Chronica de El-Rei D. Affonso V, Vol. I

Rui de Pina · Capítulo 75 de 84

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Chronica de El-Rei D. Affonso V, Vol. I

Capitulo LXXI

 

Como El-Rei quiz vêr e viu o capitão na ordenança de guerra em que vinha

 

V - El-Rei a Alemquer, porque Santarem onde estava,

começou de poerse mal de pestenensa; e posto que fosse de tão pequena edade, porém bem inclinado de sua propria natureza, que o provera de mui nobre e mui grande coração, desejou muito de vêr o capitão e sua gente na ordenança de guerra em que vinham, e sentindo-lhe Alvaro Gonçalvez d'Arayde, seu aio, este vivo argulho e desejo, louvou-lh'o muito. E disse que era bem que cumprisse; mas por não errar em seu serviço e estado, indo de proposito vêr uma sua cousa tão pequena, seria bem que como d'acerto fosse á caça, ao campo d'entre a Castanheira e Villa-Nova, e que alli como de recontro veria o capitão e a gente que então havia de passar.

E a outro dia andando alli El-Rei com seus galgos e gaviães, assomou o capitão, e sabendo já que El-Rei o queria vêr, apurou ainda muito mais sua ordenança, e de sua pessoa com seus pages armados se concertou em grande perfeição. Porque n'aquelle auto d'armas, por seu braço e por esperimentadas ardidezas passadas, a elle n'este reino se dava muito louvor; e tanto que foi atravez d'onde o El-Rei olhava, se apartou só da gente, armado sobre uma facanea, e com grande alegria e desenvoltura se lançou fóra d'ella, e a pé foi beijar as mãos a El-Rei, e lhe disse:

«Senhor, assi como eu sou o primeiro que vossa Senhoria vê n'estes habitos, assi prazendo a Deus não serei eu n'elles o segundo, em todo o que cumprir por vosso serviço e por defensão de vossos reinos.»

El-Rei folgou muito de o vêr, e com palavras e contenenças lhe fez mais honra e mór acolhimento do que de sua pouca edade se esperava, e assi se despediu o capitão e seguiu sua viagem até á Amieira, que logo cercou e combateu até que a tomou.

E n'este cerco não aconteceram cousas assignadas para escrever; porém houve algumas cousas d'agoiro, que por sua novidade tocarei brevemente. Porque na hora que ali aconteceram, porque pareciam mui duvidosas, se tomaram d'ellas testemunhos publicos e mui autorizados. Uma foi que em se acabando d'assentar o cerco, desceu á vista de todos tres vezes uma aguia do céo sobre um ninho de cegonha, que sobre as casas do Priol estava, e das duas vezes levou dois cegonhos novos, e da terceira não ficou o pae, que para a perdição do Priol e dos filhos foi triste prognostico. A outra foi que a pedra do primeiro tiro de polvora que com um quartão se fez, deu por um escudo das armas do Priol que estava sobre a porta da villa, e só sem outra quebradura o desapegou das mãos de dois anjos que o tinham e o levou ao chão em pedaços. A outra foi que o segundo tiro que se fez matou um homem, sobre cujo corpo estando já na egreja para se soterrar, deu outra vez o terceiro tiro, e em um escano em que jazia o tornou a espedaçar.