Chronica de El-Rei D. Affonso V, Vol. I

Rui de Pina · Capítulo 32 de 84

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Chronica de El-Rei D. Affonso V, Vol. I

Capitulo XXVIII

 

Como o Infante D. Pedro e o Infante D. João sobre estas cousas se tornáram a

vêr, e o que acordáram

 

O Infante D. João a este tempo era doente em Alcochete; e enviou ao Infante D. Pedro que fosse, como foi, ve-lo, e sendo ambos juntos, o Infante D. João lhe disse:

«Senhor irmão, por não estar em disposição de poder ir onde estaveis, vos enviei pedir que chegasseis aqui; assi porque folgo muito de vos vêr, como principalmente por saber parte de vós, e de vossos feitos com a Senhora Rainha, os quaes não devem estar bem nem como á vossa honra cumpre, segundo a soltura e atrevimento que todolos fidalgos tem de fallar contra vós, tirando os de minha casa, e para se isto remedear convem que façaes o que não fizestes, que é nomearde-vos logo por Regedor do reino in solido. E para sosterdes vossa empresa tendes em vossa ajuda mui certos a mim e ao conde d'Ourem que aqui está comigo; e assi a cidade de Lisboa que vo-lo requere; e comvosco serão outros muitos que nos ajudarão n'esta contenda; e então venham os do juramento armados contra vós; e os Infantes d'Aragão entrem a favorecer o partido de sua irmã».

O Infante D. Pedro lhe disse:

«Leixando o mais que me dizeis, a esta derradeira condição por mais sustancial vos responderei primeiro; e digo que já vos disse outras vezes, quão pouco contente sou da Rainha e de seus máos conselheiros, e da dureza de sua condição, com que nunca quiz perder esta seita contra mim; e Deus sabe que cá lhe não fui nunca nem sou em culpa para assi ser; antes lhe tive sempre merecimento, por desejar de a servir como era razão: e o galardão que d'ella houve foi sempre odio e má vontade para mim e minhas cousas; e mais agora, onde na esperança de suas honras e mercês já os fidalgos como dizeis me não olham senão por desprezo, crendo que o que mais fizer contra mim maior parte haverá d'ellas. E por isto e principalmente por minha segurança, certo prazer-me-ha muito ter corregimento; mas porque a esta sazão e tempo, segundo as divisões estão, eu o não poderia fazer sem esperança de muito damno e grande perda d'este reino, o que eu não queria, a mim parece como vos já disse, leixarmos vir o tempo das côrtes; e se n'ellas se acordar que tenha o Regimento, então serei contente de o tomar; e d'outra maneira não».

O Infante D. João disse:

«Certo bem me parece vossa conclusão; mas tenho receio a estes de Lisboa com esta vossa dilação perderem por ventura este fervor que tem para vossa ajuda, e serem depois máos de tomar a nosso preposito».

«Não cureis (respondeu o Infante D. Pedro) cá se Deus vir que é seu serviço, Elle por sua bondade ordenará como se faça; e por isso sede certo, que por nenhuma cousa não emprenderei encargo que seja sem côrtes; mas que sei que a Rainha escreve aos fidalgos que são de sua parte, que venham a ellas poderosos, eu como defensor o quero fazer saber ás cidades e villas do reino; e que sejam prestes para qualquer movimento e novidade que se seguir.»

E com esta tenção que seu irmão aprovou, se despediu d'elle.