Bilionário Desconhecido: Blake
Capítulo 3
Mas eu sabia me cuidar.
Eu não contara muito à minha família sobre o meu envolvimento com a CIA. Eles só sabiam o básico e, quando me davam cobertura durante minhas trocas de identidade com Blake, achavam que era por causa de algo que eu fazia para CIA. Eu não pretendia contar à minha mãe sobre a OPR.
Ela já se preocupava o suficiente com a minha segurança enquanto eu viajava, especialmente depois que descobrira que eu reunia informações para o governo enquanto estava fora.
Eu disse a Blake: — Contarei a todo mundo sobre a troca no jantar com mamãe hoje à noite. Terei que telefonar para Zane. Ele não está na cidade.
— Eu sei — confirmou Blake. — Falarei com Zane, mas você terá que contar para mamãe que vamos trocar de novo.
— Contarei a ela hoje à noite — resmunguei, nada contente em deixar minha mãe preocupada. Ora, ela deveria estar aposentada, sentada na varanda e apenas aproveitando a vida. Mas ela ainda se preocupava mais do que a maioria de nós com a administração do resort.
— Amanhã... você será eu. Partirei bem cedo — relembrei em tom grave. Logo depois, saí da sala.
Eu sabia que dissera a Harper que demoraria um ou dois dias para providenciar as coisas, mas precisava partir tarde da noite ou bem cedo na manhã seguinte. Eu poderia começar a preparar o encontro com a equipe agora mesmo. Se pretendia tirar Danica Lawson de dentro da fogueira, teria que fazer isso antes que ela se queimasse demais.
Harper
Bebi um gole do vinho que Aileen Colter me dera quando entrei na casa dela, sentindo-me constrangida por invadir um jantar em família.
Eu não era família.
Não pertencia àquele lugar.
Para ser sincera, eu nem era amiga próxima dos Colters. Apesar de minha mãe e Aileen terem sido melhores amigas durante a maior parte da vida, eu não conhecia bem aquela família. E não vira nenhum deles desde o funeral dos meus pais. Aileen comparecera, mas seus filhos estavam na faculdade ou fora da área na época.
Eu me lembrava de ter visto Aileen e conversado com ela no enterro dos meus pais, mas não conseguia me lembrar de uma palavra sequer da conversa. Eu estivera muito triste, chocada demais por meu pai e minha mãe terem desaparecido subitamente. Um motorista bêbado sete anos antes acabara com a existência de duas pessoas que eu amara do fundo do coração. Ainda havia momentos em que eu mal conseguia acreditar que eles tinham partido.
Eu encontrara Aileen mais cedo no resort e ela me convidara para o jantar. Naquele momento, eu achara que isso seria preferível a ficar sofrendo sozinha no meu quarto. Porém, quando a única filha de Aileen, Chloe, chegara com o marido, Gabe, eu me sentira... desconfortável. Não era que eu não gostasse de Chloe, só não a conhecia, nem ao marido dela.
Eu supusera que Aileen estaria sozinha. Quando ela me convidara, eu também não soubera que Marcus deveria aparecer.
Não importa. Quaisquer sentimentos que eu tinha medo que ressurgissem quando o visse não existem mais.
Relaxei um pouco ao me lembrar do confronto mais cedo com o Colter mais velho.
Aileen falou com voz genuinamente contente. — É tão bom ver você de novo, Harper. Só lamento que muitas das crianças não estejam aqui.
Zane e Ellie estão fora da cidade. Tate tem que buscar Lara porque ela tem aula hoje à noite, portanto, eles também não poderão vir. — Aileen suspirou. — É muito raro que todos os meus filhos estejam no mesmo lugar ao mesmo tempo. Sorri para ela, inclinando o corpo em direção à cadeira dela enquanto estávamos sentadas à mesa da cozinha com uma taça de vinho. — Não tem problema. Estou me sentindo um pouco intrusa —
admiti. — Eu não sabia que era um jantar em família. — Pelo que Aileen dissera quando eu chegara à cidade, ela fazia um jantar toda semana e os filhos que estivessem por lá participariam do evento.
