Arrebatadas
Capítulo Dezoito
Depois de Riley e Bill terem passado outro dia entediante no edifício do FBI, Riley começou a sentir-se invadida pela exaustão. O pessimismo. Já era tarde e chegara o momento de arrumar as coisas. Tinham estado desde sábado em Phoenix sob o pretexto frágil de que o homicídio de Nancy "Nanette" Holbrook poderia ser obra de um assassino em série. Mas a cada momento que passava, tal parecia cada vez menos provável. E se a morte de Nancy tivesse sido um ato isolado, chegara o momento de o FBI devolver o caso à polícia local - e de Bill e Riley regressarem a Quantico.
Era óbvio que se o álibi de Calvin Rabbe não fosse confirmado, ela e Bill continuariam a ter um motivo para permanecer no caso. Riley esperava que tudo ficasse clarificado em breve.
Riley estava cansada e apreensiva quando entrou no laboratório de informática com a sua enorme variedade de ecrãs e equipamento. No centro da vasta gama de computadores estava a responsável pelo departamento de tecnologia digital, uma jovem que se intitulava simplesmente Igraine. Sem dúvida que era uma personagem estranha – não era o género de técnico com que Riley estava habituada em Quantico. O Agente Especial Responsável Elgin Morley tinha dito a Riley que Igraine era uma autoproclamada pagã tecnológica.
Igraine tinha os cabelos pintados em vários tons e cortado à escovinha, e o seu rosto e orelhas estavam perfurados com uma vasta gama colorida de alfinetes. Por contraste, vestia de preto gótico. O seu posto de trabalho estava enfeitado e repleto de amuletos e pequenos círculos de pedras coloridas e cristais.
“O que tem para mim, Igraine?” Perguntou Riley, sentando-se a seu lado.
“Não tenho nada,” Declarou Igraine. “Oh, muitos homicídios de prostitutas, é claro. Tivemos uma série de estrangulamentos nos anos noventa. Mas nenhum desses MO se encaixam com aquilo que temos em mãos.”
Riley não sabia muito bem como sentir-se em relação a estas notícias. A realidade era que o número aparentemente interminável de homicidios e desaparecimentos não resolvidos de prostitutas a incomodava.
Riley perguntou, “Verificou as mortes em que o elemento água estivesse presente, ocorridas nos últimos anos?”
“Sim, pesquisei duas décadas. Uma prostituta morta foi encontrada num riacho, mas o seu assassino foi apanhado e condenado. Um assassino em série matou uma das suas vítimas numa banheira, mas nenhuma das vítimas era prostituta, e ele está neste momento no corredor da morte. De vez em quando outros corpos são encontrados nos lagos à volta de Phoenix. Afogamentos acidentais, acidentes de barco e natação, esse tipo de coisa, e as vítimas são na sua maioria homens. Quanto ao uso dos lagos para a eliminação de cadáveres, não encontrei nada.”
“Há mais alguma coisa que possa fazer?” Perguntou Riley.
Igraine recostou-se na cadeira e soltou um urro de impaciência.
“Quer dizer, para transformar magicamente um único homicídio num caso de série? Não, sem recorrer às forças das trevas. Francamente, não me parece que o FBI se deva meter nessas coisas. Deixem as artes negras a cargo da CIA. Acreditem em mim, experimentei cada feitiço cibernético que me ocorreu. Se for mais longe farei com que os espíritos superiores se zanguem.”
Riley sabia que Igraine, utilizando a sua linguagem especial, estava a dizer a verdade.
“Tudo bem, Igraine, já chega por hoje.”
Riley saiu do laboratório a tempo de encontrar Bill no corredor.
“O que tens?” Perguntou-lhe Bill.
“Nada. E tu?”
“Bem, confirmámos o álibi de Rabbe. Ele estava em casa, no evento de caridade da mãe. Está limpo.”
Riley suspirou. Embora já estivesse à espera daquele desfecho, não lhe agradou minimamente. Na sua opinião, o lugar de Rabbe era na prisão.
“Bem, é tudo o que podemos fazer esta noite,” Disse Bill. “Vamos embora.”
*
Cerca de uma hora e meia mais tarde, Riley e Bill estavam sentados no bar do hotel. Ela tinha acabado de pedir o seu segundo bourbon com gelo. Há muito tempo que não tomava uma bebida, mas naquela noite não haveria problema. Ainda assim, Riley sabia que não devia abusar. Aquela seria a sua última bebida da noite.
De qualquer das formas, Riley percebeu que Bill precisava de alguém com quem beber e conversar. Naquele momento, Bill bebia o seu whisky a um ritmo bem mais acelerado do que Riley. Desde há alguns minutos que Bill falava sobre o desmoronamento do seu casamento.
