Chronica de El-Rei D. Affonso V, Vol. I
Capitulo XL
Partida do Arcebispo D. Pedro fóra do reino
D. Pedro, Arcebispo de Lisboa, era na Alhandra anojado pela privação dos cubellos da cidade, como já disse; onde fallando com um Affonso Martins, ourives, que da cidade sobre cousas de suas rendas fôra com elle negociar, tocou os accordos e movimentos da cidade com palavras de doesto dos cidadãos e povos d'ella; ameaçando-os com cerco poderoso de gentes estrangeiras, e com outros muitos males e deshonras, de que os em pessoa d'aquello logo certificava, e que não tardariam muito, congeiturando de sua confiança e favorecendo sua ameaça em alguns do reino e em outros muitos de fóra d'elle, que eram os infantes d'Aragão e sua valía. A qual cousa o ourives respondeu bem e avisadamente, esforçando se em lhe não parecer direito de sua verdadeira vontade; porque d'elle não era de crêr cousa que tanto contrariava a seu sangue e habito, e na bemfeitoria e mercê que d'El-Rei D. João e de seus reinos tinha recebido.
Com o sentimento e juizo que o ourives tomou da tenção do Arcebispo, se tornou á cidade, onde o logo fez saber na camara d'ella. E por isso, e por se provar em uma inquirição que se contra o Arcebispo tirou, que brasfemara do Senhor que o fizera, a cidade com sua cleresia appellaram d'elle e o suspenderam de suas rendas e dinidade; e se enviaram queixar d'elle á Sé Apostolica por um João Lourenço Farinha, cidadão e pessoa de saber e auctoridade, com supplicatorias em nome d'El-Rei e dos Infantes. Pelo qual o Arcebispo se quizera colher a Obidos, e os da villa com sua suspeita o não quizeram n'ella receber.
E elle vendo que os feitos se inclinavam já contrairos de seu proposito e desejo, se partiu para Castella, d'onde depois foi retornado como se dirá.
A Rainha sendo já certificada da determinação em que o povo estava de lhe tirar o Regimento e da-lo ao Infante, sendo assi aconselhada por aquelles que a serviam, escreveu aos fidalgos que sostinham sua parte que não viessem ás côrtes, e se escusassem como melhor vissem; e enviassem a ella procurações abastantes com suas protestações de não outorgarem nem obedecerem em cousa que se n'ellas accordasse. E elles assi o fizeram, os quaes eram o Arcebispo de Braga, o Priol do Crato, o marechal D. Duarte, senhor de Bragança, D. Duarte de Menezes, Fernão Coutinho, Gonçallo Pereira de Riba-Vizella, Alvaro Pirez de Tavora, Diogo Soarez d'Albergaria, Fernão Soarez, Ruy Vaz Pereira, Luiz Alvares de Sousa, Pero Gomes d'Abreu, Lyonel de Lima, Gomes Freire, Lopo Vaz de Castel-Branco, Martim Affonso de Mello, Diogo Lopes Lobo, Fernão de Sá, João de Gouvêa, D. Sancho de Noronha, e alguns filhos d'estes, e outras algumas pessoas d'outra condição.
Mas como quer que estes não viessem ás côrtes, posto que fossem tão grandes pessoas, ellas não se leixaram de fazer, nem elles recusaram obedecer inteiramente ás determinações d'ellas. Que por aquelle tempo, ainda que os fidalgos muito valessem, não era seu valor para contrariar a vontade dos filhos e netos d'El-Rei D. João, com que o reino e todalas cousas d'elle, por amor e razão logo pendiam.