— Você não é intrusa coisa nenhuma — disse Aileen em tom determinado. — Sua mãe era a minha melhor amiga. Ela gostaria que eu considerasse vocês como família. Eu só queria ter conhecido todos vocês melhor. Você se parece tanto com ela quando jovem.
Engoli em seco, tentando não me emocionar ao me lembrar de que eu tinha os olhos e algumas das feições da minha mãe.
— Éramos todos adultos quando eles faleceram — relembrei. — Eu sei. E vocês foram a escolas diferentes dos meus filhos. Mas foi uma pena que sua mãe e eu não tivéssemos conseguido reunir vocês todos com mais frequência.
Eu não achava que fosse uma tragédia não ter passado muito tempo com as crianças Colter. Todos eles tinham me odiado. Eu não era uma criança muito agradável... nem uma adolescente agradável. Eu fora tão mimada e protegida pelos meus pais que nenhum dos Colters teria gostado de mim. Quando eu era muito jovem, lembrava vagamente de gostar de ter Blake por perto, mas também o atormentei. Talvez fosse o fato de ele ter tolerado tanto de mim quando criança que eu quisera que participasse de todas as festas da minha família.
Então, um dia, ele parara de participar. Não que eu pudesse culpá-lo, mas lembrava-me de sentir tristeza por parar de vê-lo.
Respirei fundo antes de responder: — Provavelmente foi melhor assim.
Eu era um pouco... — Contive rapidamente o xingamento e continuei: —
Eu era uma delinquente.
Aileen riu. — Eu sei. Você era uma criança difícil. Mas ainda é uma pena que os meus filhos e os da minha melhor amiga nunca se conheceram muito bem. Vocês moravam a menos de vinte quilômetros de nós, mas foram para escolas diferentes.
— Uma coisa boa — murmurei.
Chloe estava tirando alguma coisa do forno quando acrescentou: —
Você não pode ter sido tão ruim assim.
Gabe estava em silêncio, sentado na outra extremidade da mesa com uma garrafa de cerveja na mão. Percebi que ele estava escutando, mas não sabia nada sobre a minha família.
— Acredite... eu era muito ruim — confessei em voz alta o suficiente para que Aileen e Chloe conseguissem me ouvir. — Acho que meus pais queriam me proteger, mas essa preocupação acabou me afastando completamente de todos que não tivessem uma vida tão abençoada como nós. Fui para uma escola particular onde todos eram tão privilegiados como eu. Tive que crescer para perceber que sou extremamente sortuda.
Chloe se aproximou e sentou-se ao lado de Gabe ao perguntar: — O
que mudou?
— Quando eu tinha dezoito anos, decidi fugir de casa. Fiquei presa em uma nevasca e passei alguns dias em um abrigo para pessoas sem-teto.
Aprendi muito depressa como as coisas podiam ser ruins e como eu fugira do que tinha por algo idiota.
Aileen abriu a boca para falar, mas parou ao ouvir o som de um homem entrando na casa.
— Mãe? — chamou a voz masculina rouca.
— Aqui! — respondeu Aileen.
Eu estava virada para a entrada da cozinha e levei um susto quando outro par de olhos cinzentos característico dos Colters se voltou quase imediatamente para o meu rosto. — Marcus? — perguntei a Aileen.
Ela balançou a cabeça negativamente. — Blake. — Ela acenou para que o filho se sentasse ao meu lado. — Blake, venha cumprimentar nossa
hóspede. Vocês dois se conhecem.
Era algo estranho para Aileen dizer, pois eu não encontrara Blake desde que ele era criança, mas achei que ela nos considerava como conhecidos.
Meus olhos encontraram os dele e senti-me um pouco inquieta com o olhar intenso fixado em mim enquanto ele dava a volta na mesa, beijava a mãe e sentava-se ao meu lado. Perguntei-me se ele estava furioso por eu ser uma intrusa em uma noite em família. Como ele passava muito tempo em Washington por ser senador, talvez não tivesse tempo suficiente para ficar com a mãe e os irmãos.
— Olá, Harper — disse ele em um tom masculino profundo que lançou um arrepio na minha espinha.
