Arrebatadas

Blake Pierce · Capítulo 33 de 42

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Arrebatadas

Capítulo Trinta e Dois

Às sete da manhã, Riley entrou no gabinete do Agente Especial Responsável Elgin Morley. Bill já estava lá e Morley estava sentado na sua secretária.

Bill sorriu para ela. Morley franziu o cenho.

Bem, o sentimento é mútuo, Pensou Riley, sentando-se.

Toda aquela situação parecia um sonho. A sua vida tinha mudado desde que visitara o pai no dia anterior. Assim que voltou para casa, ligou a Brent Meredith para lhe dizer que queria voltar ao trabalho. Ele havia dito que falaria com Morley e que lhe ligaria no dia seguinte.

Em vez disso, ela tinha sido despertada por um telefonema às 3:00 dessa manhã. Era Morley. Ele disse bruscamente que ela era precisa em Phoenix imediatamente. Um carro da UAC tinha-a levado para casa e levou-a para Quantico, onde um avião do FBI esperava para levá-la de regresso a Phoenix.

E agora estava ali, sentindo-se exausta e desorientada. Ao mesmo tempo, estava feliz por estar de volta no trabalho. E estava grata por Gabriela e April terem tudo sob controlo em casa. Elas tinham compreendido que ela precisava de voltar ao trabalho.

O olhar de Morley não era nada amigável. Riley lembrou-se que ele tinha tido razões profissionais perfeitamente sólidas para tirá-la do caso. Ainda assim, não podia deixar de ficar chateada com isso.

Sem uma palavra de saudação, Morley começou logo com as explicações.

“Tivemos um novo desenvolvimento. Talvez até uma revelação no caso. O Bill já conhece os detalhes, mas também a vou informar, Agente Paige.”

Olhou para o que tinha apontado.

“Na noite passada, um casal de camionistas apanhou uma mulher perto da cidade de Luning. Ela estava meio nua, ferida e histérica. Eles não sabiam o que se passava com ela, exceto que parecia estar a fugir de alguém. Eles levaram-na à polícia de Luning e aí perceberam que ela estava a usar um colar caro. Isso levou-os a pensar que poderia ter algo a ver com o nosso caso. Então trouxeram-na para aqui, juntamente com o casal de camionistas.

“Eles ainda estão cá?” Perguntou Riley. “Quero dizer, o casal e a mulher?”

“Estão todos aqui,” Disse Morley. “O casal, Hannah e Troy Coddington, estão na sala de interrogatório agora. Identificámos a mulher como Socorro Barrera. Ela está na clínica, ainda em estado de choque e sem dizer coisa com coisa.”

Riley refletiu sobre a situação. Queria falar com a mulher. Mas seria isso possível? Talvez, mas ela precisava de mais informações primeiro.

“O Bill e eu vamos conversar com o casal,” Disse ela.

“Vamos, lá então,” Disse Morley.

Os três saíram do gabinete e foram para a sala de interrogatório. Riley e Bill entraram na sala e Morley entrou no compartimentoo adjacente. Riley sabia que ele estaria a assistir e a ouvir tudo. Por ela, tudo bem.

Hannah e Troy Coddington estavam sentados à mesa. Eram robustos e pesados. Riley não sabia ao certo qual deles estava mais tatuado.

Quando Bill e Riley se apresentaram, Riley notou que os Coddington pareciam preocupados.

“Devemos entrar em contacto com um advogado?” Perguntou Troy.

Hannah acrescentou, “Nós não temos um advogado, mas talvez nos possam recomendar um.”

Riley ficou um pouco surpreendida com a pergunta.

“Porquê?” Perguntou.

Hannah disse, “Bem, eu e o Troy sabemos que não parece bem apanhar uma mulher meio nua na estrada, e provavelmente uma prostituta. Mas nós não somos traficantes, nós juramos por Deus. Nós odiamos esses filhos da mãe. A sério. Estávamos apenas a tentar ajudar essa pobre mulher.”

Riley e Bill sorriram um para o outro.

“Nós entendemos,” Disse Bill. “Não vos estamos a reter como suspeitos. Aliás, não vos estamos a reter. Mas gostaríamos de obter toda a ajuda que nos possam dar.”

