Chronica de El-Rei D. Affonso V, Vol. I

Rui de Pina · Capítulo 29 de 84

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Chronica de El-Rei D. Affonso V, Vol. I

Capitulo XXV

 

Ida do conde d'Arrayollos a Lisboa sobre assessego d'ella, e como não aproveitou

 

E a este tempo na cidade Pedro Anes Lobato, homem de grande auctoridade e bom cavalleiro, ao qual, como quer que de grande condição de sangue não fosse, El-Rei D. João por conhecer d'elle ser bom e discreto, e em armas homem esforçado, deu a governança da justiça da casa do civel, e a tinha; e por vêr a união e desacordo na cidade tamanho, a que com sua vara e forças não podia resistir, avisou de todo a Rainha, e por muitas causas lhe enviou pedir trigoso remedio. A qual com esses que com ella eram presentes, teve sobr'isso conselho, onde foi acordado que o conde d'Arrayollos, que estava em uma quinta junto com Loures, por ter cargo da justiça do reino e ser pessoa de valor e autoridade, fosse poer assessego nas cousas da cidade, para o qual foi logo chamado, e fallou com a Rainha o que n'aquelle caso cumpria: e d'ella por ser de boa tenção e sã conciencia, e tambem de si mesmo por ser virtuoso e justo, foi avisado segundo o feito estava, de o tratar e assessegar mui mansa e temperadamente.

Partiu-se logo o conde para Lisboa com a trigança que se requeria, onde chegou á tarde, e para haver melhor informação das cousas, e ter conselho sobre o remedio d'ellas, quizera repousar algum pequeno espaço de tempo sem n'ellas intender; mas ao outro dia por sua ida foi tanto o alvoroço e desacordo na cidade, e com tanta soltura de palavras deshonestas e mostranças de desobediencia, que o conde não sabia que caminho de remedio tomasse; porque os da parte da Rainha favoreceram-se com sua ida, affirmando em seu favor que era para fazer justiça dos alevantadores da união sobre o caso dos varejos, e que contrariavam o Regimento da rainha: e os da parte do Infante D. Pedro e Infante D. João com muitos da cidade, que eram d'outro acordo, tomaram receio de ser por ventura verdade; especialmente porque um Luiz Gonçalves, official na relação, criado de Pedro Anes Lobato, e que ás cousas da Rainha havia grande affeição, affirmou de praça que por a ida do conde á cidade cedo veriam por justiça as gigas da ribeira cheias de pés e mãos de muitos, como de pescado, o que logo se soltou publicamente: e por ser homem d'algum credito e ter officio na casa da justiça, fizeram para isso suas palavras alguma impressão e crença; e pareceu que as não diria sem ter alguma cousa d'isso sentido. Pelo qual alguns principaes cidadãos com verdadeiro temor e occupações fingidas de proverem suas fazendas, se ausentaram da cidade, temendo que em tanto alvoroço não houvesse justo juizo, e que por ventura poderiam receber pena sem culpa.

Mas os do povo posposto todo o medo assi continuavam, e acrecentavam a cada vez mais sua união, e com tanto rumor d'algum fim perigoso, que o conde desesperado de com suas forças, nem da justiça poder assessegar o feito como desejava, havido primeiro sobre isso conselho, tentou de o remedear com prégações, palavras brandas, e de conciencia, que por algum bom e entendido religioso em ajuntamentos publicos se dissessem.

E havido este por melhor e derradeiro remedio, o conde fez chamar um Frei Vasco da Allagoa, da Ordem de S. Domingos, ao qual por ser padre d'auctoridade e de letras, e ter boa audacia para dizer, encommendou que sobre o caso das uniões e desaccordos da cidade, o domingo seguinte prégasse no seu mosteiro, avisando-o primeiro que todo seu fundamento fosse commover o povo a paz e assessego.

E sendo n'aquelle dia por aviamento e rogo do conde juntos no mosteiro quasi todolos da cidade, Frei Vasco começou seu sermão, e por ser servidor da Rainha e ás cousas de seu serviço mais inclinado, esquecido do aviso que lhe fôra dado d'amansar o povo com esperança de bem, tocou o caso e revoltas da cidade com tanta reprensão dos cidadãos e povo d'ella, que com altas exclamações os chamava ingratos e desleaes, trazendo-lhes ás memorias entre outros exemplos, a pena que os cidadãos de Bruges mereceram e houveram pela desobediencia e traição que cometteram contra o duque Filippe.

E estando já todo o povo mui descontente e escandalisado das palavras de Frei Vasco, um barbeiro em meia voz, e com rostro iroso disse contra os que junto com elle estavam:

«E como egual é o nosso caso dos framengos, que quizeram matar seu principe e Senhor?—Nós não somos tredores mas mui leaes, e não havemos de matar nosso Rei e Senhor; mas porque o amamos havemos todos de morrer por elle, quando lhe cumprir: mas certo este frade alguma cousa tem sentida: porque nos põe esta raiva.»

E estas palavras com algum rumor começaram ir de puridade em puridade pelas orelhas de muitos do povo, os quaes assi como as ouviam assi volviam logo os olhos de sanha contra o frade, e com mostranças de tanta indinação, que elle sentindo seu alvoroço, por se não vêr em perigo, desamparou sem conclusão o pulpito, e se acolheu ao mosteiro.

O conde d'Arrayollos foi mui descontente do prégador, por errar em todo a sustancia de seu proposito, e do que era para o tempo necessario. E vendo que para amansar o povo já lhe não ficava remedio para o fazer, e que sua estada d'hi em deante lhe faria abatimento, se partiu da cidade, e foi á Rainha dar-lhe de tudo conta.

E o povo depois de comer não esquecido do escandalo do sermão foram ao mosteiro e disseram ao priol que logo lançasse Frei Vasco fóra d'elle, se não que o derribariam e queimariam. E o priol aconselhado da necessidade do tempo assi o fez; e o prégador se salvou secretamente.