Chronica de El-Rei D. Affonso V, Vol. I
Capitulo XVI
Como a Rainha por meio do conde de Barcellos enviou pedir ao Infante D. Pedro
o alvará que lhe tinha dado sobre o casamento d'El-Rei
O conde de Barcellos, como quer que assignou este Regimento, não foi porém d'elle satisfeito, por lhe não ficar n'elle alguma parte; e como homem que para acrecentar por qualquer maneira seu nome e proveito, teve sempre grande cuidado, desejando que todavia o casamento d'El-Rei com sua neta se fizesse, vendo que o alvará que a Rainha tinha dado ao Infante D. Pedro lhe era para isso grande embargo, ordenou por si e por outros de sua tenção que a Rainha com razões obrigatorias com que a moveram, mandasse pedir o alvará ao Infante D. Pedro. A qual como quer que, como virtuosa o refusasse, por não quebrar sua verdade, e mais a determinação d'El Rei D. Duarte seu marido; porém como importunada e induzida lh'o fizeram consentir.
E, porque algum dos outros que eram n'este acordo, não ousou de ir em nome da Rainha ao Infante pedir-lhe o alvará, o conde de Barcellos acceitou o cargo, e foi ao Infante, e lhe disse:
«Senhor, a Senhora Rainha vos manda dizer que sabeis, que vos tem dado um alvará sobre o casamento d'El-Rei nosso Senhor, seu filho com vossa filha; e por quanto este caso é de tamanho peso e importancia, que o não devera passar sem accordo e conselho dos principaes do reino, a que tambem toca; e agora por estes movimentos não é, nem póde n'isso entender, vos roga que lhe mandeis o alvará, e que sobre isso terá a maneira que vir que cumpre, fallando primeiro com nós outros, de quem sabeis que não ha de sahir, salvo cousa que seja vossa honra e acrecentamento.»
O Infante lastimado da embaixada e avisado de sua destruição, d'onde nacia, a que fim vinha, disse:
«O alvará que dizeis, é em meu poder; e eu, se quizesse, justa e honestamente podia denegar á Senhora Rainha a entrega d'elle; porque não sei como o que por El-Rei meu Senhor e irmão me foi outorgado, e por ella depois a mim lembrado, requerido e outorgado, se me póde revogar sem causa; bem creio que em suas virtudes haveria firmeza de cumprir o que promette, e mais em cousa tão justa e tão honesta, se a não movessem d'ella conselheiros pouco fieis, no que lhe fazem pouco serviço; porém, porque não pareça que eu por força quero, nem tomo, o que com razão me devia ser requerido e dado, dae a sua Senhoria seu alvará, e irá roto, e não são a seu poder, em testemunho da quebra de sua verdade, que me quebrou.»
E logo o tirou de um cofre, e o rompeu, e roto o entregou ao conde.