“Poderiam dizer-nos exatamente o que aconteceu?” Perguntou Riley.

Hannah começou, “Bem, já era quase meia-noite. Tínhamos deixado um carregamento em Luning e planeávamos ficar num motel naquela noite.”

“O Nopal Inn,” Disse Troy. “Perto do Luning.”

Hannah prosseguiu. “O Troy estava a conduzir e de repente vimo-la na estrada à nossa frente. Primeiro ela parecia um fantasma ao brilho dos faróis, mas não era um fantasma. Estava nua da cintura para cima e não tinha sapatos calçados. Gritei para que o Troy parasse.”

Troy estremeceu com a memória.

“Assustou-me de morte,” Disse ele. “Eu travei e desviei-me, poderia ter-nos morto a todos. É um milagre nada ter acontecido.”

Hannah também estremeceu e abanou a cabeça. Ela disse, “Ela veio a correr para o meu lado do camião, a gritar em mexicano. Não conseguíamos entender muito, exceto que alguém estava atrás dela e queria que a salvássemos.”

“Não parámos para fazer muitas perguntas,” Disse Troy. “Hannah levou-a para dentro do camião, e saímos dali.”

Hannah disse, “Eu levei-a para a parte de trás da cabina, temos um colchão lá. Coitada, estava toda ferida e as poucas roupas que vestia estavam todas rasgadas. Envolvi-a num cobertor. Ela tremia e os dentes rangiam. Entrou em estado de choque naquele momento - e estou a falar de choque profundo. Nunca mais disse uma palavra.”

“Nós levámo-la diretamnete para a polícia e eles trouxeram-nos para aqui,” Concluiu Troy.

Riley tentou visualizar a cena. Faltavam muitos detalhes. De onde é que a mulher surgira a correr? Tinha saltado de um veículo em movimento? Esperava que Socorro recuperasse o suficiente para contar mais pormenores.

“Viu algum veículo estacionado perto?” Perguntou Bill.

“Havia um carro grande estacionado na berma,” Disse Troy. “Penso que preto. Mas não tenho a certeza. Deviamos ter apontado o número da matrícula, mas aconteceu tudo tão rapidamente. E o carro acabou por arrancar.”

“Tudo bem,” Disse Riley. “Vocês fizeram tudo o que podiam. Na verdade, tenho a certeza que salvaram a vida dessa pobre mulher. Quando ela ficar melhor, tenho a certeza que vos vai querer agradecer pessoalmente.”

Bill virou-se para Riley. Com um olhar, ele perguntava silenciosamente se tinham mais perguntas. Ela negou com a cabeça.

“Podem ir, Sr. e Sra. Coddington. Bill empurrou um bloco de papel e um lápis sobre a mesa “Mas antes de irem, por favor deixem-nos os vossos contactos. E liguem-nos se se lembrarem de mais detalhes. O que quer que seja.”

Após a troca de informações, Bill e Riley escoltaram o casal para fora da sala de interrogatório. Enquanto Troy e Hannah caminhavam pelo corredor, Morley saiu da sala ao lado.

“Eu não disse para os deixarem ir,” Resmungou.

“Eles disseram-nos tudo o que sabem,” Prostestou Riley. “Vamos para a clínica. Quero falar com a mulher.”

“Ela não está em condições de falar,” Advertiu Morley.

“Deixe-me ser eu a julgar isso,” Ripostou Riley.

Enquanto caminhavam para a clínica, Riley percebeu que seria melhor abrandar a sua hostilidade em relação a Morley. Estava cansada e ainda a sofrer os efeitos do jet lag, e estava a deixar que o seu mau humor lhe levasse a melhor. Ele ainda podia tirá-la do caso por insubordinação. E depois da sua anterior suspensão, isso poderia ser um problema real para ela.

Tenta ser diplomática, Disse para si mesma.

Um único médico do sexo masculino estava de plantão na clínica. Socorro Barrera, vestida com uma bata de hospital, estava sentada numa cama. Ela estava a segurar uma corrente de prata, passando-a pelos dedos, a abanar a cabeça monotonamente e murmurando algumas palavras em espanhol.

