Chronica de El-Rei D. Affonso V, Vol. I
Capitulo LIV
De como se entendeu na redempção do Infante D. Fernando, e do que se seguiu
E porque não pareça que a redempção e soltura do Infante D. Fernando, depois da morte d'El-Rei seu irmão se esqueceu, é de saber, que com todalas mudanças e divisões passadas entre a Rainha e o Infante D. Pedro, sempre d'elles foi muito lembrada e negociada, cuja deliberação foi muitas vezes aos mouros cometida por grande somma de dinheiro ou de captivos, e por outras maneiras. Nas quaes elles não quizeram nunca entender, e se mostravam que entendiam, logo se mudavam em outras sentenças, afirmando-se finalmente que lhes dessem Ceuta segundo fórma do contrato que o Infante D. Anrique e os outros capitães do palanque de Tangere com elles fizeram. Pelo qual a Rainha e o Infante D. Pedro ante de seus desvairos, por se satisfazer ao Infante D. Fernando e cumprir a vontade d'ElRei D. Duarte, que em seu testamento o leixara muito encommendado, determinaram com os do conselho, e houveram por bem, que pospostas amoestações do Papa e conselhos de muitos Principes christãos que o contrariavam, que Ceuta todavia se desse por elle, e sobre isso passaram em nome d'El-Rei as cartas e procurações necessarias, assignadas por ambos, com as quaes foram por embaixadores Martim de Tavora, reposteiro mór d'El-Rei, e o licenceado Gomes Eanes, desembargador na casa do civel.
E em chegando a Arzilla acertou-se que morreu Çalabençala, que fôra senhor de Ceuta ao tempo que se tomou, e a este tempo era alcaide de Tangere e Arzilla, com o qual os ditos embaixadores haviam de tratar. Depois de sua morte ficou seu irmão Muley Buquer portector do filho maior do dito Çalabençala, o qual seu filho tambem por dependencia do mesmo caso do cerco de Tangere era captivo, e fôra dado por arrefens em Portugal.
E querendo os embaixadores entender com elle no negocio, certificando-o da abastança do poder d'El-Rei que para o caso levavam, elle se escusou dizendo:
«Christãos, sabei que Ceuta é tamanha cousa, que em quanto D. Fernando conde de Villa Real, capitão d'ella fôr terceiro para a entregar, nunca crerei que vós trazeis desejo d'alguma certo conclusão, cá por elle não perder tal senhorio com tanta honra como agora em Ceuta tem, bem sei que mostrando que não desobedece a vosso Rei e seus governadores, sempre buscará corados achaques e cautellas para a nunca entregar».
E depois de os embaixadores lhe desfazerem com razões sua opinião e haverem entre si sobre o caso muitas altercações, finalmente se concordaram «que Muley Buquer notificasse a vinda dos embaixadores a Muley Buzaceri, Rei de Fez, em cujo poder o Infante estava, e que se n'este feito desejava boa conclusão, que tornasse o Infante a Arzilla, e como alli fosse, se o conde D. Fernando logo por elle não entregasse Ceuta como era concordado, que então se teriam outros meios com que sem escusa se fizesse». D'esta conclusão foi o mouro contente; sómente disse «que emquanto elle n'isto entendia, elles se viessem a este reino e com El-Rei procurassem que da sua tornada em Africa viesse logo com elles outra pessoa, e com taes provisões a que Ceuta logo se entregasse e tirasse do poder o conde».
Com este apontamento se tornaram os embaixadores, e por acharem a Rainha e o Infante D. Pedro no meio dos móres desvairos sobre o Regimento, sobre-esteve o negocio até sem contenda se dar inteiramente ao Infante como já disse, o qual ouviu logo os ditos embaixadores em conselho, onde foi determinado por algumas causas em que se fundaram, mais de piedade do dito Infante que de honra do reino, que Ceuta sem mais debate se desse por elle.
E por quanto a duvida de Muley Buquer, quando lhe pareceu que o conde D. Fernando, por não perder tal governança retardaria a entrega de Ceuta se houve por razoada, acordaram que a D. Fernando de Castro, Governador da casa do Infante D. Anrique, e a D. Alvaro seu filho, a ambos e a cada um fosse entregue a cidade, e n'ella estivessem para a darem, e receberem por ella o dito Infante, e que a este reino se viesse o conde D. Fernando, a quem se daria por a capitania e governança d'ella sua dina satisfação, e que Martim de Tavora e o licenceado estivessem por negoceadores em Arzilla.
