Chronica de El-Rei D. Affonso V, Vol. I

Rui de Pina · Capítulo 17 de 84

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Chronica de El-Rei D. Affonso V, Vol. I

Capitulo XIV

 

Apontamentos que publicamente se fizeram contra o testamento d'El-Rei para a

Rainha não dever reger

 

C esta volta que a Rainha fez do proposito e acordo em que ficára com o Infante, começaram outra vez as differenças e debates entre os grandes e povo sobre o regimento.

A Rainha com os de sua parte requeriam para ella toda a governança em solido, assi como no testamento d'El-Rei ficára determinado: os povos geralmente com outros da parte do Infante D. Pedro requeriam o regimento para elle só sem outra ajuda nem companhia, allegando que a Rainha por muitas razões não devia reger; e d'este voto foram Pedro de Serpa, e Vicente Egas, cidadãos e procuradores de Lisboa, homens honrados, bem entendidos, e de grande autoridade. Os quaes altercando sobre estes debates perante El Rei, como quer que era menino, quando um e quando o outro lhe disseram:

«Muito alto e poderoso Principe, Rei nosso Senhor, porque nos parece que acerca de se regerem estes reinos por vós, sois requerido que cumprindo o testamento d'El-Rei vosso padre, que Deus haja, deis inteiramente o regimento á Rainha nossa Senhora vossa madre, nós, como procuradores da vossa cidade de Lisboa, e assi em nome dos outros procuradores que aqui são, nossos irmãos, dizemos que sob reverencia de vossa real pessoa, El-Rei vosso padre não podia fazer tal testamento; nem em tal caso leixar Regedor do reino á sua disposição; porque a nós vosso povo pertence por direito enleger quem por defeito de vossa madura edade nos haja por Vós de defender com as armas e reger por leis com justiça.

E isto não aggrava vossa legitima sobcessão; nem mingúa em vossas lealdades; cá por serdes seu filho maior legitimo, e barão, nós alegremente vos reconhecemos e recebemos por nosso verdadeiro Rei e Senhor; e com ajuda de Deus vos guardaremos aquella lealdade, fé, e amor, que bons, leaes vassalos devem a Senhor; mas quanto a enleger Regedor, até que Vós sejaes em edade para nos por vós regerdes, nós buscaremos e enlegeremos quem em vosso nome nos haja de reger e governar; porque asi como a nós sómente pertence enleger Rei, se a real e legitima sobcessão dos Reis d'estes reinos por algum caso, o que Deus não queira, se destinguisse, e se não guardaria em tal caso o testamento, nem disposição do Rei postumeiro; assi pertence a nós enleger agora Regedor por Vós; e para serdes servido abasta que nós o enlejamos tal, que seja natural, e do vosso real sangue, e não estrangeiro, e em que haja virtudes, saber, e conciencia, e sobre tudo lealdade, a que se não deva poer suspeita. E vossa mui Real Senhoria, guarde-nos nossa justiça e liberdade, como esperamos, no que recebereis muito serviço: e nós vossos vassalos com vossos reinos receberemos mercê, proveito e assessego, que deveis desejar: e assi o pedimos a vós, mui illustres Infantes e magnificos condes; e requeremos a vós, honrados senhores, e leal povo de Portugal, que aqui sois juntos para celebrar estas reaes côrtes, que assi juntamente o peçaes e requeraes que se faça.

No cabo d'esta falla, assi como os corações dos que a ouviram eram desvairados, assi não houve rostos nem consentimentos eguaes; e por isso não cessáram os primeiros debates do Regimento, os quaes, como sómente eram entre a Rainha e o Infante, como disse, alguns por assessego apontavam que ambos fossem exclusos de reger, e enlegessem outros; outros diziam, mas que ambos regessem juntamente n'aquella parte que a cada um bem coubesse; outros tinham que a Rainha sómente tivesse o Regimento; e outros o davam inteiramente ao Infante: e a esta parte se inclinavam mais os povos; e a cada uns para execução de seus votos não falleciam autorizadas razões.