Chronica de El-Rei D. Affonso V, Vol. I
Capitulo LVI
Liança do Infante D. Pedro com o Condestabre e Mestre d'Alcantara de Castella,
contra os Infantes d'Aragão, e das ajudas que lhe deu
E para melhor entendimento d'este passo é de saber, que no tempo que El-Rei D. João o segundo reinava em Castella, era Condestabre este D. Alvaro de Luna, homem abastado de saber e malicia, com pouco temor de Deus. O qual se soube assi haver, que em todalas cousas ora redundassem em seu acrecentamento, ora em
destruição e dano d'outros, El-Rei satisfazia sempre a sua vontade. E porque os Infantes filhos d'El-Rei D. Fernando d'Aragão, que então prosperavam em Castella por sua autoridade e valor, contrariavam as execuções de seu desordenado e máo desejo, por elle ter mais soltura para obrar o que queria, assi trabalhou com El-Rei que os desamou grandemente e lançou fóra do reino. E porque o Condestabre depois fez fazer individamente algumas cruezas e desterros contra muitos grandes do reino, e parecia que El-Rei vivia em sua sobjeição, era de todos mui desamado, pelo qual alguns grandes ordenaram e trataram que os Infantes retornassem outra vez como tornaram em Castella, e que o estado e pessoa d'El-Rei se governasse por elles, e o Condestabre fosse como foi fóra da côrte. Outrosi porque o Mestre d'Alcantara D. Goterre por engano tomara a villa d'Alcantara, e por força o Mestrado a D. João Souto Maior seu tio, que era Mestre e feitura dos Infantes, e prendeu n'ella o Infante D. Pedro, irmão dos Infantes. Era pôr isto em grande odio a elles, que com suas forças procuravam em todo sua destruição, os quaes Condestabre e Mestre d'Alcantara, por ambos serem tocados de uma necessidade e temor, ambos entre si e suas terras e gentes tomaram uma liança e remedio para o resistir como o fazíam, e sentindo assi isto o Infante D. Pedro, por enfraquentar o poder dos Infantes, enviou por seus messegeiros secretos offerecer contra elles o favor e ajudas d'estes reinos ao Condestabre e Mestre. O que elles mui alegremente receberam; porque conheceram que o Infante não tanto por aproveitar a elles, como por a mesma sua necessidade se movia a isso. Pelo qual muitas vezes lhe requereram depois ajudas e soccorros contra os Infantes, e elle por accordo e conselho dos principaes d'estes reinos lh'o deu algumas vezes assaz poderosamente, havendo primeiro consentimento e autoridade d'El-Rei de Castella, para sem quebrantamento das pazes que tinham o poder direitamente fazer. Porque com quanto El-Rei era em poder e governança dos Infantes d'Aragão, o Condestabre por suas astucias e maneiras, sempre trazia em sua côrte e camara taes pessoas, que secretamente requeriam a El-Rei todo o que compria por seu favor e amparo. Ao que El-Rei pela grande affeição que lhe tinha, folgava muito de satisfazer, e enviou para isso ao Infante D. Pedro mui autenticas aquellas provisões que sentiu ser necessarias, por cuja virtude o Infante em favor do Mestre d'Alcantara, e contra a tenção do Infante D. Anrique Mestre de Santiago, enviou a Castella por vezes e tempos, muita gente abastecer Magazella e Bemquerença, fortalezas do Mestrado d'Alcantara, e assi tomar a villa de Salanqua, que estava pelo Infante D. Anrique, e por outra vez enviou outrosi muita gente d'estes reinos a Andaluzia, em ajuda e soccorro do Condestabre, e em desfavor e dano do mesmo Infante D. Anrique, e lhe tomaram Carmona com seu grande destroço.
E outra vez a requerimento d'El-Rei D. João, quando cercou os Infantes em Olmedo, lhe enviou o Infante D. Pedro em sua ajuda muita e mui nobre gente d'estes reinos, e por capitão principal seu filho primogenito o Senhor D. Pedro, que depois foi e morreu intitulado Rei d'Aragão.
E segundo a universal opinião dos que n'este caso sãmente entenderam, se creu que segundo os Infantes eram amados em Castella, se não tomaram assi claramente o Infante D. Pedro por contrairo, e não se pozeram em mostranças de o guerrear e destruir, como mostraram, e o Infante não impedira seu poder, que seu valor e prosperidade d'elles não descahira em Castella como descahiu, nem a Rainha D. Lianor sua irmã, enganada de suas promessas e esperanças impossiveis, não acabara sua vida em desterro com tanta necessidade e tristeza, e tão individa a suas bondades e estado, como ao diante se dirá.