Bilionário Desconhecido: Blake
Capítulo 20
— Eu sei. Mamãe ainda sente pesar por ter perdido a melhor amiga —
comentou Blake.
Ficamos sentados juntos em silêncio, confortáveis nos braços um do outro. Não foi constrangedor nem difícil. Na verdade, pela primeira vez desde que eu voltara para Rocky Springs, senti que estava realmente em casa.
Blake
—Está feliz por não ter mais que ser Marcus? — perguntou Harper com curiosidade ao nos sentarmos em um pequeno restaurante mexicano para jantar em Rocky Springs no dia seguinte.
Como prometido, tínhamos visitado o túmulo dos pais dela e o túmulo do meu pai. Harper insistira em comprar as flores para o meu pai, além das flores para os pais dela. Ela dissera que cada flor colhida tinha significado, mas eu só conseguia me lembrar da expressão solene dela enquanto decorava os túmulos com belas flores que provavelmente estariam murchas no dia seguinte. Ainda fazia frio nas montanhas do Colorado à noite. Mas Harper não parecera se importar. Ela fora categórica em colocar cada uma das flores. Tive que admitir que o local de descanso do meu pai nunca parecera tão bonito.
Ao ficarmos parados ao lado de cada túmulo, compartilhamos algumas das melhores lembranças de nossos pais. Algumas das coisas que me vieram à mente sobre meu pai eram coisas em que eu não pensara em anos.
Considerei a pergunta dela por um momento antes de responder: —
Quando éramos crianças, eu queria ser Marcus.
Harper ergueu a cabeça e franziu a testa. — Por quê?
— Ele sempre soube qual seria o próprio futuro e era corajoso. Eu achava que ele não tinha medo de nada. E éramos bem próximos naquela época.
— Não são próximos agora? — perguntou Harper.
— Não sei se alguém consegue ser realmente próximo de Marcus. Ele mudou. Tínhamos a conexão que as pessoas mencionam sobre gêmeos idênticos. Quase conseguíamos sentir as emoções um do outro. Mas, quando ele começou a viajar pelo mundo, nós nos afastamos. — Eu ainda não tinha certeza do que acontecera. — Desde que comecei a ajudá-lo, cobrindo seus desaparecimentos, ficamos mais próximos de novo, mas nunca mais foi a mesma coisa de quando éramos crianças.
— Também nunca mais somos tão inocentes — disse Harper pensativa.
— Algumas vezes, quando ficamos mais velhos, queremos manter mais coisas para nós mesmos. — Quais são os seus segredos? — perguntei a ela, pois realmente queria saber.
Ela deu de ombros. — Algumas coisas não precisam ser ditas jamais.
— Em seguida, ela sorriu. — Pessoalmente, fico feliz por você não ser Marcus e por não querer mais ser ele. Você é maravilhoso do jeito como é.
— Se você acha isso, então também fico feliz por não querer ser Marcus. — Como gêmeos idênticos, talvez meu irmão e eu tivéssemos passados por algumas crises de identidade na juventude, mas tínhamos nos tornado adultos muito distintos.
— Você encontrou o seu lugar, o seu destino — comentou Harper. —
Só demorei um pouco mais que Marcus. Ele sempre soube que cuidaria da empresa do meu pai. Nenhum dos outros estava remotamente interessado em fazer isso.
— Então você finalmente descobriu que tinha o mesmo talento para ciência que Zane? — perguntou Harper ao colocar o guardanapo sobre o prato ao terminar de comer. — Não tão depressa quanto Zane. Ele sempre teve um dom científico, mesmo quando criança.
Ela tomou um gole do vinho antes de comentar: — Algumas vezes, demora um pouco mais para descobrir qual o seu lugar na vida.
Eu sabia muito bem que ela se referia ao próprio despertar tardio de querer fazer algo na vida, em vez de ser apenas a filha de um homem rico.
— Como você, descobrindo que queria preservar prédios históricos enquanto melhora o restante das instalações?
Ela riu, um som genuíno que me deixou com o coração apertado.
Harper era linda quando sorria e sua alegria era quase contagiante. Ela deixara os belos cabelos loiros soltos, mas ainda vestia jeans e um velho
suéter da universidade. A zona de conforto dela parecia ser roupas casuais, o que ficava muito bem nela.
— Eu sempre gostei de prédios velhos — explicou ela. — Quando escolhi fazer arquitetura, foi porque eu sempre fui boa em criar, em visualizar lugares como achei que deveriam ou poderiam ser. A área específica aconteceu completamente por acidente, mas eu a adoro. Não gostaria de fazer nenhuma outra coisa.
— Você é boa — comentei com sinceridade. Eu vira fotos de alguns dos projetos dela. Harper tinha visão e talento incríveis.
— Obrigada — murmurou ela. — Gosto de pensar que deixei uma pequena parte de mim mesma em cada trabalho.
Eu não tinha dúvidas de que ela deixara um pedacinho de sua alma em todos os locais que projetara. Pois isso era parte da personalidade dela. Em tudo o que ela fazia, parecia se dedicar de coração e alma.
Até mesmo a tarefa simples de colocar flores em um túmulo.
Ou comprar propriedades para construir um abrigo para os sem-teto em cidades que precisavam desesperadamente de um.
