Chronica de El-Rei D. Affonso V, Vol. I

Rui de Pina · Capítulo 28 de 84

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Chronica de El-Rei D. Affonso V, Vol. I

Capitulo XXIV

 

Do alvoroço que se seguiu contra a Rainha pela execução dos varejos de Lisboa

 

A mais este escandalo contra a Rainha, e para a maior

parte do povo soltamente contrariar seu Regimento, passar uma carta em nome d'El-Rei, porque fazia mercê a Nuno Martins da Silveira, seu aio, dos varejos a que os mercadores de Lisboa eram obrígados de sete annos, cuja publicação e esperança de execução aos ditos mercadores causou tanta tristeza e sentimento, que certificados de suas perdições, se se executassem, se soccorreram á camara da cidade, e com palavras em que moviam todos a piedade para si mesmos, e com muitas razões que pareciam de serviço d'El-Rei e bem do reino, lhe pediram que com a Rainha e com o conselho, ou por outra qualquer maneira a tal mercê impedissem.

A cidade fez sobre isso seu ajuntamento, em que por força entraram mais dos ordenados; e a elle vieram um Bertolameu Gomes, contador, e outro Alvaro Affonso, escrivão da sisa dos pannos, criado de Nuno Martins, em cujo poder era a carta, por serem os solicitadores d'ella; e, sendo lida em publico, foi tanta a defensão e alvoroço em todo o povo, por ser passada por só auctoridade da Rainha sem accordo do Infante D. Pedro, que Alvaro Affonso, com fundamento de lhe fazerem padecer morte mais crua, o fizeram saltar por uma janella, mas, por cair primeiro em um telhado, não morreu; e a Bertolameu Gomes alguns cidadãos seus amigos com grande difficuldade defenderam a vida: cá n'estes, por serem mui ensinados no que pertencia ás rendas d'El-Rei, havia suspeita, que deram azo e conselho, como esta mercê se pedisse.

Os que fizeram este insulto e alvoroço em desacatamento da Rainha, eram quasi todolos do povo com alguns principaes da cidade, e com temor que tinham de a Rainha com rigor de justiça os mandar castigar como porventura mereciam, procuravam e ordenavam assi em secreto, como já em publico, que o Regimento lhe fosse de todo tirado, sobre o qual tinham suas praticas, que

enviavam logo ao Infante D. Pedro, dando-lhe muitas razões e esforço para só tomar o carrego de reger. O qual, como quer que até li sempre mostrasse estranhar com palavras de honestidade aos que lhe em tal caso fallavam, porém a este tempo por ter sabido e visto como a Rainha se declarava ter-lhe desamor e má vontade, d'hi em diante, aos que n'isso o comettiam, já recebia e ouvia mais com rostro de lhe agradecer que o fizessem para vir a effeito, que de lhe pesar.

E porque na cidade havia n'este caso propositos e vontades contrairas, assi naciam d'ellas bandos e rumores que mostravam signaes de rompimentos perigosos, aos quaes nem por provimentos e penas dos officiaes de justiça, nem por pregações que se de industria de bons religiosos para ello fizeram, nunca se pôde atalhar, antes crecia cada vez mais.