Chronica de El-Rei D. Affonso V, Vol. I
Capitulo L
De como se apontou e aprovou não ser bem El-Rei se criar em poder da Rainha
E já as côrtes e despachos d'ellas em conclusão para os
procuradores se poderem ir, um João Gonçalvez, procurador da cidade do Porto, com outro seu parceiro se foram á camara de Lisboa, sendo os officiaes d'ella em vereação. E cuidando os da cidade que iam despedir-se d'elles, como era de cortesia e custume, João Gonçalves disse:
«Senhores, a mim e a meu parceiro parece, que vós e todolos outros nossos irmãos e parceiros, que em nome do reino a estas cortes viemos, as daes já por acabadas. E certo muitas cousas, mercês a Deus, se concludiram n'ellas; porque El-Rei nosso Senhor é mui servido, e nós contentes. Porém a principal ficou por requerer e fazer. Sem a qual, todo o que se fez a nosso parecer é nada ou aproveita muito pouco».
Os cidadãos enleados de sua proposição, sabendo que era homem d'autoridade, cessaram de suas praticas em que estavam, e seguraram os rostos e as vontades para o ouvir. O qual proseguindo disse:
«Porque concludindo brevemente meu proposito, digo-vos que por se escusarem muitos danos e grandes inconvenientes que se não escusam, El-Rei não deve ficar em poder da Rainha como está, e alguns apontarei e os outros mais vós por vossa discrição e saber os entendei. Primeiramente a criação d'El-Rei por ser em poder de mulher, é a elle mui danosa, e sempre por isso ficará fraco e feminado. Que para qualquer homem privado é aleijão sobre todos, quanto mais para Rei. E se as comparações não fossem odiosas, e isto não fosse tão claro, por exemplos bem vo-lo poderia provar. Outrosi de sua creação, por tal maneira está mui evidente o perigo
do Infante D. Pedro Regente, e tambem nosso; porque segundo a Senhora Rainha, isto que acordamos sente por sua deshonra e grande quebra de seu estado, como em suas cartas e protestações parece claro, não é duvidar que criaria El-Rei em odio contra o Regente e contra nós, de que ao diante poderia por isso commeter uma grande crueldade, em que não haveria remedio. Porque como naturalmente aquellas cousas que os moços recebem na tenra edade se lhe emprantam no coração e em sua memoria para sempre, esta principalmente se lhe emprantaria muito mais, por lhe ser dita tão a meude, e com tantas lagrimas. Outro dano é a que se deve atalhar o crecimento de despezas desordenadas, a que as rendas do reino não bastáram. Cá umas são necessarias ao Regente para manter seu estado e do reino, e outras cumprem de necessidade a El-Rei e a seu irmão, e outras á Rainha e suas filhas. Com outros inconvenientes que agora são escusados apontarem-se».
Aos cidadãos pareceu bem o motivo de João Gonçalves, e fizeram logo avisar os outros procuradores, que logo á tarde foram hi juntos, onde depois de havidas algumas praticas e altercações sobre o caso, accordaram que El-Rei e seu irmão deviam todavia ficar em poder do Infante D. Pedro. Ao qual d'este accordo logo avisaram, pedindo-lhe que o quizesse assi consultar com os Infantes seus irmãos, com os quaes ordenasse que se cumprisse.
O Regente depois de ouvir dois cidadãos que a elle sobr'isso foram, lhes respondeu:
«Dizei aos cidadãos e procuradores, que lhes rogo muito que cessem d'este movimento, e não me daria persumir-se que eu n'elle cabia por principal, se fôsse devido e necessario; mas eu o digo assi, porque na verdade ei por muito melhor ficar El-Rei meu Senhor e seu irmão em poder de sua madre, que no meu. Assi por satisfazer a sua consolação e contentamento como é razão e está concordado, como tambem por mais minha segurança e descargo, e sua Senhoria moço é, e sujeito como todos a enfermidades e casos mortaes, de que fallecendo, o que nosso Senhor não queira e o defenda, é certo que seria com grande minha tristeza e muita pena, e a mim poderiam dar a culpa de sua morte, e d'hi ávante eu com este cargo tenho tantas cousas em que entender, que a essa não poderia satisfazer como a ella requere e é razão; e que podesse, sabei que queria fugir aos odios dos aios, que eu com tal cargo «Dizei aos cidadãos e procuradores, que lhes rogo muito que cessem d'este movimento, e não me daria persumir-se que eu n'elle cabia por principal, se fôsse devido e necessario; mas eu o digo assi, porque na verdade ei por muito melhor ficar El-Rei meu Senhor e seu irmão em poder de sua madre, que no meu. Assi por satisfazer a sua consolação e contentamento como é razão e está concordado, como tambem por mais minha segurança e descargo, e sua Senhoria moço é, e sujeito como todos a enfermidades e casos mortaes, de que fallecendo, o que nosso Senhor não queira e o defenda, é certo que seria com grande minha tristeza e muita pena, e a mim poderiam dar a culpa de sua morte, e d'hi ávante eu com este cargo tenho tantas cousas em que entender, que a essa não poderia satisfazer como a ella requere e é razão; e que podesse, sabei que queria fugir aos odios dos aios, que eu com tal cargo não posso escusar, especialmente refreando El-Rei e seu irmão em cousas a que sua mocidade os inclinará, em que por ventura mereceram mais emmenda e reprensão que louvor.»
