Chronica de El-Rei D. Affonso V, Vol. I
Capitulo LIII
Como a Rainha sobre suas cousas se querellou aos Infantes d'Aragão seus
irmãos, e da embaixada que enviaram
A Rainha como dos effeitos da esperança que tinha, e lhe davam para reger, começou de se vêr no reino enganada, dobrou-se n'ella o desejo de seu proposito. E por um modo já de victoria e vingança, assi no reino como fóra d'elle, para cobrar o Regimento dobrou suas forças e deligencias, para o qual enviou notificar e se queixar aos Infantes d'Aragão e á Rainha de Castella seus irmãos, como por força lhe tiravam o Regimento, e a titoria de seus filhos. E assi o aggravo e abatimento que n'isso recebia, fazendo-os participantes na injuria do caso pelos mais obrigar e acender para o que desejava, crendo ella que por serem já retornados em Castella, logo teriam o poder onde tivessem a vontade, e que com seu receio em Portugal se não faria a cousa em que elles recebessem descontentamento.
Mas os Infantes seus irmãos sabendo a pouca firmeza e segurança que tinham em Castella, e que lhe não cumpria fazer por então novas alterações contra si, tomaram a parte mais branda, e enviaram aos Infantes d'estes reinos com sua embaixada um D. Affonso Anrique, bisneto d'El-Rei D. Anrique, que da sua parte com palavras honestas lhes rogou em sustancia «que sobre a determinação das primeiras côrtes não fizessem com a Rainha sua irmã alguma outra enovação.» Ao qual os Infantes responderam «que á Rainha não era feita injuria nem desserviço, nem lhe tiravam senão cuidados e trabalhos, a que suas forças por ser mulher não abastavam, e cargos de conciencia, o que ella devia querer; porque o Regimento do reino a ella de razão e direito não pertencia. E a quem direitamente convinha e o saberia e poderia fazer o tinham dado.»
Com esta resposta se houve D. Affonso por despachado, e se foi a Cintra por vêr a Rainha. E posto que fosse homem de grande linhagem, não havia porém n'elle aquelle tento, discrição e prudencia, que a pessoa de tal cargo pertencia. Porque em lugar de
poer a vontade da Rainha em bom assessego e temperar suas
paixões, acendeu-lh'as muito mais com esperanças vãs, que lhe deu de ser por força, e com ajuda de seus irmãos restetuida e vingada. Offerecendo-se para o caso com gentes de cavallo e de pé, como principal capitão do reino, e para logo a vir servir não tomou largo prazo. E com estes enganos em que a Rainha levava gloria, tirou d'ella prata dinheiro, e tornou-se para Castella onde deu resposta aos Infantes. Os quaes, porque suas cousas não estavam em desejada segurança para fazer movimentos, ao menos por não parecer que desamparavam de todo os feitos da Rainha sua irmã, tornaram a enviar ao Infante D. Pedro e aos Infantes seus irmãos um Daião de Segovia, pedindo-lhe com palavras mansas e honestas que guardasem á Rainha o acatamento e reverencia que ella merecia, e lhe tivessem aquelle amor que deviam. De que os Infantes foram mui contentes depois em todo ao cumprir, para o qual encommendaram ao Daião que fosse fallar com ella para que quizesse repousar a vontade, e não dar causa a boliços, de que tanto mal se podia seguir; porque com isso ella seria servida e acatada, como se El-Rei seu marido fosse vivo.
O Daião lhe foi fallar e a aconselhou, dizendo-lhe «que por quanto os feitos de seus irmãos não estavam em Castella n'aquelle assessego que convinha para n'elles de certo remedio ter firme esperança, que em tanto temperasse e dessimulasse cá a seus negocios o melhor que podesse; porque concertados os dos Infantes em Castella, em Portugal se faria dos seus o que ella desejava.»