Arrebatadas
Capitulo Dezassete
O homem quase riu em voz alta quando a putazinha saiu da casa de banho usando apenas o colar que ele acabara de lhe oferecer. A visão do seu corpo nu não o excitou. Ele sabia que precisaria de algo mais para ter alguma satisfação.
Ele ainda estava completamente vestido, sentado na grande poltrona em frente à cama. Ele sorriu para ela.
“Vai para a cama,” Ordenou-lhe o homem.
Sem dizer uma palavra, ela dirigiu-se aos luxuosos lençóis de cetim.
Ela puxou os cobertores à sua volta, como se fosse uma menina tímida.
Não, Pensou o homem. Ela parece uma prostituta a fingir ser uma menina tímida.
Ele sorriu amplamente e detetou um sinal de alívio no rosto da mulher. Ela estava a esforçar-se muito para lhe agradar. Quando ele se levantou e caminhou em direção à cama, ela puxou o lençol para baixo para mostrar os seus seios fartos.
Ela sorriu para ele e o homem ficou impressionado com a indiferença que os seus esforços lhe suscitavam. As suas pequenas brincadeiras não surtiam qualquer efeito. E o seu sorriso confiante estava na verdade a incomodá-lo.
“Põe as mãos atrás das costas,” Disse o homem.
Ela rolou de lado, afastando-se dele, e fez o que ele tinha ordenado.
“Está bem assim,” Disse ele. “Fica assim.”
Ele tinha colocado a sua mala numa mesa perto da cama e agora retirava de lá aquilo que precisava. Sentado na cama atrás da prostituta, o homem amarrou habilmente uma corda à volta dos seus pulsos.
"Oh, meu Deus," Exclamou a mulher. Mas não se queixou. Ele tinha a certeza de que não era o primeiro john a amarrá-la. E depois da sua demonstração de generosidade, merecia fazer com ela aquilo que bem entendesse. E faria exatamente o que entendesse.
“Agora senta-te,” Disse ele. “Vou-te ajudar.”
“Muito bem,” Disse ela. “O que queres fazer a seguir?” A mulher ria-se novamente, talvez um pouco nervosamente, pensou o homem.
“Não te vires,” Disse ele.
De joelhos na cama atrás dela, ele afagou o seu cabelo.
“Isso é bom,” Murmurou a mulher.
E foi então que ele enfiou um saco de plástico na cabeça dela. A mulher já não se ria agora. Aturdida, permaneceu imóvel por um momento. Então começou a lutar. Ele segurou o saco com força. Ela esticou as pernas e empurrou os lençóis de cetim. Tentou alcançá-lo com os seus braços amarrados. Com as mãos, o homem segurou o saco e impediu que ela se afastasse dele.
Alguns momentos depois, ele sussurrou, “Agora vou-te dizer o meu nome.”
Mas ele sabia que ela já não o podia ouvir e libertou-a.
Depois sentou-se na beira da cama, olhando para a nua e patética amostra de mulher ali deitada. Tudo tinha acontecido de forma muito mais rápida do que ele previra. Tinha pensado em conversar com ela horas a fio, até depois de escurecer. Mas acabou por ter que agir mais rapidamente depois de ela lhe dizer que não tinha muito tempo.
Não que ele estivesse desapontado. Pelo contrário, ter que improvisar e mudar as suas táticas eram elementos que acrescentavam prazer ao ato. E ele experimentara uma maravilhosa sensação de conexão com ela antes de o ter feito. Esta morte dera-lhe mais prazer do que qualquer uma das outras.
Agora o prazer prosseguia num brilho silencioso de satisfação. Ele decidiu ficar simplesmente ali sentando e saborear aquela encantandora sensação. Das outras vezes, sentira que fora apressado na forma como se livrara dos corpos. Mas não havia absolutamente nenhuma razão para se apressar desta vez. Ele poderia esperar aqui até escurecer.
E o que faria até lá? Bem, podia ver televisão. Mas não, isso não parecia a coisa mais adequada. Chiffon - Gretchen - merecia mais respeito, um pouco de mimo e atenção mesmo na morte. Da última vez que estivera com ela, achara-a um pouco desagradável, e não tinha a certeza se gostava dela. Mas agora as coisas eram diferentes.
Ele acariciou o seu cabelo suavemente e lembrou-se do que ela tinha dito...
"Há muitas horas num dia. Não me consigo manter ocupada.”
Ele admirava o sentimento. Admirava mesmo. A maioria das pessoas que ele conhecia viviam as proverbiais "vidas de desespero calmo" de que Thoreau falara, dia após dia. Não sabendo muito bem o que fazer consigo próprios, não faziam muito de nada.
Não a Gretchen. Ela tinha sido uma vítima digna. Tinha sido agradável matá-la.
