Arrebatadas

Blake Pierce · Capítulo 32 de 42

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Arrebatadas

Capítulo Trinta e um

Quando o cliente lhe abriu a porta do motel, Socorro perguntou-se por que é se sentia nervosa com ele. T.R. tinha muita classe.

Mas talvez seja isso que é estranho, Pensou enquanto entrava no quarto. Que tipo de cliente elegante quereria uma prostituta de rua? Não seria ele mais do tipo de acompanhante ou call girl?

Quando ele solicitou os seus serviços, ela pensou que ele iria querer ir para o carro como alguns clientes. Em vez disso, ele tinha-a levado até Phoenix, dizendo que queria estar em paz e sossego. Ele trouxera-a para aquele motel próximo de uma pequena cidade e alugado um quarto nas traseiras do edifício. Do que ela vira, não havia nada atrás daquele lugar, a não ser o deserto.

Ela não estava completamente confortável com o cenário. Por um lado, não ia conseguir apanhar um autocarro como costumava fazer na cidade. Teria que esperar por ele para regressar à cidade.

Ela chegaria a casa mais tarde do que o normal. Mas a filha, Mari, tinha idade suficiente para cuidar dos dois irmãos mais novos. Mari poderia prepará-los para jantar, mas ela teria muito pouco tempo para trabalhar aquela noite. Socorro tinha planeado parar a caminho de casa e levar hambúrgueres para todos. E batatas fritas. E algo doce também, talvez batidos.

A maioria dos johns não parecia entender o facto de que ela era uma mãe. Claro, ela esforçava-se muito para não agir como uma. Nas ruas, ela era uma alegre chola latina. Os homens com quem ela ia nunca reconheceriam a mãe que era em casa.

Entretanto, o motel era bem decente e T.R. era muito simpático. Ele trouxera uma garrafa de whisky e serviu-o em dois copos. Entregou-lhe um deles.

“Água ou gelo?” Perguntou. “Ou alguma coisa para misturar?”

“Está bem assim,” Disse Socorro com um sorriso. Já era uma raridade um cliente sequer servir-lhe uma bebida. Não ia ser picuinhas. Experimentou beber um gole. Sabia a coisa cara.

“Tira a blusa,” Disse ele.

Socorro seguiu as suas ordens. Ela tirou a blusa e recostou-se na cama. Ela não tinha nada por baixo, mas não tinha nenhum problema em ficar meio nua ou completamente nua. Ela faria o que quer que os clientes quisessem no que dizia respeito à roupa e à maioria das suas fantasias também.

“Mais alguma coisa?” Perguntou ela.

“ Para já não.”

Então ela esperaria até que ele lhe dissesse para tirar a saia curta, collants e saltos altos. Ou talvez ele quisesse fazer isso por ela. Socorro disse a si mesma que estava apenas a sentir-se cautelosa porque ele era mais suave e mais lento do que os seus clientes habituais. Ele não estava com pressa, como tantos deles.

Ele sentou-se ao lado dela na cama e começou a acariciar o seu corpo. Passou os dedos pelos seus seios e depois pelas pernas, sentindo-a sob a saia.

Mas algo parecia estranho. Ele respirava de forma muito acelerada - mas não era o tipo de respiração que ela antecipasse com excitação.

Ele está a ter dificuldades em levantá-lo, Apercebeu-se.

Mas ela podia tratar disso. Às vezes os johns não se saíam bem, mas Socorro poderia geralmente fazê-los felizes de uma maneira ou de outra. Ela poderia ter que se esforçar um pouco, mas T.R. valia o esforço.

Afinal, ela estava assustada por nada. Essas histórias das notícias haviam-na deixado muito nervosa -todas essas coisas sobre um assassino em série a matar prostitutas. Não que tivesse havido muitos detalhes. Socorro imaginou que talvez fosse apenas um exagero durante uma semana de notícias aborrecidas. Mas estava a estragar a vida nas ruas. Havia mais polícias a patrulhar do que o habitual, assustando tanto clientes, quanto mulheres.

Mas Socorro não se podia dar ao luxo de sair das ruas. Ela precisava de dinheiro e precisava dele hoje. Ela tinha filhos para alimentar e uma renda para pagar. E apesar de nenhum dos regulares ter aparecido, tinha tido sorte com T.R.

Ela já o vira antes naquele carro grande e caro. Até tinha tentado falar com ele uma vez, mas ele tinha ido embora quando o seu estúpido proxeneta apareceu.

¡Pinche Pablo! Pensou.

De qualquer das formas, T.R. parecia-lhe bem. Ele não se estava a esquivar à lei nem nada que se parecesse.

Depois de alguns momentos de carinho ocioso, levantou-se da cama.

“Eu trouxe um presente para ti,” Disse ele.

Socorro ficou surpreendida. Quem comprava presentes para prostitutas de rua como ela?

Tirou uma pequena caixa do bolso e estendeu-lha.

Socorro derreteu-se quando a abriu. Dentro dela repousava um pequeno colar bonito.

“Isto é para mim?” Perguntou ela.

“Especialmente para ti,” Disse ele. “Eu escolhi-o a pensar em ti. O diamante é verdadeiro.”

