De certa forma, não podia deixar de sentir como se estivesse a amparar April, depois de ter sobrevivido às garras de Peterson.
“Ele tinha um saco de plástico,” Gemeu Sandra. “Ele ia-me matar.”
Riley acariciou os seus cabelos.
“És uma menina corajosa,” Disse ela. “Vais ficar bem. Tudo vai ficar bem.”
Riley ouviu sirenes à distância, a ambulância e, provavelmente, também um carro do FBI.
Riley só esperava que chegassem a tempo de salvar Bill.