Chronica de El-Rei D. Affonso V, Vol. I

Rui de Pina · Capítulo 72 de 84

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Chronica de El-Rei D. Affonso V, Vol. I

Capitulo LXVIII

 

Como falleciam os mantimentos á Rainha e ao Priol do Crato

 

E o Priol do Crato não se proveu de tantos mantimentos como lhe eram para tal caso necessarios, enganado nas esperanças do conde de Barcellos, e dos outros fidalgos da Beira, que prometeram tanto que a Rainha fosse em suas terras, que elles em pessoa com gentes e provimentos em abastança, seriam logo com ella, ao que nenhum d'elles quiz nem pôde satisfazer, como quer que para isso fossem da Rainha e do Priol mui afincadamente requeridos, e por este caso os mantimentos recolhidos lhes começaram de fallecer, especialmente carnes e pescados, e para os haver, pela estreita guarda e defesa que para isso havia não tinha já esperança nem remedio. Pelo qual conveiu á Rainha com palavras assaz piedozas pedir ao Infante D. João, que estava em Extremoz, que alevantasse a defesa e lhe leixasse ir mantimentos dos logares de redor. Mas o Infante escusando-se de o fazer lhe respondeu acusando com muita graveza e temperança seu movimento. Em especial de poer sua honra, seu estado, e sua honestidade em poder do Priol e de seus filhos, que não tinham no reino fama de muito honestos, pedindo-lhe em fim que para escusar semelhantes necessidades e outras maiores, se quizesse tornar, do que ella não curou.