Ela sorriu com prazer. Ela sabia que ele estava a mentir, é claro. Ele não a tinha especialmente em mente. Como era isso possível? Ele teria dado o colar a qualquer prostituta que tivesse ido com ele. Mas não estava aborrecida.

“Eu não sei o que dizer,” Disse ela.

Ele sorriu para ela. “Que tal muchísimas gracias?”

Ela riu. “Muchísimas gracias!”

Ele olhou em redor da sala. “Coloca-o,” Disse ele. “Tenho alguns brinquedos no carro. Eu volto já.”

Assim que saiu pela porta, Socorro levantou-se e colocou o colar, examinando-o no espelho. Era uma fina corrente de prata com uma pedra simples e bonita. Ela pensou que parecia bastante glamorosa, nua até à cintura, exceto pelo colar.

Ela suspirou. Merecia aquilo e muito mais. Muitas vezes pensava que deveria tentar um outro tipo de trabalho, como um serviço de acompanhante. E assim poderia fugir do pinche Pablo. Trabalhar com uma Madame em vez de um proxeneta seria uma mudança bem-vinda.

Entretanto, ela não ia ficar toda sentimental com este presente caro. Ela não era nada para T.R., e ele não era nada para ela. Ela venderia o colar assim que tivesse uma oportunidade. Ela podia comprar comida, talvez até tirar uma semana de folga.

Ou talvez não, Pensou.

Se ia subir na vida, não o deveria guardar? Uma call girl ou uma acompanhante precisavam das suas joias. Talvez fosse um começo nessa direção.

Mas quando olhou para si mesma ao espelho, algo vago começou a incomodá-la. Tinha algo a ver com um colar e nudez...

Então lembrou-se. Tinha passado na TV - um colar muito parecido com este. Uma mulher morta fora encontrada em algum lago fora da cidade, nua e usando apenas um colar.

A mulher tinha sido uma das vítimas do assassino.

Socorro deixou-se dominar pelo pânico. Ela não poderia encontrar o mesmo destino. Ela tinha uma vida para viver. Ela tinha filhos para alimentar e cuidar. O que seria deles se ela nunca mais voltasse para casa?

Mas talvez ela estivesse errada. Talvez ela estivesse assustada sem motivo. Talvez tudo estivesse bem.

Ela abriu a porta da frente lentamente, só um pouco, esperando que ele não percebesse. Estava escuro lá fora e a luz da porta estava desligada. O estacionamento não estava bem iluminado. Mesmo assim, ela podia vê-lo pela luz da mala do carro, a não mais de quinze metros de distância. As suas costas estavam voltadas para ela e ele estava à procura de alguma coisa. Numa das mãos, segurava uma corda.

O seu coração batia descompassadamente agora. Deveria gritar? Alguém a ouviria? Ninguém mais estava à vista. Não havia sequer muitos carros estacionados ali. O motel parecia não ter muitos hóspedes.

Só havia uma coisa a fazer. Livrou-se dos sapatos de saltos altos, abriu a porta e desatou a correr. Ela ouviu o homem a praguejar quando passou a correr por ele.

Socorro não sabia para onde correr, então foi para onde os seus pés a levavam. Em alguns momentos, o pavimento do estacionamento deu lugar ao cascalho e depois à terra rochosa. A escuridão fechava-se por todos os lados enquanto ela continuava a correr sem pensar. Os pés doíam-lhe bastante da areia áspera e pedregosa e ervas daninhas do deserto. As pernas e tronco nu foram chicoteados por plantas ásperas. Mas os pés continuavam a transportá-la sem parar.

Não fazia ideia da distância que percorrera. Estava em choque com a dor e o medo. Quanto tempo tinha passado desde que ela fugira daquele quarto de motel? Apenas alguns minutos? Uma hora?

Ela sentiu que o coração iria explodir e que pulmões estourariam. Tropeçou até parar e caiu de joelhos, momentaneamente ensurdecida pela sua própria respiração ofegante e pelo bater do seu coração.

Mas quando a sua respiração desacelerou, ela ouviu outro som. Era trânsito distante. Ela olhou à sua volta e viu faróis movendo-se a uma certa distância.

¡Tonta! Pensou.

No seu pânico, tinha corrido em direção ao deserto em vez de em direção à autoestrada. Voltou-se. As luzes do motel estavam muito atrás dela. Ela não viu ninguém entre ela e o motel. Não a tinha seguido?

Estava magoada e já não conseguiu dar nem mais um passo. Estava frio agora e ela estava quase nua, e tremia tanto do frio quanto do medo.

Mas tinha de se manter em movimento. Ela coxeou dolorosamente em direção à autoestrada.

Quando se aproximou da estrada, um carro que se aproximava abrandou. Era um carro grande e luxuoso - o carro de T.R., ela tinha a certeza. O carro parou ao lado dela.

A porta do passageiro abriu-se. Ela viu T.R. no lado do condutor.

“O que é que se passa contigo?” Gritou. Ele estava a segurar na sua blusa. “Esqueceste-te disto. Entra, veste-te. Vou levar-te casa.”

Mas ela não entraria naquele carro por nada deste mundo.Correu na direção da autoestrada. Grandes faróis aproximavam-se dela. Parecia um camião. Ela esperava que fosse um camião.

Socorro correu em direção às luzes, agitando os braços. Pela primeira vez desde que começara a correr, gritou.