Os cidadãos lhe replicaram:
«Senhor, quem vos bem conhece e vosso justo juizo e grande saber, sem errar vos póde dizer que d'outra maneira o entendeis, do que o fallaes. E por tanto isto que vos propozemos é assi em nós todos tão determinado para se cumprir, como o mais que fizemos. Cá se o passado foi proveitoso, n'isto ha proveito e necessidade; porque não é razão, nem queira Deus que um tão alto Principe como é El-Rei nosso Senhor, e que em tão pequenos dias nos dá de si tantas esperanças de bem entendido e virtuoso, seja assi creado em tanto aleijão, como é a criação em poder de mulheres. Antes pois em vós para isso ha tantas razões, é razão que o crieis e façaes ensinar em letras e reaes costumes, e o leveis ao monte e á caça, e lhe mostreis por vós o exercicio das armas, e por exemplos e doutrina, e merecimentos da cavallaria. E assi as outras cerimonias, manhas, e cousas que ao estado de um tal Principe convém, assi para os tempos publicos, como secretos, e com isto elle é de tão são e perfeito entender, que conhecerá que o servis bem e lealmente. E por isso vos amará e fará aquelle acrecentamento e mercê, que lhe prazendo a Deus merecereis.»
O Regente acalçado n'este caso da necessidade e razão de que se não sabia escusar, disse: «que se fallasse aos Infantes seus irmãos, e o que elles accordassem por melhor, elle o seguiria.» Aos quaes por os procuradores foi logo fallado, e assi aos condes e ás outras pessoas d'estima que eram na côrte. E por todos finalmente foi accordado: «que pospostas todalas cousas e assento passado, El-Rei ficasse em poder do Regente». O que em pessoa lhe foi logo assi notificado. O qual disse:
«Certo não por resistir a vosso conselho e determinação, a que folgarei sempre de obedecer. Mas a mim parece que n'este caso o melhor será que a Senhora Rainha e eu andemos pelo reino juntamente, de que se seguirá que sua Senhoria criará El-Rei meu Senhor seu filho, e eu vê-lo-hei e servirei nas cousas que apontaes, quando fôr necessario. E prazendo a Deus, eu o farei por maneira, e com tanto prazer e contentamento d'ella, que sua Senhoria terá razão de conhecer de mim a verdade de que sempre duvidou, e perderá com isso alguns queixumes e escandalos que sem causa lhe fizeram ter contra mim.»
E louvando todos aquelle parecer, se foram com elle á Rainha, que ainda era em Santo Antonio, á qual pelo Infante D. Pedro e por os outros Infantes foram mui verdadeiramente ditas todalas cousas e razões que no caso havia para o haver de seguir. Mas ella finalmente não quiz, salvo que lhe ficasse a governança da fazenda juntamente com a criação de seus filhos, referindo-se ao accordo das primeiras côrtes. E que se das rendas para serviço d'El-Rei se houvesse alguma cousa despender, que fosse por sua autoridade e mandado. E como quer que pelos Infantes lhe fossem apontados muitos pejos e inconvenientes para assi não poder ser, e lhe pedissem que quizesse haver por bem o que accordáram, a ella não prouve. E os Infantes vendo sua determinação, se despediram d'ella para ainda consultarem se se acharia algum bom meio com que ella ficasse contente.