“Está assim há horas,” Disse o médico. "Estava um pouco mais coerente quando chegou. Estava sempre a perguntar pelas hijas - os filhos. Ela deu-nos uma morada. Enviámos uma assistente social para cuidar dos filhos dela. Estão lá agora. As crianças estão bem. Mas ela tem estado assim desde então.”

A mulher continuava a murmurar e a percorrer a corrente com os dedos.

“Aquele colar é uma prova,” Disse o médico. “Tentámos levá-lo, mas ela não o larga.”

Riley debruçou-se sobre ela. Agora entendia o que estava a dizer...

“Dios te salve, María. Llena eres de gracia: El Señor es contigo …”

Riley entendeu imediatamente. No seu estado de choque, Socorro convencera-se de que o colar era um rosário. Ela estava a repetir Avé Marias em espanhol.

Raios, o médico já devia ter percebido isso, Pensou.

E agora aqui estava a pobre mulher, cercada de homens, com exceção de Riley.

Riley queria gritar com os outros para sairem da sala. Mas lembrou-se de que deveria manter a calma.

“Gostaria de ficar alguns minutos a sós com ela, por favor,” Pediu Riley.

Os homens saíram da sala, deixando Riley e Socorro Barrera sozinhas.

“Socorro,” Disse Riley com voz suave.

Mas a mulher continuou a percorrer o rosário.

“Santa María, Madre de Dios, ruega por nosotros pecadores …”

Riley olhou para ela de perto. No seu rosto ainda se detetavam os restos de uma maquilhagem pesada e colorida – um look latino exuberante. Mas a maquilhagem era agora uma trapalhada de lágrimas e suor e porcaria. Socorro estava toda ligada e ferida em muitos outros lugares.

Alguém lhe bateu? Perguntou-se Riley.

Não, não pareciam feridas desse tipo. Não provinham de um punho ou de uma faca. Tinha-os feito a correr, provavelmente por algum terreno difícil. Os camionistas disseram que estavam perto de uma cidade chamada Luning. A cidade devia estar situada no deserto. Os pés da mulher estavam debaixo dos lençóis. Riley supôs que deviam estar especialmente mal tratados.

“Socorro, me llamo Riley. Sei que lhe aconteceu algo terrível. Estou aqui para a ajudar.”

A mulher continuava a murmurar a sua oração e a tocar na corrente.

Riley tocou nos dedos de Socorro. Socorro parou de os mexer e olhou Riley nos olhos. Riley estremeceu. Em todos os seus anos como agente, raramente tinha visto um olhar tão assustado.

“¿Hablas inglés?” Perguntou Riley. Duvidava que o seu espanhol fosse suficientemente bom para realizar uma conversa tão delicada.

Para alívio de Riley, Socorro assentiu.

Riley também tocou na corrente.

“Isto é bonito,” Disse Riley. “Onde é que o arranjou?”

Todo o tempo que Socorro tinha estado a tocar na corrente, não a olhara. Agora sim. Os seus olhos encheram-se de terror. Atrapalhou-se com a corrente, tirando-a e empurrando-a para as mãos de Riley.

“Tómalo,” Dissera. “Leve-o, por favor. Não o quero.”

Riley segurou na corrente para ela a ver.

“Mas é bonito,” Disse Riley. "Onde é que o arranjou?"

Socorro encolheu-se, afastando-se de Riley, tremendo violentamente.

“Ele deu-me,” Disse Socorro.

“Quem é que lhe deu, Socorro?”

Socorro quebrara o contato visual agora e os seus olhos começaram a anuviar-se novamente. Ela estava prestes a voltar ao seu estado de choque. Riley apertou a sua mão suavemente.

“Quero ajudar,” Disse Riley. “Mas tem que falar comigo.”

O toque de Riley e o seu tom amável trouxeram Socorro de volta. Ela olhou para Riley novamente com os olhos de um animal assustado.

“Eu estava a caminhar,” Começou ela, com a mesma voz entorpecida que tinha quando murmurava a oração. “Pela Avenida Conover.”

“Onde vocês trabalham,” Disse Riley.

Socorro assentiu com a cabeça. “Sim, mas eu...”

A sua voz apagou-se. Riley deu-lhe uma palmadinha amigável na mão.