“É difícil ver isto acontecer,” Continuou, cansado. “Quero dizer, doze anos de casamento, dois filhos e tudo o resto. É como se um grande pedaço da minha vida estivesse a ser arrancado. E está a deixar um grande espaço vazio.”
Ele parou por um momento e bebeu outro gole.
Depois disse, “Quero dizer, sim, eu compreendo o seu ponto de vista. Casar-se com um agente do FBI é difícil. Mas eu pensei que ela soubesse no que se estava a meter. Eu já era agente quando nos casámos. Mas aos poucos começaram a surgir todo o tipo de ressentimentos. E quando os miúdos nasceram, ela queria que eu saísse da agência de vez. Mas o que é que eu ia fazer?”
Riley limitou-se a assentir. Ela compreendia tudo aquilo muito bem. Afinal, recentemente ela própria tentara afastar-se daquele tipo de trabalho. Mas quer gostasse quer não, parecia estar destinada a lá ficar por muito, muito tempo. Ensinar não tinha sido suficiente para ela e estar num gabinete a tentar ignorar todos os males do mundo estava simplesmente fora de questão.
Ainda assim, ela não disse nada, apenas deixou que Bill continuasse a falar.
“Sabes, acho que talvez no início, ela pensou que ser casada com um agente seria romântico e emocionante. Mas quando fiquei ferido há cinco anos, ela passou-se. As coisas nunca voltaram a ser como dantes.”
Riley tentou ver as coisas na perspetiva de Maggie.
“Bem, pelo menos ela preocupou-se contigo,” Afirmou Riley. “O Ryan mal parecia notar que eu tinha um trabalho. Ele não se conseguiu habituar ao facto de que eu não era a pequena anfitriã social perfeita.” Depois pensou por um momento e acrescentou, “Talvez a Maggie tenha acabado tudo porque te ama.”
Bill encarou-a longamente com curiosidade.
“Essa é a coisa mais estúpida que já ouvi,” Disse Bill.
Riley começou a rir.
“É, não é?” Disse ela.
De repente, estavam ambos a rir. Sabia bem falar e rir com Bill daquela maneira. Durante anos, ele tinha sido o seu melhor amigo. Mas os últimos casos haviam deixado uma marca negativa na sua amizade. Quase se tinha esquecido de quão próxima e confortável se sentia ao pé dele.
Claro, ela também sabia que o bourbon a ajudava a relaxar.
Calma, Disse a si mesma. Não fiques demasiado confortável.
Mais uma vez lhe veio à memória aquela horrível noite de embriaguez em que ligara a Bill e lhe propusera iniciarem um caso. As feridas desse incidente apenas agora começavam a sarar e ela não queria deixá-las novamente em carne viva.
“Mas chega da minha autocomiseração,” Disse Bill. “O que se passa com aquela miúda que salvaste?”
“Queres dizer a Jilly? Bem, ‘salvar’ talvez seja uma palavra muito forte. Ela tem um longo caminho a percorrer e precisa de muita ajuda. Liguei para os Serviços de Proteção de Menores algumas vezes para saber como é que ela estava. Ela está bem e esperam conseguir retirá-la ao pai. Ele é um homem realmente abusivo.”
“Então, o que é vai ser feito dela?” Perguntou Bill.
“Penso que vai acabar numa família adotiva. A não ser que …”
Riley calou-se. Uma possibilidade remota começou a formar-se na sua mente. Bill conseguiu ler-lhe a expressão imediatamente.
“Oh, meu Deus,” Exclamou Bill. “Estás a pensar em adotá-la, não é?”
Riley não respondeu. É claro que ele a tinha compreendido perfeitamente. Mas ela tinha a certeza de que as bebidas começavam a fazer efeito. Agora sentia-se definitivamente embriagada - e mais do que melancólica em relação a Jilly.
Bill sorria-lhe compreensivamente.
“Riley, não me parece uma boa ideia,” Disse. “Só Deus sabe o tipo de traumas por que essa pobre miúda passou. Ela nem sabe o que é ser amado e acarinhado. Vai precisar de anos de ajuda profissional e tu não tens recursos para isso.”
“Eu sei,” Concordou Riley, sentindo um nó na garganta.
Bill tinha razão. Então, por que é que esse impulso lhe sobreveio? Talvez estivesse relacionado com a forma como andava a pensar na irmã ultimamente. Lembrou-se que Wendy lhe tinha enviado uma carta há alguns anos atrás, numa tentativa de retomar os laços interrompidos. Mas Riley não lhe respondera. Vendo as coisas em retrospetiva, não sabia porquê. Mas arrependera-se. E agora não fazia ideia de onde estava e como estava Wendy.