D. Fernando de Castro era homem de nobre sangue, prudente, e de grande conselho, e tinha boa fazenda; e porque houve este encargo por de muita honra para si e sua linhagem, ordenou sua ida para o mar e para a terra, o mais perfeita e honradamente que pôde. Especialmente o moveu a isso com maior cuidado e diligencia levar esperança que o Infante D. Fernando havia de casar com uma de suas filhas, de que estando em Fez lhe enviara sua certidão, consirando que seu conselho e auctoridade lhe podia por isso em sua deliberação muito aproveitar, e D. Fernando para o mais obrigar havendo sua soltura por certa, lhe levava feitos á sua custa todolos corregimentos que para a pessôa, cama e mesa de um tal Princepe eram pertencentes. E assi levava navios sobresalentes para o Infante e o conde, e os moradores de Ceuta n'elles se virem, além d'outros em que para sua segurança levava mil e duzentos homens, entre os quaes iam muitos fidalgos e gentis homens da casa d'El-Rei e dos Infantes, e com tudo prestes, partiu D. Fernando de Lisboa no mez d'Abril de mil e quatrocentos e quarenta e um, com vento de boa viagem. E indo os navios de sua companhia espalhados pelo mar: além do Cabo de São Vicente, acertou-se que uma carraca de Genoa, que andava d'armada, veiu demandar e afferrar o navio em que o dito D. Fernando ia, o qual como quer que logo por razões d'amizade e depois com armas e grande esforço quanto foi possivel se defendesse, finalmente o navio com a mais força da carraca foi entrado e roubado, e D. Fernando acabou n'elle sua vida de uma bombarda, e os genoeses achando-se com tal rica presa, receiosos da emmenda, porque a outra frota já vinha sobr'elles, meteram suas vellas e tomaram o mar por sua salvação. E quando os outros navios da conserva acudiram sobre o navio do capitão e o acharam morto, vendo que a vingança de sua morte já não estava em seu poder, tornaram-se a Tavila, onde em São Francisco enterraram seu corpo, com assaz honra e lagrimas.
D. Alvaro seu filho a que a capitania e negocio do Infante ficava encommendada, sem alguma mais detença se foi d'hi a Ceuta, d'onde escreveu ao Regente o triste caso passado, pedindo-lhe ordenança e provisão para o futuro. E posto que então fosse mancebo, por haver n'elle muita discrição, foi-lhe respondido com abastante commissão para o acabar como D. Fernando seu pae: mas Lazaraque-Martin governador d'El-Rei de Fez, não sómente não deu logar que o Infante fosse tirado de Fez para Arzilla, ou para algum outro poder, como por Muley Buquer lhe fôra já requerido, mas ainda quando depois soube que a vontade d'El-Rei e do Regente era que todavia Ceuta se desse, e que o conde D. Fernando se fosse, para que D. Alvaro de Castro com poderes abastantes era vindo, disse «que era contente se lh'a entregassem primeiro, e que para segurança dos christãos, elle por Mafamede e por sua Lei faria juramento, em que como d'ella fosse apoderado, logo entregaria o Infante D. Fernando, e que esta era segurança assi abastante e segura para os christãos, que com ella não deviam ter d'elle receio nem sospeita alguma»!
Mas porque sua fiança por suas maldades, pouca verdade e tirania, se houve por duvidosa, não foi razão acceitar-se seu meio. E como quer que outros muitos seguros meios e mui razoados lhe fossem apontados, nunca em algum d'elles quiz condescender. E o que de sua contrariedade e contumacia se pôde n'este caso verdadeiramente entender, foi que claramente lhe pesava entregar-se Ceuta aos mouros, e nos modos que sempre teve para se não acabar pareceu mui claro que a causa d'isto era, porque com a necessidade da guerra de Ceuta ocupava assi os sentidos do povo infiel, que lhe não dava lugar acabarem de poder entender e remediar os grandes males de sua tirania. Da qual cousa sendo o Regente certificado, havendo a negociação por escusada, mandou a D. Alvaro e aos embaixadores que se viessem ao reino, como vieram, com fundamento de se consultar algum outro remedio para a deliberação do Infante. A qual como quer que o Infante D. Pedro, segundo suas mostranças e continuas diligencias, pareceu que sobre todalas cousas desejava, nunca porém sobre ella se apontou e requereu meio por evidente que fosse, que podesse vir a effeito.