Eu me lembrava de como quisera ajudar Harper a auxiliar mais pessoas sem-teto. — Eu gostaria muito de estabelecer seu trabalho com os sem-teto como uma instituição de caridade oficial. Tem certeza de que concorda com isso? Conheço muitas pessoas que seriam apoiadoras e fariam doações.
Harper inclinou a cabeça, como se estivesse pensando nas implicações de seu trabalho se tornar uma instituição de caridade oficial. Ela parecera concordar com a ideia antes, mas eu queria ter certeza de que não mudara de ideia antes de começar a preparar a papelada.
— Acho que eu gostaria de ir em frente, caso você ache que ajudará mais pessoas sem um teto sobre a cabeça. No momento, só estou trabalhando em um abrigo temporário, mas é apenas uma parte pequena de uma solução. Precisamos de habitações de longo prazo para essas pessoas, trabalhadores em saúde mental e muito mais recursos do que eu poderia fornecer.
Percebi a paixão na voz dela quando ela começou a falar sobre seu trabalho com pessoas que precisavam de habitação. Ela era incrível. Aquele incidente doze anos antes tinha impactado a vida dela de forma muito significativa. Somente alguém com um coração imenso continuaria a se importar tanto. Harper podia falar sobre como fora mimada na infância,
algo que eu sabia em primeira mão, mas ela fora produto do isolamento do mundo real. Ela crescera para se tornar a mulher mais incrível que eu já conhecera.
— Vou cuidar de tudo — garanti a ela. E eu realmente queria me envolver. Harper começara algo importante e eu queria ajudá-la a fazer isso crescer. Talvez uma instituição de caridade não conseguisse lidar sozinha com o problema dos sem-teto no país, mas certamente conseguiria algum progresso.
Ela assentiu. — O que faremos amanhã?
Para ser sincero, eu tentava não pensar muito no dia de amanhã, o último dia dela comigo em Rocky Springs.
— Não quero que isto termine, Harper. Não em uma sexta-feira. Por que precisa terminar? Posso visitar você em Boston. E você pode ir a Washington. Tenho um jatinho particular à minha disposição. Ainda poderemos nos encontrar. — Eu já sentia uma dor no peito só de pensar em Harper me deixar. Ela balançou a cabeça devagar. — Relacionamentos de longa distância raramente funcionam, Blake. Nós dois sabemos que nosso estilo de vida e nossa personalidade não são adequados para um arranjo casual de longa distância. A última coisa que qualquer relacionamento que eu tivesse com Harper seria era casual. Eu queria complicar tudo, vê-la a cada momento em que estivesse fora do trabalho. E isso não queria dizer uma ver por mês ou a cada poucos meses. Eu queria que ela fosse... minha.
— Não importa. Ainda quero. Ainda quero ver você.
Harper ficou em silêncio ao me encarar por sobre a mesa. Finalmente, ela balançou a cabeça de novo. — Não vai dar certo para mim. Desculpe. A única coisa que poderemos ser é amigos. E não acho que eu consiga ser sua amiga. Eu desejaria... mais. — Então tenha mais. Não é como se eu não estivesse disposto a lhe dar tudo o que deseja.
Jesus! Ela não entendera? Eu esperara minha vida adulta inteira para que ela aparecesse. Nunca houvera outra pessoa para mim além de Harper, e nunca haveria. Se ela partisse de novo, eu ficaria completamente inútil, destruído.
Talvez, antes de reencontrá-la, eu teria conseguido colocar Harper em um compartimento separado e não pensar nela. Porém, isso não daria mais certo.
Eu a encarei, assistindo enquanto ela engolia em seco e evitava olhar diretamente para mim ao dizer: — Não é você o problema, Blake. Sou eu.
Nunca conseguirei dar a você o que merece.
Ela se levantou e começou a vestir o casaco, mal me dando tempo de pagar a conta antes de sair do restaurante.
Eu a segui, furioso por não conseguir entender o que havia de errado, por que não poderíamos fazer com que desse certo. Talvez não fosse a melhor das situações, mas, ao encontrar a pessoa com quem alguém desejava passar o resto da vida, era possível fazer compromissos.
— Harper! — Segurei o braço dela e virei-a para me encarar quando ela correu para o carro. — Podemos resolver isto. Sei que podemos.
— Não podemos — disse ela com teimosia. — Por que não?
— É pessoal, Blake. Mas acredite, o problema sou eu. Você é um cara incrível e, se eu fosse uma mulher normal, faria de tudo para mantê-lo na minha vida.
Os olhos cor de esmeralda brilharam com lágrimas. Meu coração se despedaçou ao vê-la daquele jeito. Alguma coisa a atormentava e eu queria saber exatamente o que era para poder eliminar o problema. — Por que você não é normal?
Não havia absolutamente nada de errado com ela. Para mim, ela era perfeita.
— Não pode só aceitar que nunca teremos nada além do tempo que tivemos nas últimas semanas?
— Não, caralho, não posso — respondi em tom duro. — Não posso aceitar que nunca mais nos veremos. Não posso aceitar que não temos como resolver isto. E com certeza não posso aceitar que você não goste de mim como gosto de você.
A expressão dela ficou distante. — Você precisa. Vou embora e não poderei encontrar você de novo.
— E se você estiver grávida? — perguntei em tom desesperado.
— Não vamos pensar nisso. Você quer mesmo ser pai? — Ora, sim.