“Está tudo bem, Socorro. Eu não estou aqui para a julgar. Ninguém a vai prender. Estamos todos do seu lado. Tudo o que quero fazer é ajudar.”

Socorro apertou os olhos, tentando lembrar-se.

“Ele tinha um carro bonito e parecia que tinha dinheiro,” Disse ela. “O carro estava estacionado e eu fui ter com ele. Eu disse que gostaria de ir com ele. Disse que podíamos tratar de negócios ali mesmo no carro. Mas ele queria ir para outro lugar. Ele conduziu para fora da cidade. Para um pequeno motel.”

Riley lembrou-se do motel que os Coddington tinham mencionado.

“O Nopal Inn?” Perguntou.

Socorro assentiu com a cabeça.

“Fomos para o quarto,” Disse ela.

“Teve relações sexuais lá?” Perguntou Riley.

Socorro sacudiu a cabeça. “Não. Eu estava pronta. Mas acho que ele não conseguia.”

Riley suspeitava que o assassino tinha problemas em consumar o ato sexual. Mais uma vez segurou o colar para Socorro o ver.

“E ele deu-lhe isto,” Disse ela. “Estava numa caixa?”

“Penso que sim.”

“Tinha o nome de uma loja na caixa?”

Ao tentar recordar-se, um esgar de dor trespassou o rosto de Socorro.

“Não me lembro. Mas então ele foi para o carro e eu fiquei preocupada, porque eu sabia que outra mulher fora assassinada usando um colar. Olhei e ele estava a tirar uma corda do carro.”

“E então fugiu,” Disse Riley.

"Sí."

O resto da história era muito fácil de perceber. A suposição anterior de Riley estava correta. Ela tinha obtido as feridas durante a fuga, a correr entre a vegetação áspera e no chão rochoso. Tinha tido muita sorte.

“Como é que ele era?” Perguntou Riley.

Socorro ficou a olhar para ela como se não não tivesse compreendido a pergunta.

“Era alto, baixo, de altura mediana?” Insistiu Riley.

Socorro parecia ainda mais confusa.

“Consegue lembrar-se de algo específico do seu rosto?” Perguntou Riley. “A cor do cabelo, talvez?”

Lágrimas formaram-se nos olhos de Socorro. A tremer horrivelmente, ela meneou a cabeça.

Riley suspirou. Ela sabia muito bem o que estava a acontecer. Já tinha visto aquilo suceder com testemunhas anteriormente. A pobre mulher estava a reprimir todas as lembranças da aparência do homem. Era simplesmente demasiado doloroso recordar-se. Teriam que a ajudar a recuperar essa imagem, mas ela poderia nunca se permitir lembrar.

Mais uma vez, Riley voltou ao seu próprio cativeiro com Peterson e em como lutara com essas memórias.

Riley não podia culpar Socorro por esse bloqueio. Tentar forçá-la a lembrar só causaria dor e não produziria resultados.

“Desculpe,” Disse Socorro. “Não me lembro.”

Riley acariciou-lhe a mão.

“Não há problema,” Disse Riley. “Eu compreendo.”

Lágrimas começaram a correr pelo rosto da mulher. Ela começou a soluçar.

“Eu pensei que ele era bom. Parecia simpático, elegante. Eu pensei que o T.R. fosse bom.”

As iniciais atingiram Riley como uma bala.

“T.R.?” Perguntou. “O seu nome era T.R.?”

“Sí, era como ele se chamava.”

Riley lembrou-se do que Ruthie tinha dito sobre o homem no Iguana Lounge...

"T.R., é como se intitula."

T.R. era o nome do homem que tinha assustado as mulheres na paragem de camiões de Desert King. Em algum recesso da sua mente, Riley esperara que o suspeito que ela e Bill não tinham conseguido apanhar naquela noite não fosse o verdadeiro assassino. Mas agora não poderia haver nenhuma dúvida.

Se ao menos o tivéssemos apanhado, Pensou Riley. Se ao menos não o tivéssemos deixado fugir.

E agora, depois do seu ataque frustrado a Socorro, Riley sabia exatamente o que esperar.

Ele iria atacar de novo brevemente - se não o tivesse feito já.