Chronica de El-Rei D. Affonso V, Vol. I
Capitulo LXIV
De como se a Rainha aconselhou sobre a ida para o Crato, e como emfim
posposto o conselho se partiu
E com quanto a Rainha no cuidado d'estes cuidados temporaes, tinha para este mundo assás que entender; porém porque era Senhora muito devota e de mui religiosa vida, não se partiam de sua alma para o outro outros espirituaes, que a fizeram mandar ao mosteiro de Bemfica da Ordem de S. Domingos, por um Frei João de Moura, seu confessor, padre de grandes dias e doutrina, e assi de mui santa vida, para com elle em confissão consultar esta secreta mudança. E depois d'ella lhe dizer com largas palavras sua determinação, elle lh'a contrariou com outras mais de tanta verdade e prudencia, que pareceu dizer-lh'as como por espirito divino.
E certo assi foi, porque ella em seu desterro, desamparo e desaventuras, que pelo não crêr depois padeceu, sentiu bem que o padre a aconselhava mais que homem, e como de mandado de Deus, e d'isso ella ao diante se acusava muitas vezes.
E como quer que Frei João não pôde em sua presença afrouxar a tenção da Rainha, porém porque ella era de bom siso e mui são proposito, fizeram depois suas palavras no coração d'ella tamanha casa, que assentava já em sua vontade não se partir, pesando-lhe muito da palavra que dera aos filhos do Priol. Os quaes a noite de bespora de todolos Santos que tinham posto, foram com suas gentes acerca de Almeirim, e por não serem sentidos leixaram toda a gente ao Paul da Atella, e elles ambos, cada um com seu escudeiro e seu page, chegaram aos paços já de noite, com cuja chegada e vista a Rainha recebeu muita e descuberta tristeza, e lh'a confessou logo. Do que elles ficaram mui torvados, porque a conheceram já mudada de todo, e sobre isso houveram entre si muitos debates, em que a Rainha finalmente foi dos agravos d'elles vencida, e quiz contra sua vontade satisfazer ao que tinha prometido.
E d'este segredo era em sua casa sómente sabedor Diogo Gonçalves Lobo, seu vedor, que com muita trigança deu aviamento a todo o que cumpria para sua partida.
A Rainha depois de concertar com elles o feito como seria, ás nove horas da noite se tornou com grande assessego e dessimulação a seu estrado, e hi deu boas noites sem algum alvoroço, e ás dez horas se sahiu por uma porta secreta contra a coutada, e com ella a Infante D. Joanna, de mama, e sua ama que a criava, e Diogo Gonçalves, e João Vaz Marreca, seu escrivão da puridade, e Maria Dias sua covilheira, e Briatyz Corelho, donzela Aragoesa. E estas pessoas a acompanharam até o Paul, onde ficara a gente, com que logo seguiram seu caminho, e não muito depressa por lhes não aturarem as bestas em que iam, e ao outro dia ás dez horas chegaram sem decer á Ponte do Sor. E hi comeram e repousaram um pouco. E em anoitecendo foram no Crato, onde o Priol já a estava esperando, e a recebeu com grande alegria, dando-lhe as chaves de todas as fortalezas, com razões de grande humildade e muita obediencia. E ella o agasalhou com palavras e mostranças de grande aguardecimento, e bem conformes a sua necessidade.