O tempo passou num ritmo relaxado e meditativo. Ele observou atentamente as sombras a deslocarem-se sobre o corpo de Gretchen enquanto a noite se instalava. Ficou surpreendido com a rapidez com que o escuro se apoderou do dia. O que tinha a fazer de seguida era simples trabalho braçal em comparação com o ato em si. Mesmo assim, tinha que ser feito.
Tirou um saco preto da mala. Ele usara sacos de lixo simples no passado, mas agora chegara à conclusão que um saco de cadáver era um recetáculo muito mais seguro. Deitou-o sobre a cama, e depois colocou o corpo no seu interior, ainda nu, exceto pelo colar de prata.
Então ele fechou o saco e saiu para o pátio para se certificar de que não havia ninguém por perto. O seu carro estava estacionado a poucos metros de distância.
Voltou para dentro, atirou a carga incrivelmente leve para cima do seu ombro, e levou-o para o carro. Abriu a mala e colocou-o lá dentro.
Voltou para o quarto e olhou em redor à procura de qualquer coisa que Gretchen pudesse ter deixado ali. A mala e roupas que usava encontravam-se numa pilha arrumada no chão da casa de banho. Dentro da mala, ele encontrou o telemóvel, algum dinheiro, algumas chaves e alguns lenços de papel. Ele pegou no telefone e olhou para ele por um momento. Tinha certeza de que ela não tinha tido tempo para fazer uma chamada, mas quando alguém começasse a procurá-la, tentariam localizar aquele telefone. Pô-lo no chão e esmagou-o com o sapato. A carteira continha a carta de condução, algumas fotos de crianças e algum dinheiro. Atirou-a para a mala, depois colocou todas as suas coisas num saco do lixo para despejar nalgum contentor, distante da sua insuspeita vida.
Depois palmilhou o quarto certificando-se de que nada fora deixado para trás, como qualquer hóspede do hotel que se preparasse para sair. Pendurou o sinal de "NÃO INCOMODAR" na porta do quarto. Ele não ia fazer já o checkout. Voltaria amanhã de manhã e faria isso, para que parecesse que tinha passado a noite ali sozinho. Claro que tinha feito o check-in com um cartão de crédito com um nome falso.
Por fim, saiu pelo pátio, entrou no carro e arrancou. Ao conduzir na noite cada vez mais profunda, fez um balanço da sua situação atual. As coisas estavam num ponto perigoso agora. Devido ao seu descuido com o corpo de Nanette, a polícia andava à sua procura. Encontrava-se numa situação de grande risco.
Para seu gáudio, Chiffon-Gretchen abraçou esse tipo de risco, na verdade viveu para ele. Mas a sua abordagem à vida era diferente. Como connoisseur e epicurista que era, a sua vida não era para ser vivida no limite. Ele não queria ser famoso. Era-lhe indiferente descobrirem ou não os seus homicídios. Tudo o que ele desejava era aproveitar o momento da morte de uma mulher. Era uma questão privada entre ele e as suas vítimas.
Será pedir muito da vida? Questionou-se.
Não tinha a mínima dúvida de que merecia esses prazeres.
Pensamentos como esse passaram-lhe pela cabeça durante as duas horas de viagem até ao lago. Desta vez, escolhera um lago diferente - um que estivesse mais distante de Phoenix, onde ninguém pensasse sequer em procurar. Este também era um lago artificial de água doce criado pela inundação de um desfiladeiro profundo. Ele gostava de divertir-se em lagos como estes e conhecia bem aquele.
Com os faróis apagados, conduziu por uma estrada de cascalho até encontrar o local de que estava à procura. Desta vez não se enganou. Era um ressalto perto da estrada que pendia sobre a água, e ele sabia que caía diretamente para profundidades consideráveis.
Estacionou, saiu do carro e olhou à sua volta. A lua brilhava, embora desmaiadamente através de um espesso amontoado de nuvens. As condições atmosféricas eram-lhe favoráveis.
Tirou o saco com o corpo da mala. Abriu-o e colocou várias pedras pesadas à volta do corpo. Fechou o saco novamente e empurrou-o para o lago. O som do saco a mergulhar na água foi mais ruidoso do que esperava.
De repente, surgiu uma luz. Parecia provir de um barco a algumas centenas de metros da costa. Supôs que alguém estivesse ali a pescar. Mas por que tinham acendido a luz? Teriam ouvido o splash?
Ele duvidava. Estariam provavelmente a mudar a isca ou algo do género. De qualquer modo, mesmo com a luz, ele tinha a certeza de que não o conseguiam distinguir àquela distância. Voltou para o carro, entrou e começou a conduzir, mantendo os faróis desligados até que se encontrasse a uma distância razoável.
Foi uma noite maravilhosa, Pensou.
Sentiu alguma melancolia por tudo ter terminado. Mas prometeu a si mesmo que repetiria a proeza em breve.