Inclinei o corpo ligeiramente em direção a ele. — Senador —
cumprimentei com um aceno da cabeça.
— Blake — corrigiu ele. — Não usamos formalidades nesta família.
Gabe emitiu um som de desprezo no outro lado da mesa. —
Respeitamos Aileen, mas, de resto, não damos sossego uns aos outros — disse ele com os olhos sorridentes. Chloe deu um tapa de brincadeira no braço dele.
Blake ainda me encarava ao estender a mão. — É um prazer ver você de novo, Harper.
Coloquei a minha mão na dele com um sorriso. — Mentiroso — acusei.
— Transformei sua vida em um inferno quando era criança e você sabe disso. Duvido muito que esteja feliz em me ver. Mas não se preocupe, eu cresci.
Como Blake só me conhecera quando eu era uma criança mimada, duvidei que acreditasse em mim. Minhas lembranças distantes dele eram horríveis, apesar de eu ter sido apenas uma criança.
O olhar de aço dele me observou de cima abaixo e ele finalmente soltou minha mão ao dizer: — Percebi. Você certamente... está bem crescida.
— Estamos todos aqui? — perguntou a voz trovejante de Marcus da entrada da cozinha.
Aileen sorriu. — Só estávamos esperando você — disse ela ao filho mais velho. — Chloe e eu podemos servir o jantar agora.
Chloe se levantou da cadeira. — Mas os homens lavam a louça — disse ela em tom firme, lançando um olhar malicioso a Gabe.
O marido de Chloe deu de ombros. — Não é um problema para mim.
— Nem para mim — concordou Blake, sem afastar o olhar intenso do meu rosto.
— Não acho que algum de nós dirá que não, já que não sabemos cozinhar absolutamente nada — acrescentou Marcus ao dar um beijo na bochecha da mãe quando ela se levantou para colocar o jantar na mesa.
— Eu ajudo — disse eu apressadamente a Aileen, confusa pela forma como meu coração disparara com o escrutínio de Blake.
Olhei para Marcus, que me lançou um olhar de advertência. Eu não sabia ao certo o que ele queria dizer, mas certamente não pretendia contar à família dele por que estava lá. Eu dissera a Aileen apenas que precisava de um tempo de folga e achara que Rocky Springs seria o lugar perfeito. Ela não me questionara sobre eu me hospedar em seu resort. Aileen sabia que tínhamos vendido a casa dos meus pais depois da morte deles, pois não queríamos manter o lar onde eles tinham sido tão felizes.
Fora doloroso demais ficar lá sem eles.
Levantei-me de um salto, grata por poder ficar de costas para Marcus e Blake enquanto ajudava Aileen a preparar a mesa. Era um tanto desconcertante ver os gêmeos juntos.
Não havia dúvidas de que Blake e Marcus eram idênticos. Eles até se vestiam de forma parecida: suéter pesado e calça jeans. A única diferença era que Marcus selecionara um suéter cinza e Blake vestia um suéter azul-marinho. No começo, eu não sabia se conseguiria distingui-los se não fosse pela cor dos suéteres. Mas, à medida que a refeição avançou, percebi que os dois homens eram diferentes, apesar de serem fisicamente idênticos.
Blake trocou insultos com Gabe, deixando óbvio que os dois eram muito próximos. Marcus era quieto, observador, dando respostas diretas às perguntas da mãe e de Chloe.
Passei a maior parte do tempo botando a conversa em dia com Aileen, mas conseguia sentir o olhar frequente de Blake.
Talvez ele ainda não consiga me aguentar por eu ter sido tão odiosa quando criança. Quando terminamos a sobremesa, Blake ainda não falara muito comigo. Ele me ignorara ostensivamente, concentrando a maior parte da atenção em Gabe.
Eu não sabia exatamente por que isso me incomodava, mas era irritante ele nem mesmo tentar iniciar uma conversa por questão de educação. Claro,
eu também não fiz isso, pois estava ocupada demais perguntando a mim mesma por que o perfume masculino dele praticamente me fazia salivar. Ele tinha um cheiro muito gostoso e o calor que irradiava de seu corpo me fez querer chegar ainda mais perto do que a mesa nos forçava a ficar.