Chronica de El-Rei D. Affonso V, Vol. I
Prologo
C M A M P P
EL-REI D. AFFONSO
D'ESTE NOME O QUINTO
E dos Reis de Portugal o duodecimo, dirigido ao muito alto e muito excellente Principe, El-Rei D. Manuel, seu sobrinho, nosso Senhor, por cujo mandado Ruy de Pina, Cavalleiro de sua casa e seu Chronista Mór e Guarda Mór da Torre do Tombo, nova e primeiramente a compoz
O singular e mais proveitoso conselho, Serenissimo Rei, que
Demetrio Phalereo, philosofo mui sabedor, deu ao grande Tholomeu, Rei do Egypto, para sobre todolos Reis de seu tempo poder ser mais excellente, foi que procurasse de vêr, e ter por mui familiares os livros, principalmente aquelles, em que os virtuosos costumes e claros feitos dos illustres Reis e Principes passados fossem verdadeiramente escriptos: amoestando-o que com vivo cuidado os lesse e ouvisse: nem era sem causa; porque, como mui prudente, sabia que os livros, posto que sejam conselheiros mortos, sempre porém ensinam e dão verdadeiros e sãos conselhos, mui livres e isentos das paixões dos conselheiros vivos, dos quaes muitas vezes por não saberem, e outras por não quererem, e muitas mais por não ousarem, se nega e esconde a clara verdade, que a seus maiores e Senhores pospõem ás proprias inclinações e paixões d'affeição, odio, lisonjaria, interesse ou temor, que são causa da mais certa queda, e principal destruição de reinos e senhorios. E por tanto, muito poderoso senhor, no conhecimento dos bons exemplos e das cousas passadas, de que a Historia é um vivo espelho, e os livros são fieis thesoureiros, se recebe, para não errar, conselho sem paixão, e doutrina sem receio, de que á Humanidade e ao Estado Real principalmente se segue um mui seguro proveito, e por isso a Deus grande e mui assignado serviço.
E posto que das Chronicas e lembranças escriptas das perfeitas bondades e memorandas façanhas dos claros barões não naturaes e estrangeiros, quando as lemos e ouvimos, logo nos movem para aborrecer os vicios, e com uma virtuosa inveja de seus gloriosos exemplos, nos espertam e guiam para o caminho de suas louvadas virtudes e fama; porém, outra differença de vergonha, outra viveza de gloria, outro acendimento d'esforço sentimos logo em nossos corações, quando lendo topamos, e com tento esguardamos nas excellentes virtudes e prosperas empresas de nossos proprios naturaes, e maiormente d'aquelles de que descendemos; porque tanto mais nos acendem e obrigam para os semelharmos e seguirmos, quanto a certa verdade de suas virtuosas obras e grandes feitos é de maior contententamento e mais chegada a nosso fresco conhecimento, com que a não duvidamos.
E por esta tão urgente causa e bem tão universal, e principalmente por honra e gloria de vossos reinos de Portugal, Vossa Mui Real Senhoria, como virtuoso Rei mui piedoso e verdadeiro successor d'elles que é, sabendo que a memoria das reaes virtudes e feitos imperiaes do mui glorioso Rei D. Affonso o quinto, vosso tio e predecessor, cujo irmão legitimo era o mui illustre Infante D. Fernando vosso padre, por negligencia sua ou mingoa d'escriptores não eram já do escuro esquecimento menos gastadas, que sua carne e seu corpo que a terra comia: por mais illustrardes vossa legitima descendencia, e vossa corôa real não ficar sem uma guarnição de pedraria tão preciosa, como é sua clara e louvada memoria: e assi por Vossa Alteza mostrar um santo ensino e maravilhoso exemplo de Rei, encommendou com grande efficacia a mim Ruy de Pina, Cavaleiro de vossa casa, Chronista Mór de vossos reinos e Guarda Mór da Torre do Tombo d'elles, que, quanto á minha deligencia e entendimento fosse possivel, trabalhasse de haver as cousas notaveis de seu tempo, e para sua Chronica mais necessarias, e a compozesse. E como quer, muito poderoso Rei, que a carrega e peso d'esta Obra, por ser tão digna e tão necessaria, e com desejo e cuidado tão virtuoso, como é este vosso, já foi outras vezes posta e encommendada sobre os hombros e forças d'outros chronistas d'estes reinos, que ante mim foram pessoas de singular doutrina e mui sufficientes: e por suas grandes e desesperadas difficuldades e peso incomportavel, elles nem sómente a moveram; porém eu que para vencer e passar com ella caminhos já tão cerrados e de tanta aspereza e escuridão, convertidas já em uma manifesta impossibilidade, por vir ao fim de vosso desejo e esperança, tomei por guia e salvo conduto de tantos temores vosso mandado e o vivo desejo que sobre todos em mim sinto de sempre bem e lealmente servir Vossa Real Senhoria, e inteiramente lhe obedecer: confiando que ao menos, pelo merecimento de minha obediencia, algum tanto serei relevado do erro da ignorancia e temeraria ousadia com que emprendi e acabei esta real e mui verdadeira chronica, cuja sequencia é n'esta maneira.