Riley não conseguia afastar a sensação de que tinha abandonado Wendy. Agora não queria abandonar ninguém.
Mas agora não havia tempo para falar sobre tudo aquilo. Limitou-se a estar ali a apreciar o calor tranquilo e compreensão de Bill. E foi então que uma estranha fantasia começou a surgir na sua mente.
O Bill e eu seríamos os pais perfeitos para uma menina como aquela, Pensou.
Por um instante pareceu tudo tão real - ela e Bill a viverem como um casal, a fazerem o possível para dar uma vida melhor a Jilly.
“Em que é que estás a pensar?” Perguntou Bill.
Riley riu desajeitadamente. Perguntou-se se lhe deveria contar. Então o seu telemóvel vibrou. Era um SMS de April.
A divertir-me imenso! Edifício do Capitólio hoje. Casa Branca amanhã! Como estás?
Riley sorriu. A mensagem surgira no momento certo. Ela já tinha uma filha, e ainda para mais corajosa e brilhante. Agora não era o momento de Riley estragar a sua vida e mudar tudo.
Ela respondeu:
Tudo bem. Continua a divertir-te.
Abril respondeu, Vou continuar!
Bill disse, “Presumo que seja uma mensagem da April?”
Riley riu um pouco. “Como é que adivinhaste?”
“Oh, talvez fosse apenas por causa desse olhar de mãe galinha orgulhosa.”
As amáveis palavras de Bill pareciam algo melancólicas. O seu sorriso parecia um pouco mais triste agora. Riley adivinhou que ele estava a pensar nos seus próprios filhos e na batalha pela custódia que ele e Maggie travavam. De repente, Riley sentiu-se uma felizarda por não ter que passar por tudo isso com April.
O melhor era mesmo mudar de assunto.
“Sabes que temos que apresentar um relatório ao Morley,” Disse Riley.
“Sim, eu sei,” Respondeu Bill com algum cansaço na voz. “Parece-me que estamos a adiar isso.”
“O que é que lhe vamos dizer?”
Bill tamborilou os dedos na mesa.
“Não há nada a dizer, exceto que não temos nada,” Disse ele. “Não temos nenhuma razão para crer que estamos perante um assassino em série. Isso significa que não temos motivos para estar aqui. É claro que o Garrett Holbrook vai ficar desapontado. Ele esperava realmente que pudéssemos resolver o mistério do homicídio da irmã.”
“Achas mesmo?” Perguntou Riley.
Bill pareceu surpreendido com a pergunta.
“Claro. De que outra forma se sentiria?”
Riley limitou-se a encolher os ombros. As palavras tinham-lhe saído antes de pensar. Não podia explicar o seu significado. Era só porque Garrett Holbrook ainda era um enigma para ela. Riley tinha a certeza de que havia algo que ele lhes estava a ocultar. Mas agora provavelmente nunca descobririam o que era.
Riley disse, “Bem, acho que podemos redigir o nosso relatório amanhã de manhã. Depois vamos embora. Achas que o FBI nos contempla com um avião exclusivo para o regresso?”
Bill riu-se.
“Nada de tão cerimonioso,” Disse. “Quase que aposto que regressamos em classe económica.”
“Deves ter razão.”
Riley viu que Bill tinha terminado a sua bebida. A sua ainda estava a meio mas chegou à conclusão que atingira o seu limite. Já se sentia um pouco tonta. Afastou a bebida. Soube-lhe bem decidir conscientemente que já bastava por uma noite.
Ela e Bill pagaram a conta. Bill acompanhou-a ao quarto. Pararam um pouco desconfortavelmente à porta e mantiveram uma certa distância entre eles. Riley tinha a certeza de que Bill estava a pensar no mesmo que ela. Se eles se abraçassem, as coisas poderiam ficar fora de controlo. E nenhum deles queria isso. Pelo menos não esta noite.
“És uma boa mulher, Riley Paige,” Disse Bill.
Lágrimas quase brotaram dos olhos de Riley.
“E tu és um bom homem,” Disse ela. “E um bom amigo.”
Bill virou-se e caminhou pelo corredor. Ela entrou no seu quarto e sentou-se na cama. Não conseguia deixar de se sentir desiludida com aquela viagem. Desejava no mínimo ter conseguido apanhar o assassino de Nancy Holbrook.
Além disso, o seu instinto indicara-lhe que estavam a lidar com um assassino em série. Ela não estava acostumada a que a sua intuição a iludisse.
Ou estou realmente enganada desta vez? Questionou-se