Chronica de El-Rei D. Affonso V, Vol. I
Capitulo XLV
Recado da Rainha ao Infante D. Pedro quando de Coimbra vinha para Lisboa ás
côrtes
O Infante D. Pedro partiu de Coimbra para Lisboa, e com elle álem dos de sua casa, João Gomez da Silva, e D. Fernando de Menezes, e Alvaro Gonçalves de Tayde, e D. Fadrique de Castro, e Fernão Coutinho, irmão do marechal, e Gonçalo Vaz Coutinho, meirinho mór, e Pero de Lemos, e João de Tayde, senhor de Pena Cova, e a gente do Bispo de Coimbra, que faziam numero de mil e oitocentos homens de cavallo, e dois mil e seiscentos de pé, da qual cousa a Rainha foi avisada, e sendo certificada que o Infante havia de Torres Vedras ir a Alanquer para comsigo segundo diziam levar logo El-Rei ás côrtes, e receosa de assi ser, pelo desviar de tal proposito enviou a elle Anrique Pereira, que o topou em Alfazeirão, pedindo-lhe «que na maneira em que ia escusasse sua ida onde El-Rei e ella e seus filhos estavam, assi porque pareceria desacatamento, estando elles tão sós, como por a villa não ser capaz de seu aposentamento, e menos bastante para os manter. E que se sua ida assi era necessaria, que se não podia escusar, que quizesse ir muito aforrado.»
Como o Infante isto ouviu disse:
«Anrique Pereira, vossa vinda sobre tal caso fôra bem escusada, e verdadeiramente assi me salteam estes accidentes, que não sei que vos responda, sómente dizei á Senhora Rainha, que me doem muito estas sospeitas, e porém saiba que dos que se mais mostram a seu serviço, se deve mais guardar, pois tão erradamente a aconselham, e mais contra mim que desejo mais de a servir que a nojar. E que não fallo no que cumpre ao estado e serviço d'El-Rei meu Senhor; porque em desejar de o lealmente servir e amar, não darei avantagem a nenhum do mundo.
E com este recado se tornou Anrique Pereira á Rainha.
Seguiu o Infante sua viagem até o Lumiar, onde a petitorio dos da cidade de Lisboa, que ante de sua entrada quizeram fallar primeiro com elle, sobre-esteve alguns dias. Aos quaes com palavras de grande aguardecimento e mercês, tendo respondido, despediu a gente que com elle viera, leixando sómente os seus continos e alguns que para as côrtes vinham ordenados.
Lisboa porque seus accordos eram mui difficeis, e para os particulares não havia perfeita auctoridade, deputou doze cidadãos, a que por consentimento de todos o conselho e deliberação de
todalas cousas de peso, que então occorriam foi comettido. Os quaes juntos sustancialmente accordaram que o Infante fosse logo declarado por Regedor in solido, sem outra ajuda nem companhia, até El-Rei ser em idade de per si o poder reger. E este accordo foi publicado a todo o povo no refeitorio de S. Domingos, onde logo com vozes e signaes de todos foi sem contradição approvado e consentido.
E os cidadãos enviaram logo ao Infante Pero de Serpa, e Martim Çapata, e Ruy Gomez da Grã, e João Carreiro a notificar-lhe o accordo passado, e pedir-lhe que ao outro dia quizesse entrar e ser seu hospede, com fundamento, que primeiro havia de prometter e jurar que logo só sem outra companhia nem ajuda começasse uzar do Regimento inteiramente. O Infante depois de lhes aguardecer sua ida e tenção, lhes disse:
«Amigos, sabei que n'este caso acordastes mais o que quizestes, que o que devieis; porque eu n'elle para o que a mim cumpre tambem não posso fazer se não o que devo, que é d'este cargo não me antremeter assi absolutamente, sem meus irmãos e sobrinhos, e sem os procuradores dos tres Estados que para isso são chamados. Porque do contrairo, a uns será desacatamento, e a outros causaria escandalo. Pelo qual me parece que a trigança para isso não é agora necessaria; mas que deveis sobre-ser até as côrtes que serão logo. E o que n'ellas se accordar e determinar, isso será o que se então deve fazer e cumprir».
«Senhor, disseram elles, essas justificações de que vossa honestidade se acautella, bem era que cessem assi; mas ellas para este caso já são feitas; porque das cidades e villas, que n'elle hão de dar voz, aqui temos por suas cartas seus consentimentos. E para o cumprimento de vossos irmãos, aqui tendes vosso irmão o Infante D. João que o requere assi e ha por bem. E com os outros já fallastes, que o não contradizem. E por tanto Senhor, vos pedimos que não alongueis o que vos tão justa e devidamente offerecemos. Nem deis causa que de vossa escusa se sigam alvoroços e desconcertos de povo, que serão depois impossiveis, ou mui trabalhosos de concertar.»